"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 15 de novembro de 2015

AS CORES DO MUNDO

As cores da França pelo mundo. (Montagem: IG)
"Nunca tantos deveram tanto a tão poucos."

Esta frase resume o que é a França para o mundo.

A França legou à humanidade só alguns milhares de escritores, poetas, filósofos, cientístas, astrônomos, inventores, estilistas de moda, cantores, compositores, escultores, cineastas, atores, pintores, desenhistas, caricaturistas, fotógrafos, arquitetos...

E o prepotente Estado Islâmico? Poças de sangue.

A diferença é só esta.

O presidente francês foi exato e, judicioso, sem bravata, disse: "Vamos liderar a luta e seremos implacáveis. Nosso país tem o hábito de se reerguer".

O Estado Islâmico se autodecapitou.

sábado, 14 de novembro de 2015

MERCADO EDITORIAL BAIANO

Não por acaso, esconderam as lombadas dos livros!
Mais uma rodada de piadas sobre o mercado editorial baiano.

Desde 2007, quando da gestão do enfant gaté Márcio Meirelles na Secult-BA, que estas audiências ocorrem e não levam a nada.

Veio então o grande professor de cultura Albino Ru(b)im e promoveu a mesma pilhéria.

Quem quiser que acredite que o midiático Jorge Portugal vai mudar alguma coisa. Vai. E muito.

O Governo da Bahia detesta educação, livro, leitura, bibliotecas, escritores. Faz de tudo para manter o povo embotado, pulando atrás do trio elétrico com um acarajé numa mão e a bandeira do PT na outra.

E isso é tudo. Quando querem parecer que fazem alguma coisa, contratam uma agência de propaganda...

Já sei até o que vai acontecer dia 26 de novembro: vão opinar, discutir, fazer comentários muito sérios; param depois para um café e voltam aos trabalhos; ao fim, redigem um documento cheio de erros ortográficos, com o mesmo conteúdo da audiência anterior, ou seja, "medidas que devem ser tomadas", assinam embaixo e engavetam.

Ano que vem promovem outra audiência pública: Mercado editorial baiano, desafios e perspectivas. Chamam o Governo e a sociedade civil. E repetem a mesma história. O eterno retorno de coisa nenhuma para nada.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

LANÇAMENTO: AVE NOTURNA

Márcio Matos é autor do romance A suave anomalia (Casarão do Verbo, 2010) e do volume de contos A noite em que nós todos fomos felizes (P55, 2014). 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

OI, VERGONHA!

"Oi, eu sou péssima!"
Desde domingo que os moradores dos Barris que têm telefone fixo da Oi estão sem linha. Liga-se para a operadora, e quem atende é o robô, de nome Eduardo, que informa o seguinte: os técnicos da Oi estão trabalhando na região e asseguram que o conserto ficará pronto às 23:59 do dia corrente.

Mas, no horário previsto, nada de linha. O novo prazo informado passa então a ser 23:59 do novo dia. E assim vamos: domingo, segunda, terça, quarta. O resto do mês talvez.

E, para o cúmulo do absurdo, a Oi nos telefonou hoje para que respondêssemos a uma pesquisa de satisfação quanto aos serviços. Tiveram o desplante de nos sugerir uma nota de avaliação, de zero a 10. São uns cínicos se não sabem que nota merecem.

"Alô, eu funciono!"
Arre! Como diziam os antigos. Alíás, acho que muita coisa antiga deveria voltar. O velho telefone, por exemplo, simples, direto e eficiente.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A EDUCAÇÃO LIQUIDADA

A educação neste país de lulistas aproveitadores e cínicos é tão esculhambada, que um dos mais sérios sebos do Brasil, a Traça, me enviou um e-mail comunicando (de maneira jocosa, claro, mas consciente do que diz, pois, como afirmava Freud, brincadeiras não existem) que a educação está liquidada. Eis o texto:

A Educação Liquidada
Olá, Mayrant Gallo,
Por uma dessas coincidências fortuitas, bem como quando o final do ano letivo de aproxima, adquirimos uma grande biblioteca de Pedadogia e Educação, incluindo Psicologia da Educação. É uma biblioteca bem desigual, com material antigo e moderno, técnico e de debate, do bebê ao universitário.
O acervo está sendo oferecido com desconto de 50%, adequado aos tempos de aperto, com preço mínimo de R$ 4,90.
Veja os livros aqui.

