"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 22 de julho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 8: Voltaire

"Eu estava farto da vida ociosa e turbulenta de Paris, da multidão presunçosa, dos maus livros publicados com aprovação e privilégio do rei, das cabalas dos homens de letras, das baixezas e da vilania dos miseráveis que desonravam a literatura. Encontrei, em 1733, uma jovem senhora que pensava de modo semelhante ao meu, e que tomou a decisão de ir passar vários anos no campo, para lá cultivar seu espírito longe do tumulto mundano; era a sra. marquesa du Châtelet, a mulher que na França mais tinha disposição para todas as ciências."

VOLTAIRE. Memórias. São Paulo: Iluminuras, 1995. Tradução de Marcelo Coelho. 100p.

ESTILO. A aferição do mundo da cultura e das artes, por Voltaire, ganha valor universal. Substitua-se Paris por Salvador, São Paulo, Madri ou Los Ângeles, que a situação é a mesma, ainda hoje. E isso é só o início de sua ácida pintura das classes artísticas e monárquicas da Europa da época, repleta de artistas embusteiros e imperadores tirânicos. Voltaire é, igualmente, um dos primeiros a sinalizar para a libertação da mulher, do jugo masculino, através do conhecimento e da educação.

terça-feira, 21 de julho de 2015

SALVADOR, HOJE

Foto: Andréia Gallo.
Visão do lusco-fusco de Salvador, por janela de apartamento nos Barris, hoje, às 17:50. Salvador é bonita? É sim, do chão para cima, e sem a presença dos seus governantes, impostores e hipócritas, que estragam a cidade ano a ano, muito embora digam o contrário, que a estão revitalizando.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

CARTAS BAHIANAS: LANÇAMENTO

Obscenas, de Carlos Barbosa, e O enigma dos livros, Mayrant Gallo. Lançamento: 29 de julho, quarta-feira, de 19 a 22 horas, na Confraria do França, Rua Lydio de Mesquita, 43, Rio Vermelho, Salvador, BA. Uma realização da P55.

Em Obscenas, Carlos Barbosa transforma a realidade imediata em literatura e inquietação. Através de minicontos poéticos, cria um mosaico dos horrores deste Brasil bizarro e sem comandante. Ao tempo que o cidadão pena em filas e paga impostos que irão direto para o bolso dos políticos, estes tiram ouro do nariz e tripudiam de sua benevolência.

"Melhores ingredientes são tédio e memória. Lance mão de uma, basta uma, humilhaçãozinha mantida em fel atrás da orelha e, caso não seja suficiente, recolha lágrimas derramadas em noites gélidas."

Os sete contos de O enigma dos livros oferecem ao leitor a oportunidade de diversificar seu repertório de leitura com histórias surpreendentes, arrancadas da realidade, mas transfiguradas pela substância dos sonhos.

"Pensou que, por mais que sejamos ruins, há quem nos aprecie. Por mais que sejamos loucos, irreverentes, incompreensíveis, tolos... Haverá sempre quem chore ao fim, quem diga alguma palavra sincera e quem silencie, diante de nossa imobilidade, o peito em destroços."

domingo, 19 de julho de 2015

AGRADECIMENTO

Foto: cortesia de Emmanuel Mirdad.
Agradeço a todos que compareceram hoje ao lançamento da Coleção Pato, Cachorro, Garoto e Minhoca. Especialmente as crianças. E aos seguintes amigos: Carlos Barbosa e Mônica Menezes, Araci Tanan, Marco Tinoco, Marcus Borgón e Adriana, Emmanuel Mirdad, Márcia Tranzillo e Olavo, Deni e Feco, Lília Gramacho, Liz Saback, Gláucia Lemos, Luciano e Luciana, Rute Vieira, Carlos Souza, Tácio, Catarina Guedes, Paula, meus sobrinhos Ilana, Patrícia, Julinha e Anderson. Minha gratidão também a Anne Brito, pelo apoio e profissionalismo, e a Anna Grimaldi, que animou a todos contando histórias e promovendo brincadeiras. Por fim, agradeço a Dhan Ribeiro, da Kalango, que proporcionou a existência da coleção.

