"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 4

Quarto e último volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
O poderoso leão, rei da floresta, reconhece na frágil minhoca uma singularidade à qual não deve sufocar, por mais que ela o incomode.

domingo, 12 de julho de 2015

CRÔNICA, 1: Os Humbertos

Revista Muito (A Tarde), 12 de julho de 2015.
A reprodução da página é uma cortesia de Dalva Santos, que a divulgou no Twitter, e a quem agradeço a generosidade.

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 3

Terceiro volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
Um menino à espera de que tudo fosse diferente, para ele, sua família e o mundo.

sábado, 11 de julho de 2015

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 2

Segundo volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
A história de um cachorro enjeitado que, por efeito de um incidente, dá a volta por cima e retorna ao seio da família.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Pato, cachorro, garoto e minhoca, 1

Primeiro volume da coleção.
Lançamento: 19 de julho, 16 horas, na Livraria Cultura do Salvador Shopping.
A jornada de um patinho amarelo por um mundo desconhecido, que ele vê pela primeira vez e, no entanto, parece reconhecer.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

O HUMOR DA MUITO, 3: Cau Gomez

Unidos para sempre, pois não há como separar. O jeito então é dançar e rabiscar corações, ao compasso de um forró de São João. Arte de Cau Gomez, na Muito número 10, de 8 de junho de 2008.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

A PREVISÃO DO SETE

Brasil 1 x 7 Alemanha.
A EUROPA CURVOU-SE ANTE O BRASIL

7 a 2
3 a 1
A injustiça de Cette
4 a 0
2 a 1
2 a 0
3 a 1
E meia dúzia na cabeça dos portugueses

OSWALD DE ANDRADE. Pau-Brasil (1925). Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972. 144p.

Bons tempos! E a (in)justiça de Cette é bem outra coisa, sobretudo quando se sabe que este era o nome antigo da cidade francesa então denominada Sète.

Este poema é quase um presságio, com décadas de antecipação. Ou, talvez, uma ironia visionária com a nossa tendência à soberba. Ou, simplesmente, uma bela coincidência.

Alguns dirão: incompetência mesmo, decadência. Que seja!

O HUMOR DA MUITO, 2: Simanca

Zombaria com a arte de Salvador Dali e com a vida, que uma só não é mais irônica com a outra que o tempo, que desdenha de ambas. Arte de Simanca, na Muito número 13, de 29 de junho de 2008.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

O HUMOR DA MUITO, 1: Aziz

A revista Muito, encartada no jornal A Tarde aos domingos, completou no último mês de abril sete anos de existência. É, ao que se sabe, a única revista de circulação ininterrupta da Bahia na atualidade. Dentre as muitas atrações da revista, que apropriadamente se diversifica em matérias sobre o cotidiano, artes, perfis de pessoas famosas, saúde, comportamento, locais pitorescos de Salvador etc., estão as charges e os cartuns. Fiz uma seleção dos meus preferidos, que sairão periodicamente aqui, seguidos de um breve comentário.

Acima, a inclusão de Salvador em âmbito internacional, via um ícone do cinema, o filme King-Kong, que veio a público pela primeira vez em 1933 e teve duas refilmagens. Arte de Aziz, na Muito número 7, de 18 de maio de 2008.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

OFICINA DE CONTOS

Ministrarei oficina de Leitura e Criação de Contos. Nos dias 17, 18, 24 e 25 de julho, das 9 às 13 horas. Informações e inscrições na Caixa Cultural Salvador: Rua Carlos Gomes, 57, Centro, Salvador, BA. (71) 3421-4200.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

VÁ E VEJA, 24: Um homem, uma mulher


Foi um dos mais cultuados filmes dos anos 1960 e 1970. Um dos grandes ícones do cinema francês e mundial. Um clássico absoluto, premiadíssimo e imitado à exaustão, um filme que antes de qualquer coisa transforma seu assunto em arte, em modo de se exprimir, método de contar, com novidades atraentes, a mais elementar e antiga história do mundo: o amor de um homem e uma mulher.

Visto hoje, em que ao que parece todas as histórias já foram contadas, em especial as lírico-amorosas, percebe-se o quanto este filme se detém na forma, relegando seu assunto a um simples pretexto para o exercício de recursos cinematográficos singelos e inovadores que mais tarde se tornariam clichês. E, no entanto, diferentemente da maioria dos cineastas que pretendem antes se exprimir do que narrar, como Lelouch soa fluente, puro, direto, franco e sedutor! 

