"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

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quinta-feira, 9 de março de 2017

SÁBADO, ARRESTO & SARAMBOKE


Bernardo Almeida e Elizeu Moreira Paranaguá lançam seus novos livros: Arresto e Saramboke. Sábado próximo, na lendária Cantina da Lua, a partir das 15:30. As obras saem pela editora Penalux, sediada em Guaratinguetá, SP.  A falta de editor de literatura na Bahia leva a isso.

Tudo bem, por aqui há coisas bem mais importantes que Literatura: Carnaval, Bahia, Vitória, o manequim de Ivete Sangalo, quanto calça Daniela Mercury, qual foi a melhor música-sem-letra-só-refrão do último calvário de dez dias promovido pelo Governo do Estado e pela Prefeitura de Salvador...

"Para que ler? Serve para quê, mesmo? Livro, o que é livro? É a Bíblia? Um monte de papel pintado com tinta..."

Bem, nunca é tarde para se começar a ler, bom livro é o que não falta. Sábado, teremos Arresto e Saramboke.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

terça-feira, 1 de setembro de 2015

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

POETA-POEMA, 68: Eduardo Mondolfo

O Rio pelo olhar do pintor paulista Gastão Formenti (1894-1974).
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

PRECE 105

As crianças não voltaram
do passeio ao futuro.
Seus triciclos viraram iates
viraram louras os bichos felpudos.
Devem ter ficado presas nalgum triunfo.
Nalgum carro esporte atropelando a juventude. Nalguma
ilha deserta com praias circundadas com muros.
Nalguma mansão tomada de parentes
antes que sucumbam. As crianças
jamais voltaram daquelas férias tão curtas.
Homens que iriam tornar-se
viraram reduções de adultos.

EDUARDO MONDOLFO (1956). Poeta brasileiro, nascido na capital do Rio de Janeiro. Cultor de uma poesia que mistura prosaísmo com rigor sonoro e comentários filosóficos com imagens inesperadas, é sem sombra de dúvida um dos mais originais poetas brasileiros de nossa época. Seu livro Preces cariocas (Sette Letras, 1997) constitui um dos melhores volumes de poemas publicados no Brasil nos últimos vinte anos e, paradoxalmente, um dos mais subestimados.

sábado, 22 de agosto de 2015

POETA-POEMA, 67: THIAGO LINS

A arte misteriosa do pintor argentino Xul Solar.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

VENTURA

Pensaram que seu corpo
Não tinha esplendor quando
Pensaram que sua face
Não se refletia como
Pensaram que sua profissão
Era conduzir sonhos
Não pensaram que fosse um homem
Só o descobriram
Quando lhe deram um tiro

THIAGO LINS. Poeta e contista brasileiro, nascido no Ceará, mas radicado em Feira de Santana, BA. Seus poemas e minicontos expressam, com indiscutível simplicidade, a inquietação do sujeito diante de um mundo caótico e desumano. Poema extraído de As peças do relógio (Multifoco, 2012).

domingo, 9 de agosto de 2015

Poeta-Poema, 66: Guilherme de Almeida

A arte da pintora brasileira Georgina de Albuquerque (1885-1962).
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

RUA

A rua mastiga
os homens: mandíbulas
de asfalto, argamassa,
cimento, pedra e aço.

A rua deglute
os homens: e nutre
com eles seu sôfrego,
onívoro esôfago.

A rua digere
os homens: mistério
dos seus subterrâneos
com cabos e canos.

A rua dejeta
os homens: o poeta,
o agiota, o larápio,
o bêbado e o sábio.

GUILHERME DE ALMEIDA (1890-1969). Poeta brasileiro, nascido em Campinas, SP. De formação romântico-simbolista, migrou para uma poesia de tom mais moderno, por sugestão da Semana de 22. Constitucionalista convicto, esteve na Revolução de 32, como soldado raso, e por isso acabou exilado em Portugal. Cotidianamente, era um sujeito simples, ocupando a função de secretário numa escola de subúrbio. Eleito Príncipe dos Poetas Brasileiros, em 1959. Uma boa seleção de sua poesia está em Melhores poemas: Guilherme de Almeida (Global, 2001).

sexta-feira, 31 de julho de 2015

A LUA AZUL E OS POETAS

Foto: Andréia Gallo.
A Lua Azul sobre Salvador. Hoje, por volta das 18:41. É simplesmente a segunda Lua Cheia do mês. Grandes poetas, no mundo inteiro e ao longo dos séculos exaltaram a Lua, por sua beleza e influência sobre o ânimo das pessoas, até que os homens chegaram lá e a macularam. Entre os poetas, estão os que se seguem.

