"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 6 de agosto de 2013

LEITURAS, 33: ARTE DO ROMANCE

A capa forja o livro dentro do livro.
Dois escritores franceses são convidados pela embaixada da França a ir ao Cairo, no Egito, participar de algumas atividades literárias. Lá, se misturam às pessoas, vivem o cotidiano noturno da cidade (em nada parecido com o do Ocidente), enchem a cara, envolvem-se numa disputa amorosa, encetam um debate sobre religião e, enfim, mais experientes como homens e escritores, voltam a Paris. Depois de um tempo, um dos autores recebe pelo correio o exemplar de um romance que narra a história vivida por eles durante aquela temporada no Egito. Supostamente o autor é o outro escritor, escamoteado sob um pseudônimo. Ou talvez a bela e intrigante Lamia, pivô dos interesses amorosos de ambos lá no Cairo. O livro, tão logo chega às livrarias, ecoa como uma bomba na imprensa francesa, por causa do seu ataque ao islamismo. Tal argumento, cheio de peripécias, é só um pretexto para Florian Zeller escrever um romance cujo propósito é refletir sobre o papel do escritor na sociedade, seu compromisso com a verdade e seu direito de romancear qualquer acontecimento, seja ele de que natureza for. Com A fascinação pelo pior (Rio de Janeiro: Rocco, 2008), obra elegantemente bem escrita (uma característica da ficção francesa contemporânea), Zeller propõe que a literatura, e em especial o romance, é o lugar da liberdade, a única modalidade de texto em que tudo pode ser dito e que é um erro da parte dos leitores supor que a ficção constitui um espelho do pensamento e da personalidade do autor. Bem, às vezes isso pode ocorrer: há os que insistem, depois de tudo, em repetir a si mesmo, e ainda mais hoje, quando se cobra do autor engajamento com as causas mais bizarras e uma postura politicamente correta que beira o delírio. Mas, em geral, o que o autor representa num romance é uma verdade possível, não a Verdade, e sua permanência e efeito reais terminam quando fechamos a obra. No rastro de Milan Kundera, Zeller afirma que o romance é uma arte "incompatível com qualquer espírito religioso, pois ela é, essencialmente, uma profanação. O romance torna intangível tudo aquilo que ele mesmo toca e que remete, assim, à ambiguidade moral do homem e à relativização fundamental das coisas. Aqueles que acreditam ser os donos da verdade e que não admitem contestações sentem-se, portanto, diretamente ameaçados pela arte do romance. Por isso têm um interesse cruel na sua destruição. Através de Rushdie, o que o imã queria eliminar era a própria arte do romance como um todo".

2 comentários:

Mirdad disse...

Valeu pela dica, Mayrant! Aqui, a minha dica: http://elmirdad.blogspot.com.br/2013/08/pilulas-como-ficar-sozinho-de-jonathan.html

Mirdad disse...

Cidade Singular foi pilulado: http://elmirdad.blogspot.com.br/2013/08/pilulas-cidade-singular-de-mayrant-gallo.html