domingo, 28 de junho de 2015
sábado, 27 de junho de 2015
sexta-feira, 26 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 7: Evtuchenko
O poeta tem o dever de se apresentar aos leitores com seus sentimentos, atos e pensamentos, de coração aberto.
Para ter o privilégio de exprimir a verdade dos outros, ele deve pagar um preço: entregar-se, impiedosamente, à sua verdade.
Enganar lhe é vedado. Se desdobrar a sua personalidade, de um lado o homem real e, do outro, o homem que se expressa, se tornará estéril. É inevitável.
Quando Rimbaud tornou-se traficante de negros, agindo contra os seus ideais poéticos, deixou de escrever. Foi a solução honesta.
Infelizmente, nem sempre é assim. Alguns se obstinam em escrever mesmo quando sua vida não coincide mais com a sua poesia. Abandonando-os, a poesia se vinga. Mulher rancorosa, ela não perdoa a mistificação, nem mesmo as meias-verdades.
Diante de um espelho, que os homens digam, não quantas vezes mentiram, mas simplesmente quantas vezes preferiram o conforto do silêncio."
EVTUCHENKO, Eugênio. Autobiografia precoce. São Paulo: Brasiliense, 1984. Tradução de Yedda Boechat. 116p.
ESTILO. Nestes sete parágrafos, quase aforismos, de tão claros e lúcidos, o autor confessa, de antemão, que não vai escrever sobre si mesmo, mas sobre o seu tempo e seu país, e é o que faz. A URSS surge nua diante do leitor, com suas contradições políticas e o desastroso programa cultural, que enterrou ou desterrou centenas de intelectuais. Em tempos de pretensiosos manuais orientadores para jovens poetas e escritores, e de jovens poetas e escritores mal saídos das fraldas a se exibir como gênios, o livro de Evtuchenko parece Vênus, brilhante e solitário nos céus.
quarta-feira, 24 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 6: Steinbeck
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| Desenho da capa: Enio Squeff. |
STEINBECK, John. A rua das ilusões perdidas. Rio de Janeiro: Rio Gráfica, 1986. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. 166p.
ESTILO. De início, a rua é definida subjetivamente. O narrador, ao relembrá-la, parece evocar não um lugar, mas um sentimento, o que o faz derivar para a poesia. Seguem-se, no entanto, elementos concretos do lugar. Deixamos de sentir e passamos a ver, topograficamente. É mais cinema agora que prosa. Por fim, ao contrapor com sua opinião o julgamento geral, o narrador se posiciona e sacraliza o profano. Leitores, e não só os de Steinbeck, foram conquistados e vão atravessar esta história como num sonho benéfico, no qual, em lapsos conscientes, torcemos para não acordar.
terça-feira, 23 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 5: Domínguez
"Na primavera de 1998, Bluma Lennon comprou numa livraria do Soho um velho exemplar dos Poemas de Emily Dickinson, e ao chegar ao segundo poema, na primeira esquina, foi atropelada por um automóvel.
Os livros mudam o destino das pessoas. Uns leram O tigre da Malásia e se transformaram em professores de literatura em remotas universidades. Sidarta levou milhares de jovens aos hinduísmo, Hemingway transformou-os em esportistas, Dumas transtornou a vida de milhares de mulheres e não poucas foram salvas do suicídio por manuais de cozinha. Bluma foi sua vítima."
DOMÍNGUEZ, Carlos María. A casa de papel. São Paulo: Francis, 2006. Tradução de Maria Paula Gurgel Ribeiro. 104p.
ESTILO. No primeiro parágrafo a dúvida: não se sabe o que causou a morte da personagem, se a distração oriunda do ato de ler ou o impacto da leitura do poema. No segundo, a quebra do lugar-comum, segundo o qual os livros transformam as pessoas. Na verdade, os livros mudam a direção que as pessoas conferem às suas vidas e não raro o fim que se dão é trágico. Nos parágrafos seguintes, o narrador aprofunda essa ideia e surpreende o leitor a cada página.
domingo, 21 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 4: Luiz Vilela
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| Capa da primeira edição, 1979. |
"O Rei da Sinuca era um salão de jogo no primeiro e único andar de um prédio, numa rua sossegada, em nossa pequena cidade. Era nele que nos encontrávamos toda tarde para fazer passar o tempo na mesa de sinuca e nas garrafas de cerveja, entremeadas de sanduíches de mortadela.
O salão era como que o nosso segundo lar (para alguns talvez o único): tínhamos com ele a familiaridade que tínhamos com o nosso primeiro, ou mesmo familiaridade maior ainda. Sentíamos ali uma ligação profunda com cada coisa, ligação que começava na escada, continuava no balcão e nas mesas de mármore, e ia terminar na terceira mesa verde, a namorada fiel de todos."
VILELA, Luiz. O choro no travesseiro. São Paulo: Cultura, 1979. 80p.