RECORDAÇÃO NA CALMA DA NOITE

Diante da minha cama, estende-se o luar.
Parece geada no chão.
Levanto a cabeça: avisto a montanha e a lua.
Torno a deitar-me. E penso na minha terra natal.

LI PO (701-762), poeta chinês, traduzido aqui por Cecília Meireles, em Poemas chineses (Nova Fronteira, 1996).


JOGO NOTURNO

Ilumina-se o campo
para o futebol na aldeia.
Aparece a bola branca,
feita de algodão e meia.
Meninos poetas jogam
com a bola da lua cheia.

MAURO MOTA (1911-1984), poeta e prosador brasileiro, nascido no Recife, PE. Extraído de Itinerário (José Olympio, 1983).


A LUA, UM PÁSSARO

Quis tê-la nas mãos,
o ceguinho a quem disseram
que a luz era linda.

OLDEGAR VIEIRA, poeta brasileiro, nascido na Bahia, célebre por seus haicais. Folhas de chá (1940) é um dos seus melhores livros.

sábado, 25 de julho de 2015

O ENIGMA DOS LIVROS, a origem

Na primeira versão deste livro, que seguiu para a P55 no segundo semestre de 2014, eu agradecia a algumas pessoas por contribuir direta ou indiretamente com a sua feitura. Mas, devido à limitação de número de páginas, os agradecimentos, bem como três textos, tiveram que ser suprimidos, reduzindo-se o conjunto a sete contos. Agradeço, portanto, a Andréia Gallo, minha esposa, a Linda Bezerra, que me convidou a escrever no Correio da Bahia, diário no qual todos estes relatos foram publicados em primeira demão, Hilcélia Falcão, que foi por muito tempo minha editora no jornal, Claudius Portugal, que há anos me convidava a publicar pelas Cartas Bahianas, e Lima Trindade e Marcus Borgón, que por fim me incentivaram com seu entusiasmo a organizar o volume e enviá-lo à editora. Sem estas pessoas, O enigma dos livros não existiria. Ou seria simplesmente um enigma.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

ISADORA, sua camisola La Perla e a BR

Se escrever o primeiro romance não é fácil, imagine conseguir isso e ainda publicá-lo quase imediatamente. Foi o aconteceu com Catarina Guedes, jovem e entusiasmada autora, que autografará seu livro amanhã, dia 24 de julho, na Livraria Cultura do Shopping Salvador, às 19 horas.

A edição é da Kalango, que segue publicando a ficção produzida na Bahia, nos gêneros conto e romance. Seu catálogo já reúne Cidade singular, Labirinto-homem, O herói está de folga e Todas as águas, respectivamente de Mayrant Gallo, Carlos Vilarinho, Dênisson Padilha Filho e Gláucia Lemos.

domingo, 21 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 4: Luiz Vilela

Capa da primeira edição, 1979.
"O Rei da Sinuca era um salão de jogo no primeiro e único andar de um prédio, numa rua sossegada, em nossa pequena cidade. Era nele que nos encontrávamos toda tarde para fazer passar o tempo na mesa de sinuca e nas garrafas de cerveja, entremeadas de sanduíches de mortadela.
 
O salão era como que o nosso segundo lar (para alguns talvez o único): tínhamos com ele a familiaridade que tínhamos com o nosso primeiro, ou mesmo familiaridade maior ainda. Sentíamos ali uma ligação profunda com cada coisa, ligação que começava na escada, continuava no balcão e nas mesas de mármore, e ia terminar na terceira mesa verde, a namorada fiel de todos."
 
VILELA, Luiz. O choro no travesseiro. São Paulo: Cultura, 1979. 80p.
 
