"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU E RICARDO, DETETIVES

11. Acordo noturno

Nicolau e Ricardo voltavam de madrugada pela estrada deserta. Ricardo dirigia sonolento, enquanto Nicolau fazia o impossível para manter o parceiro acordado. Na escuridão em volta, só raramente uma luz cortava o céu, sem que os dois a percebessem nem fizessem qualquer pedido – não eram mais crianças, não se deixavam iludir. A única estação de rádio cujo sinal chegava até eles acabara de sair do ar. Nicolau consultou o relógio, e foi neste precioso momento que avistaram a mulher, mas era impossível parar... O baque, mais físico que auditivo, os fez estremecer: BRONC! Desceram e comprovaram que a vítima estava no fim, morrendo, que não havia nada que pudesse amenizar seu sofrimento, nem o deles. Então voltaram ao carro e foram embora. Mais adiante, um grave acidente – do qual não se viam senão os veículos, com os faróis ainda acesos, emborcados no acostamento – justificava a atitude da mulher lá atrás, a caminhar tonta pelo meio da pista. Eles prosseguiram velozes, sem se voltar, e nunca mais falaram daquele episódio. Por mais de um mês, nenhum dos dois abriu os jornais.


Mais amanhã. Imagem: cartaz "eslavo" do filme Wild at heart (1990), de David Lynch.

2 comentários:

Silvestre Gavinha disse...

Este episódio está especial. Os dois amigos confrontan-se com a morte, servindo-a.
Muito, muito!!!!
Marie

Emmanuel Mirdad disse...

Quem não faria isto?