"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 26 de julho de 2014

MAIS OUTRO AVIÃO

Destroços do voo para a Argélia (Globo.com).
Em apenas poucos dias partiram Nadine Gordimer, João Ubaldo Ribeiro, Ariano Suassuna e agora o astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, autor do "Dicionário enciclopédico de astronomia e astronáutica" (Nova Fronteira, 1987), o primeiro do gênero em todo o mundo. Um brasileiro ilustre que a imprensa em geral ignora, em favor de Dungas e Sininhos. 

A poetisa uruguaia Idea Vilariño tem um poema que nos dá bem a medida desta constante transitoriedade da vida, quando nos diz que "cada tarde que finda formosamente morre", como as pessoas. E conclui: "mais uma, menos uma". 

Para onde quer que os quatro acima tenham ido, são mais um por lá, e menos um por aqui, para a felicidade das Sininhos de plantão, que, em nome de ideais políticos questionáveis, depredam, ferem e até matam. E ainda encontram entusiasmados seguidores. Histéricos de porta de cadeia, com os braços abertos para recebê-los. Não importa se fazem o bem ou o mal. 

Mas em breve o relógio marcará a supressão de mais uma vida, ou por cansaço ou por doença ou por atentado ou por acidente. Ou simplesmente por ideais políticos questionáveis. 

Nos últimos dias, três aviões caíram... E, como se sabe que eles caem em série de três ou quatro, a qualquer momento pode cair mais outro, até que peças mecânicas e cabeças vivas se aquietem, e a vida siga em frente, sem acidentes aéreos. Ao menos por um tempo. 

E eis que Israel joga mais uma bomba sobre a cabeça de um punhado de civis inocentes, e os extremistas adversários agradecem por mais este pretexto para intensificar seus atos violentos e desumanos, por este ou aquele ideal: político, religioso, partidário, rarefeito, obsoleto, vazio. 

E é Idea Vilariño, mais uma vez, quem conclui: "Pobre mundo, vão desfazê-lo, vai voar em pedaços".

Já está voando. Ou caindo. Como prefiram. Desde muito tempo.

É um voo com destino previsto. E não haverá sobreviventes.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 38: ALEMANHA TETRACAMPEÃ!

Götze, o iluminado (Globo.com).
No Maracanã, ontem, o gol de Götze, no segundo tempo da prorrogação, conferiu justiça ao jogo e à melhor campanha da Copa. A Alemanha foi, sem dúvida, a melhor seleção do mundial, a mais regular, a de toque de bola mais refinado e que, no momento certo, soube se impor aos adversários. Forma, aliás, com Holanda, Colômbia, França, Bélgica e Argentina uma espécie de sexteto de ouro, abaixo do qual todas as demais seleções estão, inclusive o Brasil, que foi protagonista do maior fiasco da Copa.
 
Surpreendeu a todos que a FIFA premiasse Messi como o melhor jogador da Copa. Nem ele mesmo acreditava nesse galardão e, por isso, ficou ali, com a taça na mão, sem saber o que fazer. Faltou ao mesmo a humildade de recusar o prêmio e o entregar a Kross, Robben, Jamis Rodríguez, Müller ou Neuer. Na verdade, a FIFA deu ao argentino um prêmio de consolação, como fizera em 2010, ao escolher Forlán. Se assim foi, deveria dar algum também ao selecionado brasileiro. Um muro besuntado de graxa, digamos, diante do qual os caras ficassem a se esfregar e chorar suas lágrimas infantis, de adolescentes tardios, como bem definiu o escritor Carlos Barbosa.
 
E soube agora que Felipão foi embora, com a demissão debaixo do braço. Que vá! Só espero que, às portas de 2018, não seja chamado mais uma vez para salvar a pátria. Ou enterrá-la. Com a CBF, assim como com a FIFA, tudo é possível.
 
O Diário da Copa volta em 2018, se a vida assim permitir e Deus nos conceder tal direito.

domingo, 13 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 37: BRASIL RIDÍCULO!

Nada será diferente, David Luiz vai continuar "armando" o ataque (MSN).
No seu último jogo pela Copa do Mundo 2014, com o terceiro lugar em disputa, o desempenho do Brasil foi ridículo. Felipão, que não fez mudanças substanciais em nenhum dos jogos anteriores (nem mesmo com o time perdendo de 2x0 para a Alemanha), ontem resolveu mudar às pencas e colocou em campo um monte de jogadores que, a rigor, são piores que os titulares. O lateral-esquerdo, então, é sofrível; não serve nem para sombra de Marcelo. Mas não vou me estender nisso, é chover no molhado: Galvão Bueno já disse, como uma espécie de porta-voz extraoficial da CBF, que daqui a dois meses haverá jogo... Portanto, não há tempo para renovação. Vamos seguir com a via-crúcis: Felipão no comando, os mesmos jogadores, os mesmos problemas, o mesmo Brasil senil que, se disputasse a Liga dos Campeões da Europa, não passaria da primeira fase. Ontem, diante de um time desmotivado e com a cabeça já em Amsterdã, o Brasil permaneceu o que foi ao longo de toda a Copa: sem ameaçar, sem criar, sem se defender com eficiência; e desorganizado, cabisbaixo, confuso, com os reservas tomando aos poucos as rédeas de Felipão na orientação dos companheiros que estavam em campo. Ao final, em ritmo de treino para a Copa de 2018, Holanda 3x0. A CBF deveria ter cunhado umas medalhas de latão para distribuir ontem. Blater, à cata de votos, se não concordasse com a quebra de protocolo, talvez fizesse vista grossa.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

MENOR ESFORÇO E IMAGEM

Snoopy escritor, por Charles Schulz.
"Quero ser velha, mas não quero ser mulher. Quero ser uma erudita, mas não uma estudante. Quero ser uma intelectual, uma escritora, um sucesso, uma autoridade, mas não quero a mão de obra que precede tudo isso."
 
Palavras da escritora britânica Ruth Rendell, através de sua narradora, na novela As pedras no caminho (Heartstones, 1987).
 
