
LEMBRANÇAS DE VIAGEM
Ele não se lembra bem como aconteceu.
Perdeu o controle do carro e saiu da estrada.
Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, o carro e ele tocaram árvores, uma depois da outra, até se quedarem, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio corpo ― não podia se mexer, não podia falar. Depois o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas.
Disso ele se lembra bem. (In: A segunda sombra. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010)
Está tudo ali. A formação e o caráter de um país expostos num preto-e-branco sem concessões: a miséria, a falta de solidariedade, a impiedade, o desrespeito ao outro; a solidão profunda do homem diante da adversidade e da indiferença alheia; a dor. 106 palavras que dizem tudo o que somos.
Imagem: a hipnótica arte fotográfica de Chris Jordan.
Um comentário:
106 palavras que calam fundo. Continue a enviar mais sinais de vida. Aquele abraço.
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