"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

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domingo, 26 de julho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 9: Camus

Edição de 2013, em capa dura.
"Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi o telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilômetros de Argel. Vou tomar o ônibus às duas horas e chego ainda à tarde. Assim posso velar o corpo e estar de volta amanhã à noite. Pedi dois dias de licença a meu patrão e, com uma desculpa desta, ele não podia recusar. Mas não estava com um ar muito satisfeito. Cheguei mesmo a dizer-lhe: 'A culpa não é minha'. Não respondeu. Pensei, então, que não devia ter-lhe dito isto. A verdade é que eu nada tinha por que me desculpar. Cabia a ele dar-me pêsames. Com certeza irá fazê-lo depois de amanhã, quando me vir de luto. Por ora é um pouco como se mamãe não tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrário, será um caso encerrado e tudo passará a revestir-se de um ar mais oficial."

CAMUS, Albert. O estrangeiro. Rio de Janeiro: Record, 1999. Trad. de Valery Rumjanek. 126p.

ESTILO. As frases curtas, límpidas e analíticas, a serviço da experiência do sujeito num mundo que não o compreende, disfarçam uma sensibilidade poética que ao longo de todo o romance posicionará o protagonista de um lado e a sociedade que o inclui do outro. Esta exige dele comportamento padronizado e cumprimento de regras e costumes, enquanto ele, por sua vez, pretende viver o momento, num estado de hedonismo, que constitui, talvez, a essência da própria condição humana.