ESTILO. Despretensiosas, as informações vão se sucedendo: o local de encontro dos rapazes, numa cidadezinha; a necessidade de fazer passar o tempo, o jogo diário, a bebida; a ideia de "segundo lar", ou mesmo "único", para alguns; a preferência pelo local, em detrimento da própria família e, por fim, esta surpresa semântica: a mesa de sinuca como uma mulher, namorada "de todos" e, ainda assim, "fiel". Em tom de causo, mas ciente de que literatura é transformação, Luiz Vilela torce, em apenas dois parágrafos, a consciência do leitor.

sábado, 20 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 3: Graciliano

Capa da primeira edição, 1934.
"Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.
 
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa."
 
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1996. 224p.
 
ESTILO. Uma aula de ironia. O narrador, atenuado de sua prepotência autoral, pretende distribuir as funções de criação entre seus amigos e, com isso, enriquecer sua obra e as "letras nacionais", àquela altura empobrecidas, pois destituídas de assunto elevado e erudição, escritas em português ruim, mal postas no papel e sem literariedade, pela qual ficaria responsável, pasmem, um jornalista! Refere ainda, sutilmente, o fato de que, no Brasil, com muita frequência, o autor paga as edições de seus livros. Graciliano Ramos não poupa ninguém, talvez somente o leitor.

terça-feira, 26 de maio de 2015

OS PASSARINHOS SÃO OS MESMOS

A arte do pintor soviético Deineka.
O escritor Dênisson Padilha Filho mantém no seu blogue uma série denominada Conto Afora, em que publica contos de escritores brasileiros. Em segunda temporada, ele reproduziu um conto meu, recém-publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia (março, 2015). O título é Os passarinhos são os mesmos, e o relato começa assim:  
 
O ônibus parou na rodovia, e um rapaz desceu, uma pesada mochila nas costas. Pequeno no acostamento, olhou para um lado e outro, enquanto o veículo se afastava e por fim sumia, dois olhinhos vermelhos somente, na escuridão. Do outro lado, a distender-se no vale, silenciosa, a cidade era uma massa de luz tênue e amarela. O rapaz atravessou a pista e desceu em direção às primeiras casas. Para além da cidade, mais luzes tremulavam sobre o mar.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

LEITURAS, 51: OS ESPIÕES

Edição de bolso, da Objetiva, 2011.
Luís Fernando Veríssimo não é nem de longe um dos autores de minha predileção. Na verdade, só tinha boas lembranças de dois de seus livros: o volume que reúne todas as aventuras do Analista de Bagé e o que concentra as pretensas narrativas policiais do improvável detetive Ed Mort. Em ambos, o forte é o humor, sabemos; e sabemos também que no Brasil a literatura satírica tem existência árdua e é logo esquecida, salvo Machado de Assis.
 
Recentemente, porém, tive em mãos a novelinha Os espiões, cuja leitura me entusiasmou. É evidente ainda, a cada página, o humor inerente a quase todas as obras do autor, mas não é só isso. Numa paródia muito bem pensada dos romances de espionagem, à moda de Fleming, Greene e Le Carré, Veríssimo cria uma trama quixotesca que mistura mercado editorial, o editor mal intencionado, a condição sempre precária do escritor brasileiro, uma despretensiosa reflexão sobre o papel da literatura na vida tanto dos autores quanto dos leitores e, de quebra, retoca, com tintas nostálgicas, o retrato das pequenas cidades brasileiras nascidas em volta de uma feira, uma praça ou uma grande empresa, que se estabelece e se torna o motor da economia do lugar.
 
A trama tem início quando um editor assistente recebe um manuscrito incompleto, com o primeiro capítulo da história de Ariadne, personagem e autora, que pretende, ao terminar a obra, se matar. Mais interessado na autora que propriamente na obra, embora reconheça suas supostas qualidades literárias, o sujeito tudo faz para resgatá-la das garras do marido, o principal suspeito de sua angústia que culminará com o suicídio. E, assim, arquiteta o envio de espiões à cidade de Ariadne. Incógnitos e disfarçados, eles farão de tudo para se aproximar da vítima.
 
Em meio aos percalços que seus espiões enfrentam, o narrador expõe sua verve satírica e faz críticas mordazes a editores, autores e leitores, não poupando ninguém de seu ceticismo em relação ao futuro da literatura e do livro. Numa de suas reflexões mais felizes e ácidas, ele decreta: "O professor Fortuna diz que em vez de endeusar escritores deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco".
 
