"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 29 de novembro de 2008

A QUEDA

Uma das histórias mais deliciosamente engraçadas que meus pais contavam quando, na ilha (morei numa ilha), a família se reunia em volta do grande lampião de mesa – não havia energia elétrica, conseqüentemente não havia tevê – era a da queda que os dois levaram de lambreta, em 1955 ou 1956, talvez antes.
Não foi propriamente uma queda – e nesse ponto da história os dois riam muito. Um veículo mais afoito os sapecou da estrada, e eles – pai, mãe e lambreta – foram deslizando por uma ribanceira de capim, como duas crianças felizes, até que pararam lá embaixo, numa espécie de charco meio seco. Resultado: nem um arranhão sequer, só o susto e o brinquedo, a sensação de volta à infância num parque, menino e menina nos primeiros contatos para um contato maior, depois, na cama e na vida.
Tais instantes preliminares são urgentes e fundamentais, como os preparativos duma primeira viagem ou da última... Sem eles, a vida se resume a um acúmulo de experiências destituídas de peso, como barriguda ao vento.
Felizes aqueles que deslizam pela primeira ribanceira da vida e seguem ilesos, formados, famintos de desejo.
Ilustração: detalhe do cartaz do filme A princesa e o plebeu, de William Wyler.

3 comentários:

Wanessa Guimarães disse...

Olá queriro Myrant... passando por aqui, lendo bastante e querendo também cair sem me arranhar para rir e viver... Abraços

Anônimo disse...

E transcedência. T

Silvestre Gavinha disse...

Ah, os momentos em que a vida nos faz cócegas e como puros seres, brincamos no Paraíso antecipando a queda.
Momentos que valer a mordida da maçã e a continuação da fome.
Que linda história e a imagem dela contada na luz do lampião morando numa ilha, é ainda melhor que a da Bonequinha estreando em A Princesa e o Plebeu.
Marie