"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

SOLARIS E EMÍLIO MOURA

Relembremos o romance Solaris, de Stanislaw Lem, e que por duas vezes foi levado à tela, em 1971 por Andrei Tarkóvski, e em 2002 por Steven Soderbergh:
Kelvin é chamado à estação espacial que orbita o planeta Solaris, porque estranhos eventos assombram a tripulação. O planeta possui dois atributos bizarros: modifica-se constantemente, a desenhar-se sempre de outra forma e nas mais variadas combinações de cores; e permite a materialização dos sonhos e das vontades das pessoas que estão próximas a ele – na estação espacial, por exemplo. É assim que Kelvin, depois de algumas horas de sono pesado, desperta ao lado de sua esposa Rheya, morta havia muito tempo. Ao fascínio inicial pelo retorno da amada se segue o horror, e ele se desfaz de Rheya lançando-a dentro de uma cápsula no espaço vazio. Mas logo ela retorna, através de novas réplicas, e Kelvin acaba por aceitá-la. Daí por diante, ele se dividirá entre buscar uma solução para o “problema” – que não é apenas seu, mas de toda a tripulação, com seus sonhos, desejos e medos materializados a cada nova jornada de descanso – ou simplesmente se resignar e levar adiante seus sentimentos pela esposa, que ele jamais esqueceu nem tampouco deixou de amar.
Quando meses atrás li um poema de Emílio Moura, poeta mineiro, o dilema do personagem de Solaris me ocorreu prontamente, como se eu estivesse diante de um texto inspirado pelo romance. Mas era apenas uma coincidência. O argumento de Lem é fantástico (a science fiction é um tronco da literatura fantástica); e o tom do poema, metafísico, embora ambos possam ser considerados um exame ontológico, um estudo do ser. Observem como o poema de Emílio Moura – de quem Carlos Drummond de Andrade dizia ter sido um poeta que “quase” se impôs exclusivamente pela qualidade de sua obra – parece o desabafo subjetivo de Kelvin, protagonista do romance de Lem:


É PRECISO

Agora, que te encontrei, é como se eu já te houvesse perdido.
É preciso voltar e procurar de novo o que não encontrei nunca;
é preciso voltar e gritar bem alto que tu não existes,
gritar bem alto que não te vejo, nem te compreendo,
gritar bem alto que não sou teu.

Sim, é preciso que eu me convença
de que, mesmo quando te encontrei – forma efêmera,
sonho ou reflexo de outro sonho –, tu já não existias,
e de que eu serei forte e frio como aquele que não quer viver,
para te matar em mim, caso tu ressuscites.


(Emílio Moura. Antologia poética. Leitura/MEC, 1971)

Penso que depois de mais de 30 anos de leitura diária, é inevitável que, lendo o que quer que seja, tenhamos um olhar no texto e outro nas referências absorvidas. Foi este o caso que aqui comentei: a coincidência de Solaris com Emílio Moura.

Cartaz: Solaris (2002), de Steven Soderbergh.

4 comentários:

Silvestre Gavinha disse...

Mayrant,
Eu vi o Solaris e acho que o fiz numa época "errada". Achei-o árido demais.
Me deu fastidio, como dizem os italianos.
E até gostei mais do de 71. Mas o poema, que eu não conhecia, sem dúvida dá uma outra visão.
Achei-o maravilhoso.
Vou ter que rever os filmes.
Também tenho isso, de logo relacionar as coisas que já vi e li. E nos papos com os amigos, vou encadeando. Faço isso sempre e eles me xingam de metida. Odeiam-me pela minha memória.
Eu acho muito legal e não consigo impedir que aconteça.
Brigadíssima pelo poema e por, quem sabe, um novo prazer com os filmes.
Um novo olhar com certeza.
Marie

Mirdad disse...

Pra desanuviar essa moleza sentimental, um trecho do q publiquei hj:

"A tua luz escurece meu caminho
Não há saídas, o animal cobiça
Primeiro te amei, agora violento
Não quero teu beijo, quero a garganta

Enforcar-te na parede; às costas, meu domínio
Abrir as portas do teu palácio
E enfiar-te na lama do cortiço meu sexo
Ao loiro dos teus fios incinerados
Resta-te cobrir o que foi arrombado"

Nada como um espeto, pra furar o balão das "eterelidades"...

Hitch disse...

Ainda Tarkóvski, ainda Lem. Na dependência de vê-los, lê-los, aqui ou na outra vida. Aquele abraço. T

Lidi disse...

Oi, Mayrant, também sempre lembro de um poema ao assistir um filme, de um conto ao ler um poema, de um filme ao ouvir uma música e até mesmo nas conversas com os amigos, uma frase qualquer me recorda alguma obra artística. Gosto disso! Um abraço.