Esta citação de Ruth Rendell nunca foi mais atual. Talvez motivadas pela velocidade do mundo, que a internet e a tecnologia em geral só acentuaram nos últimos anos, as pessoas almejam a uma carreira, mas querem se privar de qualquer esforço para alcançá-la.
 
Muitos escritores, por exemplo, não querem ler, nem praticar a escrita, pretendem (não sei como!) sair a escrever qualquer coisa e obter sucesso. Se conseguirem algum, será em meio aos leitores médios, de obras ligeiras, que, em geral, só perduram o tempo de uma estação ou o intervalo do gosto de época, que mais cedo ou mais tarde será substituído por outro. Conscientes disso, vão à mídia ou procuram se manter sempre em evidência, de modo a alicerçar sua obra com algo rarefeito que a sustente: sua imagem.
 
O fato de um escritor estar na mídia, sendo entrevistado por alguma Fátima Bernardes ou qualquer outro apresentador, não é certeza de que ele escreve bem, de que seus assuntos são necessários e elevados, e de que vale a pena o leitor se debruçar sobre sua obra. Muitas vezes é o inverso: é exatamente por isso que ele não deve ser lido, pois sua obra precisa de aparato, de apêndices e notas para se promover ou se consolidar. E não raro ele comparece ao programa por outras causas, quase sempre extraliterárias. É só um profissional dando sua opinião. Seus livros, bons ou ruins, estão ausentes. Que o leitor não se engane. A imagem de um escritor não é recomendação para a sua obra. Só esta deve se recomendar.
 
Recentemente, um jornalista me telefonou querendo que eu participasse de um programa de rádio cujo assunto era o Brasil nas Copas do Mundo. Respondi que não tinha competência para isso e que, portanto, declinava do convite. Meio atordoado, ele argumentou que estava me convidando porque eu escrevera o livro O gol esquecido. Ora, é um volume de contos. Uma obra de ficção. Não é sobre a Seleção Brasileira, nem sobre as Copas, nem talvez sobre futebol... O futebol é só um pretexto para temas mais literários e mais humanos. Se ele tivesse lido o livro, saberia disso. E não perderia tempo em me telefonar.
 
De minha parte, se me examino pelo ponto de vista da maioria, devo ter perdido uma oportunidade. É possível. Mas estou em paz e tenho as mãos limpas.

DIÁRIO DA COPA, 36: MUDANDO O FORMATO

A Copa do Mundo é sempre mais empolgante na primeira fase. Quando chega ao mata-mata, cai o nível técnico, os jogos tornam-se amarrados, os esquemas ficam defensivos e raramente ocorre alguma surpresa, exceto quando um time se apaga e se deixa destroçar, como o Brasil na terça-feira.

Por isso, eu acho que a FIFA deveria, depois da primeira fase, compor quatro novos grupos de quatro, classificando o primeiro de cada para as semifinais. A Copa do Mundo, que totaliza atualmente 64 jogos, teria, neste novo formato, mais 12. Mas ganharia em emoção, favoreceria a disputa em detrimento da sorte e manteria mais turistas no país-sede quase até ao final da competição, pois, quando se desfizessem os grupos, estaríamos a quatro jogos da final. 

Tomando como exemplo a Copa atual, teríamos ao fim da primeira fase os seguintes grupos:

I) Brasil, Chile, Grécia, Costa Rica;
J) México, Holanda, Colômbia, Uruguai;
L) França, Nigéria, EUA, Bélgica;
M) Suíça, Argentina, Alemanha, Argélia.

A dificuldade aumentaria nesta fase, porque só se classificaria o campeão do grupo, e todos jogariam três jogos, o que aumentaria a disputa e injetaria na competição o mesmo ânimo do início, transformando cada jogo numa possibilidade efetiva de classificação, e não num provável adeus precoce, como o formato atual.

Obviamente que, além disso, para a Copa se ajustar ao período de um mês, na segunda fase de grupos os jogos teriam que acontecer com um intervalo de tempo menor. Mas isso seria muito bom, pois permitiria o uso dos reservas numa escala maior e acirraria a competição, que se tornaria mais variada técnica e taticamente, a fim de se contornar ocasionais percalços. 

Há quatro ou cinco Copas que só a primeira fase me empolga realmente. O mata-mata é a certeza de jogos feios, truncados, de esquemas defensivos e uma capitulação ao temor de perder. Por esse ângulo de abordagem, eu diria que o único jogo emocionante, de fato, nas fases de mata-mata, nesta Copa, foi Brasil 1x7 Alemanha. Um jogo de matar, para um lado e outro. Mas foi uma exceção, um acaso que por muitas Copas não veremos de novo.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 35: PÊNALTIS, ARRE!

Argentina a caminho do tricampeonato (IG).
Holanda e Argentina fizeram possivelmente um dos piores jogos da Copa. Acovardadas, talvez por influência da goleada de ontem da Alemanha sobre o Brasil, jogaram antes para não tomar gols do que para fazê-los. E foram conduzindo, pachorramente, o jogo para a disputa de pênaltis.

(E não tem coisa mais maçante que decidir um jogo através de pênaltis. É a evidência de que não houve competência.)

Ao fim, "brilhou" (foi o que a imprensa disse) o goleiro argentino, com duas defesas; e nada pôde fazer o arqueiro holandês, que, em se tratando de pênaltis, não deveria mesmo ficar em campo. Neste quesito, o terceiro goleiro da Holanda é melhor, o que ficou comprovado contra a Costa Rica.

E mais uma vez Argentina e Alemanha vão decidir uma Copa do Mundo. Uma decisão tão monótona quanto o jogo de hoje.

terça-feira, 8 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 34: OLÉ ALEMÃO!

Alemanha 7x1 Brasil (IG).
Talvez seja inútil comentar, depois de tudo, esta goleada da Alemanha sobre o Brasil, mas a verdade é que dias atrás eu disse que o pior técnico da Copa era Felipão. Também falei que talvez a ausência de Neymar pudesse favorecer o Brasil. Eu estava certo e igualmente errado. O Brasil quis a todo custo ser um time de um jogador só. E, sem ele em campo, sobraram os erros crassos do seu técnico.