A  história é mais do que banal: um homem viúvo sempre que pode vai visitar, aos domingos, o filhinho no colégio interno. Uma tarde, de volta, dá carona a uma mulher, jovem e também viúva, cuja filha é colega do menino. É inevitável que, durante a viagem, eles conversem e se deixem atrair. A relação, contudo, se pautará pelas lembranças do casamento de cada um, os cônjuges mortos, a vida que mantinham, o que cada um fazia e como se relacionavam os dois casais. O peso da relação anterior aterra-os, sobretudo à mulher, ainda marcada pela presença, veneração e carícias do marido.


Não é uma história de amor simplesmente. Dor, ausência, lembranças, perdas, silêncios, constrangimentos e até culpa se interpõem entre os dois e dão o tom de beleza e poesia que fazem deste filme um caso único na história do cinema, para o bem e para o mal. Explique-se: foi um dos raros filmes românticos a ganhar dois prêmios capitais, Cannes e Oscar de Filme Estrangeiro, e numa época exigente, em que só arrebatavam estes prêmios filmes de mérito comprovado. Influenciou a publicidade em larga escala, tanto no cinema quanto na tevê, e mesmo a impressa; as propagandas manjadas de cartões de crédito, com casais e seus felizes filhos, praticamente o reproduzem, ano após ano, com variações.

Também foi imitado, plagiado e sofreu, ao longo das décadas, uma crescente conspiração silenciosa com o intuito de depreciá-lo e, por fim, apagá-lo. De certo modo, a postura de Claude Lelouch, sincero ao extremo e cheio de autossuficiência, talvez tenha contribuído para esse destino injusto. Ao receber o Oscar, ele disse, secamente, que sua ida para Hollywood estava fora de cogitação, pois o que ele queria mesmo era fazer cinema de arte. E fez, a despeito de seus detratores.


Críticos vulgares, forjados em redações de jornais e revistas, ou os petulantes, que se esforçam em transformar Tarantinos e Meirelles em gênios do cinema, costumam rejeitar Um homem, uma mulher e ao próprio Lelouch. Um exemplo vulgar: 1001 filmes para ver antes de morrer (Sextante, 2008). O Sr. Steven Jay Schneider (editor geral, responsável, portanto, pela organização do volume) e seus colaboradores de araque desprezam-nos ao máximo: não citam nem o filme nem o diretor. É como se ambos não existissem para aquele universo de 1001 obras cinematográficas supostamente irretocáveis. Ora, "metade" dos filmes que eles arrolam neste livro não vale uma cena de Um homem, uma mulher. E olha que há muitas, para dividir a plateia numa querela de escolhas e preferências. Assistam e confirmem, ou não assistam, o que é muito mais fácil.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 7: Evtuchenko

"A autobiografia de um poeta são seus próprios poemas. O resto é suplementar.
O poeta tem o dever de se apresentar aos leitores com seus sentimentos, atos e pensamentos, de coração aberto.
Para ter o privilégio de exprimir a verdade dos outros, ele deve pagar um preço: entregar-se, impiedosamente, à sua verdade.
Enganar lhe é vedado. Se desdobrar a sua personalidade, de um lado o homem real e, do outro, o homem que se expressa, se tornará estéril. É inevitável.
Quando Rimbaud tornou-se traficante de negros, agindo contra os seus ideais poéticos, deixou de escrever. Foi a solução honesta.
Infelizmente, nem sempre é assim. Alguns se obstinam em escrever mesmo quando sua vida não coincide mais com a sua poesia. Abandonando-os, a poesia se vinga. Mulher rancorosa, ela não perdoa a mistificação, nem mesmo as meias-verdades.
Diante de um espelho, que os homens digam, não quantas vezes mentiram, mas simplesmente quantas vezes preferiram o conforto do silêncio."
 
EVTUCHENKO, Eugênio. Autobiografia precoce. São Paulo: Brasiliense, 1984. Tradução de Yedda Boechat. 116p.

ESTILO. Nestes sete parágrafos, quase aforismos, de tão claros e lúcidos, o autor confessa, de antemão, que não vai escrever sobre si mesmo, mas sobre o seu tempo e seu país, e é o que faz. A URSS surge nua diante do leitor, com suas contradições políticas e o desastroso programa cultural, que enterrou ou desterrou centenas de intelectuais. Em tempos de pretensiosos manuais orientadores para jovens poetas e escritores, e de jovens poetas e escritores mal saídos das fraldas a se exibir como gênios, o livro de Evtuchenko parece Vênus, brilhante e solitário nos céus.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 6: Steinbeck