De alcance imprevisto e conteúdo inesperado, esta novelinha de Veríssimo é a prova verificável de que a liberdade de criação é, ainda, a melhor conselheira do autor, pretenda ele conceber uma obra-prima ou tão somente um elegante exercício de ironia. Acho que em certo sentido Os espiões foi bem-sucedido nos dois propósitos.

sexta-feira, 27 de março de 2015

O ADEUS DE HÉLIO PÓLVORA

Pólvora, por Ramon Muniz.
Vejam como são as coisas neste novo Brasil que o Partido dos Trapaceiros e o lulismo inauguraram: há alguns meses, a presidente da república veio a público reclamar da execução, na Indonésia, de um brasileiro ligado às drogas e traficante internacional. Causou, obviamente, um estremecimento diplomático entre as duas nações, ao passo que sugeria desconhecer ou pelo menos ignorar que, diariamente, brasileiros inocentes e outros nem tanto são sumariamente executados pelo efeito direto das drogas ou de suas ramificações econômicas e sociais.
 
Ontem, faleceu e foi cremado Hélio Pólvora, um dos grandes escritores brasileiros nascidos na Bahia, e à solenidade não compareceu nenhum veículo da imprensa, nem os grandes (A Tarde, Correio da Bahia, TV Bahia, TV Bandeirantes, SBT, Record) nem os nanicos (Tribuna da Bahia, TV Educativa e as rádios em geral). Igualmente, o governo do estado e a prefeitura de Salvador não mandaram nenhum representante.
 
Claro que isso já era esperado, afinal de contas o governador, que não tem vergonha de dizer em público que colocou 66 milhões de reais no carnaval de Salvador, enquanto a saúde, a educação e a segurança, para citar o mínimo, penam por recursos e reformas, não faz, de fato, o gênero de alguém que conhece e usufrui das artes mais refinadas, como a literatura. Nestas três gestões do partido acima mencionado, os secretários de cultura são o exemplo perfeito de uma política que pretende que todos pulem e dancem até a loucura total, sufocando assim qualquer sentimento mais salutar e embotando o intelecto, como se drogas o minassem. Os últimos secretários estaduais de cultura, que podemos definir com uma tríade de personagens dos quadrinhos infantis, Brasinha, Gasparzinho e Patolino, são os representantes de uma política que almeja, a médio prazo, reduzir as artes aos seus tipos mais elementares: o artesanato, a arte popular e a arte de rua. Bastante conveniente, por sinal. Ao menos eles são sinceros: desprezam publicamente o que repudiam. Deveriam ser mais autênticos e repudiar publicamente o que desprezam.
 
Quanto à ausência da imprensa, ora, ela só pensa em e por multidões. Quando o "grande" artista da axé-music ou do pagode ou do arrocha morrer, ela estará presente, com toda a sua circunstância e suas perguntas-feitas, mais clichês que carimbos de cartório.
 
Ao adeus de Hélio Pólvora, no cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, compareceram somente os parentes, os amigos, os confrades da Academia de Letras da Bahia, escritores e professores do Instituto de Letras da UFBA. O escritor e presidente da ALB, Aramis Ribeiro Costa, resumiu em seu excelente discurso quem foi Hélio Pólvora: contista exemplar, romancista, crítico literário, cronista, grande tradutor de William Faulkner, jornalista atuante até o momento final e, em resumo, um incansável trabalhador das letras e das palavras. A Bahia, especialmente a atual, com seus governantes medíocres e sua gente quase iletrada, não o merece. Como não mereceu a outros seletos escritores: Gregório de Matos, Castro Alves, Junqueira Freire, Luís Gama, Sosígenes Costa, Xavier Marques, Jorge Amado, Dias da Costa, Wilson Lins, Vasconcelos Maia, Euclides Neto, Afonso Manta, Adonias Filho, Herberto Sales, Godofredo Filho, Eurico Alves, Sônia Coutinho e João Ubaldo Ribeiro.
 