ESTILO. Despretensiosas, as informações vão se sucedendo: o local de encontro dos rapazes, numa cidadezinha; a necessidade de fazer passar o tempo, o jogo diário, a bebida; a ideia de "segundo lar", ou mesmo "único", para alguns; a preferência pelo local, em detrimento da própria família e, por fim, esta surpresa semântica: a mesa de sinuca como uma mulher, namorada "de todos" e, ainda assim, "fiel". Em tom de causo, mas ciente de que literatura é transformação, Luiz Vilela torce, em apenas dois parágrafos, a consciência do leitor.
sábado, 20 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 3: Graciliano
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| Capa da primeira edição, 1934. |
"Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa."
RAMOS, Graciliano. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1996. 224p.
ESTILO. Uma aula de ironia. O narrador, atenuado de sua prepotência autoral, pretende distribuir as funções de criação entre seus amigos e, com isso, enriquecer sua obra e as "letras nacionais", àquela altura empobrecidas, pois destituídas de assunto elevado e erudição, escritas em português ruim, mal postas no papel e sem literariedade, pela qual ficaria responsável, pasmem, um jornalista! Refere ainda, sutilmente, o fato de que, no Brasil, com muita frequência, o autor paga as edições de seus livros. Graciliano Ramos não poupa ninguém, talvez somente o leitor.
quinta-feira, 18 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 2: Giardinelli
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| Edição recente, em espanhol. |
"Sabia que ia acontecer, e soube quando a viu. Havia muitos anos que não vinha ao Chaco, e em meio a tantas emoções pelos reencontros Araceli foi um deslumbramento. Tinha o cabelo negro, comprido, grosso, e uma franja altiva que demarcava perfeitamente seu rosto fino, modiglianesco, no qual se ressaíam os olhos escuros, brilhantes, de olhar lânguido, mas astuto. Magra e de pernas muito longas, parecia orgulhosa e ao mesmo tempo embaraçada pelos peitinhos que começavam a explodir-lhe debaixo da blusa. Ramiro a fitou e soube que haveria problemas: Araceli não podia ter mais que treze anos."
GIARDINELLI, Mempo. Luna caliente: três noites de paixão. Porto Alegre: L&PM, 1985. Tradução de Sérgio Faraco. 120p.
ESTILO. Ao uso do verbo "saber", como antevisão e certeza, se segue a descrição do motor de sexo que vai deflagrar a perdição do personagem. Duas revelações pecaminosas ("peitinhos", que não são para amamentar, e "treze anos", que encerram Araceli ainda na infância) são introduzidas incidentemente, tanto como aperitivos da narrativa quanto como motivos da desgraça do personagem, que não "saberá" recuar de seus pensamentos lascivos.
quarta-feira, 17 de junho de 2015
INÍCIOS EXEMPLARES, 1: Sturgeon
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| Capa: do grande Eugênio Hirsch. |
"Apanharam o menino em flagrante, quando fazia algo nojento sob as arquibancadas do estádio do liceu. Por causa disso, foi expulso da escola primária, situada em frente, e mandado para casa. Tinha, naquela época, oito anos. Havia anos que fazia aquilo.
De certa maneira, era uma pena. Tratava-se de um garoto simpático e até mesmo bonito, embora sem nada de extraordinário. Algumas crianças e professores gostavam dele um pouquinho e havia os que não gostavam, também um pouquinho; mas, quando foi expulso, todos se viraram contra ele. Chamava-se Horty (ou melhor, Horton) Bluett. Naturalmente, quando chegasse em casa, iria sofrer."
STURGEON, Theodore. O homem sintético. Rio de Janeiro: Sabiá, 1971. Tradução de José Sanz. 192p.
ESTILO. Se por um lado, no primeiro parágrafo, o narrador oculta o que seja o "ato nojento", deixando-o germinar na cabeça do leitor, no segundo descreve, por meias-tintas, a criança que o perpetrou, além de sugerir que a punição ainda vai continuar, e pior. Tal técnica acaba por aguçar a curiosidade de leitor, que, depois destes dois parágrafos, não deixará de ir adiante, tanto atraído por presenciar a punição quanto esperançoso de que ela não ocorra.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
quarta-feira, 10 de junho de 2015
MILLÔR TRADUTOR: MEDEIA
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| Mais uma tradução de Medeia, pela 34. |
Millôr Fernandes era um autor inquieto e multifacetado. Da poesia ao desenho, dos contos humorísticos às ácidas críticas ao mundo, da dramaturgia, em que experimentou o quanto pôde, às traduções de peças do teatro clássico, sempre se exercitou como um inconformado.
Neste último campo, a tradução, ele obteve um êxito incomparável: fez os textos de Sófocles, Eurípides, Shakespeare, Molière ou Aristófanes soar tão atuais quanto qualquer peça escrita hoje, ou até mais. E de modo que o pensamento dos autores ou suas reflexões mais caras a qualquer leitor se conservassem, vivos e atuantes.
Na história de Medeia, por exemplo, cujo argumento é tão banal quanto qualquer novela ordinária da Globo, as reflexões mais argutas da peça, verdadeiros aforismos de tão precisas, permanecem na mente do leitor, trabalhando naquela engrenagem que é o ponto final de todo texto exemplar do teatro ocidental: a consciência humana, que deve, a qualquer custo, ser excitada e, se possível, transformada.