É HOJE!


quinta-feira, 16 de julho de 2015

NA IMPRENSA

Página 25, Correio, 16-07-2015.
O Correio divulgou a Coleção Pato, Cachorro, Garoto e Minhoca na edição de hoje, e ainda teve a gentileza de colocar uma foto do autor de 12 anos atrás. Lançamento em 19 de julho, domingo, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping. Programa muito melhor do que o pobre futebol da tevê. Sem dúvida. Cada livro custa R$22,90, mas os quatro da coleção saem por apenas R$45,80.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 4

Quarto e último volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
O poderoso leão, rei da floresta, reconhece na frágil minhoca uma singularidade à qual não deve sufocar, por mais que ela o incomode.

domingo, 12 de julho de 2015

CRÔNICA, 1: Os Humbertos

Revista Muito (A Tarde), 12 de julho de 2015.
A reprodução da página é uma cortesia de Dalva Santos, que a divulgou no Twitter, e a quem agradeço a generosidade.

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 3

Terceiro volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
Um menino à espera de que tudo fosse diferente, para ele, sua família e o mundo.

sábado, 11 de julho de 2015

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 2

Segundo volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
A história de um cachorro enjeitado que, por efeito de um incidente, dá a volta por cima e retorna ao seio da família.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 1

Primeiro volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
A jornada de um patinho amarelo por um mundo desconhecido, que ele vê pela primeira vez e, no entanto, parece reconhecer.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O HUMOR DA MUITO, 3: Cau Gomez

Unidos para sempre, pois não há como separar. O jeito então é dançar e rabiscar corações, ao compasso de um forró de São João. Arte de Cau Gomez, na Muito número 10, de 8 de junho de 2008.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A PREVISÃO DO SETE

Brasil 1 x 7 Alemanha.
A EUROPA CURVOU-SE ANTE O BRASIL

7 a 2
3 a 1
A injustiça de Cette
4 a 0
2 a 1
2 a 0
3 a 1
E meia dúzia na cabeça dos portugueses

OSWALD DE ANDRADE. Pau-Brasil (1925). Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. 144p.

Bons tempos! E a (in)justiça de Cette é bem outra coisa, sobretudo quando se sabe que este era o nome antigo da cidade francesa então denominada Sète.

Este poema é quase um presságio, com décadas de antecipação. Ou, talvez, uma ironia visionária com a nossa tendência à soberba. Ou, simplesmente, uma bela coincidência.

Alguns dirão: incompetência mesmo, decadência. Que seja!

O HUMOR DA MUITO, 2: Simanca

Zombaria com a arte de Salvador Dali e com a vida, que uma só não é mais irônica com a outra que o tempo, que desdenha de ambas. Arte de Simanca, na Muito número 13, de 29 de junho de 2008.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O HUMOR DA MUITO, 1: Aziz

A revista Muito, encartada no jornal A Tarde aos domingos, completou no último mês de abril sete anos de existência. É, ao que se sabe, a única revista de circulação ininterrupta da Bahia na atualidade. Dentre as muitas atrações da revista, que apropriadamente se diversifica em matérias sobre o cotidiano, artes, perfis de pessoas famosas, saúde, comportamento, locais pitorescos de Salvador etc., estão as charges e os cartuns. Fiz uma seleção dos meus preferidos, que sairão periodicamente aqui, seguidos de um breve comentário.

Acima, a inclusão de Salvador em âmbito internacional, via um ícone do cinema, o filme King-Kong, que veio a público pela primeira vez em 1933 e teve duas refilmagens. Arte de Aziz, na Muito número 7, de 18 de maio de 2008.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

OFICINA DE CONTOS

Ministrarei oficina de Leitura e Criação de Contos. Nos dias 17, 18, 24 e 25 de julho, das 9 às 13 horas. Informações e inscrições na Caixa Cultural Salvador: Rua Carlos Gomes, 57, Centro, Salvador, BA. (71) 3421-4200.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

VÁ E VEJA, 24: Um homem, uma mulher


Foi um dos mais cultuados filmes dos anos 1960 e 1970. Um dos grandes ícones do cinema francês e mundial. Um clássico absoluto, premiadíssimo e imitado à exaustão, um filme que antes de qualquer coisa transforma seu assunto em arte, em modo de se exprimir, método de contar, com novidades atraentes, a mais elementar e antiga história do mundo: o amor de um homem e uma mulher.

Visto hoje, em que ao que parece todas as histórias já foram contadas, em especial as lírico-amorosas, percebe-se o quanto este filme se detém na forma, relegando seu assunto a um simples pretexto para o exercício de recursos cinematográficos singelos e inovadores que mais tarde se tornariam clichês. E, no entanto, diferentemente da maioria dos cineastas que pretendem antes se exprimir do que narrar, como Lelouch soa fluente, puro, direto, franco e sedutor! 

