"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 17 de junho de 2015

INÍCIOS EXEMPLARES, 1: Sturgeon

Capa: do grande Eugênio Hirsch.
"Apanharam o menino em flagrante, quando fazia algo nojento sob as arquibancadas do estádio do liceu. Por causa disso, foi expulso da escola primária, situada em frente, e mandado para casa. Tinha, naquela época, oito anos. Havia anos que fazia aquilo.
 
De certa maneira, era uma pena. Tratava-se de um garoto simpático e até mesmo bonito, embora sem nada de extraordinário. Algumas crianças e professores gostavam dele um pouquinho e havia os que não gostavam, também um pouquinho; mas, quando foi expulso, todos se viraram contra ele. Chamava-se Horty (ou melhor, Horton) Bluett. Naturalmente, quando chegasse em casa, iria sofrer."
 
STURGEON, Theodore. O homem sintético. Rio de Janeiro: Sabiá, 1971. Tradução de José Sanz. 192p.
 
ESTILO. Se por um lado, no primeiro parágrafo, o narrador oculta o que seja o "ato nojento", deixando-o germinar na cabeça do leitor, no segundo descreve, por meias-tintas, a criança que o perpetrou, além de sugerir que a punição ainda vai continuar, e pior. Tal técnica acaba por aguçar a curiosidade de leitor, que, depois destes dois parágrafos, não deixará de ir adiante, tanto atraído por presenciar a punição quanto esperançoso de que ela não ocorra.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

MILLÔR TRADUTOR: MEDEIA

Mais uma tradução de Medeia, pela 34.
Millôr Fernandes era um autor inquieto e multifacetado. Da poesia ao desenho, dos contos humorísticos às ácidas críticas ao mundo, da dramaturgia, em que experimentou o quanto pôde, às traduções de peças do teatro clássico, sempre se exercitou como um inconformado.

Neste último campo, a tradução, ele obteve um êxito incomparável: fez os textos de Sófocles, Eurípides, Shakespeare, Molière ou Aristófanes soar tão atuais quanto qualquer peça escrita hoje, ou até mais. E de modo que o pensamento dos autores ou suas reflexões mais caras a qualquer leitor se conservassem, vivos e atuantes.

Na história de Medeia, por exemplo, cujo argumento é tão banal quanto qualquer novela ordinária da Globo, as reflexões mais argutas da peça, verdadeiros aforismos de tão precisas, permanecem na mente do leitor, trabalhando naquela engrenagem que é o ponto final de todo texto exemplar do teatro ocidental: a consciência humana, que deve, a qualquer custo, ser excitada e, se possível, transformada.

Ao abandonar a família e a pátria em favor de um novo amor, Medeia sequer supõe qual será seu destino e, ao presenciá-lo, desfia todo o seu amargor e sua decepção, em palavras que se tornam a essência da vida e o seu malogro.

"Só agora aprendes que todo ser humano ama primeiro a si mesmo e depois, quando pode, ao seu vizinho? Ou porque tem o egoísmo nas entranhas ou porque o impulsiona uma cobiça."

"Se mostrarem conhecimentos novos aos tolos, serão considerados tolos pelos tolos. Em resumo: se na cidade tua fama de sábio ultrapassar a dos que se julgam donos da sabedoria, serás um estorvo e um desagrado."

"O tempo, que corre todo o tempo há tanto tempo, tece gemas iguais para homens e mulheres."

"Ó, Zeus! Por que deste ao ser humano a capacidade de saber se o ouro é falso e não puseste na fronte do homem um sinal pelo qual reconhecer que abriga uma alma abjeta?"

"Vocês, mulheres, têm a estranha ideia de que tudo está perfeito se o leito conjugal foi preservado. Mas, se alguém macula os lençóis que julgam intocáveis, a vida se desfaz, tudo é infelicidade."

"O que vem de um velhaco é sempre uma velhacaria."

"A mim, a quem ele dizia amar pelos tempos afora, agora me olha com olhar de náusea."

"O ouro tem sobre o espírito humano mais poder do que mil palavras de convicção."

"E posso também afirmar que os mortais que não passaram pela experiência de gerar filhos são muito mais felizes do que os que geraram. Os que não geraram são poupados de muitos infortúnios."

"Nenhum ser mortal é feliz; a fortuna pode sorrir a um e fazê-lo mais feliz do que os outros. Mas feliz nenhum é."

"Os deuses sabem quem começou esta espiral de horrores."

"Do alto do seu trono olímpico, Zeus tece o fio dos fatos e dos destinos, trama que quase sempre ultrapassa a compreensão dos mortais. O esperado não se realiza, o imprevisível encontra seu caminho. E assim termina o drama."

Em pouco mais de noventa páginas, tem-se praticamente um resumo da vida. O individualismo humano, a cobiça, a inveja, o despeito, a ação irremediável do tempo, o fim do amor, os casamentos de convenção, as traições, a igualdade entre homens e mulheres, a incapacidade humana de atingir a felicidade, a ideia de que a vida é uma condenação, a submissão do gênero humano à mão de Deus ou do acaso...

Mas muito desse conhecimento teria se perdido não fosse o tradutor um ótimo leitor e igual escritor, capaz de fazer ressoar em português a magia das palavras e do pensamento gregos.