Felipão é, de fato, muito ruim, pois, desde a convocação, ofereceu aos brasileiros um time sem inspiração, sem meio de campo, sem ímpeto e, pior, dependente de um único jogador, sobre o qual se depositava todas as esperanças e que, se falhasse, como falhou, ainda que por contusão, todo o time falharia. Essa é a lógica de Felipão.

E que neste jogo se revelou escabrosa, pois, numa semifinal de Copa do Mundo, o time leva dois gols e nada é feito, não há mudança tática, nem de jogador, simplesmente o time continua como está, atônito, vago, inexpressivo, inoperante, limitado. Final do primeiro tempo, o inesperado, mas inevitável em tais circunstâncias: 5x0. A Alemanha não é isso tudo, mas, com a ajudinha do Brasil, tornou-se uma súbita máquina de fazer gols. E vai para a final com muita segurança e com seu futebol eficiente e pragmático.

Por fim, também falei, dias atrás, que não era porque o Brasil organizara a Copa que haveria de ganhá-la. O Governo brasileiro (em mãos do Partido dos Trapaceiros), a CBF, a imprensa em geral, Felipão, Neymar e muitos outros jogadores acharam isso: que a Copa do Mundo em si era uma simples festa para o Hexa. Agora sabem, dramaticamente, que não.

Essa derrota haverá de ser um divisor de águas, o enterro de técnicos como Filipão, que se enganam com a ideia de que o Brasil, não importa o adversário, ganhará sempre, pois é sempre o melhor. Por isso não estudam as outras seleções, não trabalham em função de anulá-las, nunca. Acham que vão levar três gols e fazer quatro. Pois levaram sete e quase não fizeram nenhum. Apropriadamente. Há muitos anos que no futebol o Brasil não é mais o melhor: apenas mais um na roda. Eis a verdade. E nem adianta inventar Neymares.

A maior lição que o país pode tirar desta goleada humilhante está nas palavras de um alemão ilustre, Goethe: "O início e o fim de qualquer atividade artística é a reprodução do mundo à minha volta através do mundo dentro de mim".

sábado, 5 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 33: MESSI VERSUS VAN PERSIE

De novo a Laranja (IG).
A Bélgica lutou um pouco; a Costa Rica um pouco mais. Porém, os resultados do dia refletem o esperado e especulado pela maioria quando o assunto é prognosticar: as grandes seleções, ao fim, chegam com vantagem sobre as demais, sem muita tradição. E assim, como o Brasil se impôs sobre a Colômbia, e a Alemanha sobre a França, a Argentina venceu a Bélgica (1x0) em Brasília, e a Holanda, a Costa Rica, em Salvador, muito embora esta necessitasse dos pênaltis, depois de um intenso 0x0, e de seu terceiro goleiro, Krul, que entrou em campo no último minuto da prorrogação para defender duas cobranças. É a razão acima da emoção. Veremos agora um duelo de Messi contra Van Persie. Poético já é. Se será mais ou menos prosaico, saberemos na quarta-feira. E até lá os dois já conhecerão seu adversário: Brasil ou Alemanha.

A par disso, falou-se muito ao longo do dia sobre o corte de Neymar da Copa do Mundo, depois da grave contusão que sofreu no jogo de ontem. E pede-se a punição de Zuñiga. E teme-se a sua ausência no Brasil. Não sou vidente, já disse, mas:

1) o jogador colombiano que aplicou a violenta joelhada em Neymar dificilmente será punido, pois não há evidência clara de deslealdade na cena, e o próprio Zuñiga, sem histórico de violência, já se encarregou de se defender, obviamente. O caso de Suárez é um, este é outro. Naquele prevaleceu o exotismo (mordida), um ato quase abstrato, que não podia ser previsto e que, além disso, é extra-jogo, incomoda como um corpo estranho no olho. O caso de Zuñiga pode ser avaliado como uma consequência do corpo a corpo, algo da natureza do futebol. Não há como se estabelecer se foi, de fato, uma agressão ou não.

2) na contramão do que se tem dito, acho que a ausência de Neymar será benéfica para o Brasil, que agora poderá ser mais coletivo, menos frenético, independente das arrancadas, nem sempre objetivas e sempre espalhafatosas, de Neymar. A verdade é que ele parecia estar mais interessado em seu desempenho pessoal do que integrar, como uma peça a mais, um conjunto vencedor. Em alguns momentos, tal aspecto tornava-se conveniente ao time, mas, no geral, o prejudicava. Não foram raros os lances em que podíamos decidir as partidas, e não o fizemos por causa do egoísmo de Neymar.

3) se a FIFA deve punir alguém pelo que houve, esse alguém é o árbitro espanhol. Um panaca em campo. Foi ele quem permitiu que se chegasse àquela joelhada. E deve igualmente atentar para o fato de que o juiz precisa realmente ser neutro, inclusive no idioma. Se o jogo envolve Brasil e Colômbia, coloca-se um árbitro francês ou italiano ou inglês ou sueco ou russo ou alemão. Um juiz que fale outra língua, de modo que não simpatize, nem inconsciente nem psicologicamente, com nenhum dos dois times. Contra o Chile, o juiz, se não me engano, também falava espanhol, o que é  uma lástima.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 32: DIA DOS ZAGUEIROS!

Zagueiros decidem para o Brasil (IG).
Mais cedo, no Maracanã, um gol do zagueiro Hummels decretou a vitória da Alemanha. O jogo não foi bom. Não sei se a França foi apática ou se foi a Alemanha que, ao chegar ao gol muito cedo, deu-se o luxo de burocratizar a sua atuação. Só nos cinco minutos finais a França atentou para o fato de que estava disputando uma quarta da final de Copa do Mundo, mas, então, era tarde. E a Alemanha não se esforçou muito por matar o jogo, conduzido em ritmo baixo, quase como se fosse um treino um pouco mais intenso.