Lembre que você tem um crédito de R$ 29,15 e com ele você pode abater até 50% do valor do produto comprado. Veja detalhes do programa de fidelidade da Traça aqui.

Esperamos você,
Traça Livraria e Sebo

É fato. A educação está liquidada, e devemos tirar proveito disso. O Governo é o primeiro, reelegendo-se a cada eleição através do baixo senso crítico do povo, que, em meio ao caos e vítima do embotamento intelectual, deixa-se conduzir pela mão, como uma criança amedrontada. Ó, pátria educadora!

terça-feira, 13 de outubro de 2015

VÁ E VEJA, 25: Picnic at Hanging Rock

Mais ou menos ao fim do primeiro terço do filme, quando se dá a sequência-chave para se compreender sua misteriosa trama, Marion, uma das moças, olhando do alto da montanha para o bosque lá embaixo, diz, como se refletisse consigo mesma:

"O que aquelas pessoas estão fazendo, lá embaixo? Parecem um monte de formigas. É surpreendente o número de seres humanos sem propósito. Embora seja provável que eles estejam desempenhando uma função, desconhecida até para eles".

Ao que sua colega Miranda retruca: "Tudo começa e termina na hora certa e no lugar certo".

Lançado em 1975, Piquenique na montanha misteriosa constitui a obra-prima de Peter Weir e um dos clássicos do criativo cinema australiano. Sua trama, baseada num romance de Joan Lindsay, mantém-se até hoje como um mistério polissêmico e insolúvel. Era um fato real, que gerou um romance, e este, por sua vez, um filme belo e desconcertante. Em 1001 filmes para ver antes de morrer, afirma-se: "Uma história de fantasmas sem fantasmas, um quebra-cabeça sem solução e um filme de repressão sexual sem sexo". Muito embora o que se diga naquele livro sobre o filme seja grandioso, é pouco para definir esta joia cinematográfica, sempre atual e indecifrável.

A história chega a ser banal e, não fosse o fato de ser verdade, não despertaria grande interesse, exceto para aquelas pessoas que, como eu, apreciam o tema do desaparecimento: em 1900, na Austrália, uma escola de garotas realiza um piquenique ao pé da Hanging Rock. Três garotas e uma professora desaparecem nos interstícios da montanha, e este evento acaba por abalar não só a escola mas toda a região.

Entregues à missão de achar as mulheres, as pessoas tentam, sem sucesso, explicar o que houve. Mas nada é muito claro, e mesmo o desaparecimento, narrado como a fração de um sonho, sugere que as garotas se entregaram a uma espécie de rito pagão, em nome do deus Pã, que rege a natureza e era adorado pelos pastores antigos. Esta sequência, aliás, é um dos pontos altos do filme e de todo o cinema, pelo modo como é concebida, chegando a nos assustar, sem que para isso nenhum clichê dos filmes do gênero suspense seja evocado. Pelo contrário: de pés nos chão e um ar alheio, como se estivessem dopadas ou possuídas, as vestes brancas a se desfraldar no vento, com as botinas amarradas à cintura, e filmadas em câmara lenta, as moças nos incitam a acreditar que elas sabem o que estão fazendo, e que os ingênuos somos nós.

Mas este filme não teria a força que tem, nem a importância que obteve ao longo dos anos, se não fosse a sua forma, que eleva seu assunto trivial ao nível da Arte: música, fotografia, ponto de vista narrativo, reconstituição de época, a atuação despretensiosa dos atores, especialmente do elenco jovem, a celebração da natureza como um cosmo imponderável e a opção do diretor e do roteirista por não explicar o estranho acontecimento que compreende o seu núcleo fazem deste filme um marco das obras cinematográficas que optam pelo mistério e pela polissemia, em detrimento do panfleto e da suposta verdade do mundo.

Em comemoração aos 40 anos da existência desta obra-prima, veja-a! E depois reconheça que, de fato, é com filmes assim que o cinema se ombreia com suas rivais da grande Arte: a pintura, a música, a literatura.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

LANÇAMENTO: "FERNANFLOR"

Sidney Rocha, integrante de 82, uma Copa, quinze histórias (Casarão do Verbo, 2012), lança seu novo romance em Salvador, este sábado, às 16:00, na Boto Cor de Rosa, Rua Marquês de Caravelas, 328, Barra. Passe por lá, conheça a livraria, beba um café e participe da conversa do autor com o escritor Lima Trindade.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

MERCADANTE, O CURINGA

Coringa, sucedâneo ou avatar de Aloizio Mercadante.
Assombrou-me a notícia de que o curinga Aloisio Mercadante é o novo Ministro da Educação. 

