"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 21 de abril de 2017

FALTA D'ÁGUA? UÉ!

Água, elemento constante na pintura de Eric Zener.
Quem é o responsável pelo racionamento e pela falta d'água em vários bairros de Salvador e região metropolitana?
O prefeitinho Neto, que só pensa em festa e em encher os cofres da prefeitura para promover mais festas?
O governador Costa (não é incomum que pensemos noutra coisa...), cujo partido usa o dinheiro público para financiar campanhas de reeleição e... Bem, já sabemos. Não é necessário repetir.
O certo é que pagamos impostos altíssimos, um IPTU ofensivo, e ficamos sem água...
O certo é que mais festa não melhora a vida da população...
Água é primordial, bem como educação, saúde, arte, leitura, segurança, higiene.
E em tudo isso Salvador e o resto da Bahia seguem bem pobres. 
A educação é o que a gente conhece: o povo pegando calculadora para somar 9+13, 7+5...
Atendimento precário em muitos hospitais, inclusive particulares, sem falar das inúmeras doenças epidêmicas que o Estado não consegue erradicar. Por que será?
Ruas, se não bairros inteiros, entregues aos ladrões e traficantes.
A arte restrita a sua modalidade popular mais rasteira, mais chão que o chão, e que nada transforma e a ninguém sensibiliza.
A Bienal de Livros da Bahia extinta, com, provavelmente, o dinheiro canalizado para os bolsos ou os quadris.
Ruas sujas, imundas mesmo, especialmente no Centro de Salvador, com a multiplicação diária de camelôs e vendedores de frutas na área que compreende o triângulo da Praça da Piedade, Relógio de São Pedro e Av. Joana Angélica.
Mas, pensando bem, sabe que é bem-feito?!
Afinal de contas, só há três coisas importantes na Bahia, e a mídia, pobre mídia de iletrados a serviço da manipulação de ignaros, tão bem propaga, dia a dia, mês a mês, ano a ano:
CARNAVAL, BAHIA & VITÓRIA!
Garantindo essas três coisas imprescindíveis, o povo vai bem, manso e satisfeito. Cabisbaixo como um boi, mordendo com alegria o capim.
Lata d'água na cabeça, minha gente! Amanhã ou depois tem jogo do Bahia ou do Vitória; e o Carnaval está logo ali, o prefeitinho e o "boboca" do governador já o estão elaborando, bem como todas as festas prévias, falte água ou não.
Estou com raiva (como sempre, quando o assunto é o governo, o único inimigo do indivíduo), mais minha alma ri baixinho, tamanha a ironia.

quinta-feira, 9 de março de 2017

SÁBADO, ARRESTO & SARAMBOKE


Bernardo Almeida e Elizeu Moreira Paranaguá lançam seus novos livros: Arresto e Saramboke. Sábado próximo, na lendária Cantina da Lua, a partir das 15:30. As obras saem pela editora Penalux, sediada em Guaratinguetá, SP.  A falta de editor de literatura na Bahia leva a isso.

Tudo bem, por aqui há coisas bem mais importantes que Literatura: Carnaval, Bahia, Vitória, o manequim de Ivete Sangalo, quanto calça Daniela Mercury, qual foi a melhor música-sem-letra-só-refrão do último calvário de dez dias promovido pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de Salvador...

"Para que ler? Serve para quê, mesmo? Livro, o que é livro? É a Bíblia? Um monte de papel pintado com tinta..."

Bem, nunca é tarde para se começar a ler, bom livro é o que não falta. Sábado, teremos Arresto e Saramboke.

terça-feira, 7 de março de 2017

VÁ E VEJA, 26: Marius & Fanny

"Fanny", de Marc Allegret, 1932.
No caso de alguém supor que é um único filme, esclareço que são dois; na verdade, três: César completa a chamada Trilogia de Marselha, baseada em peças do importante escritor francês Marcel Pagnol (1895-1974), que assina os roteiros. Os dois primeiros, já lançados no Brasil pela Colecione Clássicos, foram dirigidos, respectivamente, por Alex Korda e Marc Allegret. Inclusive, os fãs já têm a conclusão da trilogia, com o lançamento de César, também à venda no site.