Trechos extraídos de EURÍPIDES. Medeia. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. 92p. Em tradução, claro, de Millôr Fernandes.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

BOTO ROSA EM CENÁRIO SOMBRIO


Ao passo que o Governo do Estado da Bahia mantém a Bienal do Livro da Bahia 2015 e a Feira de Livros de Feira de Santana sob risco, afinal de contas nosso governador e seus secretários, todos filiados ao Partido dos Trapaceiros, estão pouco se lixando para o livro, a leitura e a educação em geral, pois preferem o medíocre Carnaval da Bahia, no qual chegaram a colocar este ano mais de 65 milhões de reais, bem como eventos que intensifiquem a vulgaridade e o mau gosto, mesmo porque em geral eles são vulgares e possuidores de um extremo mau gosto, temos agora em Salvador mais uma livraria que foge ao princípio de baixa qualidade que norteia a Saraiva e similares, a Boto Cor-de-Rosa, na Barra, especificamente na Rua Marquês de Caravelas, 328. Estive lá hoje e conferi o bom acervo de livros de Literatura e Arte. Tomei um excelente café e comprei um exemplar do volume Absolutamente nada e outras histórias, do suíço Robert Walser, sobre o qual Hermann Hesse disse, certa vez: "Se Walser tivesse cem mil leitores, o mundo seria um lugar melhor". Duvido muito que ele tenha cem leitores na Bahia. E se tiver, e o Governo do Estado souber, vai mandar prender, um por um, urgentemente.

terça-feira, 26 de maio de 2015

OS PASSARINHOS SÃO OS MESMOS

A arte do pintor soviético Deineka.
O escritor Dênisson Padilha Filho mantém no seu blogue uma série denominada Conto Afora, em que publica contos de escritores brasileiros. Em segunda temporada, ele reproduziu um conto meu, recém-publicado na Revista da Academia de Letras da Bahia (março, 2015). O título é Os passarinhos são os mesmos, e o relato começa assim:  
 
O ônibus parou na rodovia, e um rapaz desceu, uma pesada mochila nas costas. Pequeno no acostamento, olhou para um lado e outro, enquanto o veículo se afastava e por fim sumia, dois olhinhos vermelhos somente, na escuridão. Do outro lado, a distender-se no vale, silenciosa, a cidade era uma massa de luz tênue e amarela. O rapaz atravessou a pista e desceu em direção às primeiras casas. Para além da cidade, mais luzes tremulavam sobre o mar.

domingo, 3 de maio de 2015

FEIRA DE LIVROS E FLORES


Acontece sempre no primeiro domingo do mês. Na Casa-Museu Solar Santo Antônio,
Rua Direita de Santo Antônio, 177, Santo Antônio, Salvador, BA.
É neste bairro, aliás, que se passa boa parte da narrativa de um clássico
da literatura baiana e brasileira, O forte, de Adonias Filho.
Livros novos e usados, a preços convidativos.
E também flores, que são elas próprias um convite.

terça-feira, 28 de abril de 2015

LIVROS COM 50% DE DESCONTO

A LDM Livraria Multicampi aderiu à promoção que celebra a união dos catálogos das editoras Objetiva e Companhia das Letras. São vários títulos escolhidos de grandes autores, vendidos com 50% de desconto. A promoção vai até 8 de maio de 2015. Aproveitem! A principal loja da LDM fica no Espaço Itaú de Cinema, no antigo Cine Glauber Rocha: Praça Castro Alves, s|n, Centro, Salvador, BA, (71) 3013-4759.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

LEITURAS, 51: OS ESPIÕES

Edição de bolso, da Objetiva, 2011.
Luís Fernando Veríssimo não é nem de longe um dos autores de minha predileção. Na verdade, só tinha boas lembranças de dois de seus livros: o volume que reúne todas as aventuras do Analista de Bagé e o que concentra as pretensas narrativas policiais do improvável detetive Ed Mort. Em ambos, o forte é o humor, sabemos; e sabemos também que no Brasil a literatura satírica tem existência árdua e é logo esquecida, salvo Machado de Assis.
 
Recentemente, porém, tive em mãos a novelinha Os espiões, cuja leitura me entusiasmou. É evidente ainda, a cada página, o humor inerente a quase todas as obras do autor, mas não é só isso. Numa paródia muito bem pensada dos romances de espionagem, à moda de Fleming, Greene e Le Carré, Veríssimo cria uma trama quixotesca que mistura mercado editorial, o editor mal intencionado, a condição sempre precária do escritor brasileiro, uma despretensiosa reflexão sobre o papel da literatura na vida tanto dos autores quanto dos leitores e, de quebra, retoca, com tintas nostálgicas, o retrato das pequenas cidades brasileiras nascidas em volta de uma feira, uma praça ou uma grande empresa, que se estabelece e se torna o motor da economia do lugar.
 
A trama tem início quando um editor assistente recebe um manuscrito incompleto, com o primeiro capítulo da história de Ariadne, personagem e autora, que pretende, ao terminar a obra, se matar. Mais interessado na autora que propriamente na obra, embora reconheça suas supostas qualidades literárias, o sujeito tudo faz para resgatá-la das garras do marido, o principal suspeito de sua angústia que culminará com o suicídio. E, assim, arquiteta o envio de espiões à cidade de Ariadne. Incógnitos e disfarçados, eles farão de tudo para se aproximar da vítima.
 