Ao abandonar a família e a pátria em favor de um novo amor, Medeia sequer supõe qual será seu destino e, ao presenciá-lo, desfia todo o seu amargor e sua decepção, em palavras que se tornam a essência da vida e o seu malogro.
"Só agora aprendes que todo ser humano ama primeiro a si mesmo e depois, quando pode, ao seu vizinho?
Ou porque tem o egoísmo nas entranhas ou porque o impulsiona uma cobiça."
"Se mostrarem conhecimentos novos aos tolos, serão considerados tolos pelos tolos. Em resumo: se na cidade tua fama de sábio ultrapassar a dos que se julgam donos da sabedoria, serás um estorvo e um desagrado."
"O tempo, que corre todo o tempo há tanto tempo, tece gemas iguais para homens e mulheres."
"Ó, Zeus! Por que deste ao ser humano a capacidade de saber se o ouro é falso e não puseste na fronte do homem um sinal pelo qual reconhecer que abriga uma alma abjeta?"
"Vocês, mulheres, têm a estranha ideia de que tudo está perfeito se o leito conjugal foi preservado. Mas, se alguém macula os lençóis que julgam intocáveis, a vida se desfaz, tudo é infelicidade."
"O que vem de um velhaco é sempre uma velhacaria."
"A mim, a quem ele dizia amar pelos tempos afora, agora me olha com olhar de náusea."
"O ouro tem sobre o espírito humano mais poder do que mil palavras de convicção."
"E posso também afirmar que os mortais que não passaram pela experiência de gerar filhos são muito mais felizes do que os que geraram. Os que não geraram são poupados de muitos infortúnios."
"Nenhum ser mortal é feliz; a fortuna pode sorrir a um e fazê-lo mais feliz do que os outros. Mas feliz nenhum é."
"Os deuses sabem quem começou esta espiral de horrores."
"Do alto do seu trono olímpico, Zeus tece o fio dos fatos e dos destinos, trama que quase sempre ultrapassa a compreensão dos mortais. O esperado não se realiza, o imprevisível encontra seu caminho. E assim termina o drama."
Em pouco mais de noventa páginas, tem-se praticamente um resumo da vida. O individualismo humano, a cobiça, a inveja, o despeito, a ação irremediável do tempo, o fim do amor, os casamentos de convenção, as traições, a igualdade entre homens e mulheres, a incapacidade humana de atingir a felicidade, a ideia de que a vida é uma condenação, a submissão do gênero humano à mão de Deus ou do acaso...
Mas muito desse conhecimento teria se perdido não fosse o tradutor um ótimo leitor e igual escritor, capaz de fazer ressoar em português a magia das palavras e do pensamento gregos.
Trechos extraídos de EURÍPIDES. Medeia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. 92p. Em tradução, claro, de Millôr Fernandes.
quarta-feira, 3 de junho de 2015
BOTO ROSA EM CENÁRIO SOMBRIO

Ao passo que o Governo do Estado da Bahia mantém a Bienal do Livro da Bahia 2015 e a Feira de Livros de Feira de Santana sob risco, afinal de contas nosso governador e seus secretários, todos filiados ao Partido dos Trapaceiros, estão pouco se lixando para o livro, a leitura e a educação em geral, pois preferem o medíocre Carnaval da Bahia, no qual chegaram a colocar este ano mais de 65 milhões de reais, bem como eventos que intensifiquem a vulgaridade e o mau gosto, mesmo porque em geral eles são vulgares e possuidores de um extremo mau gosto, temos agora em Salvador mais uma livraria que foge ao princípio de baixa qualidade que norteia a Saraiva e similares, a Boto Cor-de-Rosa, na Barra, especificamente na Rua Marquês de Caravelas, 328. Estive lá hoje e conferi o bom acervo de livros de Literatura e Arte. Tomei um excelente café e comprei um exemplar do volume Absolutamente nada e outras histórias, do suíço Robert Walser, sobre o qual Hermann Hesse disse, certa vez: "Se Walser tivesse cem mil leitores, o mundo seria um lugar melhor". Duvido muito que ele tenha cem leitores na Bahia. E se tiver, e o Governo do Estado souber, vai mandar prender, um por um, urgentemente.
terça-feira, 26 de maio de 2015
OS PASSARINHOS SÃO OS MESMOS
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| A arte do pintor soviético Deineka. |
O escritor Dênisson Padilha Filho mantém no seu blogue uma série denominada Conto Afora, em que publica contos de escritores brasileiros. Em segunda temporada, ele reproduziu um conto meu, recém-publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia (março, 2015). O título é Os passarinhos são os mesmos, e o relato começa assim:
O ônibus parou na rodovia, e um rapaz desceu, uma pesada mochila nas
costas. Pequeno no acostamento, olhou para um lado e outro, enquanto o
veículo se afastava e por fim sumia, dois olhinhos vermelhos somente, na
escuridão. Do outro lado, a distender-se no vale, silenciosa, a cidade
era uma massa de luz tênue e amarela. O rapaz atravessou a pista e
desceu em direção às primeiras casas. Para além da cidade, mais luzes
tremulavam sobre o mar.
domingo, 3 de maio de 2015
FEIRA DE LIVROS E FLORES
Acontece sempre no primeiro domingo do mês. Na Casa-Museu Solar Santo Antônio,
Rua Direita de Santo Antônio, 177, Santo Antônio, Salvador, BA.