Datados do início do cinema sonoro, 1931 e 1932, estes dois filmes surpreendem pela qualidade praticamente em todos os aspectos. Roteiro e direção excelentes, personagens vivos e humanos, magnificamente interpretados pelos atores, cenário preciso, fotografia limpa, alcance atemporal de motivos, com assuntos ainda atuais e debatidos de forma clara e proveitosa.

Cada filme recai sobre um dos personagens principais da trilogia. Marius é filho de César, dono de um bar, e tem uma leve atração por Fanny, filha da dona da peixaria do cais. Em Marius, o personagem se divide entre o amor por Fanny e a atração insuportável por viajar, a bordo de algum navio. Quando surge a oportunidade, ele tem que escolher entre Fanny e o mar. Em Fanny, a garota segue seu martírio, amando Marius e tendo que se desvencilhar ou aceitar outras propostas de casamento. César, centrado no pai de Marius, espécie de conciliador sentimental e cabeça pensante do cais, completa a trilogia e, provavelmente, ajusta as peças da trama ao fluxo da vida.

Cheios de humor e vida, Marius e Fanny são dois filmes imperdíveis para todos os cinéfilos que não se limitam a ingerir os enlatados hollywoodianos, em nada diferentes dos livros de estação, que, tão logo lidos (ou vistos), são esquecidos. Clássicos irretocáveis do cinema francês, Marius e Fanny reverberam e ecoam por dias em nossa percepção. São o que se espera de qualquer arte: que nos alimente e transforme, que nos encante e revigore, que destrua ou refine as nossas convicções.

quinta-feira, 2 de março de 2017

50 ANOS!

Andréia Gallo (1967-2015), com Julinha.
Hoje, dois de março, se viva, Andréia Gallo completaria 50 anos! Talvez a pessoa mais inteligente que conheci, ela era, no entanto, e sem nenhum paradoxo, generosa e muito discreta. Uma alma boa, delicada, que por 24 anos ininterruptos dividiu-se comigo e, sem nem mesmo uma única palavra ríspida ao longo de todo esse período, me ensinou que a grandeza está em ser pouco ou mesmo nada, em ser contido e moderado, se não anônimo. Ela viveu assim, e assim partiu. Jovem, e creio que irrealizada, mas ainda assim completa. Sábia.

Ela amava as estrelas, os planetas, as galáxias. À noite, com frequência, buscava no céu estes seres perdidos para os quais nós, indivíduos comuns, viramos as costas com desdém. Não raro, ao acordar, me dizia que sonhara que estava voando. Ano passado, li num livro que sonhar que se está voando é mau presságio, sinal de morte, de um trágico fim para a pessoa que sonha ou para um ente querido, bem próximo. E não foram poucas as vezes em que Andréia me contou sonhos de profundos mergulhos no céu. Mergulhos que ela lamentava não ser de verdade, impulsionada que se sentia pelas asas vorazes de seus sonhos.

Onde estará ela agora? No céu? Talvez. Ou, melhor dizendo, seguramente no céu. Mas não neste céu banal e enganoso em que os religiosos depositam todas as suas fichas. No céu propriamente. Físico. O céu com o qual ela tanto sonhara. O céu de mistérios, luzes, cores, abismos e, por certo, seres melhores do que nós. Num de seus versos preferidos, de autoria de Murilo Mendes, o poeta diz: "Quase que só há estrelas". Mais nada, coisa alguma, pois tudo o mais é êfemero e pouco reverbera. Os astros e as estrelas não. Estão lá! Brilham, voam e a ninguém incomodam. Por isso mesmo se projetam para além de si mesmos e de todos nós.