Em Fortaleza, me pareceu que os pênaltis, no jogo anterior, serviram de lição ao Brasil. Mais vibrante e decidida, com marcação intensa, afinal de contas do outro lado estava uma das mais técnicas seleções desta Copa, nossa seleção se impôs e chegou, como a Alemanha, muito cedo ao gol, com Thiago Silva, como se fosse um centroavante. Houve também mais solidariedade entre os jogadores (até Neymar passou mais a bola, embora no segundo tempo voltasse a prendê-la excessivamente). O meio de campo continua "quatro malucos num quarto escuro", mas, de alguma forma, neste jogo, o time conseguiu compensar esta deficiência com a rotatividade de posição dos jogadores.

No segundo tempo, o gol de falta de David Luiz só saiu porque ele colocou a bola sob o braço (como o mestre Didi no passado), decidido a batê-la. Se não agisse assim, seria mais uma falta batida por Neymar, que acha que a Seleção Brasileira é o Santos. Atitudes como essa do David Luiz precisam acontecer mais vezes. Para benefício do time. E não em prejuízo de Neymar.

O choro final de James Rodríguez representou o que foi a Colômbia nesta Copa: um time de valor, técnico e que aspirava a muito mais do que obteve. Uma pena que tenha cruzado com o Brasil tão cedo. E o consolo de David Luiz ao craque colombiano lembrou o de Ghiggia aos jogadores brasileiros na Copa de 1950. É ao mesmo tempo reconhecimento ao valor do outro e desportividade. E deveria acontecer mais vezes.

A contusão de Neymar, que esperamos não seja grave (apenas um susto), pode ao menos servir de lição para ele. Prender a bola em excesso leva a isso, além de atrasar o time: não raro, irritado, o adversário acaba, no calor do jogo, praticando atos impensados, como a joelhada que o dez brasileiro tomou nas costas.

De resto, é triste que o Brasil precise dos zagueiros para ganhar seus jogos. Isso não é o normal e reflete o que é o nosso time: ótima defesa, um ataque apenas razoável e um meio de campo inoperante. Daí a escassez de gols. E o desespero a cada jogo.

Contra a Alemanha, não digo que o Brasil vá perder, porque não sou vidente. E porque a Alemanha jamais foi de nos dar trabalho. Se fosse a Holanda ou a França, a Itália...

quinta-feira, 3 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 31: SELEÇÃO DA COPA (1)

Robben: candidato a craque da Copa, se a FIFA deixar (GOAL).
Mais cedo ou mais tarde vão ser escolhidos os melhores jogadores da Copa, e a escolha vai prevalecer de uma coleta que no máximo vai contemplar jogadores dos quatro finalistas. Desse modo, não será de admirar que alguns embustes apareçam, especialmente porque a FIFA costuma eleger os melhores antes da final e, mesmo que um jogador faça 5 gols na decisão, pode não estar entre os melhores. Lembremos a Copa de 2010, na África do Sul: o craque do Mundial, eleito pela FIFA, foi Forlán. E o mundo teve de engolir.

Se formos levar em conta o desempenho em um ou mais jogos, eu diria que uma ótima seleção do Mundial até aqui seria a que se segue:

Goleiro: Howard (EUA), sobretudo pelo que fez no jogo contra a Bélgica
Zagueiro 1: Yepes (Colômbia), pela regularidade e constante atenção ao longo do jogo
Zagueiro 2: David Luiz (Brasil), regularidade e capacidade de improvisar, fazer outras funções
Zagueiro 3: Kompany (Bélgica), regularidade e segurança
Meio-campo 1: Kroos (Alemanha), amplo domínio do meio de campo
Meio-campo 2: Bryan Ruiz (Costa Rica), elegância, bons passes e gols
Meio-campo 3: James Rodríguez (Colômbia), habilidade, visão de jogo, solidariedade com os companheiros e gols
Meio-campo 4: Messi (Argentina), por carregar, com seu talento, um time inteiro nos pés
Atacante pela direita: Valbuena (França), velocidade e oferta de passes para os gols franceses
Centroavante: Van Persie (Holanda), técnica, vigor e improviso
Atacante pela esquerda: Robben (Holanda), é o mais impetuoso e veloz dos jogadores da Copa.

Mas Benzema pode fazer 3 gols na final. Ou Müller. Ou o boboca do Neymar. E aí deve-se, por força do desempenho, escalar o cara na seleção do mundial.

Se eu tivesse de escolher hoje o craque da Copa, optaria por Robben. Já a revelação: James Rodríguez.

Melhor técnico: ficaria em dúvida quanto a quatro ou cinco nomes, com uma forte inclinação para os técnicos Marc Wilmots e Louis van Gaal, respectivamente da Bélgica e da Holanda, pela capacidade e coragem de mudar o esquema de seus times e, assim, chegar às vitórias. Mas o pior técnico é fácil: Felipão.

Se houvesse um prêmio para perseverança e desportividade, deveria ser dividido entre cinco países, pelo que fizeram em campo: Argélia, Grécia, Suíça, EUA e Austrália. Não tinham muitas chances, quase sempre estavam atrás do marcador contra países bem superiores, mas não desistiram em nenhum momento de buscar a vitória ou um melhor resultado.

Já a maior decepção: o meio de campo do Brasil. O pior de todos os tempos. Um verdadeiro horror. Um balaio de gatos. Um quarto escuro cheio de malucos.

A piada do mundial foi Suárez. Ou todo o time do Uruguai, reforçado por Cristiano Ronaldo.

Prêmio fair play: para o time da Espanha. Era a campeã mundial, badalada nos quatro cantos do planeta, um exemplo geral de futebol moderno... E caiu melancolicamente logo no início da Copa. Mas em momento algum apelou em campo. Perdeu de cabeça erguida e, de cabeça erguida, foi para casa, refazer-se. Um exemplo para os jogadores e países chorumelas, como o Chile. 

