"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 10 de maio de 2014

LEITURAS, 48: O AMERICANO TRANQUILO

Um triângulo amoroso, em meio a um triângulo geopolítico e profético, que antecipou os horrores que a presença dos americanos no Vietnam causou, em feridas que jamais cicatrizariam, nos dois lados, e em imagens que mesmo hoje impressionam.

Publicado em 1955, o romance de Graham Greene, que não fazia distinção de valor entre a alta literatura e a ficção ligeira, e bem sabia misturá-las numa síntese que bem poucos conseguem com eficiência (talvez tão somente Georges Simenon, Elmore Leonard, Raymond Chandler e Fernando Sabino), O americano tranquilo é um dos mais perenes romances escritos no século XX. Enquanto obras mais pretensiosas seguem um curso cujo destino é o limbo das estantes de referência de época ou o esquecimento, o romance de Greene mantém seu frescor e é, ainda, uma dura reflexão sobre os governos instaurados à força e sobre o amor, que não consegue se impor contra os apelos monetários e de poder, o que obriga que, diante de um dilema amoroso, faça-se a escolha mais racional e que prescinde dos sentimentos em favor da segurança financeira.
 
Pyle, o ingênuo, Fowler, o desencantado, e Phuong, a bela, entrelaçados em seus destinos, permitem que compreendamos, com profundidade e proveito, não somente os meandros políticos, mas especialmente esta máxima: não devemos nos curvar perante as exigências que o contexto histórico nos impõe. A guerra faz suas vítimas em derredor, mas o amor dá a sua resposta. Se "O sofrimento não aumenta com o número: um corpo pode conter todo o sofrimento que o mundo é capaz de sentir", igualmente pode-se afirmar que este mesmo corpo ou corpos em união reúnem todos aqueles sentimentos que a guerra suprime ou faz parecer que são vulgares. É a guerra a suprema vulgaridade. É o jogo político, que perverte as pessoas, a suprema infâmia.

Romance recheado de reflexões profundas e que persistem à devastação do tempo, e, no entanto, também uma narrativa fluente e hipnotizante, capaz de nos manter acordados ao longo das madrugadas, O americano tranquilo estabelece no leitor uma determinante mudança, pois nos ensina que "quando você foge para um deserto, o silêncio grita em sua orelha". Que ouçamos, portanto, a voz de Graham Greene. Suas palavras e sua visão de mundo, ao mesmo tempo implacáveis e refinadas estilisticamente, podem sim nos fazer despertar e atravessar, incólumes, o deserto. Ou a multidão, embotada e feérica.

Um comentário:

On The Rocks. disse...

Mayrant,

Fico contente quando vejo que blogs tão bons como o seu ainda existem. É sério. Quando eu criei os meus em 2008, época boa em quantidade e qualidade de blogs, vivia lendo vários. De uns tempos pra cá, tenho percebido que muitos desses blogs que eu tanto gostava de ler, não existem mais. Os meus continuam; não me vejo sem eles - minhas válvulas de escape.
Hoje eu dei um giro pela blogosfera e li alguns que ainda valem a pena serem lidos; como este seu. Valeu.

Grande abraço,

Buenas.