É neste bairro, aliás, que se passa boa parte da narrativa de um clássico
da literatura baiana e brasileira, O forte, de Adonias Filho.
Livros novos e usados, a preços convidativos.
E também flores, que são elas próprias um convite.
terça-feira, 28 de abril de 2015
LIVROS COM 50% DE DESCONTO
A LDM Livraria Multicampi aderiu à promoção que celebra a união dos catálogos das editoras Objetiva e Companhia das Letras. São vários títulos escolhidos de grandes autores, vendidos com 50% de desconto. A promoção vai até 8 de maio de 2015. Aproveitem! A principal loja da LDM fica no Espaço Itaú de Cinema, no antigo Cine Glauber Rocha: Praça Castro Alves, s|n, Centro, Salvador, BA, (71) 3013-4759.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
LEITURAS, 51: OS ESPIÕES
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| Edição de bolso, da Objetiva, 2011. |
Luís Fernando Veríssimo não é nem de longe um dos autores de minha predileção. Na verdade, só tinha boas lembranças de dois de seus livros: o volume que reúne todas as aventuras do Analista de Bagé e o que concentra as pretensas narrativas policiais do improvável detetive Ed Mort. Em ambos, o forte é o humor, sabemos; e sabemos também que no Brasil a literatura satírica tem existência árdua e é logo esquecida, salvo Machado de Assis.
Recentemente, porém, tive em mãos a novelinha Os espiões, cuja leitura me entusiasmou. É evidente ainda, a cada página, o humor inerente a quase todas as obras do autor, mas não é só isso. Numa paródia muito bem pensada dos romances de espionagem, à moda de Fleming, Greene e Le Carré, Veríssimo cria uma trama quixotesca que mistura mercado editorial, o editor mal intencionado, a condição sempre precária do escritor brasileiro, uma despretensiosa reflexão sobre o papel da literatura na vida tanto dos autores quanto dos leitores e, de quebra, retoca, com tintas nostálgicas, o retrato das pequenas cidades brasileiras nascidas em volta de uma feira, uma praça ou uma grande empresa, que se estabelece e se torna o motor da economia do lugar.
A trama tem início quando um editor assistente recebe um manuscrito incompleto, com o primeiro capítulo da história de Ariadne, personagem e autora, que pretende, ao terminar a obra, se matar. Mais interessado na autora que propriamente na obra, embora reconheça suas supostas qualidades literárias, o sujeito tudo faz para resgatá-la das garras do marido, o principal suspeito de sua angústia que culminará com o suicídio. E, assim, arquiteta o envio de espiões à cidade de Ariadne. Incógnitos e disfarçados, eles farão de tudo para se aproximar da vítima.
Em meio aos percalços que seus espiões enfrentam, o narrador expõe sua verve satírica e faz críticas mordazes a editores, autores e leitores, não poupando ninguém de seu ceticismo em relação ao futuro da literatura e do livro. Numa de suas reflexões mais felizes e ácidas, ele decreta: "O professor Fortuna diz que em vez de endeusar escritores deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco".
De alcance imprevisto e conteúdo inesperado, esta novelinha de Veríssimo é a prova verificável de que a liberdade de criação é, ainda, a melhor conselheira do autor, pretenda ele conceber uma obra-prima ou tão somente um elegante exercício de ironia. Acho que em certo sentido Os espiões foi bem-sucedido nos dois propósitos.
sexta-feira, 10 de abril de 2015
ESTAMOS DESTRUINDO O MUNDO
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| Edição brasileira, Artenova, 1975. |
Num dos volumes de contos de Ray Bradbury, Remédio para a melancolia [A medicine for melancholy, 1948], há um relato de antecipação que é um retrato de nossa época, muito embora muitos possam argumentar que é só literatura, que não expressa a realidade. Não diria que não, mas, como metáfora, é a própria realidade em que vivemos. Se não, vejamos.
Em O sorriso, um breve conto de cinco páginas, pessoas se aglomeram numa fila imensa e, enquanto esperam, conversam. Na fila, está um menino, Tom, que, ao que tudo indica, e essa é a desconfiança das pessoas em volta, é um apreciador de arte. É o ano de 2061 e, em meio a um caos apocalíptico, causado obviamente por bombas, a maior diversão são os "festivais", nos quais o passado, em especial o artístico, é destruído e incinerado. Sob o efeito de muita bebida e riso contagiante, queimam-se livros e se destroem todo e qualquer objeto artístico e cultural. De valor, claro! "Ninguém quer a civilização", diz um dos personagens. "Você fica odiando tudo o que liquidou com você. Assim é a natureza humana."