Desenho da capa: Enio Squeff.
"Cannery Row, em Monterey, Califórnia, é um poema, um mau cheiro, um rangido, uma qualidade de luz, uma tonalidade, um hábito, uma nostalgia, um sonho. Cannery Row é o ajuntamento confuso e tumultuado, em estanho, ferro e ferrugem, madeiras lascadas, calçadas rachadas, terrenos baldios cobertos de mato e pilhas de lixo, de fábricas de sardinha de ferro corrugado, tabernas imundas, restaurantes e bordéis, pequenas mercearias sempre atulhadas, laboratórios e albergues ordinários. Os habitantes são, como disse o homem certa ocasião, 'meretrizes, cafetões, jogadores e filhos da puta' pelo que se referia a Todo Mundo. Se o homem tivesse olhado por outro ângulo, poderia dizer 'Santos e anjos, mártires e abençoados' e estaria significando a mesma coisa."
 
STEINBECK, John. A rua das ilusões perdidas. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. 166p.
 
ESTILO. De início, a rua é definida subjetivamente. O narrador, ao relembrá-la, parece evocar não um lugar, mas um sentimento, o que o faz derivar para a poesia. Seguem-se, no entanto, elementos concretos do lugar. Deixamos de sentir e passamos a ver, topograficamente. É mais cinema agora que prosa. Por fim, ao contrapor com sua opinião o julgamento geral, o narrador se posiciona e sacraliza o profano. Leitores, e não só os de Steinbeck, foram conquistados e vão atravessar esta história como num sonho benéfico, no qual, em lapsos conscientes, torcemos para não acordar.

terça-feira, 23 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 5: Domínguez


"Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.
 
Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram O tigre da Malásia e se transformaram em professores de literatura em remotas universidades. Sidarta levou milhares de jovens aos hinduísmo, Hemingway transformou-os em esportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi sua vítima."
 
DOMÍNGUEZ, Carlos María. A casa de papel. São Paulo: Francis, 2006. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. 104p.
 
ESTILO. No primeiro parágrafo a dúvida: não se sabe o que causou a morte da personagem, se a distração oriunda do ato de ler ou o impacto da leitura do poema. No segundo, a quebra do lugar-comum, segundo o qual os livros transformam as pessoas. Na verdade, os livros mudam a direção que as pessoas conferem às suas vidas e não raro o fim que se dão é trágico. Nos parágrafos seguintes, o narrador aprofunda essa ideia e surpreende o leitor a cada página.  

domingo, 21 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 4: Luiz Vilela

Capa da primeira edição, 1979.
"O Rei da Sinuca era um salão de jogo no primeiro e único andar de um prédio, numa rua sossegada, em nossa pequena cidade. Era nele que nos encontrávamos toda tarde para fazer passar o tempo na mesa de sinuca e nas garrafas de cerveja, entremeadas de sanduíches de mortadela.
 
O salão era como que o nosso segundo lar (para alguns talvez o único): tínhamos com ele a familiaridade que tínhamos com o nosso primeiro, ou mesmo familiaridade maior ainda. Sentíamos ali uma ligação profunda com cada coisa, ligação que começava na escada, continuava no balcão e nas mesas de mármore, e ia terminar na terceira mesa verde, a namorada fiel de todos."
 
VILELA, Luiz. O choro no travesseiro. São Paulo: Cultura, 1979. 80p.
 
ESTILO. Despretensiosas, as informações vão se sucedendo: o local de encontro dos rapazes, numa cidadezinha; a necessidade de fazer passar o tempo, o jogo diário, a bebida; a ideia de "segundo lar", ou mesmo "único", para alguns; a preferência pelo local, em detrimento da própria família e, por fim, esta surpresa semântica: a mesa de sinuca como uma mulher, namorada "de todos" e, ainda assim, "fiel". Em tom de causo, mas ciente de que literatura é transformação, Luiz Vilela torce, em apenas dois parágrafos, a consciência do leitor.

sábado, 20 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 3: Graciliano

Capa da primeira edição, 1934.
"Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.
 
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa."
 
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1996. 224p.
 
ESTILO. Uma aula de ironia. O narrador, atenuado de sua prepotência autoral, pretende distribuir as funções de criação entre seus amigos e, com isso, enriquecer sua obra e as "letras nacionais", àquela altura empobrecidas, pois destituídas de assunto elevado e erudição, escritas em português ruim, mal postas no papel e sem literariedade, pela qual ficaria responsável, pasmem, um jornalista! Refere ainda, sutilmente, o fato de que, no Brasil, com muita frequência, o autor paga as edições de seus livros. Graciliano Ramos não poupa ninguém, talvez somente o leitor.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 2: Giardinelli

Edição recente, em espanhol.
"Sabia que ia acontecer, e soube quando a viu. Havia muitos anos que não vinha ao Chaco, e em meio a tantas emoções pelos reencontros Araceli foi um deslumbramento. Tinha o cabelo negro, comprido, grosso, e uma franja altiva que demarcava perfeitamente seu rosto fino, modiglianesco, no qual se ressaíam os olhos escuros, brilhantes, de olhar lânguido, mas astuto. Magra e de pernas muito longas, parecia orgulhosa e ao mesmo tempo embaraçada pelos peitinhos que começavam a explodir-lhe debaixo da blusa. Ramiro a fitou e soube que haveria problemas: Araceli não podia ter mais que treze anos."
 