Em meio aos percalços que seus espiões enfrentam, o narrador expõe sua verve satírica e faz críticas mordazes a editores, autores e leitores, não poupando ninguém de seu ceticismo em relação ao futuro da literatura e do livro. Numa de suas reflexões mais felizes e ácidas, ele decreta: "O professor Fortuna diz que em vez de endeusar escritores deveríamos louvar os milhões que resistem e não escrevem, e cuja grande contribuição à literatura universal são as folhas que deixam em branco".
 
De alcance imprevisto e conteúdo inesperado, esta novelinha de Veríssimo é a prova verificável de que a liberdade de criação é, ainda, a melhor conselheira do autor, pretenda ele conceber uma obra-prima ou tão somente um elegante exercício de ironia. Acho que em certo sentido Os espiões foi bem-sucedido nos dois propósitos.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ESTAMOS DESTRUINDO O MUNDO

Edição brasileira, Artenova, 1975.
Num dos volumes de contos de Ray Bradbury, Remédio para a melancolia [A medicine for melancholy, 1948], há um relato de antecipação que é um retrato de nossa época, muito embora muitos possam argumentar que é só literatura, que não expressa a realidade. Não diria que não, mas, como metáfora, é a própria realidade em que vivemos. Se não, vejamos.
 
Em O sorriso, um breve conto de cinco páginas, pessoas se aglomeram numa fila imensa e, enquanto esperam, conversam. Na fila, está um menino, Tom, que, ao que tudo indica, e essa é a desconfiança das pessoas em volta, é um apreciador de arte. É o ano de 2061 e, em meio a um caos apocalíptico, causado obviamente por bombas, a maior diversão são os "festivais", nos quais o passado, em especial o artístico, é destruído e incinerado. Sob o efeito de muita bebida e riso contagiante, queimam-se livros e se destroem todo e qualquer objeto artístico e cultural. De valor, claro! "Ninguém quer a civilização", diz um dos personagens. "Você fica odiando tudo o que liquidou com você. Assim é a natureza humana."
 
Descobrimos em seguida que quem está na fila poderá cuspir na Monalisa, de Da Vinci! E logo chega um emissário do Governo, que comunica à turba que as autoridades decretaram que o quadro ali presente seja entregue ao povo, para ser destruído. É o que basta. Se até aquele momento as pessoas hesitavam, sobretudo porque Tom, sendo um dos primeiros da fila, ao contemplar a Monalisa, achara-a linda, agora não há mais remédio. O povaréu avança, e logo ouve-se o som de um rasgão: "A multidão estava alucinada, e as mãos pareciam pássaros esfaimados beliscando o quadro". Tom, a duras penas, consegue um pedaço da tela, e pouco depois sabemos o motivo: em casa, depois de levar uma bronca dos pais e dois pontapés do irmão, ele adormece, com o pedaço da Monalisa na mão a repousar sobre o peito: e naquele pedacinho do que fora por séculos o creme do creme das obras de arte, estava o sorriso, o sorriso lindo, discreto e infalível. 
 
Estamos destruindo o mundo, embora pareça que não. Ouça Elis Regina ou Connie Francis e depois Ivete Sangalo ou Ana Carolina e diga que não. Dê um passeio pelas exposições de arte que a Secretaria de Cultura da Bahia promove e diga que não. Abra um desses inúmeros livros premiados, de autores brasileiros ou estrangeiros, tente lê-los e diga que não. Examine com atenção as propostas de incentivo à produção artística e cultural do Governo da maluca da "presidenta" e diga que não. E não é assim só no Brasil. Aqui só é mais grave e infame, porque nossa "pátria educadora" não educa. Embroma. (Aliás, é da natureza dos Governos embromar. Não sei por que me surpreendo.) E há países em que a destruição tem sido literal, a machado e marreta, sem apelação.
 
No encontro que tivemos, eu e Mirdad, com Hélio Pólvora, em janeiro, ele nos disse que tinha deixado de aceitar ser jurado de concursos literários, desde que, certa vez, conversando com um dos membros do júri de um concurso renomado sobre e dificuldade que era ler até quinhentos livros num prazo tão curto e escolher "o melhor", o sujeito se voltou sério para ele e disse: "Eu não perco tempo, Hélio! Jogo para cima uns dez, e o que cair na minha mão eu leio!" Excelente conselho! Opa, por um instante pensei ter ouvido a voz de um porta-voz do Governo...

terça-feira, 7 de abril de 2015

LA ROCHELLE E O BRASIL

Um dos raros livros de La Rochelle no Brasil.
No último dia 15 de março, completaram-se 70 anos desde que Pierre Drieu La Rochelle se suicidou. Não suportou a carga do mundo e, fiel a si mesmo, preferiu se matar. Partiu sozinho, com sua dor, seu desencanto e suas convicções.
 
O Brasil é, sem dúvida, um lugar porco. Para qualquer lado que se olhe há um inimigo, alguém que deseja ou algo que nos pertence ou algum prestígio mínimo que tenhamos alcançado. E a todo momento somos julgados pelo que não somos, ou por não concordarmos, ou porque não nos curvamos. Possuir ideias próprias no Brasil, atualmente, é quase uma heresia ou uma ofensa. Devemos abdicar de pensar, devemos abjurar nossa opinião.
 