Desde o governo de Luís Inácio Lula Maracutaia da Silva que este sujeito não larga o osso. É um verdadeiro mercador de oportunidades. Abre uma vaguinha aqui ou ali, e ele é chamado para ocupar o cargo ou a este se dispõe. Entende de tudo: de alfabeto cirílico a turbina de avião. 

Sua nomeação para o ocupar o cargo de Ministro da Educação é mais uma evidência de que a presidente está à deriva, e o país, em maus lençóis. 

Uso destes clichês linguísticos, porque é o que funciona: diante de um Governo banal, frases e expressões banais; para se refletir sobre esta figurinha mais do que surrada, Mercadante, ocupando o cargo de Ministro da Educação, não precisamos de muito. O banal mesmo serve. E bem.

Uma vez no poder, ele e seus correligionários ficam lá, nos intestinos da cúpula, brincando de trocar de cadeiras. Enquanto isso, violência generalizada em todo o país, saúde à míngua e educação da pior espécie. Isso até 2018, quando o Lula Maracutaia pretende voltar à presidência e fazer a roda girar do mesmo jeito de agora e ainda mais favorável a eles, num cinismo sem fim.

"Este país é uma choldra." Eça de Queiroz

Será que Mercadante sabe o que é uma "choldra"? Será que ele sabe que "curinga" se escreve com "u"? Que "coringa" é outra coisa? Duvido muito. Ele não vai além de leitor de Batman em ficção. Ou nem isso. O certo é que, como o célebre vilão, à boca pequena e à socapa, eles estão rindo de todos nós, pobres eleitores e membros do maior Clube de Otários que existe, cuja carteirinha de sócio é o título eleitoral.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

SORRIA, VOCÊ ESTÁ NA BAHIA!

Foto: por Hithotel.
Para o Governo do Estado da Bahia, capitaneado pelo famigerado Rui Costa, e igualmente para a Prefeitura de Salvador, sob a direção de ACM Neto, vai tudo muito bem por aqui. Salvador é um paraíso tropical à espera de mais uma leva de milhares de turistas, que devem ficar pela cidade de dezembro a março, em mais um verão escaldante, barulhento e sujo, com a violência de sempre. A prova irrefutável foi o que eu vi na última segunda-feira, a céu aberto, em plena luz do dia, entre 15 e 16 horas.

À procura de um produto que só se encontra no Comércio, somei a isto o fato de que adoro andar e fui a pé até o famoso Mercado do Ouro. Eu atravessava a praça, quando surpreendi a pouco mais de quatro metros, um cara vendendo um revólver para dois outros. Estavam lá, numa boa, negociando. Do outro lado, a menos de 50 metros, dois policiais, montados em motocicletas, conversavam...

Cumprida a minha missão, subi pelo Taboão até a Baixa dos Sapateiros. Antes, ao passar perto da Igreja Rosário dos Pretos, avistei três policiais, que papeavam alegremente na esquina. Pois bem, a menos de dez metros, um cara, sentado na soleira de uma casa, enrolava um cigarro de maconha, numa boa... Não sei quantos se drogavam tranquilamente, nos arredores, sob as barbas da polícia. Talvez dezenas. 

Da Baixa dos Sapateiros subi pela Ladeira da Palma até a Rua da Mouraria. E foi ali que a evidência de que Salvador e a Bahia estão entregues ao crime se mostrou plena e incontestável. Eu caminhava pela calçada, uma pessoa à minha frente e outra mais atrás, quando passou por nós um rapaz, de mais ou menos 17 anos, com um revólver na cintura, enfiado no cós da bermuda. E ele andava calmamente, a passeio, dando tapinhas na arma, como se quisesse com isso nos alertar ou ameaçar. A menos de vinte metros, o quartel do Exército dormitava ao sol, com duas sentinelas a postos.

Três cenas. Três evidências de crime. Três possíveis desdobramentos violentos para as próximas horas ou os próximos dias. E a polícia observando tudo, condescendente.

Enquanto isso, como diria Drummond, o governador e o prefeito tiram ouro do nariz.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

SEXTA-FEIRA, EM FEIRA!

