"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 7 de abril de 2015

LA ROCHELLE E O BRASIL

Um dos raros livros de La Rochelle no Brasil.
No último dia 15 de março, completaram-se 70 anos desde que Pierre Drieu La Rochelle se suicidou. Não suportou a carga do mundo e, fiel a si mesmo, preferiu se matar. Partiu sozinho, com sua dor, seu desencanto e suas convicções.
 
O Brasil é, sem dúvida, um lugar porco. Para qualquer lado que se olhe há um inimigo, alguém que deseja ou algo que nos pertence ou algum prestígio mínimo que tenhamos alcançado. E a todo momento somos julgados pelo que não somos, ou por não concordarmos, ou porque não nos curvamos. Possuir ideias próprias no Brasil, atualmente, é quase uma heresia ou uma ofensa. Devemos abdicar de pensar, devemos abjurar nossa opinião.
 
Eu tinha a esperança de que um dia o voto seria facultativo. Mas, de uns tempos para cá, tenho pensado que virá o dia em que os partidos nos empurrarão como gado para as urnas, como têm empurrado os bobocas para as ruas, nas contrapasseatas. Estamos a caminho de nos tornarmos uma Venezuela, onde a oposição é pró-forma, uma simples formalidade. E é inacreditável que tanto aconteça, e o Governo brasileiro continue com sua lenga-lenga, suas histórias da carochinha.
 
Hoje, o novo Ministro da Educação, que, sabemos de antemão não fará nada e, se fizer, será dispensado, apareceu na tevê diante de uma parede que trazia o seguinte slogan: "Brasil, pátria educadora". Fiquei perplexo, porque, se somos alguma coisa, não é isso que somos. Não damos a mínima para a educação. As prefeituras em geral a desprezam, os estados igualmente, o país ainda mais. As escolas, a rigor, também são uma simples formalidade. Estão onde estão porque é preciso estar, mas dia virá em que nos convencerão de que não servem para nada e então também vão suprimi-las, com nosso consentimento. Bem como as bibliotecas públicas, o livro e demais acessórios.
 
O ministro da educação, só uma engrenagem da farsa.
O Governador do Estado da Bahia, o famigerado Sr. Rui Costa, se orgulha de dizer na tevê que colocou 66 milhões de reais no Carnaval de Salvador, enquanto isso a Sra. Dilma suprime 15 milhões da verba da USP... E este é só um exemplo, ínfimo. Se formos arrolar de norte a sul, de leste a oeste o que acontece, ficaríamos enfarados ao descobrirmos que esta é a regra geral. E que o mesmo se dá na saúde pública. E em vários outros setores. Roubaram durante anos a Petrobras, e agora, que a empresa está agonizando, pedem dinheiro emprestado à China. Ora, pedissem também dinheiro para a educação, para a saúde... Muito embora não saibamos o que a China vai levar mais tarde. Ninguém empresta dinheiro por nada em troca. E ainda mais um país. Alguma coisa eles vão levar daqui. Bom seria se levassem três terços dos nossos políticos.
 
Mas o leitor deve estar se perguntando o que tem a ver a desastrosa realidade brasileira com os 70 anos da morte de La Rochelle. Nada e tudo. Compara-se um abacaxi tanto com uma laranja quanto com um parafuso. Tudo no mundo se relaciona por semelhanças e diferenças. E é isso que a Educação nos faz ver. E é isso que esse governozinho que arrumaram para o Brasil não nos permite enxergar. Ele é diferente e é igual. Faz o novo e o mesmo. Parece erguer, mas faz desabar. Parece construir, mas corrói. Diferenças e semelhanças que, na balança histórica do Brasil canalha, acabam se equivalendo.
 
O fato de La Rochelle ser hoje um autor praticamente esquecido, cujas obras são difíceis de encontrar tanto em novas edições quanto nas antigas, confinadas aos sebos, está diretamente associado ao destino que ele se impôs. É o mesmo que o Brasil está fazendo. Mas La Rochelle era um, e ainda mais um artista, um escritor. Sabia ele que só ele seria punido. O Brasil é um país. Muitos serão punidos, inevitavelmente, pela realidade que estamos vivendo. E é sempre tarde "voltar atrás" de um suicídio. 

4 comentários:

Carlos Vilarinho disse...

Compartilhei. Esse texto tem que rodar e muito.

Araken Vaz Galvão disse...

Contundente, forte (até certo ponto amargurado, além de revoltado), mas, sobretudo, repleto de verdade e muito bem escrito, como é característico do autor.

Alessandra Lima disse...

O governo ainda tem a cara-de-pau de colocar na sua logomarca o lema "Brasil, pátria educadora". E a Educação teve um corte de 7 bilhões...

MV Borgón disse...

O mais triste é perceber que esse texto pode ser deslocado para o passado, não muito distante, que continua pertinente. E é provável que, daqui a alguns anos, continue sendo. Impossível ser otimista diante do quadro que se apresenta. A maioria desses que saem bovinamente às ruas clama por retrocesso. A oposição oferece uma agenda ainda mais sombria. E meu pessimismo só aumenta. Entendo perfeitamente quem pede pra descer do ônibus da vida.
Parabéns belo texto, Gallo!