"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

HERANÇA

Minha mãe sempre dizia que era para eu ter nascido catorze anos antes. Em 1948, portanto. Bem no pós-Guerra. Mas qual seria a diferença, se assim fosse? Acho que nenhuma. Eu seria hoje mais velho, mais experiente e, sem dúvida, mais amargo. Mas talvez nem tivesse me tornado escritor, talvez nem gostasse das palavras, dos livros. Preferisse carros, pôquer, corridas de cavalo, jardinagem. Sou filho de um contexto, dono de uma herança: gasto o que me formou, o que os dias me deram. Esses dias, iniciados em 1962 e que alguma coisa, num momento qualquer deste ou dos próximos anos, haverá de interromper.

Foto: minha mãe, em 1961 ou depois (a data está na placa da lambreta).

3 comentários:

Personagem Principal disse...

É exatamente isso: somos filhos de um contexto. Vejo o pensamento de meus pais, o ambiente em que vivi e acabo por concordar com o sogro de uma amiga minha, qdo ele diz que "de laranjeira não sai banana, não".
Um abraço.

Anônimo disse...

Tenho como herança um sótão de lembranças. Do que fui e nunca serei. Aquele abraço. T

Carlos Barbosa disse...

Nossa vida, tudo que temos. E o tempo, meio ácido que habitamos. Por isso a urgência da escrita. Abr. (carlos)