"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 26 de junho de 2013

LEITURAS, 28: WHISKY COM BOLACHAS

Capa: Gustavo Sobral.
Quando alguém me diz assim, "Detesto Woody Allen", já sei que, qualquer que seja a relação, o humor será difícil. Se Mario Quintana nos ensinou que devemos desconfiar das pessoas cujas casas não possuem livros, mais ainda devemos de quem não gosta de Woody Allen, pois não tem humor, não entende ironia e leva a vida muito a sério. Não é o caso do Juvenal Juvêncio Fake, autor do hilariante Whisky com bolachas (Casarão do Verbo, 2012).

Nascido de uma brincadeira que um anônimo fez no Twitter e no Facebook com o presidente do São Paulo Futebol Clube, o verdadeiro Sr. Juvenal Juvêncio, o livro transforma o futebol, tema não raro de grandes debates pseudofilosóficos ou de acaloradas pancadarias, no palco ideal de duas intenções: ironia e humor. Nada, nem ninguém, escapa à verve do Juvenal Juvêncio Fake, que, a cada frase, ironiza com o Palmeiras, o Corinthians ou o Flamengo, seus alvos prediletos; Neymar, Mano Menezes, o goleiro Cássio, a Seleção Brasileira, a Seleção da China, os jogadores do São Paulo (exceto Rogério Ceni, seu deus!) e consigo mesmo, sempre retratado como um indefectível apreciador de uísque e capaz de vender qualquer perna de pau por milhões ao futebol europeu.

Se me lembrei de Woody Allen e o usei para começar este texto, é porque inevitavelmente associei algumas das frases mais risíveis do Juvenal Juvêncio Fake às tiradas bem-humoradas do ator e diretor norte-americano. Na página 51, encontra-se uma de suas melhores criações. Em 6 de outubro do ano passado, o São Paulo venceu o Palmeiras por 3x0, com um gol em que Lucas dá um drible desconcertante no zagueiro Márcio Araújo e toca para um companheiro arrematar. A conclusão do Juvenal Juvêncio Fake sobre o lance é a seguinte: "O drible de Lucas foi tão genial, que machucou a coluna do Márcio Araújo na ida e curou na volta. Ele nem sabe ainda que sofreu a lesão". Perfeito! Puro nonsense.

Com muito de Nelson Rodrigues misturado a Groucho Marx, Whisky com bolachas só tem um defeito: dura apenas 45 minutos, o tempo que levei para lê-lo por completo e relê-lo em parte. Talvez o autor esteja, de propósito, se guardando para o segundo tempo, no qual há de se superar e ser eleito o craque da rodada. De uísque, é claro!

Um comentário:

Fernando Antonioli disse...

Comparar com Woody Allen? Essa foi de gênio para gênio! Ótimo texto.