GIARDINELLI, Mempo. Luna caliente: três noites de paixão. Porto Alegre: L&PM, 1985. Tradução de Sérgio Faraco. 120p.
 
ESTILO. Ao uso do verbo "saber", como antevisão e certeza, se segue a descrição do motor de sexo que vai deflagrar a perdição do personagem. Duas revelações pecaminosas ("peitinhos", que não são para amamentar, e "treze anos", que encerram Araceli ainda na infância) são introduzidas incidentemente, tanto como aperitivos da narrativa quanto como motivos da desgraça do personagem, que não "saberá" recuar de seus pensamentos lascivos.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 1: Sturgeon

Capa: do grande Eugênio Hirsch.
"Apanharam o menino em flagrante, quando fazia algo nojento sob as arquibancadas do estádio do liceu. Por causa disso, foi expulso da escola primária, situada em frente, e mandado para casa. Tinha, naquela época, oito anos. Havia anos que fazia aquilo.
 
De certa maneira, era uma pena. Tratava-se de um garoto simpático e até mesmo bonito, embora sem nada de extraordinário. Algumas crianças e professores gostavam dele um pouquinho e havia os que não gostavam, também um pouquinho; mas, quando foi expulso, todos se viraram contra ele. Chamava-se Horty (ou melhor, Horton) Bluett. Naturalmente, quando chegasse em casa, iria sofrer."
 
STURGEON, Theodore. O homem sintético. Rio de Janeiro: Sabiá, 1971. Tradução de José Sanz. 192p.
 
ESTILO. Se por um lado, no primeiro parágrafo, o narrador oculta o que seja o "ato nojento", deixando-o germinar na cabeça do leitor, no segundo descreve, por meias-tintas, a criança que o perpetrou, além de sugerir que a punição ainda vai continuar, e pior. Tal técnica acaba por aguçar a curiosidade de leitor, que, depois destes dois parágrafos, não deixará de ir adiante, tanto atraído por presenciar a punição quanto esperançoso de que ela não ocorra.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

MILLÔR TRADUTOR: MEDEIA

Mais uma tradução de Medeia, pela 34.
Millôr Fernandes era um autor inquieto e multifacetado. Da poesia ao desenho, dos contos humorísticos às ácidas críticas ao mundo, da dramaturgia, em que experimentou o quanto pôde, às traduções de peças do teatro clássico, sempre se exercitou como um inconformado.

Neste último campo, a tradução, ele obteve um êxito incomparável: fez os textos de Sófocles, Eurípides, Shakespeare, Molière ou Aristófanes soar tão atuais quanto qualquer peça escrita hoje, ou até mais. E de modo que o pensamento dos autores ou suas reflexões mais caras a qualquer leitor se conservassem, vivos e atuantes.

Na história de Medeia, por exemplo, cujo argumento é tão banal quanto qualquer novela ordinária da Globo, as reflexões mais argutas da peça, verdadeiros aforismos de tão precisas, permanecem na mente do leitor, trabalhando naquela engrenagem que é o ponto final de todo texto exemplar do teatro ocidental: a consciência humana, que deve, a qualquer custo, ser excitada e, se possível, transformada.

Ao abandonar a família e a pátria em favor de um novo amor, Medeia sequer supõe qual será seu destino e, ao presenciá-lo, desfia todo o seu amargor e sua decepção, em palavras que se tornam a essência da vida e o seu malogro.

"Só agora aprendes que todo ser humano ama primeiro a si mesmo e depois, quando pode, ao seu vizinho? Ou porque tem o egoísmo nas entranhas ou porque o impulsiona uma cobiça."

"Se mostrarem conhecimentos novos aos tolos, serão considerados tolos pelos tolos. Em resumo: se na cidade tua fama de sábio ultrapassar a dos que se julgam donos da sabedoria, serás um estorvo e um desagrado."

"O tempo, que corre todo o tempo há tanto tempo, tece gemas iguais para homens e mulheres."

"Ó, Zeus! Por que deste ao ser humano a capacidade de saber se o ouro é falso e não puseste na fronte do homem um sinal pelo qual reconhecer que abriga uma alma abjeta?"