Descobrimos em seguida que quem está na fila poderá cuspir na Monalisa, de Da Vinci! E logo chega um emissário do Governo, que comunica à turba que as autoridades decretaram que o quadro ali presente seja entregue ao povo, para ser destruído. É o que basta. Se até aquele momento as pessoas hesitavam, sobretudo porque Tom, sendo um dos primeiros da fila, ao contemplar a Monalisa, achara-a linda, agora não há mais remédio. O povaréu avança, e logo ouve-se o som de um rasgão: "A multidão estava alucinada, e as mãos pareciam pássaros esfaimados beliscando o quadro". Tom, a duras penas, consegue um pedaço da tela, e pouco depois sabemos o motivo: em casa, depois de levar uma bronca dos pais e dois pontapés do irmão, ele adormece, com o pedaço da Monalisa na mão a repousar sobre o peito: e naquele pedacinho do que fora por séculos o creme do creme das obras de arte, estava o sorriso, o sorriso lindo, discreto e infalível.
Estamos destruindo o mundo, embora pareça que não. Ouça Elis Regina ou Connie Francis e depois Ivete Sangalo ou Ana Carolina e diga que não. Dê um passeio pelas exposições de arte que a Secretaria de Cultura da Bahia promove e diga que não. Abra um desses inúmeros livros premiados, de autores brasileiros ou estrangeiros, tente lê-los e diga que não. Examine com atenção as propostas de incentivo à produção artística e cultural do Governo da maluca da "presidenta" e diga que não. E não é assim só no Brasil. Aqui só é mais grave e infame, porque nossa "pátria educadora" não educa. Embroma. (Aliás, é da natureza dos Governos embromar. Não sei por que me surpreendo.) E há países em que a destruição tem sido literal, a machado e marreta, sem apelação.
No encontro que tivemos, eu e Mirdad, com Hélio Pólvora, em janeiro, ele nos disse que tinha deixado de aceitar ser jurado de concursos literários, desde que, certa vez, conversando com um dos membros do júri de um concurso renomado sobre e dificuldade que era ler até quinhentos livros num prazo tão curto e escolher "o melhor", o sujeito se voltou sério para ele e disse: "Eu não perco tempo, Hélio! Jogo para cima uns dez, e o que cair na minha mão eu leio!" Excelente conselho! Opa, por um instante pensei ter ouvido a voz de um porta-voz do Governo...
terça-feira, 7 de abril de 2015
LA ROCHELLE E O BRASIL
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| Um dos raros livros de La Rochelle no Brasil. |
No último dia 15 de março, completaram-se 70 anos desde que Pierre Drieu La Rochelle se suicidou. Não suportou a carga do mundo e, fiel a si mesmo, preferiu se matar. Partiu sozinho, com sua dor, seu desencanto e suas convicções.
O Brasil é, sem dúvida, um lugar porco. Para qualquer lado que se olhe há um inimigo, alguém que deseja ou algo que nos pertence ou algum prestígio mínimo que tenhamos alcançado. E a todo momento somos julgados pelo que não somos, ou por não concordarmos, ou porque não nos curvamos. Possuir ideias próprias no Brasil, atualmente, é quase uma heresia ou uma ofensa. Devemos abdicar de pensar, devemos abjurar nossa opinião.
Eu tinha a esperança de que um dia o voto seria facultativo. Mas, de uns tempos para cá, tenho pensado que virá o dia em que os partidos nos empurrarão como gado para as urnas, como têm empurrado os bobocas para as ruas, nas contrapasseatas. Estamos a caminho de nos tornarmos uma Venezuela, onde a oposição é pró-forma, uma simples formalidade. E é inacreditável que tanto aconteça, e o Governo brasileiro continue com sua lenga-lenga, suas histórias da carochinha.
Hoje, o novo Ministro da Educação, que, sabemos de antemão não fará nada e, se fizer, será dispensado, apareceu na tevê diante de uma parede que trazia o seguinte slogan: "Brasil, pátria educadora". Fiquei perplexo, porque, se somos alguma coisa, não é isso que somos. Não damos a mínima para a educação. As prefeituras em geral a desprezam, os estados igualmente, o país ainda mais. As escolas, a rigor, também são uma simples formalidade. Estão onde estão porque é preciso estar, mas dia virá em que nos convencerão de que não servem para nada e então também vão suprimi-las, com nosso consentimento. Bem como as bibliotecas públicas, o livro e demais acessórios.
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| O ministro da educação, só uma engrenagem da farsa. |
O Governador do Estado da Bahia, o famigerado Sr. Rui Costa, se orgulha de dizer na tevê que colocou 66 milhões de reais no Carnaval de Salvador, enquanto isso a Sra. Dilma suprime 15 milhões da verba da USP... E este é só um exemplo, ínfimo. Se formos arrolar de norte a sul, de leste a oeste o que acontece, ficaríamos enfarados ao descobrirmos que esta é a regra geral. E que o mesmo se dá na saúde pública. E em vários outros setores. Roubaram durante anos a Petrobras, e agora, que a empresa está agonizando, pedem dinheiro emprestado à China. Ora, pedissem também dinheiro para a educação, para a saúde... Muito embora não saibamos o que a China vai levar mais tarde. Ninguém empresta dinheiro por nada em troca. E ainda mais um país. Alguma coisa eles vão levar daqui. Bom seria se levassem três terços dos nossos políticos.