Gol mais bonito: o peixinho de Van Persie, contra a Espanha. Mais dois se destacam: o de Cahill, da Austrália, contra a Holanda, e o de James Rodríguez, contra o Uruguai. 

terça-feira, 1 de julho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 30: OS GRANDES

A festa belga (IG).
As seleções de nível técnico mais baixo, diante das seleções mais qualificadas, resistem de igual para igual somente um tempo, pois compensam o desnível técnico com o condicionamento físico, a marcação intensa e a vontade de se superar. Mas, tão logo o segundo tempo avança, e o cansaço chega, começam a ceder terreno em face da técnica mais apurada do adversário, que, tocando a bola e improvisando, mais cedo ou mais tarde chegará ao gol. Foi assim com a França, a Alemanha e a Holanda, em seus jogos contra Nigéria, Argélia e México.

Nos dois jogos de hoje este aspecto mais uma vez prevaleceu. Em São Paulo, a Argentina, que parecia jogar em casa, tantos eram os hermanos no estádio, só conseguiu marcar seu gol quando a marcação da Suíça já carecia de energia para se manter naquela intensidade do início. Observem que o chute de Di Maria é quase em câmera lenta, sem que marcadores nem o goleiro o alcancem. O placar de 1x0 foi construído mais pelo desmanche da Suíça do que pelos méritos da Argentina, que demonstrou ser uma seleção que empaca, como a brasileira, quando se vê diante de uma marcação mais agressiva. E, assim, passa a depender cada vez mais de Messi.

O jogo da Bélgica, em Salvador, não foi muito diferente. A superioridade técnica dos belgas só se estabeleceu no segundo tempo e especialmente na prorrogação, quando os EUA, de tanto se esforçar por se equiparar ao adversário, começou a dar sinal de fadiga. Então o técnico belga botou o time ainda mais para a frente, reforçou o ataque e logo vencia de 2x0. Só não contava com a garra de um país que não desiste nunca, pois não é da natureza do povo norte-americano ser inferior a ninguém. Ao obter seu gol no início do segundo tempo da prorrogação, os pupilos do Tio Sam incendiaram o jogo e por duas ou três vezes estiveram por empatá-lo, circunstância que fez deste jogo um dos melhores da Copa e talvez o mais disputado das Oitavas.

Nas Oitavas ficou bem evidente por que nesta Copa os grandes são grandes. Colômbia,  Holanda, França e Bélgica parecem mais técnicas. Alemanha e Brasil jogam com sua tradição em erguer taças. A Argentina é uma incógnita que depende da inspiração de Messi, que vem fazendo a diferença. E a Costa Rica, bem, é o patinho feio que pode se fazer cisne.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 29: DOIS GRANDES JOGOS!

O primeiro gol da Alemanha, nascido de um erro (IG).
Haja o que houver daqui por diante na Copa do Mundo, o certo é que hoje, tanto em Brasília quanto em Porto Alegre, tivemos dois grandes jogos, especialmente Alemanha versus Argélia, uma vez que esta última encarou a tricampeã do mundo de igual para igual, esteve por marcar o gol antes da Alemanha e, mesmo depois dos 0x2, já ao fim da prorrogação, jamais desistiu de lutar. E por pouco, depois que fez seu gol, não empatou. Um exemplo de perseverança e otimismo. Um hurra para a Argélia, que volta para os seus domínios de cabeça erguida. 

O embate entre França e Nigéria teve os seus percalços dramáticos, mas em doses menos letais e mais para o lado da França, que lutou incansavelmente por um resultado favorável durante o tempo regulamentar, para fugir da fadiga excessiva de uma prorrogação. Ao fim, com os 2x0, foi recompensada e pegará a Alemanha nas quartas de final com um pouco mais de energia e menos desgaste. Mas, sendo o jogo que é, entre duas potências do futebol, isso não é vantagem nem aqui nem em Paris. Mesmo assim, acho que a França é mais time e mais jovem e mais impetuosa.

Será o grande duelo de Benzema contra Müller, que hoje não foram felizes. O último, inclusive, levou um tombo que só se vê em peladas de fim de semana. Uma cena jocosa, chaplinesca: Müller vai bater a falta e se estabaca de cara na grama à cata de invisíveis moedas. O primeiro gol alemão também foi nesta base: Schürrle errou o chute e acertou o gol. Duas autênticas patacoadas de amadores. Mas o que vale é o resultado.

domingo, 29 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 28: A HORA DA COSTA RICA!

Costa Rica classificada no Recife (IG).
Numa postagem anterior, eu disse que a Grécia não seria fácil, como não foi. E também que a Costa Rica não poderia se assoberbar, como não o fez; aliás, ela respeitou o adversário até demais e por isso sofreu para se classificar.
 
Ao fazer o gol, numa arquitetura perfeita e um arremate preciso de Brian Ruiz, que deixou o goleiro grego parado, a Costa Rica ainda assim não mudou sua maneira respeitosa de encarar a Grécia e foi assim que, ao perder um jogador, expulso, teve toda a sua estrutura tática desmontada. A solução foi lutar para não levar gol e esperar por um contra-ataque milagroso. E à Grécia coube ir à frente, numa pressão intensa, recompensada pelo empate, assinalado por Sokratis, talvez com uma ajudinha do filósofo: 1x1.
 
Ao fim, ao vencer por 4x3 nos pênaltis, a Costa Rica viu seu esforço ser coroado pela vitória e sobretudo ganhou algum cadinho de tempo e descanso para talvez retomar sua história nesta Copa, que é mais de técnica e ataque que de superação e resistência. Nestes dois últimos quesitos, a mestra foi a Grécia, para a qual cada jogo foi uma batalha.

DIÁRIO DA COPA, 27: A BANDA BOA DA LARANJA!

Huntelaar decisivo (IG).
Em Fortaleza, o México, à frente no placar desde o início do segundo tempo, cometeu um erro aos quinze minutos: retirou o autor do gol, Geovanni dos Santos, e colocou um defensor, com o propósito, evidentemente, de garantir o resultado com uma retranca. Do outro lado, a Holanda fez o inverso, trouxe mais atacantes para o campo, trocou Van Persie, que não estava numa boa jornada, pelo descansado Huntelaar e avançou o time. Resultado: virou o jogo para 2x1 e se classificou. Huntelaar, inclusive, foi decisivo: deu o passe para o gol de Sneijder e, friamente, bateu o pênalti que decretou a vitória.
 
