"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

NATAL HOJE

Presépio e biblioteca.
O QUE FIZERAM DO NATAL

Natal.
O sino longe toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987). Em Alguma poesia (1930).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

VÁ E VEJA, 23: JANE AUSTEN

Os personagens Darcy e Lizzi, de "Orgulho e preconceito".
Quatro romances de Jane Austen adaptados para a tevê pela BBC. Quantro obras-primas da literatura em adaptações primorosas em todos os aspectos: roteiro, locações, figurino, direção, atores. São: Emma, Persuasão, Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito, a mais famosa de todas as histórias da autora. Compõem a caixa O melhor de Jane Austen, com oito DVDs, em 773' de trama e 158' de material extra. Lançada no Brasil pela Logon em 2011, infelizmente encontra-se esgotada. A caixa em catálogo, atualmente, traz apenas três histórias: não se sabe por que motivo Persuasão, com desempenho primoroso de Sally Hawkins no papel principal, foi excluída.

Se o espectador não leu os livros, vai se encantar com a descoberta dessas histórias que deram fama à sua autora e são reeditadas, ano após ano, em muitos países e diversos idiomas. Se já leu, vai apreciar "revê-los". Muito do texto de Austen está preservado, especialmente nos espirituosos diálogos, plenos de ironia, e nas ambientações, interiores e exteriores, laconicamente descritas e que as adaptações recriam como se estivessem fazendo aparecer, diante dos nossos olhos, o que a autora pintou com palavras tão fluidas. 

E não há como não se apaixonar por suas heroínas: a carismática Anne Elliot, inteligente, sensível e bondosa, a quem todos dedicam atenção por este ou aquele motivo, mas que precisa e muito lutar para alcançar a plenitude de seus sentimentos; a casamenteira Emma Woodhouse, de temperamento pimenta e já uma feminista convicta, muito embora não o seja nem por pose nem por conveniência, o que é, sem dúvida, uma prova de sabedoria; as irmãs Elinor e Marianne, empobrecidas pela morte do pai e que, diante de um futuro orientado pelas convenções sociais, obrigam-se a opor razão e sensibilidade; e, por fim, a romântica e obstinada Lizzy Bennet, que não admite casar sem amor, por mais rico que seja o pretendente, e vê desfilar diante de si o embate das classes sociais, acirrado pelo desprezo recíproco de nobres e emergentes.

Obviamente que estas adaptações para a tevê de quatro dos melhores romances de Jane Austen não os substituem. Ler é imprescindível, qualquer que seja o ângulo de análise e o argumento que se utilize para apreciá-los ou não. A leitura é sempre uma impressão do autor filtrada pela sensibilidade e experiência de quem lê, e isso é insubstituível. No entanto, é um deleite para o espírito e os olhos assistir a estas aventuras que, verbalizadas literariamente por Jane Austen, transformaram-se em vida através das grandiosas imagens destas adaptações. Saímos renovados de cada uma destas histórias, e mais cientes de quem somos e de como funciona o mundo. E como são belas e verdadeiras! Como pulsam de otimismo e humanidade!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NO REINO DAS PEQUENAS COISAS

Clique sobre o convite para ampliá-lo.
Denise Gomes-Dias alia ao seu estilo analítico seu pendor para a poesia e a valorização das surpresas que o cotidiano nos oferece e que, não raro, costumamos desprezar. Neste sentido, suas crônicas tanto nos chamam a evocar a partida inesperada de um cão amigo para o plano do insondável quanto nos alertam para que compreendamos, de antemão, a efemeridade deste mundo, que constitui uma simples passagem, uma experiência. Que nos encontremos n'O reino das pequenas coisas, no próximo 22 de dezembro, e comemoremos com a autora mais este passo importante na aventura surpreendente que é a vida!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

LEITURAS, 49: THOMAS, O IMPOSTOR

Ilustração da capa: Enio Squeff.
No ano do centenário do início da Segunda Guerra Mundial (1914-1918), é lamentável que nenhuma editora brasileira tenha se incumbido de reeditar a novelinha Thomas, o impostor, de Jean Cocteau, publicada em 1923 na França e traduzida no Brasil em 1987, pela Rio Gráfica, na sua saudosa coleção Grandes Sucessos da Literatura Internacional. Poética, dinâmica e irreverente, é considerada uma das obras capitais deste multifacetado artista francês, que foi poeta, romancista, dramaturgo, cineasta, desenhista, pintor etc.

A narrativa concentra-se na figura do fanfarrão Thomas Guillaume, que se faz passar pelo sobrinho do grande general Fontenoy e, com isso, abre portas para si e muitas outras pessoas, tornando-se herói da Segunda Grande Guerra. Na trama, ele transita por muitos lugares, ganha a confiança de uma aristocrata, a senhora de Bormes, conquista o coração desta e de sua filha, Henriette, e faz da Belle Époque o seu palco. A Europa arde em guerra, mas Thomas arde de vida, como se ainda fosse criança e estivesse, em mais uma brincadeira, entre seus companheiros traquinas.

O estilo de Cocteau, de fraseado sintético e repleto de análises daquele mundo que a Guerra sepultou para sempre, seduz o leitor desde as primeiras páginas e o faz esquecer que está diante de um relato de caráter bélico. Acompanhamos as aventuras de Thomas como se este fosse, no fundo e na forma, um inconcebível Quixote do front, presente nas páginas apenas para nos fazer sorrir.

Com tal estratégia, Cocteau termina por nos sugerir, metaforicamente, que a guerra, e em especial aquela, não passa de um capricho, uma aberração que homens supostamente importantes, em seus gabinetes, decidem criar para a ascensão de si mesmos e de suas carreiras, a despeito do infortúnio dos países e das pessoas que representam. A ironia é que, sem esforço nem vontade, nem tampouco qualquer treinamento militar ou intento diplomático, Thomas se torna uma legenda maior que a dos "grandes homens" que fizeram eclodir a guerra. Sua experiência é, como a de todos os combatentes, universal: "A última cortina se levanta. A criança e a fantasia se confundem. Finalmente Guillaume conhece o amor". O front e o amor guardam os mesmos sentimentos. E esperanças.

Ainda teremos quatro anos de "celebrações" ao centenário da Segunda Guerra Mundial. Até o fim deste período talvez alguma editora brasileira decida reeditar esta empolgante obra de Jean Cocteau, uma das primeiras reflexões literárias sobre "a mais cruel das guerras".