"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 20 de junho de 2009

POEMA

NÃO BRINQUEI COM MEU CÃO

Estive cansado ontem quase todo o dia.

O corre-corre foi intenso mesmo quando estive parado.
Não pude apreciar livros nas livrarias, nem pensei em olhar
                                             [a programação de cinema.
Não brinquei com meu cão, mal beijei minha esposa.
Tomei café sem atentar para seu gosto, seu calor.
Li duas ou três páginas de Scliar sem a devida atenção.
Não procurei estrelas no céu,
Não pensei em ninguém, em nenhum amigo ou parente,
Não pensei nem em mim mesmo.
Passei o dia ignorando existências, dores, sentimentos, artes, combates.
Passei o dia com homens e mulheres sem que eu soubesse, nem eles,
Que o amor é provável, e que a amizade é possível,
E mesmo um acordo entre inimigos...
Passei o dia rabiscando e apagando, com o corpo,
O tempo e o espaço à minha volta
E tentando me convencer de que estou certo, todos estamos certos,
Que este é o trilho, e que vamos por ele para o único destino conhecido.
Sim, vamos, e é isso que implica em vazio:
O deste sábado, o de ontem e o de amanhã, que é domingo.
Que alguém nos salve disso a que chamam de... Não, não vou dizer!
Seria nomear o inominável.
Prefiro que o leitor preencha o que chamo de− com as palavras de sua
                                                                 [própria experiência.
Afinal, por que outro motivo leríamos poesia?
Por que outro motivo nos daríamos a chance de brincar de roda
                                                                 [entre as palavras,
De cegos entre metáforas?
MAYRANT GALLO. De Nem mesmo os passarinhos tristes, inédito.
Foto: autoria de Dulciene Anjos.

11 comentários:

Mirdad disse...

"Passei o dia rabiscando e apagando, com o corpo, o tempo e o espaço à minha volta e tentando me convencer de que estou certo".

Não está. Aliás, nunca estará. Por isto, poeta.

katherine funke disse...

Puta poesia!, traduz o inominável vazio da rotina que nos impuseram; mas eu acredito na poesia; você também; e o que é acreditar na poesia? Acho que é algo como enxergar além do horizonte. Além do muro. Além da gente. Grande abraço.

Mirdad disse...

Não é enxergar além. É captar. Além do além do muro. É o aquém daqui.

Hitch disse...

Do que não sei, fito nos versos. Aliás, não, não fito coisa nenhuma. Puta imposição de nos identificarmos sempre. Grande poema. Aquele abraço.

Lidi disse...

"Afinal, por que outro motivo leríamos poesia?
Por que outro motivo nos daríamos a chance de brincar de roda
[entre as palavras,
De cegos entre metáforas?"

Sem comentários...

Quando "Nem mesmo os passarinhos tristes" for publicado, irei correndo comprar o meu exemplar. Um grande abraço.

Georgio Rios disse...

Faço coro ao comentário de Lide,e me avisa quando estiver que eu corro pra comprar também.Eu acredito na poesia.E no que escreves amigo.

Mônica Menezes disse...

Lindo poema! Linda foto de Zang! Beijos.

Renata Belmonte disse...

Grande poema!

Georgio Rios disse...

Hoje este teu poema fez um grande efeito em meu dia.Os versos relidos me apunhalaram.E eu me dei conta de qunato tempo tenho perdido tentando ganhar o que não é tempo.

Bárbara disse...

Nossa! Adorei o poema, Mayrant!
Diz muito para as pessoas que sentem aquele vazio, muitas vezes,inexplicável.

Esperando ansiosa, assim como Lidi, pelo " Nem mesmo os passarinhos tristes", para dar um sentido especial às nossas vidas.

Um abraço.

Carlos Vilarinho disse...

De fudê, rei!