Sim, quase que só há estrelas. E nada mais.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

LEITURAS, 52: MATADOURO N. 5

Artenova, 1972. 1a. edição brasileira. Rara.
A gente lê um livro, gosta ou gosta muito e depois o esquece. Décadas mais tarde, passeando pela estante, olhamos aquela leitura antiga e nos perguntamos se ainda vale a pena. Abrimos o volume, velho, empoeirado, surrado, talvez a primeira edição brasileira, o autor ainda colocava ao fim do nome a abreviatura de júnior, que foi abandonada com o passar dos anos, e lemos a primeira página, o primeiro capítulo, e logo estamos pelo meio, mais fascinados do que da primeira vez. Ou seja, o livro melhorou com o tempo, e nós aguçamos nosso olhar, alcançamos novos aspectos, atentamos para a ironia, a forma, os devaneios estruturais. Matadouro n. 5 (Artenova, 1972) é ainda, e sempre será, uma obra incomum e deliciosa. Literatura de verdade. E diversão, riso, prazer. Esqueçam estes livros de estação, "garota disso, garota daquilo", que muito prometem, mas pouco oferecem, e se deleitem. Vonnegut é cortante, com reflexões assim: "Como tantos americanos, estava procurando construir uma vida que tivesse sentido com objetos que encontrava em lojas de presentes". Ou então: "Estava tão confortável lá dentro que pôde fingir estar a salvo em casa, tendo sobrevivido à guerra, e que estava contando a seus pais e à sua irmã uma história verdadeira da guerra, ao passo que a história verdadeira de guerra ainda estava se desenrolando". O autor já morreu, não dá mais para conversar com ele, nem pegar autógrafo, a não ser sobrenaturalmente, mas há edições novas; portanto, ele está ali, bem vivinho, na prateleira da livraria mais próxima. Isso ainda não nos tiraram.

domingo, 15 de novembro de 2015

AS CORES DO MUNDO

As cores da França pelo mundo. (Montagem: IG)
"Nunca tantos deveram tanto a tão poucos."

Esta frase resume o que é a França para o mundo.

A França legou à humanidade só alguns milhares de escritores, poetas, filósofos, cientístas, astrônomos, inventores, estilistas de moda, cantores, compositores, escultores, cineastas, atores, pintores, desenhistas, caricaturistas, fotógrafos, arquitetos...

E o prepotente Estado Islâmico? Poças de sangue.

A diferença é só esta.

O presidente francês foi exato e, judicioso, sem bravata, disse: "Vamos liderar a luta e seremos implacáveis. Nosso país tem o hábito de se reerguer".

O Estado Islâmico se autodecapitou.

sábado, 14 de novembro de 2015

MERCADO EDITORIAL BAIANO

Não por acaso, esconderam as lombadas dos livros!
Mais uma rodada de piadas sobre o mercado editorial baiano.

Desde 2007, quando da gestão do enfant gaté Márcio Meirelles na Secult-BA, que estas audiências ocorrem e não levam a nada.

Veio então o grande professor de cultura Albino Ru(b)im e promoveu a mesma pilhéria.

Quem quiser que acredite que o midiático Jorge Portugal vai mudar alguma coisa. Vai. E muito.

O Governo da Bahia detesta educação, livro, leitura, bibliotecas, escritores. Faz de tudo para manter o povo embotado, pulando atrás do trio elétrico com um acarajé numa mão e a bandeira do PT na outra.

E isso é tudo. Quando querem parecer que fazem alguma coisa, contratam uma agência de propaganda...

Já sei até o que vai acontecer dia 26 de novembro: vão opinar, discutir, fazer comentários muito sérios; param depois para um café e voltam aos trabalhos; ao fim, redigem um documento cheio de erros ortográficos, com o mesmo conteúdo da audiência anterior, ou seja, "medidas que devem ser tomadas", assinam embaixo e engavetam.

Ano que vem promovem outra audiência pública: Mercado editorial baiano, desafios e perspectivas. Chamam o Governo e a sociedade civil. E repetem a mesma história. O eterno retorno de coisa nenhuma para nada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

LANÇAMENTO: AVE NOTURNA

Márcio Matos é autor do romance A suave anomalia (Casarão do Verbo, 2010) e do volume de contos A noite em que nós todos fomos felizes (P55, 2014). 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

OI, VERGONHA!