Eu tinha a esperança de que um dia o voto seria facultativo. Mas, de uns tempos para cá, tenho pensado que virá o dia em que os partidos nos empurrarão como gado para as urnas, como têm empurrado os bobocas para as ruas, nas contrapasseatas. Estamos a caminho de nos tornarmos uma Venezuela, onde a oposição é pró-forma, uma simples formalidade. E é inacreditável que tanto aconteça, e o Governo brasileiro continue com sua lenga-lenga, suas histórias da carochinha.
 
Hoje, o novo Ministro da Educação, que, sabemos de antemão não fará nada e, se fizer, será dispensado, apareceu na tevê diante de uma parede que trazia o seguinte slogan: "Brasil, pátria educadora". Fiquei perplexo, porque, se somos alguma coisa, não é isso que somos. Não damos a mínima para a educação. As prefeituras em geral a desprezam, os estados igualmente, o país ainda mais. As escolas, a rigor, também são uma simples formalidade. Estão onde estão porque é preciso estar, mas dia virá em que nos convencerão de que não servem para nada e então também vão suprimi-las, com nosso consentimento. Bem como as bibliotecas públicas, o livro e demais acessórios.
 
O ministro da educação, só uma engrenagem da farsa.
O Governador do Estado da Bahia, o famigerado Sr. Rui Costa, se orgulha de dizer na tevê que colocou 66 milhões de reais no Carnaval de Salvador, enquanto isso a Sra. Dilma suprime 15 milhões da verba da USP... E este é só um exemplo, ínfimo. Se formos arrolar de norte a sul, de leste a oeste o que acontece, ficaríamos enfarados ao descobrirmos que esta é a regra geral. E que o mesmo se dá na saúde pública. E em vários outros setores. Roubaram durante anos a Petrobras, e agora, que a empresa está agonizando, pedem dinheiro emprestado à China. Ora, pedissem também dinheiro para a educação, para a saúde... Muito embora não saibamos o que a China vai levar mais tarde. Ninguém empresta dinheiro por nada em troca. E ainda mais um país. Alguma coisa eles vão levar daqui. Bom seria se levassem três terços dos nossos políticos.
 
Mas o leitor deve estar se perguntando o que tem a ver a desastrosa realidade brasileira com os 70 anos da morte de La Rochelle. Nada e tudo. Compara-se um abacaxi tanto com uma laranja quanto com um parafuso. Tudo no mundo se relaciona por semelhanças e diferenças. E é isso que a Educação nos faz ver. E é isso que esse governozinho que arrumaram para o Brasil não nos permite enxergar. Ele é diferente e é igual. Faz o novo e o mesmo. Parece erguer, mas faz desabar. Parece construir, mas corrói. Diferenças e semelhanças que, na balança histórica do Brasil canalha, acabam se equivalendo.
 
O fato de La Rochelle ser hoje um autor praticamente esquecido, cujas obras são difíceis de encontrar tanto em novas edições quanto nas antigas, confinadas aos sebos, está diretamente associado ao destino que ele se impôs. É o mesmo que o Brasil está fazendo. Mas La Rochelle era um, e ainda mais um artista, um escritor. Sabia ele que só ele seria punido. O Brasil é um país. Muitos serão punidos, inevitavelmente, pela realidade que estamos vivendo. E é sempre tarde "voltar atrás" de um suicídio. 

quinta-feira, 2 de abril de 2015

ENCONTRO COM PÓLVORA

Encontro literário na ALB.
Em 4 de setembro de 2009, tive a honra de participar de um evento na Academia de Letras da Bahia, ao lado de Hélio Pólvora. Era a primeira edição de um projeto denominado Encontros Literários, que reuniria, de setembro de 2009 a dezembro de 2011, vários escritores, sempre em duplas, com um representante já consagrado e outro emergente, mas houve, naturalmente, algumas exceções a esta regra. A inauguração foi exatamente comigo e Pólvora, com leitura pública de dois contos de cada um, por parte de Luís Antônio Cajazeira Ramos, o mediador da mesa, e debate teórico-crítico a cargo de Antônia Herrera, professora-doutora do Instituto de Letras da UFBA, e Gerana Damulakis. Os contos de Hélio Pólvora escolhidos para a leitura foram A bênção, padrinho e Chuva, ambos de O rei dos surubins (Rio de Janeiro: Imago, 2000), e os meus, Esqueleto e Chuva, ambos do Dizer adeus (São Paulo: K, 2005). Coincidentemente, Hélio e eu escolhemos um conto com o mesmo título... Um caderno impresso com os quatro textos foi distribuído na ocasião aos presentes, e hoje, ao mexer na estante em busca de um livro de W. Somerset Maugham, que também escreveu um conto intitulado Chuva, eu o encontrei. Já não me lembrava de onde o tinha guardado e, das vezes que o procurei, não houve jeito de achá-lo. Era porque tinha de ser hoje, e agora! As palavras são mágicas, e mais ainda as poéticas, literárias. Octavio Paz estava mais do que certo. Quem convive com a literatura não se espanta com o Acaso.

sábado, 28 de março de 2015

LEITURAS, 50: APENAS UMA MULHER

Edibolso, 1976, raridade.
Duas mulheres, numa granja, tocam a vida juntas, juntas mesmo, pois, desde o início, o narrador não deixa dúvidas de que elas têm uma relação mais profunda que a profissional. E a obra foi publicada em 1923! Portanto, o que hoje os escritores, o cinema e a tevê representam em forma de panfleto, D. H. Lawrence fez espontaneamente, sem alarde. O resultado é que esta novelinha, cujo título original é The fox [A raposa], é hoje, sem sombra de qualquer contestação, uma obra-prima do autor e de toda a literatura de língua inglesa.
 