A  história é mais do que banal: um homem viúvo sempre que pode vai visitar, aos domingos, o filhinho no colégio interno. Uma tarde, de volta, dá carona a uma mulher, jovem e também viúva, cuja filha é colega do menino. É inevitável que, durante a viagem, eles conversem e se deixem atrair. A relação, contudo, se pautará pelas lembranças do casamento de cada um, os cônjuges mortos, a vida que mantinham, o que cada um fazia e como se relacionavam os dois casais. O peso da relação anterior aterra-os, sobretudo à mulher, ainda marcada pela presença, veneração e carícias do marido.


Não é uma história de amor simplesmente. Dor, ausência, lembranças, perdas, silêncios, constrangimentos e até culpa se interpõem entre os dois e dão o tom de beleza e poesia que fazem deste filme um caso único na história do cinema, para o bem e para o mal. Explique-se: foi um dos raros filmes românticos a ganhar dois prêmios capitais, Cannes e Oscar de Filme Estrangeiro, e numa época exigente, em que só arrebatavam estes prêmios filmes de mérito comprovado. Influenciou a publicidade em larga escala, tanto no cinema quanto na tevê, e mesmo a impressa; as propagandas manjadas de cartões de crédito, com casais e seus felizes filhos, praticamente o reproduzem, ano após ano, com variações.

Também foi imitado, plagiado e sofreu, ao longo das décadas, uma crescente conspiração silenciosa com o intuito de depreciá-lo e, por fim, apagá-lo. De certo modo, a postura de Claude Lelouch, sincero ao extremo e cheio de autossuficiência, talvez tenha contribuído para esse destino injusto. Ao receber o Oscar, ele disse, secamente, que sua ida para Hollywood estava fora de cogitação, pois o que ele queria mesmo era fazer cinema de arte. E fez, a despeito de seus detratores.


Críticos vulgares, forjados em redações de jornais e revistas, ou os petulantes, que se esforçam em transformar Tarantinos e Meirelles em gênios do cinema, costumam rejeitar Um homem, uma mulher e ao próprio Lelouch. Um exemplo vulgar: 1001 filmes para ver antes de morrer (Sextante, 2008). O Sr. Steven Jay Schneider (editor geral, responsável, portanto, pela organização do volume) e seus colaboradores de araque desprezam-nos ao máximo: não citam nem o filme nem o diretor. É como se ambos não existissem para aquele universo de 1001 obras cinematográficas supostamente irretocáveis. Ora, "metade" dos filmes que eles arrolam neste livro não vale uma cena de Um homem, uma mulher. E olha que há muitas, para dividir a plateia numa querela de escolhas e preferências. Assistam e confirmem, ou não assistam, o que é muito mais fácil.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 7: Evtuchenko

"A autobiografia de um poeta são seus próprios poemas. O resto é suplementar.
O poeta tem o dever de se apresentar aos leitores com seus sentimentos, atos e pensamentos, de coração aberto.
Para ter o privilégio de exprimir a verdade dos outros, ele deve pagar um preço: entregar-se, impiedosamente, à sua verdade.
Enganar lhe é vedado. Se desdobrar a sua personalidade, de um lado o homem real e, do outro, o homem que se expressa, se tornará estéril. É inevitável.
Quando Rimbaud tornou-se traficante de negros, agindo contra os seus ideais poéticos, deixou de escrever. Foi a solução honesta.
Infelizmente, nem sempre é assim. Alguns se obstinam em escrever mesmo quando sua vida não coincide mais com a sua poesia. Abandonando-os, a poesia se vinga. Mulher rancorosa, ela não perdoa a mistificação, nem mesmo as meias-verdades.
Diante de um espelho, que os homens digam, não quantas vezes mentiram, mas simplesmente quantas vezes preferiram o conforto do silêncio."
 
EVTUCHENKO, Eugênio. Autobiografia precoce. São Paulo: Brasiliense, 1984. Tradução de Yedda Boechat. 116p.

ESTILO. Nestes sete parágrafos, quase aforismos, de tão claros e lúcidos, o autor confessa, de antemão, que não vai escrever sobre si mesmo, mas sobre o seu tempo e seu país, e é o que faz. A URSS surge nua diante do leitor, com suas contradições políticas e o desastroso programa cultural, que enterrou ou desterrou centenas de intelectuais. Em tempos de pretensiosos manuais orientadores para jovens poetas e escritores, e de jovens poetas e escritores mal saídos das fraldas a se exibir como gênios, o livro de Evtuchenko parece Vênus, brilhante e solitário nos céus.