"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 2 de outubro de 2012

FAHRENHEIT 451 BRASIL

Querem proibir Negrinha, de Monteiro Lobato; o conto e o livro, sob alegação de racismo. Sabe, proíbam todo o Monteiro Lobato. Depois proíbam Machado de Assis, Drummond, Bandeira, Zé Lins, Cecília, Clarice, Quintana, Nelson Rodrigues, Eça, Pessoa, Camões, Castro Alves, Oswald, João Antônio e até Dyonélio Machado, que ousou sujar o leite. Para cada um, alguém há de achar uma alegação ou um motivo. Proíbam a leitura, o livro e especialmente a Literatura. Proíbam-nos de ler e pensar. Depois proíbam-nos de nos educar. Afinal de contas, há a tevê (com "n" canais cheios de boas intenções), a internet (também cheia de boas intenções, e sem proibições!) e filmes bem educativos, como E aí, comeu? Somos um país de elevado senso crítico... E eu que pensava que senso crítico era saber escolher, e liberdade, poder escolher! Mas não: senso crítico é patrulhar; e liberdade, proibir.

7 comentários:

Cassionei Petry disse...

Assino embaixo. Tv pode e literatura não?

Carlos Barbosa disse...

O horror, Mayrant, o horror. Assinei ontem a Petição Pública da profa. Milena Martins, que solicita a reescrita do parecer dos racistas do PNBE. É de estarrecer o grau de patrulhamento a que o Brasil oficial se entregou. Abr. (carlos barbosa)

Lidi disse...

Eu não sei onde conseguiram encontrar o racismo de Monteiro Lobato no conto "Negrinha". Vejo, justamente, o contrário: crítica, ironia. Mas é isso, Mayrant, como disse Carlos e o coronel Kurtz, de Apocalipse Now: "O horror! O horror!". Abraços.

Maria Muadiê disse...

Amigos, eu penso diferente de vocês. Primeiro que não é censura pois os livros continuarão circulando livremente pelo país. É uma seleção de leituras para crianças e jovens dentro das instituições escolares. Se é uma seleção há que se ter critérios, e penso que um critério bem pertinente é não veicular ideologia racista.
O próprio Lobato se assumia como um eugenista, não estamos vendo pêlo em ovo. Ele declarava-se assim.
O racismo e a violência no Brasil são naturalizados e a leitura desses textos sem a devida contextualização e visão crítica acabam por reforçar o racismo.
Tenho um amigo que pensa que esses livros devem ir para as escolas para serem repudiados pelos jovens. É uma possibilidade.
O mais importante mesmo é que esse rebuliço provocou a discussão, o debate, acho que isso é o mais importante, trazer a tona este problema tão presente em nosso dia a dia e tão disfarçado.
Eu gostei muito desse texto de Muniz Sodré: http://mariafro.com/2011/03/11/eugenia-renovada-e-se-tia-anastacia-fosse-judia/

Um abraço,
M.

Saberes e sabores disse...

Eis o "politicamente correto" revelando-se censura! Leiam, antes que resolvam queimá-los!!
Grande abraço,
Solange

Bípede Falante disse...

Apoiadíssimo!!

Beijo

Marcela Soares disse...

O que mais acho absurdo é que meus alunos do Ensino Médio têm o senso crítico de perceber o intuito sarcástico, a ironia do conto, ao passo que os que se dizem capacitados para tal julgamento, ainda continuam a ler as superfícies.