Mas o leitor deve estar se perguntando o que tem a ver a desastrosa realidade brasileira com os 70 anos da morte de La Rochelle. Nada e tudo. Compara-se um abacaxi tanto com uma laranja quanto com um parafuso. Tudo no mundo se relaciona por semelhanças e diferenças. E é isso que a Educação nos faz ver. E é isso que esse governozinho que arrumaram para o Brasil não nos permite enxergar. Ele é diferente e é igual. Faz o novo e o mesmo. Parece erguer, mas faz desabar. Parece construir, mas corrói. Diferenças e semelhanças que, na balança histórica do Brasil canalha, acabam se equivalendo.
O fato de La Rochelle ser hoje um autor praticamente esquecido, cujas obras são difíceis de encontrar tanto em novas edições quanto nas antigas, confinadas aos sebos, está diretamente associado ao destino que ele se impôs. É o mesmo que o Brasil está fazendo. Mas La Rochelle era um, e ainda mais um artista, um escritor. Sabia ele que só ele seria punido. O Brasil é um país. Muitos serão punidos, inevitavelmente, pela realidade que estamos vivendo. E é sempre tarde "voltar atrás" de um suicídio.
quinta-feira, 2 de abril de 2015
ENCONTRO COM PÓLVORA
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| Encontro literário na ALB. |
Em 4 de setembro de 2009, tive a honra de participar de um evento na Academia de Letras da Bahia, ao lado de Hélio Pólvora. Era a primeira edição de um projeto denominado Encontros Literários, que reuniria, de setembro de 2009 a dezembro de 2011, vários escritores, sempre em duplas, com um representante já consagrado e outro emergente, mas houve, naturalmente, algumas exceções a esta regra. A inauguração foi exatamente comigo e Pólvora, com leitura pública de dois contos de cada um, por parte de Luís Antônio Cajazeira Ramos, o mediador da mesa, e debate teórico-crítico a cargo de Antônia Herrera, professora-doutora do Instituto de Letras da UFBA, e Gerana Damulakis. Os contos de Hélio Pólvora escolhidos para a leitura foram A bênção, padrinho e Chuva, ambos de O rei dos surubins (Rio de Janeiro: Imago, 2000), e os meus, Esqueleto e Chuva, ambos do Dizer adeus (São Paulo: K, 2005). Coincidentemente, Hélio e eu escolhemos um conto com o mesmo título... Um caderno impresso com os quatro textos foi distribuído na ocasião aos presentes, e hoje, ao mexer na estante em busca de um livro de W. Somerset Maugham, que também escreveu um conto intitulado Chuva, eu o encontrei. Já não me lembrava de onde o tinha guardado e, das vezes que o procurei, não houve jeito de achá-lo. Era porque tinha de ser hoje, e agora! As palavras são mágicas, e mais ainda as poéticas, literárias. Octavio Paz estava mais do que certo. Quem convive com a literatura não se espanta com o Acaso.
sábado, 28 de março de 2015
LEITURAS, 50: APENAS UMA MULHER
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| Edibolso, 1976, raridade. |
Duas mulheres, numa granja, tocam a vida juntas, juntas mesmo, pois, desde o início, o narrador não deixa dúvidas de que elas têm uma relação mais profunda que a profissional. E a obra foi publicada em 1923! Portanto, o que hoje os escritores, o cinema e a tevê representam em forma de panfleto, D. H. Lawrence fez espontaneamente, sem alarde. O resultado é que esta novelinha, cujo título original é The fox [A raposa], é hoje, sem sombra de qualquer contestação, uma obra-prima do autor e de toda a literatura de língua inglesa.
Ao cotidiano das duas moças se mescla uma raposa, que está devorando noite a noite as galinhas, e depois um rapaz, antigo morador da granja e que chega para abalar tanto a relação profissional quanto a amorosa das duas amigas. Numa das melhoras edições desta obra em língua portuguesa (Edibolso, 1976), e hoje uma raridade que mal se encontra nos sebos, a contracapa provoca: "As duas mulheres eram jovens e bonitas. Viviam juntas naquela pequena granja. Tranquilas. Isoladas do mundo. Primeiro apareceu uma raposa, ameaçando a criação. Depois apareceu um jovem estranho, ameaçando tudo". Não há como não abrir este livro depois desta convocação.
E, de fato, a novela de Lawrence, como toda a sua obra, é de uma inventividade que desafia qualquer autor de sua época e ainda mais da nossa, marcada pela literatura ligeira, de obras que, virada a última página, já estamos pensando em outra coisa. Em estilo, assunto, forma, linguagem, construção de cenas e perspectiva de enredo, ele seduz a todo instante. Numa das cenas mais bem elaboradas, o narrador põe uma das moças, March, em vigília, devidamente armada e pronta a atirar, à espera de surpreender a raposa, mas é ela que é "apanhada" pelo animal, que a observa detidamente, vira as costas, corre, detém-se, olha para trás e num instante desaparece, "macia como o vento". Não sabemos ainda, mas esta cena é uma metáfora do que vai acontecer mais tarde, com a chegada do rapaz: macio como uma raposa, ele também vai surpreender e abalar March.