Imagem: Blog do El Mirdad.
Sexta-feira, dia 25 de setembro, às 18 horas, estarei na Feira do Livro de Feira de Santana, no estande Casarão do Verbo & Sebo Labirinto, para o lançamento de O enigma dos livros (P55, 2015) e da coleção Pato, cachorro, garoto e minhoca (Kalango, 2015). Leitores interessados, especialmente os de Feira de Santana, apareçam! Desde já agradeço a presença de todos.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 14: P. Quignard

"Quando acaba a guerra? A província de Orléanais foi ocupada pelos celtas, pelos germanos, pelos romanos e seus doze deuses durante cinco séculos, pelos vândalos, pelos alanos, pelos francos, pelos normandos, pelos ingleses, pelos alemães e pelos americanos. No olhar da mulher, nos punhos que os irmãos levantam um contra o outro, na voz do pai que ralha, em cada um dos laços sociais, alguma coisa do inimigo sempre se conserva. Alguma coisa quer segurar. Alguma coisa quer matar. A finalidade de nossos esforços não é sermos felizes, envelhecer ao abrigo do frio, morrer sem dor. A finalidade de nossos esforços é chegarmos vivos até a noite."

QUIGNARD, Pascal. A ocupação americana. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. Tradução de Rubens Figueiredo. 128p.

ESTILO. A guerra repetitiva, a misturar os povos. A vida, renovada a cada guerra. Os costumes que ficam, os sestros que se perpetuam e passam de uma cultura a outra, de um povo a outro, deixando evidente que não há povo ou raça puros, nem cultura ensimesmada, sem influência de outra. O dinamismo da vida é o dinamismo da guerra. Por fim, a questão da busca da felicidade, revista por um narrador que acredita não ser este o propósito, mas sobreviver, ganhar o dia. As primeiras contundentes linhas de um romance breve, já uma obra-prima da literatura francesa.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

POETA-POEMA, 69: CZESLAW MILOSZ

Capa da Veja desta semana, com citação de Czeslaw Milosz.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

DÁDIVA

Um dia tão feliz.
A névoa baixou cedo, eu trabalhava no jardim.
Os colibris se demoravam sobre a flor de madressilva.
Não havia coisa na Terra que eu quisesse possuir.
Não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.
O que aconteceu de mau, esqueci.
Não tinha vergonha ao pensar que fui quem sou.
Não sentia no corpo nenhuma dor.
Me endireitando, vi o mar azul e velas.

CZESLAW MILOSZ (1911-2004). Poeta e romancista polonês, Prêmio Nobel de Literatura de 1980. Pouco publicado no Brasil, mas muito cultuado em outros países, é referência de entrada para a forte literatura do Leste Europeu, que legou ao mundo, de Kafka a Szymborska, as vozes do pessoal e da diferença. Romances publicados no Brasil: A tomada do poder (Nova Fronteira, 1988) e O vale dos demônios (Francisco Alves, 1982). Poema extraído de Não mais (UnB, 2003), em versão de Henrik Siewierski e Marcelo Paiva de Souza.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

sábado, 29 de agosto de 2015

MINHA MÃE E O UNIVERSO

A celebração da vida, na arte de Carybé.
Hoje, se viva, minha mãe completaria 83 anos. Desde que ela se foi, tenho publicado aqui, ano a ano, no seu aniversário, um poema. Desta vez, nenhum me ocorreu.

Não acho que eu a esteja esquecendo. Não. Ou que seu aniversário não seja mais uma data de celebração. Simplesmente, a vida, com seu fluxo irremediável, vai nos engolfando e nos obrigando, forçosamente, a pensar menos no que, de fato, é mais importante para todos nós: as pessoas que amamos e que perdemos, as que estão ao nosso lado, os amigos, os parentes, os prazeres que a arte nos oferece, através de um livro, filme, quadro ou canção etc.

Nada disso pode ser substituído por outra coisa ou outro ser, embora, a cada dia, a estrutura do mundo nos diga o contrário. E o fato de, na farmácia, hoje, ao comprar um remédio, me dar conta de que é dia 29 de agosto, aniversário de minha mãe, me assegura de que ainda não me deixei anular de todo. Que há algo ainda de genuíno e humano dentro de mim. Que ainda não sou como "eles". Sejam "eles" um grupo preciso ou Legião ou só o "sistema", que falha quando quer, e nada se pode fazer.

A verdade é que o aniversário de qualquer pessoa é tão importante quanto a mais importante das datas históricas. Obviamente que há pessoas desprezíveis e inúteis no mundo, e conheço algumas, mas mesmo estas preenchem, em algum momento de suas vidas, o pensamento afetivo de alguém, e isto constitui uma das justificativas para a celebração da vida.