"Oi, eu sou péssima!"
Desde domingo que os moradores dos Barris que têm telefone fixo da Oi estão sem linha. Liga-se para a operadora, e quem atende é o robô, de nome Eduardo, que informa o seguinte: os técnicos da Oi estão trabalhando na região e asseguram que o conserto ficará pronto às 23:59 do dia corrente.

Mas, no horário previsto, nada de linha. O novo prazo informado passa então a ser 23:59 do novo dia. E assim vamos: domingo, segunda, terça, quarta. O resto do mês talvez.

E, para o cúmulo do absurdo, a Oi nos telefonou hoje para que respondêssemos a uma pesquisa de satisfação quanto aos serviços. Tiveram o desplante de nos sugerir uma nota de avaliação, de zero a 10. São uns cínicos se não sabem que nota merecem.

"Alô, eu funciono!"
Arre! Como diziam os antigos. Alíás, acho que muita coisa antiga deveria voltar. O velho telefone, por exemplo, simples, direto e eficiente.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A EDUCAÇÃO LIQUIDADA

A educação neste país de lulistas aproveitadores e cínicos é tão esculhambada, que um dos mais sérios sebos do Brasil, a Traça, me enviou um e-mail comunicando (de maneira jocosa, claro, mas consciente do que diz, pois, como afirmava Freud, brincadeiras não existem) que a educação está liquidada. Eis o texto:

A Educação Liquidada
Olá, Mayrant Gallo,
Por uma dessas coincidências fortuitas, bem como quando o final do ano letivo de aproxima, adquirimos uma grande biblioteca de Pedadogia e Educação, incluindo Psicologia da Educação. É uma biblioteca bem desigual, com material antigo e moderno, técnico e de debate, do bebê ao universitário.
O acervo está sendo oferecido com desconto de 50%, adequado aos tempos de aperto, com preço mínimo de R$ 4,90.
Veja os livros aqui.

Lembre que você tem um crédito de R$ 29,15 e com ele você pode abater até 50% do valor do produto comprado. Veja detalhes do programa de fidelidade da Traça aqui.

Esperamos você,
Traça Livraria e Sebo

É fato. A educação está liquidada, e devemos tirar proveito disso. O Governo é o primeiro, reelegendo-se a cada eleição através do baixo senso crítico do povo, que, em meio ao caos e vítima do embotamento intelectual, deixa-se conduzir pela mão, como uma criança amedrontada. Ó, pátria educadora!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

VÁ E VEJA, 25: Picnic at Hanging Rock

Mais ou menos ao fim do primeiro terço do filme, quando se dá a sequência-chave para se compreender sua misteriosa trama, Marion, uma das moças, olhando do alto da montanha para o bosque lá embaixo, diz, como se refletisse consigo mesma:

"O que aquelas pessoas estão fazendo, lá embaixo? Parecem um monte de formigas. É surpreendente o número de seres humanos sem propósito. Embora seja provável que eles estejam desempenhando uma função, desconhecida até para eles".

Ao que sua colega Miranda retruca: "Tudo começa e termina na hora certa e no lugar certo".

Lançado em 1975, Piquenique na montanha misteriosa constitui a obra-prima de Peter Weir e um dos clássicos do criativo cinema australiano. Sua trama, baseada num romance de Joan Lindsay, mantém-se até hoje como um mistério polissêmico e insolúvel. Era um fato real, que gerou um romance, e este, por sua vez, um filme belo e desconcertante. Em 1001 filmes para ver antes de morrer, afirma-se: "Uma história de fantasmas sem fantasmas, um quebra-cabeça sem solução e um filme de repressão sexual sem sexo". Muito embora o que se diga naquele livro sobre o filme seja grandioso, é pouco para definir esta joia cinematográfica, sempre atual e indecifrável.

A história chega a ser banal e, não fosse o fato de ser verdade, não despertaria grande interesse, exceto para aquelas pessoas que, como eu, apreciam o tema do desaparecimento: em 1900, na Austrália, uma escola de garotas realiza um piquenique ao pé da Hanging Rock. Três garotas e uma professora desaparecem nos interstícios da montanha, e este evento acaba por abalar não só a escola mas toda a região.