Ao cotidiano das duas moças se mescla uma raposa, que está devorando noite a noite as galinhas, e depois um rapaz, antigo morador da granja e que chega para abalar tanto a relação profissional quanto a amorosa das duas amigas. Numa das melhoras edições desta obra em língua portuguesa (Edibolso, 1976), e hoje uma raridade que mal se encontra nos sebos, a contracapa provoca: "As duas mulheres eram jovens e bonitas. Viviam juntas naquela pequena granja. Tranquilas. Isoladas do mundo. Primeiro apareceu uma raposa, ameaçando a criação. Depois apareceu um jovem estranho, ameaçando tudo". Não há como não abrir este livro depois desta convocação.
 
E, de fato, a novela de Lawrence, como toda a sua obra, é de uma inventividade que desafia qualquer autor de sua época e ainda mais da nossa, marcada pela literatura ligeira, de obras que, virada a última página, já estamos pensando em outra coisa. Em estilo, assunto, forma, linguagem, construção de cenas e perspectiva de enredo, ele seduz a todo instante. Numa das cenas mais bem elaboradas, o narrador põe uma das moças, March, em vigília, devidamente armada e pronta a atirar, à espera de surpreender a raposa,  mas é ela que é "apanhada" pelo animal, que a observa detidamente, vira as costas, corre, detém-se, olha para trás e num instante desaparece, "macia como o vento". Não sabemos ainda, mas esta cena é uma metáfora do que vai acontecer mais tarde, com a chegada do rapaz: macio como uma raposa, ele também vai surpreender e abalar March.
 
Aos leitores interessados em desfrutar da leitura desta novela aviso que a Record acaba de lançar uma nova edição, em volume acrescido de seis contos, pela coleção Best Bolso. O tradutor, inclusive, é o mesmo da edição de 1976: José Veiga. Oportunidade única para revisitar ou descobrir um texto mais que imprescindível, de um autor que deixou mais que apenas o romance O amante de Lady Chatterley. 

sexta-feira, 27 de março de 2015

O ADEUS DE HÉLIO PÓLVORA

Pólvora, por Ramon Muniz.
Vejam como são as coisas neste novo Brasil que o Partido dos Trapaceiros e o lulismo inauguraram: há alguns meses, a presidente da república veio a público reclamar da execução, na Indonésia, de um brasileiro ligado às drogas e traficante internacional. Causou, obviamente, um estremecimento diplomático entre as duas nações, ao passo que sugeria desconhecer ou pelo menos ignorar que, diariamente, brasileiros inocentes e outros nem tanto são sumariamente executados pelo efeito direto das drogas ou de suas ramificações econômicas e sociais.
 
Ontem, faleceu e foi cremado Hélio Pólvora, um dos grandes escritores brasileiros nascidos na Bahia, e à solenidade não compareceu nenhum veículo da imprensa, nem os grandes (A Tarde, Correio da Bahia, TV Bahia, TV Bandeirantes, SBT, Record) nem os nanicos (Tribuna da Bahia, TV Educativa e as rádios em geral). Igualmente, o governo do estado e a prefeitura de Salvador não mandaram nenhum representante.
 
Claro que isso já era esperado, afinal de contas o governador, que não tem vergonha de dizer em público que colocou 66 milhões de reais no carnaval de Salvador, enquanto a saúde, a educação e a segurança, para citar o mínimo, penam por recursos e reformas, não faz, de fato, o gênero de alguém que conhece e usufrui das artes mais refinadas, como a literatura. Nestas três gestões do partido acima mencionado, os secretários de cultura são o exemplo perfeito de uma política que pretende que todos pulem e dancem até a loucura total, sufocando assim qualquer sentimento mais salutar e embotando o intelecto, como se drogas o minassem. Os últimos secretários estaduais de cultura, que podemos definir com uma tríade de personagens dos quadrinhos infantis, Brasinha, Gasparzinho e Patolino, são os representantes de uma política que almeja, a médio prazo, reduzir as artes aos seus tipos mais elementares: o artesanato, a arte popular e a arte de rua. Bastante conveniente, por sinal. Ao menos eles são sinceros: desprezam publicamente o que repudiam. Deveriam ser mais autênticos e repudiar publicamente o que desprezam.
 
Quanto à ausência da imprensa, ora, ela só pensa em e por multidões. Quando o "grande" artista da axé-music ou do pagode ou do arrocha morrer, ela estará presente, com toda a sua circunstância e suas perguntas-feitas, mais clichês que carimbos de cartório.
 