"Vocês, mulheres, têm a estranha ideia de que tudo está perfeito se o leito conjugal foi preservado. Mas, se alguém macula os lençóis que julgam intocáveis, a vida se desfaz, tudo é infelicidade."

"O que vem de um velhaco é sempre uma velhacaria."

"A mim, a quem ele dizia amar pelos tempos afora, agora me olha com olhar de náusea."

"O ouro tem sobre o espírito humano mais poder do que mil palavras de convicção."

"E posso também afirmar que os mortais que não passaram pela experiência de gerar filhos são muito mais felizes do que os que geraram. Os que não geraram são poupados de muitos infortúnios."

"Nenhum ser mortal é feliz; a fortuna pode sorrir a um e fazê-lo mais feliz do que os outros. Mas feliz nenhum é."

"Os deuses sabem quem começou esta espiral de horrores."

"Do alto do seu trono olímpico, Zeus tece o fio dos fatos e dos destinos, trama que quase sempre ultrapassa a compreensão dos mortais. O esperado não se realiza, o imprevisível encontra seu caminho. E assim termina o drama."

Em pouco mais de noventa páginas, tem-se praticamente um resumo da vida. O individualismo humano, a cobiça, a inveja, o despeito, a ação irremediável do tempo, o fim do amor, os casamentos de convenção, as traições, a igualdade entre homens e mulheres, a incapacidade humana de atingir a felicidade, a ideia de que a vida é uma condenação, a submissão do gênero humano à mão de Deus ou do acaso...

Mas muito desse conhecimento teria se perdido não fosse o tradutor um ótimo leitor e igual escritor, capaz de fazer ressoar em português a magia das palavras e do pensamento gregos.

Trechos extraídos de EURÍPIDES. Medeia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. 92p. Em tradução, claro, de Millôr Fernandes.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

BOTO ROSA EM CENÁRIO SOMBRIO


Ao passo que o Governo do Estado da Bahia mantém a Bienal do Livro da Bahia 2015 e a Feira de Livros de Feira de Santana sob risco, afinal de contas nosso governador e seus secretários, todos filiados ao Partido dos Trapaceiros, estão pouco se lixando para o livro, a leitura e a educação em geral, pois preferem o medíocre Carnaval da Bahia, no qual chegaram a colocar este ano mais de 65 milhões de reais, bem como eventos que intensifiquem a vulgaridade e o mau gosto, mesmo porque em geral eles são vulgares e possuidores de um extremo mau gosto, temos agora em Salvador mais uma livraria que foge ao princípio de baixa qualidade que norteia a Saraiva e similares, a Boto Cor-de-Rosa, na Barra, especificamente na Rua Marquês de Caravelas, 328. Estive lá hoje e conferi o bom acervo de livros de Literatura e Arte. Tomei um excelente café e comprei um exemplar do volume Absolutamente nada e outras histórias, do suíço Robert Walser, sobre o qual Hermann Hesse disse, certa vez: "Se Walser tivesse cem mil leitores, o mundo seria um lugar melhor". Duvido muito que ele tenha cem leitores na Bahia. E se tiver, e o Governo do Estado souber, vai mandar prender, um por um, urgentemente.

terça-feira, 26 de maio de 2015

OS PASSARINHOS SÃO OS MESMOS

A arte do pintor soviético Deineka.
O escritor Dênisson Padilha Filho mantém no seu blogue uma série denominada Conto Afora, em que publica contos de escritores brasileiros. Em segunda temporada, ele reproduziu um conto meu, recém-publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia (março, 2015). O título é Os passarinhos são os mesmos, e o relato começa assim:  
 
O ônibus parou na rodovia, e um rapaz desceu, uma pesada mochila nas costas. Pequeno no acostamento, olhou para um lado e outro, enquanto o veículo se afastava e por fim sumia, dois olhinhos vermelhos somente, na escuridão. Do outro lado, a distender-se no vale, silenciosa, a cidade era uma massa de luz tênue e amarela. O rapaz atravessou a pista e desceu em direção às primeiras casas. Para além da cidade, mais luzes tremulavam sobre o mar.

domingo, 3 de maio de 2015

FEIRA DE LIVROS E FLORES


Acontece sempre no primeiro domingo do mês. Na Casa-Museu Solar Santo Antônio,
Rua Direita de Santo Antônio, 177, Santo Antônio, Salvador, BA.
É neste bairro, aliás, que se passa boa parte da narrativa de um clássico
da literatura baiana e brasileira, O forte, de Adonias Filho.
Livros novos e usados, a preços convidativos.
E também flores, que são elas próprias um convite.