Devo ter esquecido algum nome importante... Mas esquecer ou ignorar, sabemos agora, é politicamente perdoável.

quinta-feira, 26 de março de 2015

HÉLIO PÓLVORA (1928-2015)

Encontro com Pólvora, em 9 de janeiro.
Num de seus contos mais célebres, Jorge Luis Borges afirma, grosso modo, que aquilo que verdadeiramente define uma pátria são os seus artistas, seus ocasos, a natureza, suas montanhas, seus mares, lagos, campos etc. Portanto, quando morre um artista, um pedaço de terra se foi, desapareceu, ainda que, com a sua arte, possamos revivê-lo em sua plenitude criadora, naquele ato que, como nenhum outro, continua, perpetuado por palavras, sons, cores, gestos, imagens, ritmos, tons. É o que sinto, hoje, ao saber que Hélio Pólvora se foi. Desapareceu o homem, calmo, gentil, generoso, sempre com um comentário inteligente e preciso acerca da literatura ou da vida. Quando liguei para uma amiga e lhe dei a triste notícia, foi o que ela me disse: "Uma pessoa boa". Por um instante, ela esqueceu o artista, o escritor e tradutor renomados, e reviveu o homem, o ser social. Isso, claro, é um sintoma. Vivemos um tempo em que a grosseria e o mau gosto dão o tom das relações e, assim, sentimos mais profundamente quando se vai uma pessoa que era antípoda e adversa a tal tendência. Dois meses atrás, estivemos, Emmanuel Mirdad e eu, na casa de Hélio Pólvora. Passamos parte da tarde com ele, conversamos sobre literatura e cinema, ele nos indicou autores e livros, recomendou que não deixássemos de ler o Nobel de Literatura Orhan Pamuk, especialmente Meu nome é vermelho, e depois fizemos três fotos, apenas. Para registrar, sem qualquer pretensão, aquele encontro, que, não sabíamos, seria o último. Tínhamos combinado de promover com ele algumas sessões de cinema, em que assistiríamos a filmes que alternativamente indicaríamos. Hélio seria o primeiro a indicar algum clássico de sua preferência. Mas não foi possível. A vida não deixou. Ou deixou por um fio mais um projeto... Bem, daqui a algum tempo, quando eu também atender ao chamado das estrelas, e igualmente Mirdad, faremos este encontro cinematográfico noutra esfera. E então relembraremos que, neste plano, aqui na Terra, apenas estávamos ensaiando a verdadeira vida.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

POETA-POEMA, 65: RIBEIRO COUTO

A arte do pintor norte-americano Eric Zener.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

BRINQUEDO NA PISCINA

Não voltou. A piscina
Lisa é como um retalho
Azul na luz matutina.

A mãe aos gritos se descabela.
Ralhava sempre, mas tanto ralho
De que serviu? Lamenta-se ela.

Imóvel no fundo da piscina,
Não se sabe se finge de peixe
Ou brinca de pesca submarina.
Parece pedir que a mãe o deixe.

RIBEIRO COUTO (1898-1963). Poeta brasileiro, nascido em Santos, SP. Dividido entre o Modernismo e o Simbolismo, soube imprimir à sua poesia traços pessoais e, com isso, se destacar por si mesmo, como atesta o espécime acima, escrito em 1962, a um ano de sua morte. Esquecido hoje, foi no entanto um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Poema destacado de Melhores poemas: Ribeiro Couto (Global, 2002).

sábado, 10 de janeiro de 2015

POETA-POEMA, 64: RICARDO THADEU

Ron Morrison e seu mundo abarrotado de carros.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

CENA FUTURISTA

[televisão ligada]

a mãe, na sala,
descansava os ossos

o filho, no quarto,
assistia a uma puta

a filha, mulher-fruta,
apenas ouvia:

o gemido do irmão
o ronco da mãe
e as notícias do dia

RICARDO THADEU (1989). Escritor brasileiro, nascido em Riachão do Jacuípe, BA. Sua poesia, irônica e experimental, abdica das modas poéticas em favor da concisão e do assunto, quase sempre a vida cotidiana e seus horrores. O poema acima consta de Trilogia do tempo (Kalango, 2013), que reúne seus três livros no gênero.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

NATAL HOJE

Presépio e biblioteca.
O QUE FIZERAM DO NATAL

Natal.
O sino longe toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987). Em Alguma poesia (1930).