"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 12 de dezembro de 2009

ENTREVISTA

Patrícia Moreira (A tarde): 1 - Você foi um dos vencedores do III Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, o que representa para você o fato de ter se destacado entre os concorrentes?

Mayrant Gallo: Foi, acredito, a legitimação de um texto, de uma ideia e de um "tour de force", pois comecei a escrever essa história em 1997 e só a terminei no início deste ano, 2009. Foram nada mais nada menos que quinze versões em doze anos.


2 - Como veio a ideia de inscrever Moinhos? Você tinha outros livros que poderia ter inscrito? Quando Moinhos foi escrito?

Simplesmente eu vinha andando pela Rua Carlos Gomes e, na esquina com a Rua do Cabeça, ouvi esta frase, que se tornou o primeiro parágrafo da novela : "A que horas o senhor volta, doutor?" Pensei então que, embora banal, cotidiana, esta frase reunia talvez um mistério ou um sofrimento. Daí por diante a história será apenas a justificativa para a existência desta frase, naquele momento e naquele lugar. Havia outros livros sim, tenho muitos engavetados, mas ao ler a proposta do Concurso percebi que Moinhos se encaixava perfeitamente, em assunto e também em forma e tamanho — pouco mais de 50 páginas.

3 - Você já foi contemplado em outras premiações?

Uma vez ganhei o primeiro lugar num concurso de roteiro de histórias em quadrinhos... Um terceiro lugar num concurso de poemas... E um poema meu foi selecionado para uma antologia do Banco de Talentos, da Febraban... Foi tudo. Raramente participo de concursos literários. Não sei se participei de 5 ao longo de toda a vida. Devo a participação, e a vitória, neste do MEC a três amigas de trabalho, que me incentivaram.

4 - O que o fato de ter vencido este concurso representa para você, além do fato de ter recebido um prêmio em dinheiro e da impressão de 300 mil exemplares da sua obra para distribuição na rede pública?

Significa o reconhecimento do "outro" por minha opção estética e minha predileção — ambas muito pessoais — por um determinado gênero de literatura. Se o júri selecionou Moinhos como útil para a formação e o deleite de um público específico, os neoleitores, isso atesta que minhas escolhas, embora idiossincráticas, não são um equívoco.

5 - Os escritores têm boas oportunidades de mostrar o seu potencial no Brasil? O que na sua opinião precisa melhorar para estimular mais o surgimento de novos escritores?

Acho que não. A leitura, e ainda mais a leitura de literatura, não faz parte do cotidiano das pessoas comuns. Ler literatura para quê? É o que muitos perguntam. Ora, ler para sair do embotamento, para ampliar nossos horizontes, para nos tornarmos melhores, nos refinarmos, para uma experiência (estética e empírica) que é aplicada diretamente à vida. Não precisamos de mais escritores; precisamos de mais leitores, e sobretudo leitores de literatura. A literatura oferece um conhecimento vasto e profundo, que amplia e multiplica o sujeito, e que nenhum outro livro é capaz de proporcionar. Uma civilização que se educa lendo literatura tem mais a dizer e diz melhor o que quer que seja.

6 - Você trabalha na Fundação Pedro Calmon e é responsável pelo setor ligado à literatura. No que esta convivência com os livros ajuda a compreender o que o leitor contemporâneo espera daqueles que têm o dom de escrever?

Não sou responsável pelo Núcleo do Livro, Leitura e Literatura da Fundação Pedro Calmon. A coordenadora do Núcleo é Lúcia Santóri-Carneiro. Trabalho com ela na elaboração de seminários de literatura e leitura, publicação e feira de livros etc. O leitor contemporâneo não deve esperar que se escreva para ele, não em literatura. Deve aproveitar o que está sendo produzido e publicado, como sempre aconteceu em todas as épocas. Literatura não é cartilha ou um manual de sobrevivência. Literatura é experiência pessoal convertida em experiência humana, geral. Os contos de Antônio Carlos Viana ou os poemas de Ruy Espinheira Filho "falam de mim e para mim" exatamente porque estão centrados em dilemas da condição humana, mexem em nossa medula, tocam na essência primordial do gênero humano, na massa de sentimentos comum a todos nós.

7 - Você acredita que esteja havendo mudanças no perfil do leitor brasileiro? O aumento do poder de compra da população em razão do crescimento econômico torna o consumo de livros um hábito cada vez mais presente na vida do brasileiro?

Obviamente estamos lendo mais, as pesquisas mostram isso, talvez até mesmo por causa do crescimento econômico e do aumento do poder de compra... Só não estamos "lendo mais literatura". E essa é uma leitura importante, transformadora, desvinculada do poder (qualquer que seja ele) e que nos apresenta a "verdadeira face do mundo". Todos os livros de auto-ajuda ou História não valem este ensinamento de Drummond: "Tudo é possível, só eu impossível". Este verso pode se converter no ponto de partida de uma nova vida ou de uma percepção mais acurada da existência e de nós mesmos.

8 - O que você quis mostrar ao escrever Moinhos?

Que a vida é cruel e injusta, mas não inteiramente.

9 - Na sua avaliação, a democratização da literatura, nos moldes do concurso Literatura para Todos é um caminho para disseminar e tornar mais conhecidos os novos autores nacionais?

Os autores se tornam conhecidos quando são lidos; se podem, potencialmente, ser lidos por 300 mil leitores, podem se tornar mais conhecidos... Mas o que são 300 mil leitores num universo de 200 milhões de habitantes? Ainda acho que a Literatura caminha, pelo menos no Brasil, para ser uma arte exótica, de iniciados. Como dizia Leminski: de produtores para produtores.

Esta entrevista, concedida à jornalista Patrícia Moreira, foi publicada em parte na edição de hoje de A tarde, no Caderno 2+, página 7. Vai aqui na íntegra e na ordem em que foi respondida.

Imagem: capa do volume Bibliomania, de Gustave Flaubert. Neste conto, que o autor teria escrito com a idade de 14 anos, inspirado num texto de Charles Nodier, narra-se a história de Giácomo, o livreiro: "Essa paixão absorveu-o completamente, mal comia, não dormia mais, sonhava porém noites e dias inteiros com sua ideia fixa: os livros".

7 comentários:

Hitch disse...

Muito que bem, respostas absolutamente polidas, precisas. Respostas já sabidas,todavia, sempre renovadas com novos saberes, novos sabores, como toda boa literatura que se preza. Barthes e Gallo estão certos. Felicitações triplicadas. Aquele abraço

Lidi disse...

Mayrant, adorei a entrevista, na verdade, uma aula de literatura e de vida. Parabéns, mais uma vez, pelo prêmio, você merece! Um abraço.

fabricio vieira disse...

Mayrant,
parabéns pelo prêmio! Muito bacana a entrevista. Quando poderemos ler o "Moinhos"?
um abraço,
Fabricio

Brontops Baruq disse...

Parabéns pelo prêmio...

Abraços

Ianice disse...

Mais uma vez, numa entrevista, ficamos inteirados do que é Literatura. Creio que todos deveriam ter acesso a esse tipo de informação. Como você mesmo diz "o que são 300.000 leitores num universo de duzentos milhões?". É Mayrant, fico aguardando a oportunidade de ler "Moinhos". Parabéns!!

Gerana Damulakis disse...

Parabéns, Mayrant!

Bárbara Jolie disse...

Professor Mayrant
Essa entrevista é uma aula!Parabéns pelo prêmio! Já estou na fila, também quero um Moinhos.
Abraços