Ao adeus de Hélio Pólvora, no cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, compareceram somente os parentes, os amigos, os confrades da Academia de Letras da Bahia, escritores e professores do Instituto de Letras da UFBA. O escritor e presidente da ALB, Aramis Ribeiro Costa, resumiu em seu excelente discurso quem foi Hélio Pólvora: contista exemplar, romancista, crítico literário, cronista, grande tradutor de William Faulkner, jornalista atuante até o momento final e, em resumo, um incansável trabalhador das letras e das palavras. A Bahia, especialmente a atual, com seus governantes medíocres e sua gente quase iletrada, não o merece. Como não mereceu a outros seletos escritores: Gregório de Matos, Castro Alves, Junqueira Freire, Luís Gama, Sosígenes Costa, Xavier Marques, Jorge Amado, Dias da Costa, Wilson Lins, Vasconcelos Maia, Euclides Neto, Afonso Manta, Adonias Filho, Herberto Sales, Godofredo Filho, Eurico Alves, Sônia Coutinho e João Ubaldo Ribeiro.
 
Devo ter esquecido algum nome importante... Mas esquecer ou ignorar, sabemos agora, é politicamente perdoável.

quinta-feira, 26 de março de 2015

HÉLIO PÓLVORA (1928-2015)

Encontro com Pólvora, em 9 de janeiro.
Num de seus contos mais célebres, Jorge Luis Borges afirma, grosso modo, que aquilo que verdadeiramente define uma pátria são os seus artistas, seus ocasos, a natureza, suas montanhas, seus mares, lagos, campos etc. Portanto, quando morre um artista, um pedaço de terra se foi, desapareceu, ainda que, com a sua arte, possamos revivê-lo em sua plenitude criadora, naquele ato que, como nenhum outro, continua, perpetuado por palavras, sons, cores, gestos, imagens, ritmos, tons. É o que sinto, hoje, ao saber que Hélio Pólvora se foi. Desapareceu o homem, calmo, gentil, generoso, sempre com um comentário inteligente e preciso acerca da literatura ou da vida. Quando liguei para uma amiga e lhe dei a triste notícia, foi o que ela me disse: "Uma pessoa boa". Por um instante, ela esqueceu o artista, o escritor e tradutor renomados, e reviveu o homem, o ser social. Isso, claro, é um sintoma. Vivemos um tempo em que a grosseria e o mau gosto dão o tom das relações e, assim, sentimos mais profundamente quando se vai uma pessoa que era antípoda e adversa a tal tendência. Dois meses atrás, estivemos, Emmanuel Mirdad e eu, na casa de Hélio Pólvora. Passamos parte da tarde com ele, conversamos sobre literatura e cinema, ele nos indicou autores e livros, recomendou que não deixássemos de ler o Nobel de Literatura Orhan Pamuk, especialmente Meu nome é vermelho, e depois fizemos três fotos, apenas. Para registrar, sem qualquer pretensão, aquele encontro, que, não sabíamos, seria o último. Tínhamos combinado de promover com ele algumas sessões de cinema, em que assistiríamos a filmes que alternativamente indicaríamos. Hélio seria o primeiro a indicar algum clássico de sua preferência. Mas não foi possível. A vida não deixou. Ou deixou por um fio mais um projeto... Bem, daqui a algum tempo, quando eu também atender ao chamado das estrelas, e igualmente Mirdad, faremos este encontro cinematográfico noutra esfera. E então relembraremos que, neste plano, aqui na Terra, apenas estávamos ensaiando a verdadeira vida.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

POETA-POEMA, 65: RIBEIRO COUTO

A arte do pintor norte-americano Eric Zener.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

BRINQUEDO NA PISCINA

Não voltou. A piscina
Lisa é como um retalho
Azul na luz matutina.

A mãe aos gritos se descabela.
Ralhava sempre, mas tanto ralho
De que serviu? Lamenta-se ela.

Imóvel no fundo da piscina,
Não se sabe se finge de peixe
Ou brinca de pesca submarina.
Parece pedir que a mãe o deixe.

RIBEIRO COUTO (1898-1963). Poeta brasileiro, nascido em Santos, SP. Dividido entre o Modernismo e o Simbolismo, soube imprimir à sua poesia traços pessoais e, com isso, se destacar por si mesmo, como atesta o espécime acima, escrito em 1962, a um ano de sua morte. Esquecido hoje, foi no entanto um dos grandes poetas brasileiros do século XX. Poema destacado de Melhores poemas: Ribeiro Couto (Global, 2002).

