"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU E RICARDO, DETETIVES

15. O engano

Corria. Corria. Às vezes parava e, detrás de um poste ou de uma parede, revidava os tiros. Não saberia dizer se acertou alguém, não viu cair nenhum de seus perseguidores.
Atravessou a linha do trem, entrou pelo mato, chegou a um muro – e foi então que sentiu a picada, só isso, uma picada, seguida de uma expansão quente, e de uma sucessão de imagens, intercaladas pela fisionomia irreal daqueles dois policiais que o perseguiam.
Nem percebeu que estava no chão, imóvel. Ouviu passos, gritos de que estava caído, alvejado e:
– Esta morrendo... – disse o policial mais velho.
– É – resmungou o outro, que – lembrou de repente – chamava-se Ricardo da Luz.
A primeira mulher que amou. O rosto de sua mãe. O quarto onde se escondia com seus gibis. Ondas. Pipas. A fanfarra de pombos diante do Elevador Lacerda... O coelho de sua irmã. Morto.
O nada. A sensação inequívoca de estar nascendo.


Mais amanhã. Foto: Marcelo Reis, do livro Etnologia da solidão (2006).

3 comentários:

Silvestre Gavinha disse...

Essa noite foi pródiga.
Esse episódio está simplesmente MARAVILHOSO.

Mayrant, postei o livro apenas ontem. Eu e minhas atrapalhações e correrias, também às voltas com esses anjos, no sentido contrário do teu.

Cheguei em casa e estava lá o teu pequenino e lindo. Ainda não comecei a lê-lo.
Preciso de um crime imperfeito e merecedor da perpétua.
Quem sabe assim consiga ler. Pelo menos metade do que gostaria.
O teu pequenino já passeia comigo.
Grande abraço meu amigo.
E obrigada mais uma vez.
Marie

Renata Belmonte disse...

Tenho acompanhado os detetives e achei esse episódio sensacional!
Abraços,
Renata

Mônica Menezes disse...

Esse foi o meu preferido, Mayrant. Maravilhoso. Abraços.