Entregues à missão de achar as mulheres, as pessoas tentam, sem sucesso, explicar o que houve. Mas nada é muito claro, e mesmo o desaparecimento, narrado como a fração de um sonho, sugere que as garotas se entregaram a uma espécie de rito pagão, em nome do deus Pã, que rege a natureza e era adorado pelos pastores antigos. Esta sequência, aliás, é um dos pontos altos do filme e de todo o cinema, pelo modo como é concebida, chegando a nos assustar, sem que para isso nenhum clichê dos filmes do gênero suspense seja evocado. Pelo contrário: de pés nos chão e um ar alheio, como se estivessem dopadas ou possuídas, as vestes brancas a se desfraldar no vento, com as botinas amarradas à cintura, e filmadas em câmara lenta, as moças nos incitam a acreditar que elas sabem o que estão fazendo, e que os ingênuos somos nós.

Mas este filme não teria a força que tem, nem a importância que obteve ao longo dos anos, se não fosse a sua forma, que eleva seu assunto trivial ao nível da Arte: música, fotografia, ponto de vista narrativo, reconstituição de época, a atuação despretensiosa dos atores, especialmente do elenco jovem, a celebração da natureza como um cosmo imponderável e a opção do diretor e do roteirista por não explicar o estranho acontecimento que compreende o seu núcleo fazem deste filme um marco das obras cinematográficas que optam pelo mistério e pela polissemia, em detrimento do panfleto e da suposta verdade do mundo.

Em comemoração aos 40 anos da existência desta obra-prima, veja-a! E depois reconheça que, de fato, é com filmes assim que o cinema se ombreia com suas rivais da grande Arte: a pintura, a música, a literatura.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

LANÇAMENTO: "FERNANFLOR"

Sidney Rocha, integrante de 82, uma Copa, quinze histórias (Casarão do Verbo, 2012), lança seu novo romance em Salvador, este sábado, às 16:00, na Boto Cor de Rosa, Rua Marquês de Caravelas, 328, Barra. Passe por lá, conheça a livraria, beba um café e participe da conversa do autor com o escritor Lima Trindade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

MERCADANTE, O CURINGA

Coringa, sucedâneo ou avatar de Aloizio Mercadante.
Assombrou-me a notícia de que o curinga Aloisio Mercadante é o novo Ministro da Educação. 

Desde o governo de Luís Inácio Lula Maracutaia da Silva que este sujeito não larga o osso. É um verdadeiro mercador de oportunidades. Abre uma vaguinha aqui ou ali, e ele é chamado para ocupar o cargo ou a este se dispõe. Entende de tudo: de alfabeto cirílico a turbina de avião. 

Sua nomeação para o ocupar o cargo de Ministro da Educação é mais uma evidência de que a presidente está à deriva, e o país, em maus lençóis. 

Uso destes clichês linguísticos, porque é o que funciona: diante de um Governo banal, frases e expressões banais; para se refletir sobre esta figurinha mais do que surrada, Mercadante, ocupando o cargo de Ministro da Educação, não precisamos de muito. O banal mesmo serve. E bem.

Uma vez no poder, ele e seus correligionários ficam lá, nos intestinos da cúpula, brincando de trocar de cadeiras. Enquanto isso, violência generalizada em todo o país, saúde à míngua e educação da pior espécie. Isso até 2018, quando o Lula Maracutaia pretende voltar à presidência e fazer a roda girar do mesmo jeito de agora e ainda mais favorável a eles, num cinismo sem fim.

"Este país é uma choldra." Eça de Queiroz

Será que Mercadante sabe o que é uma "choldra"? Será que ele sabe que "curinga" se escreve com "u"? Que "coringa" é outra coisa? Duvido muito. Ele não vai além de leitor de Batman em ficção. Ou nem isso. O certo é que, como o célebre vilão, à boca pequena e à socapa, eles estão rindo de todos nós, pobres eleitores e membros do maior Clube de Otários que existe, cuja carteirinha de sócio é o título eleitoral.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SORRIA, VOCÊ ESTÁ NA BAHIA!