Nenhuma simpatia que possamos ter pelo México esconde o fato de que, ao longo de sua história nas Copas, o país sempre jogou para não perder, e é muito difícil se mudar um estilo da noite para o dia. O México pagou o preço de sua natureza defensiva.
 
A Holanda, por sua vez, cumpriu o esperado e que sempre foi uma de suas mais elogiadas características: jogou para a frente. E talvez por isso conquistou três vice-campeonatos: jogar para a frente leva às decisões tanto quanto às derrotas,  porque nem sempre vence o melhor, nem aquele que mais se atira ao ataque. 

sábado, 28 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 26: A COLÔMBIA!

A dança da Colômbia (IG).
O que tem Neymar de espalhafatoso e boboca, tem James Rodríguez de discreto e eficiente. O primeiro tudo faz para estar em evidência; o segundo só fica em evidência quando faz alguma coisa, como os dois gols de hoje, que decretaram a vitória sobre o Uruguai e puseram seu país pela primeira vez nas quartas de final de uma Copa do Mundo.
 
Sem muito esforço, e servindo aos seus companheiros sempre, o dez da Colômbia chega a cinco gols na Copa e já é, inquestionavelmente, um dos seus craques, ao lado de Robben, Van Persie, Messi, Müller, Valbuena, Benzema, Campbell, Bolaños, Dempsey e Hazard.
 
Vendo hoje a Colômbia jogar de amarelo, me perguntei se não era o Brasil... E, depois, por que o Brasil não jogava assim. Ora, a explicação é simples: estamos numa fase de transição, com escassez de bons jogadores em algumas posições, e quatro são bem evidentes: um meia-esquerda armador (canhoto de preferência), um meia-direita (não um volante, mas um oito, à semelhança de Falcão ou Sócrates), um centroavante (rápido, técnico, como Careca ou Reinaldo) e um segundo atacante, veloz, mas que não prenda muito a bola, um jogador que trabalhe mais para o time e menos para si. Nas outras posições, especialmente na defesa, o Brasil está bem servido.
 
Voltando ao jogo da Colômbia: mesmo o Uruguai tentando reagir, naquela base da vontade e da mordida, a Colômbia jamais perdeu o controle do jogo, fez 2x0, pôs o adversário no bolso e, com certa facilidade, confirmou que não veio ao Brasil para fazer turismo. É uma forte candidata ao título e, se o Brasil não se cuidar, vai parar na próxima partida, pois devemos admitir que mais cedo ou mais tarde a técnica se sobrepõe à sorte ou à vontade, e neste quesito a Colômbia é melhor.

DIÁRIO DA COPA, 25: SÃO JÚLIO!

Duas defesas, duas bolas na trave (IG).
Minha sogra está certa, quando disse que Filipão é um boneco, o bobo da casa. Além de montar um time com um punhado de volantes, é incapaz de perceber quais os jogadores que não estão bem e mudar o time.

Neymar, por exemplo, que foi um dos piores hoje (mal posicionado em campo e individualista demais), pode morrer de diarreia, que Filipão não o substitui. Também não coloca Hernanes e, como o resto do material humano é muito igual, não tem como fazer o time jogar de outra forma, variar. O Brasil fica dependendo o tempo todo de lampejos individuais ou de lances fortuitos, como o gol, que surgiu de uma bola parada e, claro, de uma trapalhada da defesa do Chile.

Os pênaltis não foram um castigo, mas sim um obstáculo favorável à reflexão. Que o time, contra Uruguai ou Colômbia, venha a campo com uma lição: não somos grande coisa, não podemos nos assoberbar, nem confiar no juiz, que nenhum juiz é confiável; a única arma que temos é a vontade de vencer, é isso que deve prevalecer, mais nada.

E o time precisa brigar mais em campo. Thiago Silva, como capitão, precisa orientar o time, regular alguns jogadores: ou porque estão apáticos ou porque se omitem ou porque querem a bola para si. Não vejo para o que serve um capitão, se ele não faz isso.

Quanto à decisão por pênaltis, previ que Júlio César, um dos poucos realmente atentos em campo, pegaria dois; e ainda acertei o último, que foi na trave. Claro que não sou vidente, foi só minha vontade, que coincidiu com o que aconteceu. Me acostumei a ver o Brasil golear o Chile, que jamais nos impôs dificuldades. Sempre foi um saco de pancadas. E, além disso, ser eliminado pelo Chile nos pênaltis em casa seria demais! Se ainda fosse a Holanda...

VÁ E VEJA, 22: HELENO

Heleno de Freitas talvez tenha sido, no Brasil, o primeiro grande jogador de futebol a se afundar em problemas e a eles sucumbir. Foi ídolo no Botafogo, jogou no Boca Juniors, passou pelo Vasco da Gama, por um clube obscuro da Colômbia e, de forma conclusiva, pelo América (RJ), clube que ele desprezava. Dotado de temperamento difícil, culpava os companheiros pelas derrotas, atracava-se com eles, discutia com os técnicos e, colérico, depredava os vestiários. Também se envolveu com diversas mulheres, tornou-se presa de drogas lícitas e ilícitas, contraiu sífilis e acabou morrendo jovem e louco. Tudo isso, com o páthos exato para nos sensibilizar, está expresso no ótimo longa-metragem brasileiro Heleno (2012), de José Henrique Fonseca.

Há muitos anos que deixei de admirar o cinema brasileiro, mais afeito hoje às pressões do mercado e às imposições multiculturais, e conto nos dedos os filmes que, de fato, podemos chamar de obra de arte cinematográfica. Este é um deles, a começar pela trama, que, baseada num assunto trivial (a biografia de um problemático jogador de futebol), tinha tudo para fracassar. Mas os realizadores (roteiristas, diretor e fotógrafo) foram muito felizes no estabelecimento de uma estrutura que alterna os dias de glória do craque com seus momentos terminais numa clínica psiquiátrica. Entremeando os dois tempos, surgem as recordações idealizadas do jogador, oriundas de seus delírios químicos. Neste sentido, é como se assistíssemos a uma exposição dialética: o êxito no futebol (tese), a decadência pessoal (antítese) e o sonho substitutivo (síntese). Incapaz de se repetir perante o tempo implacável, que o engolfa, Heleno se refugia numa realidade onírica, na qual prevalece uma existência ideal, livre de percalços.