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

LEITURA PÚBLICA NO SESC

Clique sobre a imagem para ampliá-la.
Estarei amanhã, com Gal Meirelles, no SESC Nazaré, na Av. Joana Angélica, 1541, Nazaré, Salvador, BA, às 16:30, para uma leitura pública de meus textos e debate sobre a literatura atual na Bahia.

sábado, 10 de janeiro de 2015

POETA-POEMA, 64: RICARDO THADEU

Ron Morrison e seu mundo abarrotado de carros.
| Expor um poeta, defini-lo com um só poema.
Despertar com ambos alguma consciência. |

CENA FUTURISTA

[televisão ligada]

a mãe, na sala,
descansava os ossos

o filho, no quarto,
assistia a uma puta

a filha, mulher-fruta,
apenas ouvia:

o gemido do irmão
o ronco da mãe
e as notícias do dia

RICARDO THADEU (1989). Escritor brasileiro, nascido em Riachão do Jacuípe, BA. Sua poesia, irônica e experimental, abdica das modas poéticas em favor da concisão e do assunto, quase sempre a vida cotidiana e seus horrores. O poema acima consta de Trilogia do tempo (Kalango, 2013), que reúne seus três livros no gênero.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

LITERATURA E QUADRINHOS

O drama de Capitu e Bentinho.
Adaptações de obras literárias para os quadrinhos geralmente incorrem num grave erro: a didatização. Ou então revelam o pendor do roteirista para a preguiça, evidenciada na desistência da história, durante a transposição de um gênero para o outro: comumente os roteiristas começam com todo vigor, atenuam seu trabalho no decurso e, por fim, falham no arremate. Nos dois casos, o resultado é uma adaptação que, longe de expressar a obra na sua essência, a dilui, não satisfazendo o leitor e, muitas vezes, afastando-o de conhecê-la na forma literária. O melhor exemplo atual talvez seja Dom Casmurro (Nemo, 2011), de Machado de Assis, adaptado por Wellington Srbek e José Aguiar. Realmente uma adaptação pífia, se pensarmos no texto e na tensão original da obra, mas cujos desenhos, ágeis e expressivos, num claro-escuro de traços geométricos, salvam-na do fracasso absoluto. E chegamos a apreciar a Capitu risonha e maliciosa, de olhar profundo, como qualquer adolescente convicta de sua beleza e do poder de sua sedução.

Conto fantástico francês em HQ.
Raros são os gibis que, de fato, partindo de uma obra literária, se consagram como a expressão autônoma de uma história consagrada. Mesmo assim, há bons exemplos atualmente, como: O cabeleira, Clara dos Anjos, A cartomante, O estrangeiro, Pequeno pirata (conto do francês Pierre Mac Orlan, inédito no Brasil) e O coração nas trevas, entre outros. Podemos afirmar, inclusive, que este é um momento de excelentes adaptações literárias para os quadrinhos. Excetuando-se talvez a primeira das obras aqui mencionadas, cujo enredo favorece um desenvolvimento mais ágil, as demais são, efetivamente, de difícil transposição, mas seus autores lograram êxito e chegaram a um resultado ao qual não devemos poupar elogios.

Fidelidade literária a Lima Barreto.
Vejamos Clara dos Anjos (Companhia das Letras, 2011), de Lelis e Wander Antunes. A trama é fiel ao romance de Lima Barreto, a arte favorece a variação de registros imagéticos, num colorido ora suave ora imerso no percurso agressivo do entrecho, e os personagens são "pintados" conforme seu íntimo, de acordo com a velha máxima de que somos fisicamente o reflexo de como agimos em sociedade. Neste sentido, Cassi Jones, o vilão da história, astuto e galanteador, malandro e  predador de mocinhas indefesas, não podia ter outra fisionomia senão a de uma raposa, arrematada por um nariz adunco, de ave de rapina. Clara dos Anjos, por sua vez, a mais inocente vítima de sua ação predatória, é retratada como uma jovem e bela negra, mas sem exageros. Aliás, nada é exagerado nesta adaptação do escritor carioca para os quadrinhos. E era uma história que em tudo favorecia o panfleto, a reparação. Mas ficou o que era, originalmente: um relato duro, tenso, realista e inevitável, quase como uma tragédia grega, muito embora não haja, ao fim, nenhum banho de sangue. Mas não há como não pensar que a mocinha Clara dos Anjos morreu um pouco ou de todo para a continuidade de sua existência, num século XIX de estigmas indeléveis, quando afirma, na última página: "Nós não somos nada nesta vida". Não mesmo.

Uma adaptação à altura da proposta literária de Lima Barreto, que, consciente de quem era e do mundo que vibrava à sua volta, não fazia concessões.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

NATAL HOJE

Presépio e biblioteca.
O QUE FIZERAM DO NATAL

Natal.
O sino longe toca fino.
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom
nos clubes sem presépio.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (1902-1987). Em Alguma poesia (1930).

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

VÁ E VEJA, 23: JANE AUSTEN

Os personagens Darcy e Lizzi, de "Orgulho e preconceito".
Quatro romances de Jane Austen adaptados para a tevê pela BBC. Quantro obras-primas da literatura em adaptações primorosas em todos os aspectos: roteiro, locações, figurino, direção, atores. São: Emma, Persuasão, Razão e sensibilidade e Orgulho e preconceito, a mais famosa de todas as histórias da autora. Compõem a caixa O melhor de Jane Austen, com oito DVDs, em 773' de trama e 158' de material extra. Lançada no Brasil pela Logon em 2011, infelizmente encontra-se esgotada. A caixa em catálogo, atualmente, traz apenas três histórias: não se sabe por que motivo Persuasão, com desempenho primoroso de Sally Hawkins no papel principal, foi excluída.