Aos leitores interessados em desfrutar da leitura desta novela aviso que a Record acaba de lançar uma nova edição, em volume acrescido de seis contos, pela coleção Best Bolso. O tradutor, inclusive, é o mesmo da edição de 1976: José Veiga. Oportunidade única para revisitar ou descobrir um texto mais que imprescindível, de um autor que deixou mais que apenas o romance O amante de Lady Chatterley.
sexta-feira, 27 de março de 2015
O ADEUS DE HÉLIO PÓLVORA
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| Pólvora, por Ramon Muniz. |
Vejam como são as coisas neste novo Brasil que o Partido dos Trapaceiros e o lulismo inauguraram: há alguns meses, a presidente da república veio a público reclamar da execução, na Indonésia, de um brasileiro ligado às drogas e traficante internacional. Causou, obviamente, um estremecimento diplomático entre as duas nações, ao passo que sugeria desconhecer ou pelo menos ignorar que, diariamente, brasileiros inocentes e outros nem tanto são sumariamente executados pelo efeito direto das drogas ou de suas ramificações econômicas e sociais.
Ontem, faleceu e foi cremado Hélio Pólvora, um dos grandes escritores brasileiros nascidos na Bahia, e à solenidade não compareceu nenhum veículo da imprensa, nem os grandes (A Tarde, Correio da Bahia, TV Bahia, TV Bandeirantes, SBT, Record) nem os nanicos (Tribuna da Bahia, TV Educativa e as rádios em geral). Igualmente, o governo do estado e a prefeitura de Salvador não mandaram nenhum representante.
Claro que isso já era esperado, afinal de contas o governador, que não tem vergonha de dizer em público que colocou 66 milhões de reais no carnaval de Salvador, enquanto a saúde, a educação e a segurança, para citar o mínimo, penam por recursos e reformas, não faz, de fato, o gênero de alguém que conhece e usufrui das artes mais refinadas, como a literatura. Nestas três gestões do partido acima mencionado, os secretários de cultura são o exemplo perfeito de uma política que pretende que todos pulem e dancem até a loucura total, sufocando assim qualquer sentimento mais salutar e embotando o intelecto, como se drogas o minassem. Os últimos secretários estaduais de cultura, que podemos definir com uma tríade de personagens dos quadrinhos infantis, Brasinha, Gasparzinho e Patolino, são os representantes de uma política que almeja, a médio prazo, reduzir as artes aos seus tipos mais elementares: o artesanato, a arte popular e a arte de rua. Bastante conveniente, por sinal. Ao menos eles são sinceros: desprezam publicamente o que repudiam. Deveriam ser mais autênticos e repudiar publicamente o que desprezam.
Quanto à ausência da imprensa, ora, ela só pensa em e por multidões. Quando o "grande" artista da axé-music ou do pagode ou do arrocha morrer, ela estará presente, com toda a sua circunstância e suas perguntas-feitas, mais clichês que carimbos de cartório.
Ao adeus de Hélio Pólvora, no cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, compareceram somente os parentes, os amigos, os confrades da Academia de Letras da Bahia, escritores e professores do Instituto de Letras da UFBA. O escritor e presidente da ALB, Aramis Ribeiro Costa, resumiu em seu excelente discurso quem foi Hélio Pólvora: contista exemplar, romancista, crítico literário, cronista, grande tradutor de William Faulkner, jornalista atuante até o momento final e, em resumo, um incansável trabalhador das letras e das palavras. A Bahia, especialmente a atual, com seus governantes medíocres e sua gente quase iletrada, não o merece. Como não mereceu a outros seletos escritores: Gregório de Matos, Castro Alves, Junqueira Freire, Luís Gama, Sosígenes Costa, Xavier Marques, Jorge Amado, Dias da Costa, Wilson Lins, Vasconcelos Maia, Euclides Neto, Afonso Manta, Adonias Filho, Herberto Sales, Godofredo Filho, Eurico Alves, Sônia Coutinho e João Ubaldo Ribeiro.
