"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 17 de maio de 2011

LEITURAS, 15: CONTOS À QUEIMA-ROUPA

Como qualquer gênero literário que subverte a tradição, o miniconto também já possui seus inimigos. Recentemente, em conversa com um escritor numa livraria, o miniconto veio à baila, e o autor, sem meias palavras, me disse: "Miniconto é bobagem, porcaria, coisa de quem não tem assunto nem sabe escrever; não é literatura". Com efeito, também não tinham assunto nem sabiam escrever Julio Cortázar, Jules Rénard, Jean Cocteau, Yasunari Kawabata e tantos outros. E eles não foram literatos, não fizeram literatura.

Ora, simplesmente o miniconto está incomodando, por estes motivos: 1) é um gênero jovial, que atrai os jovens e conquista leitores; 2) vai aos poucos se tornando popular, pois agrupa elementos de outros gêneros, narrativos ou não, como a poesia, o cinema, a piada, o acontecimento cotidiano, a propaganda etc.; 3) é um gênero que se desenvolve com o que está ao alcance das mãos, em assunto (a realidade, a vida) e forma (todas as formas narrativas, todos os tons, todas as expressões de arte e cultura); 4) "condensado ao mínimo", faz do riso, do sarcasmo e da ironia o seu ganha pão; 5) quando não é direto, é metafórico, e nas duas maneiras impacta o leitor.

Emergente das Minas Gerais, que tem larga tradição em prosadores, nos chega pela coleção Três por Quatro (editada pelo Wilson Gorj), da Multifoco, o volume Contos à queima-roupa, de Arth Silva. Mais um achado da coleção, que já alcança seu décimo título. Arth Silva divide seu livro em duas seções: os minicontos (p. 11 a 63) e os contos curtos, mais tradicionais (p. 64 a 98). Em ambas, numa linguagem despojada de atavios, com a ironia numa mão e o riso na outra, o autor destila sua verve. São muitos os contos a destacar. Entre os contos curtos, me agradaram sobretudo 10 minutos, Sinal vermelho e Ele e Ela, pelos seus temas (respectivamente, a infância, a violência no trânsito e a espera pelo amor), sua poesia ("A sirene dispara alto. Próximo ao local, sobre os travesseiros, as crianças sonham com o grito de um enorme dragão"), sua dor ("O choque partiu ao meio a sirene, que nunca mais voltará a funcionar"). São contos reais, duros. Ao mesmo tempo, reflexões sobre a existência, metáforas do sofrimento humano.

Os minicontos, por sua vez, se alimentam dos nossos costumes patéticos. Entre os muitos que merecem destaque, este: "Certo dia, o C saiu engravatado. Apelidaram-no de Cedilha. aCanhado (sic), nunca mais conseguiu comeÇar (sic) uma frase". Ou este outro: "Recém-nascido, e sua beleza já era admirada. Todos diziam que seu nariz era o da mãe; os cabelos, da avó; os olhos claros, de um tio-avô europeu. O bebê Frankenstein sorria com os lábios do pai". Ou ainda este, mais cruel: "Destemido, colocou o colete à prova de balas e subiu o morro. Acertaram-lhe na cabeça". É, os bandidos também têm seus atiradores de elite.

Há ainda a série de quatro minicontos que ironizam o hábito ou a moda (e estar fora da moda não é estar fora do mundo), em nossa época, de tornar público o que é particular, como se o mais simples dos mortais fosse um astro ou estrela a atrair todos os olhares. Não é. A questão não vai além disso: a pessoa se encerra dentro de casa e expõe na internet quem é ou, mais frequentemente, quem não é. E amigos elogiam, inimigos disparam ofensas. Vida que segue, em mentiras e, às vezes, verdades:

MUNDO MODERNO [parte 3]

O parto estava feito.
Cordão umbilical cortado e banho dado.
Só faltava agora registrá-lo. No Orkut. (ARTH SILVA)

9 comentários:

W.G. disse...

Ótimas observações, Mayrant.
Há quem não goste dos minicontos. Normal. Eu não gosto de romances de fantasia, como "O Senhor dos Anéis", por exemplo. Nem por isso considero esse gênero com depreciação. É literatura, também. Só não é do meu gosto. Creio que muitas pessoas podem até não gostar dos minicontos. Só não podem dizer que não são literatura.
O livro do Arth comprova que sim.

Abraços
W.G.

Lidi disse...

Mayrant, beleza de resenha. Disse tudo. Adorei os contos e minicontos do Arth. Não conhecia a sua obra, a sua LITERATURA. Um grande abraço.

Carlos Barbosa disse...

Piolho se mata na unha, o fim a qualquer momento, a beleza é de quem a vê. Parabéns ao Gorj pela série que engendra, à Multifoco, pela ousadia editorial, e a vc, Mayrant, pela lucidez e brilho de suas análises. "Não vejo nada!, disse o sol." Abr, (carlos barbosa)

Bípede Falante disse...

Mayrant, você tem o livro Vermelho Amargo??? Eu preciso saber :)
bjs

A autora disse...

Realmente esse Arth Silva é muito bom. Já viram o fanzine dele?
e o Blog? Digo, os blogs??

juliana fernandes

Mayrant Gallo disse...

Bípede, presumo que você se refere ao livro de Bartolomeu C. de Queirós... Não, não tenho! Abraço, e obrigado pelos seus frequentes comentários aqui no blogue.

Bípede Falante disse...

Mayrant, então você tem só que ele ainda está aqui comigo. Nem acredito que consegui comprar um livro para enviar em retribuição aos que você me envia :)
beijos
ps. Eu li e gostei. Tem uma batida do Raduan Nassar. E eu adoro o Raduan Nassar!

Mayrant Gallo disse...

Muito grato, Bípede! Mas não precisava: sempre mandarei meus livros (e outros) para você. Os bons leitores precisam "ser alimentados". Abraço!

Isadora Santana disse...

Arth Silva é realmente incrível,está aí para mostrar que os microcontos são parte da literatura e cultura.Brasileiro que vive sempre com pressa já não tem desculpa para não ler!
Parabéns Arth!