Se o espectador não leu os livros, vai se encantar com a descoberta dessas histórias que deram fama à sua autora e são reeditadas, ano após ano, em muitos países e diversos idiomas. Se já leu, vai apreciar "revê-los". Muito do texto de Austen está preservado, especialmente nos espirituosos diálogos, plenos de ironia, e nas ambientações, interiores e exteriores, laconicamente descritas e que as adaptações recriam como se estivessem fazendo aparecer, diante dos nossos olhos, o que a autora pintou com palavras tão fluidas. 

E não há como não se apaixonar por suas heroínas: a carismática Anne Elliot, inteligente, sensível e bondosa, a quem todos dedicam atenção por este ou aquele motivo, mas que precisa e muito lutar para alcançar a plenitude de seus sentimentos; a casamenteira Emma Woodhouse, de temperamento pimenta e já uma feminista convicta, muito embora não o seja nem por pose nem por conveniência, o que é, sem dúvida, uma prova de sabedoria; as irmãs Elinor e Marianne, empobrecidas pela morte do pai e que, diante de um futuro orientado pelas convenções sociais, obrigam-se a opor razão e sensibilidade; e, por fim, a romântica e obstinada Lizzy Bennet, que não admite casar sem amor, por mais rico que seja o pretendente, e vê desfilar diante de si o embate das classes sociais, acirrado pelo desprezo recíproco de nobres e emergentes.

Obviamente que estas adaptações para a tevê de quatro dos melhores romances de Jane Austen não os substituem. Ler é imprescindível, qualquer que seja o ângulo de análise e o argumento que se utilize para apreciá-los ou não. A leitura é sempre uma impressão do autor filtrada pela sensibilidade e experiência de quem lê, e isso é insubstituível. No entanto, é um deleite para o espírito e os olhos assistir a estas aventuras que, verbalizadas literariamente por Jane Austen, transformaram-se em vida através das grandiosas imagens destas adaptações. Saímos renovados de cada uma destas histórias, e mais cientes de quem somos e de como funciona o mundo. E como são belas e verdadeiras! Como pulsam de otimismo e humanidade!

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

NO REINO DAS PEQUENAS COISAS

Clique sobre o convite para ampliá-lo.
Denise Gomes-Dias alia ao seu estilo analítico seu pendor para a poesia e a valorização das surpresas que o cotidiano nos oferece e que, não raro, costumamos desprezar. Neste sentido, suas crônicas tanto nos chamam a evocar a partida inesperada de um cão amigo para o plano do insondável quanto nos alertam para que compreendamos, de antemão, a efemeridade deste mundo, que constitui uma simples passagem, uma experiência. Que nos encontremos n'O reino das pequenas coisas, no próximo 22 de dezembro, e comemoremos com a autora mais este passo importante na aventura surpreendente que é a vida!

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

LEITURAS, 49: THOMAS, O IMPOSTOR

Ilustração da capa: Enio Squeff.
No ano do centenário do início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), é lamentável que nenhuma editora brasileira tenha se incumbido de reeditar a novelinha Thomas, o impostor, de Jean Cocteau, publicada em 1923 na França e traduzida no Brasil em 1987, pela Rio Gráfica, na sua saudosa coleção Grandes Sucessos da Literatura Internacional. Poética, dinâmica e irreverente, é considerada uma das obras capitais deste multifacetado artista francês, que foi poeta, romancista, dramaturgo, cineasta, desenhista, pintor etc.

A narrativa concentra-se na figura do fanfarrão Thomas Guillaume, que se faz passar pelo sobrinho do grande general Fontenoy e, com isso, abre portas para si e muitas outras pessoas, tornando-se herói da Primeira Grande Guerra. Na trama, ele transita por muitos lugares, ganha a confiança de uma aristocrata, a senhora de Bormes, conquista o coração desta e de sua filha, Henriette, e faz da Belle Époque o seu palco. A Europa arde em guerra, mas Thomas arde de vida, como se ainda fosse criança e estivesse, em mais uma brincadeira, entre seus companheiros traquinas.

O estilo de Cocteau, de fraseado sintético e repleto de análises daquele mundo que a Guerra sepultou para sempre, seduz o leitor desde as primeiras páginas e o faz esquecer que está diante de um relato de caráter bélico. Acompanhamos as aventuras de Thomas como se este fosse, no fundo e na forma, um inconcebível Quixote do front, presente nas páginas apenas para nos fazer sorrir.

Com tal estratégia, Cocteau termina por nos sugerir, metaforicamente, que a guerra, e em especial aquela, não passa de um capricho, uma aberração que homens supostamente importantes, em seus gabinetes, decidem criar para a ascensão de si mesmos e de suas carreiras, a despeito do infortúnio dos países e das pessoas que representam. A ironia é que, sem esforço nem vontade, nem tampouco qualquer treinamento militar ou intento diplomático, Thomas se torna uma legenda maior que a dos "grandes homens" que fizeram eclodir a guerra. Sua experiência é, como a de todos os combatentes, universal: "A última cortina se levanta. A criança e a fantasia se confundem. Finalmente Guillaume conhece o amor". O front e o amor guardam os mesmos sentimentos. E esperanças.

Ainda teremos quatro anos de "celebrações" ao centenário da Primeira Guerra Mundial. Até o fim deste período talvez alguma editora brasileira decida reeditar esta empolgante obra de Jean Cocteau, uma das primeiras reflexões literárias sobre "a mais cruel das guerras".