"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

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segunda-feira, 27 de julho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 10: Greene

Capa: Eugênio Hirsch.
"Uma história não tem princípio nem fim: alguém escolhe um determinado momento vivido e dele parte numa recapitulação ou narrativa. Digo 'alguém escolhe', com o impreciso orgulho de um autor profissional que, mesmo sem ter sido especialmente notado, recebeu elogios pela sua habilidade técnica. Mas serei eu realmente quem escolheu aquela escura, úmida noite de janeiro, em 1946, com a visão de Henry Miles atravessando obliquamente uma espessa cortina de chuva, ou serei eu o escolhido por estas imagens? De acordo com o meu código de ofício, é conveniente e certo começar aí, mas, se naquela ocasião eu acreditasse em algum Deus, acreditaria também em sua mão invisível, conduzindo-me e sugerindo: 'Fale com ele; ele ainda não o viu'."

GREENE, Graham. O crepúsculo de um romance. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964. Tradução de Branca Maria de Queiroz Costa. 222p.

ESTILO. Quem escreve a história? O narrador, talvez? Ou será que é a própria história que se inscreve através do narrador, rebaixado este a simples veículo através do qual a trama se constrói? E o cenário, o personagem, quem os coloca ali? Num parágrafo misterioso e refinado, o autor dá início a uma de suas melhores histórias, um romance genuíno, que mistura os gêneros narrativos, diversifica o registro de linguagem e impõe ao leitor reflexões profundas, sem jamais entediá-lo.

sábado, 10 de maio de 2014

LEITURAS, 48: O AMERICANO TRANQUILO

Um triângulo amoroso, em meio a um triângulo geopolítico e profético, que antecipou os horrores que a presença dos americanos no Vietnam causou, em feridas que jamais cicatrizariam, nos dois lados, e em imagens que mesmo hoje impressionam.

Publicado em 1955, o romance de Graham Greene, que não fazia distinção de valor entre a alta literatura e a ficção ligeira, e bem sabia misturá-las numa síntese que bem poucos conseguem com eficiência (talvez tão somente Georges Simenon, Elmore Leonard, Raymond Chandler e Fernando Sabino), O americano tranquilo é um dos mais perenes romances escritos no século XX. Enquanto obras mais pretensiosas seguem um curso cujo destino é o limbo das estantes de referência de época ou o esquecimento, o romance de Greene mantém seu frescor e é, ainda, uma dura reflexão sobre os governos instaurados à força e sobre o amor, que não consegue se impor contra os apelos monetários e de poder, o que obriga que, diante de um dilema amoroso, faça-se a escolha mais racional e que prescinde dos sentimentos em favor da segurança financeira.
 
Pyle, o ingênuo, Fowler, o desencantado, e Phuong, a bela, entrelaçados em seus destinos, permitem que compreendamos, com profundidade e proveito, não somente os meandros políticos, mas especialmente esta máxima: não devemos nos curvar perante as exigências que o contexto histórico nos impõe. A guerra faz suas vítimas em derredor, mas o amor dá a sua resposta. Se "O sofrimento não aumenta com o número: um corpo pode conter todo o sofrimento que o mundo é capaz de sentir", igualmente pode-se afirmar que este mesmo corpo ou corpos em união reúnem todos aqueles sentimentos que a guerra suprime ou faz parecer que são vulgares. É a guerra a suprema vulgaridade. É o jogo político, que perverte as pessoas, a suprema infâmia.

Romance recheado de reflexões profundas e que persistem à devastação do tempo, e, no entanto, também uma narrativa fluente e hipnotizante, capaz de nos manter acordados ao longo das madrugadas, O americano tranquilo estabelece no leitor uma determinante mudança, pois nos ensina que "quando você foge para um deserto, o silêncio grita em sua orelha". Que ouçamos, portanto, a voz de Graham Greene. Suas palavras e sua visão de mundo, ao mesmo tempo implacáveis e refinadas estilisticamente, podem sim nos fazer despertar e atravessar, incólumes, o deserto. Ou a multidão, embotada e feérica.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

FIM DE CASO

O livro Fim de caso, de Graham Greene, distende ao máximo a ideia de que o romance é um gênero informe. Neste agrupador de gêneros e formas, tudo é possível, e suas páginas comportam todas as linguagens, além de permitir o máximo de variação estrutural, externa e internamente, e aceitar todo tipo de experiência estética.
Fiel a essa definição, o autor desenvolve uma trama que principia com uma ressalva do narrador à forma como as histórias se iniciam: as escolhas feitas, o mundo em que os personagens vão transitar, as circunstâncias históricas, a atmosfera. Continua como se fosse uma narrativa noire, numa imersão de mistério e enigma; ganha um inesperado sopro com um episódio de guerra, no qual um juramento religioso é acionado e que, doravante, vai mudar a existência dos personagens, conduzindo uma mulher à morte prematura, pelo descaso consigo mesma e pela ausência forçada de seu amante, e dois homens a uma união de amizade cujo núcleo é aquela mulher, amada por ambos. Depois a trama se torna policialesca, com o aparecimento de um detetive particular nada ortodoxo, e por fim adquire significado religioso, com o requinte de deixar em aberto a possibilidade de ter ocorrido um milagre.
E costurando tudo isso o estilo altamente sedutor de Graham Greene, capaz de nos submergir em análises profundas sobre a vida e o mundo, sem que isso implique uma linguagem enfadonha ou panfletária. Ou seja: um romance completo. Não é à toa que Faulkner, que não era dado a elogiar autores contemporâneos, declarou seu entusiasmo e apreço por este livro. Um clássico moderno.
A primeira tradução deste romance no Brasil recebeu um curioso título: Crepúsculo de um romance. Sem dúvida muito mais poético, mas infiel ao original em inglês, mais seco.
As duas versões cinematográficas, embora bonitas e profissionais, não conseguem empolgar o espectador: a primeira (Pelo amor de meu amor, 1955), com Deborah Kerr, enfatiza o caráter religioso do relato, em detrimento da relação entre os amantes, quase sob as barbas do marido; a segunda (Fim de caso, 1999), dirigida pelo sempre decepcionante Neil Jordan, e talvez porque seja muito pretensiosa, dilui o peso da narrativa numa sucessão de quadros exóticos cuja maior atração é a fotografia, escura e difusa.
Já o livro, bem, ele como que nos arrebata e derruba, deixando-nos desde o início com a sensação de que estamos diante de uma joia rara. E estamos.*

*Agradeço a Lidiane Nunes, que me sugeriu fazer uma breve resenha deste romance, do qual somos entusiasmados admiradores.