Devo ter esquecido algum nome importante... Mas esquecer ou ignorar, sabemos agora, é politicamente perdoável.
quinta-feira, 26 de março de 2015
HÉLIO PÓLVORA (1928-2015)
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| Encontro com Pólvora, em 9 de janeiro. |
Num de seus contos mais célebres, Jorge Luis Borges afirma, grosso modo, que aquilo que verdadeiramente define uma pátria são os seus artistas, seus ocasos, a natureza, suas montanhas, seus mares, lagos, campos etc. Portanto, quando morre um artista, um pedaço de terra se foi, desapareceu, ainda que, com a sua arte, possamos revivê-lo em sua plenitude criadora, naquele ato que, como nenhum outro, continua, perpetuado por palavras, sons, cores, gestos, imagens, ritmos, tons. É o que sinto, hoje, ao saber que Hélio Pólvora se foi. Desapareceu o homem, calmo, gentil, generoso, sempre com um comentário inteligente e preciso acerca da literatura ou da vida. Quando liguei para uma amiga e lhe dei a triste notícia, foi o que ela me disse: "Uma pessoa boa". Por um instante, ela esqueceu o artista, o escritor e tradutor renomados, e reviveu o homem, o ser social. Isso, claro, é um sintoma. Vivemos um tempo em que a grosseria e o mau gosto dão o tom das relações e, assim, sentimos mais profundamente quando se vai uma pessoa que era antípoda e adversa a tal tendência. Dois meses atrás, estivemos, Emmanuel Mirdad e eu, na casa de Hélio Pólvora. Passamos parte da tarde com ele, conversamos sobre literatura e cinema, ele nos indicou autores e livros, recomendou que não deixássemos de ler o Nobel de Literatura Orhan Pamuk, especialmente Meu nome é vermelho, e depois fizemos três fotos, apenas. Para registrar, sem qualquer pretensão, aquele encontro, que, não sabíamos, seria o último. Tínhamos combinado de promover com ele algumas sessões de cinema, em que assistiríamos a filmes que alternativamente indicaríamos. Hélio seria o primeiro a indicar algum clássico de sua preferência. Mas não foi possível. A vida não deixou. Ou deixou por um fio mais um projeto... Bem, daqui a algum tempo, quando eu também atender ao chamado das estrelas, e igualmente Mirdad, faremos este encontro cinematográfico noutra esfera. E então relembraremos que, neste plano, aqui na Terra, apenas estávamos ensaiando a verdadeira vida.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
POETA-POEMA, 65: RIBEIRO COUTO
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| A arte do pintor norte-americano Eric Zener. |
Despertar com ambos alguma consciência. |
BRINQUEDO NA PISCINA
Não voltou. A piscina
Lisa é como um retalho
Azul na luz matutina.
A mãe aos gritos se descabela.
Ralhava sempre, mas tanto ralho
De que serviu? Lamenta-se ela.
Imóvel no fundo da piscina,
Não se sabe se finge de peixe
Ou brinca de pesca submarina.
Parece pedir que a mãe o deixe.
RIBEIRO COUTO (1898-1963). Poeta brasileiro, nascido em Santos, SP. Dividido entre o Modernismo e o Simbolismo, soube imprimir à sua poesia traços pessoais e, com isso, se destacar por si mesmo, como atesta o espécime acima, escrito em 1962, a um ano de sua morte. Esquecido hoje, foi no entanto um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Poema destacado de Melhores poemas: Ribeiro Couto (Global, 2002).
BRINQUEDO NA PISCINA
Não voltou. A piscina
Lisa é como um retalho
Azul na luz matutina.
A mãe aos gritos se descabela.
Ralhava sempre, mas tanto ralho
De que serviu? Lamenta-se ela.
Imóvel no fundo da piscina,
Não se sabe se finge de peixe
Ou brinca de pesca submarina.
Parece pedir que a mãe o deixe.
RIBEIRO COUTO (1898-1963). Poeta brasileiro, nascido em Santos, SP. Dividido entre o Modernismo e o Simbolismo, soube imprimir à sua poesia traços pessoais e, com isso, se destacar por si mesmo, como atesta o espécime acima, escrito em 1962, a um ano de sua morte. Esquecido hoje, foi no entanto um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Poema destacado de Melhores poemas: Ribeiro Couto (Global, 2002).
quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
sábado, 10 de janeiro de 2015
POETA-POEMA, 64: RICARDO THADEU
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| Ron Morrison e seu mundo abarrotado de carros. |
Despertar com ambos alguma consciência. |
CENA FUTURISTA
[televisão ligada]
a mãe, na sala,
descansava os ossos
o filho, no quarto,
assistia a uma puta
a filha, mulher-fruta,
apenas ouvia:
o gemido do irmão
o ronco da mãe
e as notícias do dia
RICARDO THADEU (1989). Escritor brasileiro, nascido em Riachão do Jacuípe, BA. Sua poesia, irônica e experimental, abdica das modas poéticas em favor da concisão e do assunto, quase sempre a vida cotidiana e seus horrores. O poema acima consta de Trilogia do tempo (Kalango, 2013), que reúne seus três livros no gênero.
CENA FUTURISTA
[televisão ligada]
a mãe, na sala,
descansava os ossos
o filho, no quarto,
assistia a uma puta
a filha, mulher-fruta,
apenas ouvia:
o gemido do irmão
o ronco da mãe
e as notícias do dia
RICARDO THADEU (1989). Escritor brasileiro, nascido em Riachão do Jacuípe, BA. Sua poesia, irônica e experimental, abdica das modas poéticas em favor da concisão e do assunto, quase sempre a vida cotidiana e seus horrores. O poema acima consta de Trilogia do tempo (Kalango, 2013), que reúne seus três livros no gênero.
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