"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 26 de março de 2015

HÉLIO PÓLVORA (1928-2015)

Encontro com Pólvora, em 9 de janeiro.
Num de seus contos mais célebres, Jorge Luis Borges afirma, grosso modo, que aquilo que verdadeiramente define uma pátria são os seus artistas, seus ocasos, a natureza, suas montanhas, seus mares, lagos, campos etc. Portanto, quando morre um artista, um pedaço de terra se foi, desapareceu, ainda que, com a sua arte, possamos revivê-lo em sua plenitude criadora, naquele ato que, como nenhum outro, continua, perpetuado por palavras, sons, cores, gestos, imagens, ritmos, tons. É o que sinto, hoje, ao saber que Hélio Pólvora se foi. Desapareceu o homem, calmo, gentil, generoso, sempre com um comentário inteligente e preciso acerca da literatura ou da vida. Quando liguei para uma amiga e lhe dei a triste notícia, foi o que ela me disse: "Uma pessoa boa". Por um instante, ela esqueceu o artista, o escritor e tradutor renomados, e reviveu o homem, o ser social. Isso, claro, é um sintoma. Vivemos um tempo em que a grosseria e o mau gosto dão o tom das relações e, assim, sentimos mais profundamente quando se vai uma pessoa que era antípoda e adversa a tal tendência. Dois meses atrás, estivemos, Emmanuel Mirdad e eu, na casa de Hélio Pólvora. Passamos parte da tarde com ele, conversamos sobre literatura e cinema, ele nos indicou autores e livros, recomendou que não deixássemos de ler o Nobel de Literatura Orhan Pamuk, especialmente Meu nome é vermelho, e depois fizemos três fotos, apenas. Para registrar, sem qualquer pretensão, aquele encontro, que, não sabíamos, seria o último. Tínhamos combinado de promover com ele algumas sessões de cinema, em que assistiríamos a filmes que alternativamente indicaríamos. Hélio seria o primeiro a indicar algum clássico de sua preferência. Mas não foi possível. A vida não deixou. Ou deixou por um fio mais um projeto... Bem, daqui a algum tempo, quando eu também atender ao chamado das estrelas, e igualmente Mirdad, faremos este encontro cinematográfico noutra esfera. E então relembraremos que, neste plano, aqui na Terra, apenas estávamos ensaiando a verdadeira vida.

5 comentários:

Lúcia Santori-Carneiro disse...

Fiquei emocionada, Mayrant! Ele era uma pessoa muito especial. Quero participar com vocês desse encontro nas estrela!beijos, Lúcia

Mirdad disse...

Obrigado pela homenagem, meu amigo, muito sensível! Que saudade, que saudade...

Lidi disse...

Mayrant, meu amigo, sinto muito. Nessas horas, não há muito o que dizer. Perdemos um grande escritor e "uma pessoa boa", como observou a sua amiga. Mas ele agora está descansando desse mundo louco. Um dia, quem sabe, o reencontraremos em outro plano, como você escreveu. Fique bem. Um grande abraço.

aeronauta disse...

que texto belo e comovente, Mayrant!! Minha alma se contraiu e chorou!! Grande abraço! Saudades!

Alfredo Gonçalves disse...

Caro Mayrant
Um texto digno da saudade que todos sentimos. Um abraço! Alfredo Gonçalves