Outro aspecto a se ressaltar é a fotografia, em p&b, que permite ao filme, a um só tempo, remontar cenário e época, dos quais só restam as matérias jornalísticas e um punhado de fotografias, e conceber, sem impacto para a percepção do espectador, uma textura de imagem que reúne, eficientemente, o material de arquivo com as sequências propostas para o desenvolvimento do entrecho. O resultado é um filme fluido, sem pretensão biográfica, que abdica do futebol em favor do âmbito extracampo e faz de Heleno de Freitas uma vítima de si mesmo e um protótipo humano de todos nós, que mal estamos preparados para o sucesso e não sabemos lidar com os fracassos. 

Culpar o outro, diminuindo-o ou achincalhando-o, é o escape mais fácil e ao qual não nos furtamos. Assim também era Heleno de Freitas: o culpado era o lateral supostamente onanista ou mesmo todo o time, formado por pernas de pau (salvo ele, Heleno). De onde ele estava, na sua grandeza e talento incomparáveis, o mundo era pequeno, estranho e inimigo. E assim foi até o fim.  

Aproveite a Copa do Mundo e assista a Heleno. É uma representação perfeita deste frenesi mundial em torno da bola ou, mais provavelmente, o seu contraponto, se concordarmos que aquilo que nos mostram é só uma face da moeda. Iluminada e furta-cor.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 24: CHIELLINI

Chiellini em ação na Azzurra (Google).
Desde que a Copa do Mundo começou, este é o primeiro dia sem jogos. Em compensação, veio a público uma excelente declaração de Chiellini, a vítima de Vampirito Suárez, que, em suma, disse: não tem raiva nem qualquer sentimento de vingança contra Suárez e que a punição é excessiva; lamenta pelo jogador e sua família, devido ao longo período que Suárez ficará afastado do futebol, e sugere que ele, mesmo alijado da Copa, seja autorizado a ficar ao lado de seus companheiros durante o restante dos jogos. Maior prova de civilidade e profissionalismo, impossível. E nesta declaração se percebe a diferença entre os dois jogadores. Chillini, além de um ótimo zagueiro, firme e leal, parece ser um sujeito inteligente e cortês. Mais uma lição (ou punição) para o Vampirito.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 23: O CRIANÇOLA SUÁREZ!

A prova (UOL).
Nos jogos de hoje, que fecharam a primeira fase da Copa e definiram os últimos confrontos das oitavas de final, nenhuma surpresa. Burocrática, a Alemanha venceu, pelo grupo G, os EUA por 1x0, no Recife, enquanto Portugal batia Gana, a mais confusa das seleções africanas, por 2x1, em Brasília. Müller chegou ao seu quarto gol e o exibido Cristiano Ronaldo se despediu do Mundial com um gol de araque, praticamente ofertado pelo goleiro ganês. Alemanha e EUA classificados para pegar, respectivamente, a Argélia (1x1 com a Rússia, em Curitiba) e a Bélgica(1x0 na Coreia do Sul, em São Paulo), as classificadas do grupo H.
 
O jogo mais emocionante do dia foi, sem dúvida, o empate heroico que garantiu a Argélia, pela primeira vez, nas oitavas de final. Em 1982, e sempre me lembro deste jogo, a Argélia estreou na Copa da Espanha com uma vitória sobre a Alemanha Ocidental. O gol decisivo do milagre foi marcado por Belloumi e garantiu, até aqui, a única vitória de um time africano sobre uma grande seleção mundial. Um feito, portanto, que jamais se repetiu e que, talvez, tenha chegado muito cedo, se examinarmos o histórico da Argélia em Copas do Mundo e também das outras seleções do continente, que em geral não vão muito longe. Ironicamente, e digo que não é coincidência, quando a Argélia consegue passar da primeira fase numa Copa, vai enfrentar a Alemanha... Os deuses, quaisquer que sejam, estão nos reservando algum novo drama, repleto de páthos. 
 
A Argélia pode ter êxito, se jogar com a vontade e a disciplina tática dos três jogos da primeira fase. E sobretudo se tiver consciência de suas limitações e respeitar a Alemanha. O mesmo se aplica a Grécia, Suíça, México, EUA, Nigéria, Uruguai e Chile, os azarões das Oitavas. O certo é que uns dois ou três destes vão surpreender os tais favoritos e avançar, ainda que seja através dos pênaltis. Só não sei quais, pois não sou vidente.
 
Este dia também foi muito importante para a Copa do Mundo, porque puniu-se um embusteiro: Vampirito Suárez. Quando ontem ouvi que a representante da FIFA afirmou que o veredito seria rápido, me convenci de que a punição já estava definida e era grave. Pois foi. E que assim seja, sempre. Nunca é tarde para se começar uma nova era. Digo isto porque um amigo me disse que outros jogadores, em outras Copas, não tinham sido punidos por infrações "equivalentes", e que por isso não se deveria punir o criançola uruguaio. Ora, não é porque algo nunca aconteceu que não deve acontecer, sempre há uma primeira vez para tudo.
 
E vou mais além: por mim ele não jogava futebol nunca mais, afinal foram três mordidas ao longo de sua curta carreira. Seu esporte é outro. E é altamente perigoso ficar perto dele. Goza de muita coragem aquela ou aquele que dorme com ele.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 22: 8 VERDADES E UM RECEIO

Ele, só ele (IG).
1) Sem novidades no front da Copa nos jogos de hoje. Prevaleceram os resultados previstos.

2) Em Porto Alegre, a classificada Argentina fez treino de luxo contra a Nigéria, que até se esforçou, mas foi batida por Messi, que acrescentou mais dois gols à sua antológica coleção: 3x2.

