"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 6 de dezembro de 2008

LITERATURA E CINEMA

Fui primeiro ao cinema, só depois aprendi a ler. Até hoje me lembro do primeiro filme que vi: Esses homens incríveis e suas maravilhosas máquinas voadoras. Eu tinha quatro anos. Uma comédia com muita ação e trapalhadas, no ar e em terra. Só isso. Mas até hoje não a esqueci, embora nunca mais a tenha visto. Quase todos os dias assisto a um filme. Não posso passar sem esse ópio, como não posso passar sem ler nem escrever. E quando escrevo vejo o que escrevo, como se fosse uma câmera a varrer o ambiente, a definir a cena. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que não consigo conceber uma prosa (nem mesmo poesia) que não reúna esses aspectos, para mim fundamentais: movimentação no tempo e no espaço (o que empurra a narrativa pra frente), metáfora e reflexão. E os três comparecem à narrativa cinematográfica, tanto quanto ao que escrevo. Um exemplo: Não tenho medo, de Salvatores, baseado no romance de Nicollo Amantini. Neste filme, a narrativa está sempre em movimento; no espaço, com o vaivém do garoto na bicicleta, e no tempo, com a passagem dos dias, marcada pela troca de suas roupas. O filme é uma metáfora da amizade possível entre pessoas divididas por diferenças inevitáveis: neste caso dois garotos de classes e meios diferentes. E uma reflexão sobre as nossas ações nesta vida, o que pretendemos e ao fim conseguimos, e que no filme podemos definir assim: quando ferimos o outro estamos ferindo a nós mesmos. Ao seqüestrar o garoto e tentar matá-lo, o pai não sabe, mas está ferindo ao seu próprio filho... Em meus contos (ao menos em desejo, em intenção), há aquela movimentação constante, um ciframento a ser iluminado pelo leitor e uma reflexão, ou pela imagem ou pelas palavras. Num dos que mais apreciei escrever, Victor Vhil leva uma surra de uns garotos na praia e, ao cair, tem a impressão de que é o mundo que tomba. É uma imagem de sua queda, o que seu olhar percebe ao cair, mas também uma metáfora e uma reflexão: não é o agredido quem cai (também no sentido de involuir), mas o mundo que o espanca, representado por aqueles garotos.

5 comentários:

anjobaldio disse...

O filme Betty Blue ficou marcado em minha alma, quando assisti no ex-cine Maria Bethãnia.
Lá no anjo baldio tem um novo vídeo-poema. Grande abraço.

Anônimo disse...

Cresci bebendo diversas fontes cinematográficas. Do intragável ao sublime, minha dieta era irregular, a base de luz, cores e movimento, enfim, cinema. Era o meu riso e o meu siso. Muito tardiamente veio a literatura, e esta, tardiamente, penetrou às escuras meu universo. Movimento contínuo de imagens destoantes (vide a magnífica metáfora de Victor Vhill). Aquele abraço. T

Renata Belmonte disse...

Esse filme é lindo e a imagem do Vhil e do mundo também.
Grande abraço,
Renata

Georgio Rios disse...

È em si um texto que torna qualquer leitor mais sábio.Conehço o seu texto em que Victor Vhil, tomba na praia.todos tombamos com ele naquele momento...

Silvestre Gavinha disse...

Bem, dizer aqui seria redundar no já dito.
Não conheço o Victor Vhil(nome incrível) mas a imagem é belíssima.
O filme e o livro também gosto.
Engraçado, tanto neste caso, como na vida, para mim, primeiro veio o livro.
Só muito depois o cinema. E antes dele tinha o rádio de minha avó. O primeiro filme acho que foi Meu Pé de Laranja Lima, mas nem tenho certeza. O primeiro livro foi "A galinha ruiva", eu tinha quatro anos e quem quase caiu foi minha mãe que não acreditava que eu estivesse realmente lendo. Em todos para mim, há essa queda, essa mudança da perspectiva, esse jogo de espelho do crime com o criminoso.
Ótimo Mayrant.
Marie