Foto: por Hithotel.
Para o Governo do Estado da Bahia, capitaneado pelo famigerado Rui Costa, e igualmente para a Prefeitura de Salvador, sob a direção de ACM Neto, vai tudo muito bem por aqui. Salvador é um paraíso tropical à espera de mais uma leva de milhares de turistas, que devem ficar pela cidade de dezembro a março, em mais um verão escaldante, barulhento e sujo, com a violência de sempre. A prova irrefutável foi o que eu vi na última segunda-feira, a céu aberto, em plena luz do dia, entre 15 e 16 horas.

À procura de um produto que só se encontra no Comércio, somei a isto o fato de que adoro andar e fui a pé até o famoso Mercado do Ouro. Eu atravessava a praça, quando surpreendi a pouco mais de quatro metros, um cara vendendo um revólver para dois outros. Estavam lá, numa boa, negociando. Do outro lado, a menos de 50 metros, dois policiais, montados em motocicletas, conversavam...

Cumprida a minha missão, subi pelo Taboão até a Baixa dos Sapateiros. Antes, ao passar perto da Igreja Rosário dos Pretos, avistei três policiais, que papeavam alegremente na esquina. Pois bem, a menos de dez metros, um cara, sentado na soleira de uma casa, enrolava um cigarro de maconha, numa boa... Não sei quantos se drogavam tranquilamente, nos arredores, sob as barbas da polícia. Talvez dezenas. 

Da Baixa dos Sapateiros subi pela Ladeira da Palma até a Rua da Mouraria. E foi ali que a evidência de que Salvador e a Bahia estão entregues ao crime se mostrou plena e incontestável. Eu caminhava pela calçada, uma pessoa à minha frente e outra mais atrás, quando passou por nós um rapaz, de mais ou menos 17 anos, com um revólver na cintura, enfiado no cós da bermuda. E ele andava calmamente, a passeio, dando tapinhas na arma, como se quisesse com isso nos alertar ou ameaçar. A menos de vinte metros, o quartel do Exército dormitava ao sol, com duas sentinelas a postos.

Três cenas. Três evidências de crime. Três possíveis desdobramentos violentos para as próximas horas ou os próximos dias. E a polícia observando tudo, condescendente.

Enquanto isso, como diria Drummond, o governador e o prefeito tiram ouro do nariz.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

SEXTA-FEIRA, EM FEIRA!

Imagem: Blog do El Mirdad.
Sexta-feira, dia 25 de setembro, às 18 horas, estarei na Feira do Livro de Feira de Santana, no estande Casarão do Verbo & Sebo Labirinto, para o lançamento de O enigma dos livros (P55, 2015) e da coleção Pato, cachorro, garoto e minhoca (Kalango, 2015). Leitores interessados, especialmente os de Feira de Santana, apareçam! Desde já agradeço a presença de todos.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 14: P. Quignard

"Quando acaba a guerra? A província de Orléanais foi ocupada pelos celtas, pelos germanos, pelos romanos e seus doze deuses durante cinco séculos, pelos vândalos, pelos alanos, pelos francos, pelos normandos, pelos ingleses, pelos alemães e pelos americanos. No olhar da mulher, nos punhos que os irmãos levantam um contra o outro, na voz do pai que ralha, em cada um dos laços sociais, alguma coisa do inimigo sempre se conserva. Alguma coisa quer segurar. Alguma coisa quer matar. A finalidade de nossos esforços não é sermos felizes, envelhecer ao abrigo do frio, morrer sem dor. A finalidade de nossos esforços é chegarmos vivos até a noite."

QUIGNARD, Pascal. A ocupação americana. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. Tradução de Rubens Figueiredo. 128p.

ESTILO. A guerra repetitiva, a misturar os povos. A vida, renovada a cada guerra. Os costumes que ficam, os sestros que se perpetuam e passam de uma cultura a outra, de um povo a outro, deixando evidente que não há povo ou raça puros, nem cultura ensimesmada, sem influência de outra. O dinamismo da vida é o dinamismo da guerra. Por fim, a questão da busca da felicidade, revista por um narrador que acredita não ser este o propósito, mas sobreviver, ganhar o dia. As primeiras contundentes linhas de um romance breve, já uma obra-prima da literatura francesa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

POETA-POEMA, 69: CZESLAW MILOSZ

Capa da Veja desta semana, com citação de Czeslaw Milosz.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

DÁDIVA

Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na Terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.

