"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

LEITURAS, 10: COLEÇÃO MISTÉRIO

Vivemos hoje um frenesi pela literatura fantástica, muito embora tal interesse fique restrito quase que exclusivamente às histórias de vampiros e de fantasmas. O fantástico mais sutil e irônico, de Borges, Rulfo, Buzzati, Fuentes, Machado de Assis, Tchekov, Maupassant, Edgard Allan Poe, Oscar Wilde, Gauthier, Kafka, Murilo Rubião, J. J. Veiga e Victor Giudice, permanece cativo de uma fatia específica de leitores, talvez mais refinados. Há ainda os autores esquecidos ou em via de completo desaparecimento, como Saki e W. W. Jacobs, autor do célebre conto A pata do macaco. Seria proveitoso para os leitores mais jovens se uma editora brasileira criasse uma coleção de literatura fantástica que resgatasse esses autores em antologias ou reedições populares, em formato bolso, de algumas de suas principais obras no gênero. Isso já foi feito no Brasil, sem muito êxito ou êxito moderado, e em Portugal, com sucesso. Em solo luso, a Editora Estampa incluiu na coleção Livro B um elenco fortíssimo de autores fantásticos, entre os quais Charles Nodier, Léon Bloy, Ambrose Bierce, Jean Potocki, Nerval, Lovecraft, Balzac, Gauthier, Henry James, Horace Walpole, Fitz James O'Brien, Remy de Gourmont, Marcel Schwob, Hoffmann e Paul Féval. Dos anos 1990 para cá, no Brasil, afora as antologias, das quais a mais popular é a de Flávio Moreira da Costa, Os melhores contos fantásticos (Nova Fronteira, 2006), e a mais criativa a de Bráulio Tavares, Contos fantásticos no labirinto de Borges (Casa da Palavra, 2005), tivemos algumas tentativas mal sucedidas de coleções do gênero. Uma das mais importantes foi a da editora paulista Marco Zero. Em 1994, seus editores projetaram e trouxeram a público a Coleção Mistério. Foram programados cinco títulos, mas acredito que o volume Monsieur Maurice, de Amelia B. Edwards, não chegou a ser publicado, pois jamais o encontrei, nem conheço ninguém que o tenha lido ou o possua. A coleção iniciou-se com O amante fantasma, de Vernon Lee, seguindo-se A casa desabitada, de J. H. Riddell, O fantasma dos Guirs, de Charles Willing Beale, e A bruxa âmbar, de Wilhelm Meinhold, que tem uma história curiosa: tornou-se um livro maldito, porque, uma vez que forjava na sua estrutura um documento histórico do século XII, não foi aceito como ficção, mas como verdade, tanto pelos leitores quanto pela Igreja, que o repudiou. Percebe-se que a coleção enfatizava os tradicionais relatos de fantasma, mas pretendia migrar para outros campos do fantástico, pois, de súbito, desviou-se para a bruxaria com o livro de Meinhold. Outra evidência é o questionário que a editora colocou no volume de Beale, para que o leitor preenchesse e postasse. A questão 7 diz: "A coleção tem cinco livros previstos. Você gostaria que tivesse mais?" Pelo ocorrido, bem poucos se manifestaram favoravelmente, e a coleção gorou.

3 comentários:

dade amorim disse...

Inteiramente de acordo, amigo Mayrant. Sou uma fã incondicional desse fantástico "mais sutil e irônico", como você diz, e acho vampiros (que não o clássico) e violência em nome do terror - com licença da palavra - um saco.

Ótimo ano novo pra você, paz e realizações.

Abraço.

Ricardo Thadeu disse...

Ando lendo uma antologia de contos de Edgar Allan Poe. BestBolso. Concordo com vc, deveriam lançar mais desses caras nesse formato.

Feliz ano novo.
¡Hasta luego!

Georgio Rios disse...

È isso ai, sentimos falta destes livros sim meu caro.Porém somos poucos e a lógica mercadológica por vezes nos engole, ai temos que aturar crepusculos& cia. Mais vamos tocer para que isso mude em breve.