Esta existência entre enganadores e ladrões não vale que nos esqueçamos disso. Eles também foram crianças, filhos e talvez sejam pais, tios, avós e tenham seus amigos. Compõem, em suma, um grãozinho de poeira do Universo e vão, como eu, desaparecer um dia, tornar-se ou não uma imagem benigna no pensamento de alguém, a exemplo de minha mãe.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

POETA-POEMA, 68: Eduardo Mondolfo

O Rio pelo olhar do pintor paulista Gastão Formenti (1894-1974).
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

PRECE 105

As crianças não voltaram
do passeio ao futuro.
Seus triciclos viraram iates
viraram louras os bichos felpudos.
Devem ter ficado presas nalgum triunfo.
Nalgum carro esporte atropelando a juventude. Nalguma
ilha deserta com praias circundadas com muros.
Nalguma mansão tomada de parentes
antes que sucumbam. As crianças
jamais voltaram daquelas férias tão curtas.
Homens que iriam tornar-se
viraram reduções de adultos.

EDUARDO MONDOLFO (1956). Poeta brasileiro, nascido na capital do Rio de Janeiro. Cultor de uma poesia que mistura prosaísmo com rigor sonoro e comentários filosóficos com imagens inesperadas, é sem sombra de dúvida um dos mais originais poetas brasileiros de nossa época. Seu livro Preces cariocas (Sette Letras, 1997) constitui um dos melhores volumes de poemas publicados no Brasil nos últimos vinte anos e, paradoxalmente, um dos mais subestimados.

sábado, 22 de agosto de 2015

POETA-POEMA, 67: THIAGO LINS

A arte misteriosa do pintor argentino Xul Solar.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

VENTURA

Pensaram que seu corpo
Não tinha esplendor quando
Pensaram que sua face
Não se refletia como
Pensaram que sua profissão
Era conduzir sonhos
Não pensaram que fosse um homem
Só o descobriram
Quando lhe deram um tiro

THIAGO LINS. Poeta e contista brasileiro, nascido no Ceará, mas radicado em Feira de Santana, BA. Seus poemas e minicontos expressam, com indiscutível simplicidade, a inquietação do sujeito diante de um mundo caótico e desumano. Poema extraído de As peças do relógio (Multifoco, 2012).

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

BRASIL, A BADERNA

Sim à corrupção.
Como previsto, e como era comum na irmã vermelha Venezuela, nos tempos de Chávez, os cidadãos brasileiros pró-Dilma foram às ruas hoje protestar a favor do Governo... E a favor de tudo o que vem acontecendo nos últimos anos, em termos de falcatruas oficiais e corrupção, do Mensalão à Operação Lava a Jato, capitaneados por políticos do Partido dos Trapaceiros.

O bolo é grande e, em nome da suposta Democracia, vai um monte de gente ganhando e ganhando e ganhando.

Na última eleição, uma das promessas vazias da presidente Dilma era investir pesado na educação. E investiu: pagou campanha publicitária para convencer os bobocas de que o Brasil é pátria educadora. Nem ela acredita nisso. E deve rir nos bastidores da sua artimanha.

E os cortes para a educação surgiram, logo no início do segundo mandato. Na UFBA, dia desses, não havia dinheiro nem para pagar a conta de energia. O reitor teve de rebolar. Quem sabe onde e como!

Mas vai tudo bem. Muita gente está apalpando altas somas; a indústria de automóveis, então! A notícia é a de que os bancos públicos vão facilitar empréstimos para salvar o setor das demissões inevitáveis. E os professores à míngua, com salários mixurucas e ainda vitimados pela violência em sala de aula, porque a juventude petista sabe que pode ascender sem mérito algum, basta colaborar, ir às ruas, entoar os cânticos políticos e fazer o jogo que abre portas até para cabos de vassouras, se há cooperação. Belo país teremos no futuro. 

Temo que, um dia, o Brasil se torne um dublê da famigerada Venezuela, onde a constituição, a opinião pública, o congresso, a eleição e tudo o mais sofrem com as manipulações do Governo. Dia virá em que só poderemos ir à ruas de vermelho. E a olhar para o chão ou para cima, como no romance Sombras de reis barbudos, de José J. Veiga. Nos anos 1970, esta obra representava uma alegoria da Ditadura; hoje, mais parece uma proposta do atual Governo, célebre por tirar nada do saco e botar no outro, exceto quando o conteúdo é dinheiro, que vai direto para o bolso.