CZESLAW MILOSZ (1911-2004). Poeta e romancista polonês, Prêmio Nobel de Literatura de 1980. Pouco publicado no Brasil, mas muito cultuado em outros países, é referência de entrada para a forte literatura do Leste Europeu, que legou ao mundo, de Kafka a Szymborska, as vozes do pessoal e da diferença. Romances publicados no Brasil: A tomada do poder (Nova Fronteira, 1988) e O vale dos demônios (Francisco Alves, 1982). Poema extraído de Não mais (UnB, 2003), em versão de Henrik Siewierski e Marcelo Paiva de Souza.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

sábado, 29 de agosto de 2015

MINHA MÃE E O UNIVERSO

A celebração da vida, na arte de Carybé.
Hoje, se viva, minha mãe completaria 83 anos. Desde que ela se foi, tenho publicado aqui, ano a ano, no seu aniversário, um poema. Desta vez, nenhum me ocorreu.

Não acho que eu a esteja esquecendo. Não. Ou que seu aniversário não seja mais uma data de celebração. Simplesmente, a vida, com seu fluxo irremediável, vai nos engolfando e nos obrigando, forçosamente, a pensar menos no que, de fato, é mais importante para todos nós: as pessoas que amamos e que perdemos, as que estão ao nosso lado, os amigos, os parentes, os prazeres que a arte nos oferece, através de um livro, filme, quadro ou canção etc.

Nada disso pode ser substituído por outra coisa ou outro ser, embora, a cada dia, a estrutura do mundo nos diga o contrário. E o fato de, na farmácia, hoje, ao comprar um remédio, me dar conta de que é dia 29 de agosto, aniversário de minha mãe, me assegura de que ainda não me deixei anular de todo. Que há algo ainda de genuíno e humano dentro de mim. Que ainda não sou como "eles". Sejam "eles" um grupo preciso ou Legião ou só o "sistema", que falha quando quer, e nada se pode fazer.

A verdade é que o aniversário de qualquer pessoa é tão importante quanto a mais importante das datas históricas. Obviamente que há pessoas desprezíveis e inúteis no mundo, e conheço algumas, mas mesmo estas preenchem, em algum momento de suas vidas, o pensamento afetivo de alguém, e isto constitui uma das justificativas para a celebração da vida.

Esta existência entre enganadores e ladrões não vale que nos esqueçamos disso. Eles também foram crianças, filhos e talvez sejam pais, tios, avós e tenham seus amigos. Compõem, em suma, um grãozinho de poeira do Universo e vão, como eu, desaparecer um dia, tornar-se ou não uma imagem benigna no pensamento de alguém, a exemplo de minha mãe.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

POETA-POEMA, 68: Eduardo Mondolfo

O Rio pelo olhar do pintor paulista Gastão Formenti (1894-1974).
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

PRECE 105

As crianças não voltaram
do passeio ao futuro.
Seus triciclos viraram iates
viraram louras os bichos felpudos.
Devem ter ficado presas nalgum triunfo.
Nalgum carro esporte atropelando a juventude. Nalguma
ilha deserta com praias circundadas com muros.
Nalguma mansão tomada de parentes
antes que sucumbam. As crianças
jamais voltaram daquelas férias tão curtas.
Homens que iriam tornar-se
viraram reduções de adultos.

EDUARDO MONDOLFO (1956). Poeta brasileiro, nascido na capital do Rio de Janeiro. Cultor de uma poesia que mistura prosaísmo com rigor sonoro e comentários filosóficos com imagens inesperadas, é sem sombra de dúvida um dos mais originais poetas brasileiros de nossa época. Seu livro Preces cariocas (Sette Letras, 1997) constitui um dos melhores volumes de poemas publicados no Brasil nos últimos vinte anos e, paradoxalmente, um dos mais subestimados.