"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

ERIC ROHMER

Vivemos numa época de insaciável interesse pela vida alheia. Mas, se antes fazíamos isso com o propósito de ter um exemplo elevado a ser seguido, e foi esta avidez que transformou a biografia num gênero literário, agora o objetivo é tão-somente reunir matéria jocosa para alimentar o forno da fofoca.
É óbvio, portanto, que para o nosso tempo o que Cristiano Ronaldo ou Beyoncé comeram no café da manhã é muito mais importante como notícia que a morte de um cineasta francês com mais de oitenta anos e que, além disso, a vida inteira filmou em surdina, sem estardalhaço; e ainda mais se aqueles dois estiveram na mesma cama...
Para o cinema de arte, a perda de Eric Rohmer (1920-2010) não é pequena. Ele foi o sul e o norte de muitos cineastas, e continuava a produzir adeptos. Foi uma fração de sol num campo gelado. Uma trilha a seguir e um estilo a celebrar. Era um dos últimos diretores franceses oriundos daquela genial geração dos anos 1950, e era também o mais discreto e seguramente um dos mais corajosos. Não fez concessões de nenhuma natureza, não adaptou seu estilo às exigências de momento, nem mudou suas escolhas e predileções em favor da celebridade. Encheu-se de palavras para a veneração de poucos e um respeito mútuo, pois não há este crítico que, diante de seus filmes, não apascente sua fera. Pode até não o admirar, mas não o desdenha. Rohmer seguiu como começou e findou-se como no início, esmiuçando a vida.
Costumo dizer aos amigos que o cinema atual, especialmente o de entretenimento, está mais pautado no diálogo que nas imagens, a não ser que o astro do filme seja a máquina de efeitos especiais. Neste caso, a ação ganha vulto e praticamente movimenta todo o filme. Pode parecer paradoxal o que digo, mas Rohmer baseava suas narrativas em três aspectos: o diálogo, a movimentação constante dos personagens e o exame das relações cotidianas mais banais. Nele, contudo, diferentemente dos filmes de massa, o diálogo não é vazio ou funcional, para o esclarecimento da platéia; nem a movimentação um recurso da ação, que mantém o público vidrado; tampouco as relações cotidianas se resumem a seções laboratoriais de tipos, com vistas a promover na sociedade, panfletariamente, convenientes mudanças de comportamento. Em Rohmer, o diálogo é a vida do filme; a movimentação, o que faz a trama avançar no tempo e no espaço; e as relações cotidianas, a matéria que permite o exame minucioso da condição humana. E tudo isso sem nenhuma pretensão, com uma simplicidade quase franciscana.
A experiência de assistir a um filme de Rohmer é alcançar a certeza de que para ser profundo e perene um filme não precisa ser monótono nem intrincado. Rohmer, como Truffaut, conta-nos histórias simples que nos conduzem à iluminação e à compreensão de certos segredos e mistérios, que são tão evidentes quanto o céu sobre nossas cabeças, mas que, por ingenuidade ou ponto de vista obliterado, não os enxergamos.
Um dos maiores exemplos está em Conto de verão: durante a estação de veraneio que passa numa praia, um rapaz se envolve com três garotas. Indeciso, hesitante, pois as três o atraem e cada uma apresenta um predicado que as outras não possuem, ele não sabe a quem escolher e nem imagina que sua decisão partirá da vida, com seu inevitável fluxo, a nos conduzir como a uma folha seca na correnteza. Sua decisão será, portanto, incidental. Rohmer usa o deus ex machina, mas não como um recurso artificial, evidente, que de imediato o espectador percebe. Ele é sutil, porque é simples, e é simples porque é natural, não inventa. Seu refinamento está nisso. Arte destituída do rigor da palavra arte.
Rohmer se foi, mas ficaram seus filmes, exemplos de beleza estética, de narrativa sem pretensão, de profundidade sem monotonia e de uma simplicidade técnica que só os grandes artistas alcançam.

2 comentários:

Anônimo disse...

Asseguro Rohmer entre os cineastas de minha predileção. Se há um arrependimento, é tê-lo descoberto tardiamente. Mas é assim mesmo, cedo para mim sempre é tarde. No mais, belo texto. Aquele abraço.

HNETO disse...

Cineasta e crítico fabuloso
a nouvelle vague lamenta
mais uma perda, mas sua obra
não carece de lamentações.