"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 10 de novembro de 2013

AS PÉROLAS DA SECULT-BA

Capa e contracapa: projeto gráfico da P55.
Abri o livro Autores baianos: um panorama (Secult-BA & P55, 2013), organizado para aumentar o leque de autores baianos "presentes" em Frankfurt, com o coração livre, mas os sentidos aguçados. Como, aliás, faço com qualquer livro que começo a ler. Mas, já nos primeiros textos institucionais, me deparei com tantas "pérolas", que não resisti a fazer uma breve seleta do que li. E foi inevitável que, durante o curso da operação, eu me lembrasse de uma conferência municipal de cultura a que compareci, em Irará, em 2009. Na mesa oficial, encabeçada pelo ex-secretário Márcio Meirelles, não foram poucas as pérolas entregues aos porcos, na plateia. A mais sofisticada de todas procedeu dos lábios, e da mente arguta, de um dos políticos locais: "Cultura é cultura". Houve ainda esta, do chefe da mesa: "Se vocês fizerem uma abundância de silêncio, posso continuar o meu discurso".
 
Mas vamos às pérolas prometidas, começando pelas do eminente secretário de cultura Albino Rubim:
 
1) "Com estas ações, a Secretária de Cultura busca contribuir para a internacionalização da cultura da Bahia e, em especial, para o estabelecimento de novos diálogos interculturais, tão vitais para a cultura".
 
2)"Tais relações interculturais, nacionais e internacionais, por óbvio, pressupõem a afirmação da singularidade da cultura baiana e a relevância da nossa identidade cultural. A rigor, sem estes reconhecimentos, não pode haver uma verdadeira troca cultural, pois ela implica sempre em um encontro entre culturas que se (re)conheçam e respeitem como movimentos relevantes. Sem isto, em lugar de trocas, emergem imposições, dominações e imperialismos culturais."
 
3) "Nesta perspectiva, os diálogos interculturais adquirem um papel essencial para a vida cultural em uma contemporaneidade cada vez mais glocalizada (sic)".
 
Bem, já temos uma amostra suficiente que marca um discurso vazio e tautológico. As palavras "cultura", "intercultural" e "cultural" esvaziam-se de sentido pela repetição e acabam por determinar a incapacidade do autor em ser mais claro e, talvez, de se aprofundar em sua matéria, na qual, se pressupõe, ele seja especialista. Na verdade, ele está embromando, no texto e a todos nós. Numa apresentação de nove parágrafos, apenas em um ele não usa, abundantemente, estas palavras. E é exatamente naquele em que revela, para a minha surpresa, e talvez de muitos, que os autores arrolados no livro o foram, também, pelos "perfis" que possuem. Ou seja, não prevaleceu a relevância estética, se é que, aos olhos do secretário, algum daqueles autores a possui. A esse propósito, cabe citar aqui a fala de um escritor baiano, que, ao saber dos escolhidos, disse: "Eu diminuiria a massa de texto de cada um e aumentaria o arco de autores. Incluiria Antônio Brasileiro, Adelmo Oliveira, José Inácio Vieira de Melo, Carlos Barbosa, Lita Passos, Elieser Cesar, Renata Belmonte, Luís Pimentel, Antônio Barreto, Wladimir Cazé, Nádia São Paulo, Sandro Ornelas e alguns outros. Chegaria a trinta autores. Pecaria antes pelo excesso que pela falta". Mas a verdade é que não houve pesquisa: os próprios autores selecionaram seus textos, os próprios autores redigiram suas biografias. É um livro cujo mérito é dos autores, de ninguém mais. Fica fácil organizar o que quer que seja assim.
 
Encerremos, portanto, com mais algumas pérolas, agora dos colaboradores do secretário:
 
4) "Publicar, traduzir e difundir são passos fundamentais para a internacionalização das políticas públicas para o livro, leitura (sic) e literatura". Ou seja: o propósito é divulgar as "políticas públicas", os autores foram apenas "um modo se usar". Bem dizia Octavio Paz que as palavras dizem mais do que seus autores pretendiam.
 
5) "São literaturas que podem estar configuradas em diferentes tempos num mesmo momento, o presente".  Ah, configuradas... A informática fornece, mesmo, um ótimo vocabulário para se aplicar à cultura e à literatura. Um vocabulário rarefeito.
 
6) "A capoeira, a culinária, o candomblé e o carnaval são as mais especuladas características desta terra, mas há uma Bahia contemporânea desconhecida para muitos". Sem dúvida, inclusive para quem disse isto, pois a capoeira, a culinária, o candomblé e o carnaval não são "características", são manifestações culturais. E o secretário gastando tanta "cultura"...
 
Um amigo costuma dizer que uma das frases mais criativas que ele leu em pichação de muro foi: "Em terra de olho, quem tem um cego, errei". A minha preferida é esta tabuleta, que eu lia e relia, na porta de uma granja, no Rio de Janeiro, sempre que voltava da escola: "Temos frangos abatidos vivos". Pois bem, os escritores baianos, e talvez os leitores baianos, "estão sendo abatidos vivos" por uma secretaria de cultura que tem em seu comando um cego, que jamais dirá: "Errei".

5 comentários:

Renata Belmonte disse...

Que vergonha alheia! rs
Grande abraço, Mayrant!

Carlos Vilarinho disse...

rs...ehehehe...

Carlos Vilarinho disse...

rsrsrsrs...eheheheh

Ianice disse...

É hilário, só que triste para a minha Bahia!!

Ribeiro Pedreira disse...

e como sabiamente previu Arnaldo Antunes:

"bactérias no meio é cultura"