E um detalhe: as manifestações do último dia 16 foram num domingo; as de hoje, em pleno dia útil, para incomodar. E tome engarrafamentos, dia perdido, horas paradas, estresse, indignação, exaustão, desânimo... Típico de partidos políticos fajutos, cujo maior propósito é promover a baderna. Pois conseguiram.

O Brasil é uma baderna por esquina, e o Governo, do centro do seu cinismo, o primeiro a promovê-la e sancioná-la.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 13: John O'Hara

"Nessa manhã de domingo de maio, aquela moça que mais tarde seria motivo de sensação em Nova York acordou muito cedo, para uma curta noite de sono. Um minuto atrás ela dormia, no minuto seguinte ei-la completamente desperta e atolada no desespero. Era um desespero que ela talvez já tivesse sentido mil vezes, nas 365 manhãs do ano. Em geral, a causa do seu desespero era remorso, dois tipos de remorso: o remorso, em suma, de saber que, fizesse lá o que fosse, nada de bom lhe resultaria."

O'HARA, John. BUtterfield 8. Rio de Janeiro: José Olympio, 2005. Tradução de Hélio Pólvora. 306p.

ESTILO. Neste romance, que constitui um dos retratos mais fiéis e crus de sociedade americana dos anos que se seguiram ao fim da Lei Seca, o início parece algo despretensioso e comum, mas em poucas linhas oferece, em filigrana, a dimensão de uma tragédia: a personagem, motivo de sensação mais tarde numa cidade em que tudo é possível e nada surpreende, acorda muito cedo, depois de ter ido dormir muito tarde, e, ao despertar, mergulha no desespero, causado pelo remorso. O que a moça fez e o que fará são as perguntas que o relato terá de responder.

domingo, 16 de agosto de 2015

BRASIL, O LOGRO

Copacabana, prazer e manifestação (foto: Rodrigo Gorosito, Globo)
Em alguns estados e no Distrito Federal, centenas de pessoas foram às ruas hoje protestar contra o Governo brasileiro.

Haverá depois, obviamente, como de hábito, aqueles que irão às ruas, nos dias subsequentes, defender a presidente Dilma e seus correligionários aproveitadores.

Os pilantras, entre os quais estão o ex-presidente Lula, Genoíno, José Dirceu e tantos outros usurpadores do dinheiro público e da consciência dos eleitores, mal chegaram ao poder, puseram as manguinhas de fora e fizeram o que qualquer político, antes, tinha feito e talvez até com mais requinte de desonestidade e cinismo.

Estão, a cada demão de lama, corroendo mais o Brasil. A Petrobras é só o começo. 

São, por assim dizer, traidores: de sua causa ideológica, supostamente partidária, e também da pátria: do sonho de um Brasil melhor e realmente democrático. Muito embora eles falem de democracia o tempo todo, não a praticam.

Aliás, democracia jamais foi o objetivo de nenhum partido de esquerda, quer seja comunista, socialista ou nazista.

Eles condenam as artes. Eles condenam o conhecimento. Eles condenam a liberdade. Eles condenam o amor. Eles condenam Deus, consequentemente as religiões. 

E, convenhamos, sem arte, conhecimento, amor, liberdade e a figura de um Deus, para conferir algum sentido à vida, quando nada mais resta ou tudo o mais fracassou, não sei se vale a pena existir.

Exceto para Fidel Castro, Lula e José Dirceu, que, e não respectivamente, só almejam três coisas: poder, popularidade e dinheiro.

São ingênuos aqueles que afirmam que pegarão nas armas, se Dilma cair. E igualmente ingênuos os que acham que, se ela cair, outro Brasil se erguerá. Talvez, jamais! Toda essa situação é somente superfície de um caos maior e muito mais profundo, que tem origem no caráter do brasileiro, o qual, se esperava, fosse lapidado pela educação. Mas educação no nosso país é um outdoor, grande e pomposo, como ordem e progresso é somente um lema positivista na bandeira.

Mas é preciso fazer alguma coisa. É preciso pegar um desvio, se o caminho levar direto à cratera do vulcão. O que virá depois, bem: "Uma sociedade que coloca a igualdade, no sentido de igualdade de resultados, à frente da liberdade acabará sem igualdade nem liberdade". (Milton Friedman)

Ou, se preferirem: "No primeiro logro, a culpa é do negociante; no segundo, da burrice do freguês". (ditado chinês)

Leia-se, para o primeiro, "político"; e, para o segundo, "eleitor".