"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 29 de agosto de 2015

MINHA MÃE E O UNIVERSO

A celebração da vida, na arte de Carybé.
Hoje, se viva, minha mãe completaria 83 anos. Desde que ela se foi, tenho publicado aqui, ano a ano, no seu aniversário, um poema. Desta vez, nenhum me ocorreu.

Não acho que eu a esteja esquecendo. Não. Ou que seu aniversário não seja mais uma data de celebração. Simplesmente, a vida, com seu fluxo irremediável, vai nos engolfando e nos obrigando, forçosamente, a pensar menos no que, de fato, é mais importante para todos nós: as pessoas que amamos e que perdemos, as que estão ao nosso lado, os amigos, os parentes, os prazeres que a arte nos oferece, através de um livro, filme, quadro ou canção etc.

Nada disso pode ser substituído por outra coisa ou outro ser, embora, a cada dia, a estrutura do mundo nos diga o contrário. E o fato de, na farmácia, hoje, ao comprar um remédio, me dar conta de que é dia 29 de agosto, aniversário de minha mãe, me assegura de que ainda não me deixei anular de todo. Que há algo ainda de genuíno e humano dentro de mim. Que ainda não sou como "eles". Sejam "eles" um grupo preciso ou Legião ou só o "sistema", que falha quando quer, e nada se pode fazer.

A verdade é que o aniversário de qualquer pessoa é tão importante quanto a mais importante das datas históricas. Obviamente que há pessoas desprezíveis e inúteis no mundo, e conheço algumas, mas mesmo estas preenchem, em algum momento de suas vidas, o pensamento afetivo de alguém, e isto constitui uma das justificativas para a celebração da vida.

Esta existência entre enganadores e ladrões não vale que nos esqueçamos disso. Eles também foram crianças, filhos e talvez sejam pais, tios, avós e tenham seus amigos. Compõem, em suma, um grãozinho de poeira do Universo e vão, como eu, desaparecer um dia, tornar-se ou não uma imagem benigna no pensamento de alguém, a exemplo de minha mãe.

8 comentários:

Patrícia Borges disse...

Belo texto, Mayrant! Força, sempre!!! Sei que a saudade será eterna! Abraços meu, de Anderson e da pequena Maria Júlia!

Carlos Vilarinho disse...

É, rapaz, meu pai me faz uma falta danada. Homenageie na capa de um dos meus livros e mesmo assim falta algo. Forza, hombre.

Lidi disse...

Belíssimo texto, meu amigo. Sem dúvida, você não é como "eles". Você é uma pessoa ímpar, pela qual Dona Zezé devia sentir muito orgulho. Onde quer que esteja, ela deve estar feliz com as suas palavras, sua homenagem. Um forte abraço.

MV Borgón disse...

Bela homenagem, Gallo! Esta sensibilidade, apesar da brutalidade atual reinante, não se deve perder. Abraço!

Marcus Sub

Vanessa da Mata disse...

Uma linda homenagem, Mayrant! E sua mãe, com certeza, estará feliz em recebê-la na sua nova morada. Um abraço!

Mirdad disse...

"A verdade é que o aniversário de qualquer pessoa é tão importante quanto a mais importante das datas históricas."

Força, meu amigo! Grande abraço!

Ilana disse...

Belo texto tio!
Grande beijo!

Mônica Menezes disse...

Mayrant, te ler sempre um conforto. Percebo que há, ainda, beleza no mundo. Abraços