"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 29 de agosto de 2009

ETNOCENTRISMO: AMY FOSTER

Um náufrago chega às praias de Colebrook, na costa da Inglaterra. Como não fala sequer uma palavra em inglês, pois nasceu num inominado país do Leste europeu, de onde partiu em busca de uma vida melhor na América, é considerado um maluco e recolhido ao depósito de madeira do Sr. Smith, cuja mulher, só de ver o estranho, ficou histérica. Mais tarde, já relativamente adaptado ao lugar, e namorando Amy Foster, o homem tenta levar uma vida normal, mas é impossível: não fala inglês, que não consegue aprender, canta nas tabernas músicas que ninguém conhece, dança de maneira insólita (batendo os tornozelos, estalando os dedos, acocorando-se e esticando uma das pernas), e, por isso, "foi posto para fora com violência; ganhou um olho preto". Quando bem mais tarde, já casado com Amy (outra estranha, e não é por outro motivo que eles se casam, embora ela fale inglês, seja do lugar) e pai de um filho, ele fica deprimido e melancólico a ponto de adoecer, acham que ele está maquinando algo, que sua loucura chegou a outro estágio, talvez mais perigoso... Metáfora (ou alegoria) da incapacidade de se lidar com as diferenças, com o outro, este é um dos melhores e mais incisivos contos longos de Joseph Conrad (1857-1924) sobre o etnocentrismo: "Ah, ele era diferente: um coração inocente e cheio de uma boa vontade que ninguém queria, esse náufrago, que, igual a um homem transplantado para outro planeta, estava separado de seu passado por um espaço imenso, e de seu futuro, por uma imensa ignorância. Sua fala rápida, vigorosa, positivamente chocava todo mundo. 'Um demônio nervoso', era como o qualificavam". Nesta edição de 2007, pela Revan (RJ), afirma-se na orelha que esta obra de Conrad era até então inédita no Brasil. Não era. Foi publicada antes, em 1985, pela L&PM, do RS, no volume original intitulado Tufão e outras histórias, em tradução de Albino Poli Jr. Amy Foster é um grande texto de Conrad, que chega a pelo menos duas traduções de qualidade no Brasil e que deve ser lido por todas as pessoas, afinal de contas, quando não somos os outros, somos os mesmos, e vice-versa. E vale lembrar que, quando perguntaram ao francês Paul Claudel que obras de Conrad deveriam ser lidas, ele respondeu, sem hesitar: "Todas!" Ênfase que, nas palavras de seu compatriota André Gide, atinge o paroxismo: "Entre meus maiores, eu não amava nem reconhecia ninguém mais do que ele". Joseph Conrad.

2 comentários:

Palatus disse...

Caro Mayrant, deu vontade de ler só por ler tuas palavras convincentes...se não achar por aí uma das traduções, vou ver se leio em inglês pela internet. Deve-se achar para baixar!
Saudade, grande abraço.Nilson

marcelo cajui disse...

Olá Mayrant. lendo o "NÃO LEIA" tenho vontade de comprar (alugar, ou emprestar) todos os livros que você comenta e recomenda.

abraço.