"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 9 de agosto de 2015

Poeta-Poema, 66: Guilherme de Almeida

A arte da pintora brasileira Georgina de Albuquerque (1885-1962).
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

RUA

A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.

A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
onívoro esôfago.

A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.

A rua dejeta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.

GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969). Poeta brasileiro, nascido em Campinas, SP. De formação romântico-simbolista, migrou para uma poesia de tom mais moderno, por sugestão da Semana de 22. Constitucionalista convicto, esteve na Revolução de 32, como soldado raso, e por isso acabou exilado em Portugal. Cotidianamente, era um sujeito simples, ocupando a função de secretário numa escola de subúrbio. Eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, em 1959. Uma boa seleção de sua poesia está em Melhores poemas: Guilherme de Almeida (Global, 2001).

Um comentário:

Alessandra Lima disse...

Belo poema e bela pintura!