(Às vezes, penso que quando Messi não jogar a Argentina vai perder. E talvez pense assim também o técnico argentino, que logo o substituiu, de modo a preservá-lo para o próximo confronto, no qual tudo pode acontecer, afinal de contas o adversário é a Suíça, a única seleção que venceu, na última Copa, a campeã Espanha. Portanto, não se surpreendam se a força física suíça despachar a regularidade de Messi. O mata-mata é para isso. Nivelar os pratos da balança.)

3) Mesmo perdendo, a Nigéria passou à frente e vai medir forças com a França, primeira colocada do grupo E e que hoje, com time misto, não passou do zero a zero com o Equador, eliminado pela vitória de 3x0 da Suíça sobre Honduras.

4) No outro jogo do grupo F, a garfada Bósnia & Herzegovina fez 3x1 no Irã em Salvador, para nada, pois o juiz a eliminara no último jogo.

5) Doze gols em quatro jogos. Está mantida a ótima média da Copa. Na próxima fase tende a diminuir, consideravelmente. E virão os angustiantes pênaltis. A loteria dos nervos e dos músculos.

6) Mais algumas patacoadas dos juízes. Mais algumas complacências também: vimos hoje faltas muito mais duras que a suposta infração de Marchisio ontem no jogo da Itália contra o Uruguai, e, às vezes, não se puxou nem cartão amarelo...

7) Não se viu ninguém mordendo ninguém em campo nos jogos de hoje. Por enquanto. Pois, se a FIFA não punir Vampirito Suárez, o fato pode se tornar ato frequente, como os agarrões durante os escanteios ou as cotoveladas disfarçadas de movimento de braço nas disputas de cabeça.

8) Vale tudo quando está em jogo um prestígio de quatro anos. Vide a Espanha, que não passava de uma seleção de segundo ou terceiro escalão, mas, de 2010 para cá, criou soberba.

terça-feira, 24 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 21: BRAVA GRÉCIA

O pênalti que classificou a Grécia (MSN).
Os dois jogos que definiram hoje os classificados do grupo C, apesar da supremacia da Colômbia, que goleou o Japão, foram emocionantes, como quase todos os jogos desta Copa.
Em Cuiabá, mais uma vez ficou comprovado que é mais fácil reconstruir Hiroxima que o Japão acertar o gol. O resultado de 4x1 a favor da Colômbia comprovou também que o país sul-americano pratica um futebol de técnica e velocidade, como a Holanda e a França, e que pode, apesar da simpatia da arbitragem pelo Uruguai, aspirar a voos maiores nesta Copa. Seu camisa dez, James, é realmente um ótimo jogador e candidato efetivo a integrar a seleção da Copa. Distribui excelentes passes, faz gols (e fez mais um, bem estético) e não é fominha, como certos jogadores, que jogam para si mesmos, de olho em sua história pessoal. Merecidamente, e com sobras, a Colômbia alcançou o primeiro lugar, num grupo que não esteve à altura do seu poderio.
No outro jogo, em Fortaleza, o empate favorecia à Costa do Marfim, mas os deuses deram uma ajudinha à Grécia, que tirou forças do nada e conseguiu, já nos descontos, fazer 2x1. Foi um prêmio para um país que, mesmo tendo perdido na estreia por 3x0 para a Colômbia, não se entregou e foi melhorando, jogo a jogo. E tem histórico de superação, quando, em 2004, foi a grande zebra e ganhou a Eurocopa. Vai para o confronto com a Costa Rica como franco-atirador, e então tudo pode acontecer. O certo é que teremos nas quartas de final uma surpresa: ou Costa Rica ou Grécia, que no mínimo estarão entre as oito melhores seleções do mundo. O que, convenhamos, não é pouco.

DIÁRIO DA COPA, 20: O JUIZ DECISIVO

Godín: Uruguai 1x0 Itália (IG).
O melhor jogador em campo em Natal, no confronto entre Itália e Uruguai, foi o juiz. Sua soberba atuação foi decisiva para o resultado, com a assistência precisa que deu à seleção uruguaia, ao expulsar, me parece que injusta e exageradamente, o meio-campo Marchisio. Não sei nem se foi falta, mas, se foi, não sei se foi para cartão vermelho. Talvez nem para amarelo: Marchisio passa por um adversário, choca-se com outro, e a chuteira do italiano raspa a perna do uruguaio, que vai ao solo, numa cena digna do pior dramalhão mexicano. E veio o cartão vermelho, inapelável.
 
O fato é que o juiz não esteve bem. Alternava conversa excessiva com ausência de cartões, conforme orientação da FIFA, mas, de súbito, se perdeu e favoreceu decisivamente o Uruguai. Se me cabe especular, diria que foi o idioma. Mexicano, o juiz simpatizou com os uruguaios e, lá no fundo da alma, viu a Itália como o colonizador, à semelhança da Espanha, e, no miúdo do jogo, foi se deixando pender. Inclusive, foi negligente quando não puniu com o cartão vermelho o atacante Suárez, que, de fato, com um tremendo bocão, mordeu o zagueiro Chiellini. O jogador italiano chegou a correr atrás do juiz, a mostrar o ombro ─ a evidência da falta, a prova da infração  ─, mas sem efeito. O precedente lança a hipótese de que, a partir de agora, nas Oitavas, morder é válido. E teremos a primeira Copa de Vampiros.
 
Se o Uruguai renasceu no jogo em que venceu a Inglaterra, consolidou seu renascimento hoje, com a simpatia do juiz. E quando a arbitragem torna-se simpática a um time, este vai longe. No Brasil, há alguns clubes que desfrutam e muito desta prerrogativa. É bem provável que contra a Colômbia este sentimento aumente, e o Uruguai saia favorecido, mais uma vez.
 
No outro jogo do grupo D, em Belo Horizonte, a Costa Rica segurou o zero a zero contra a Inglaterra e, assim, o primeiro lugar. Um feito histórico, primeira posição no chamado Grupo da Morte, com um imprevisto desempenho que destroçou três campeões mundiais, dois dos quais saem precocemente eliminados. Para a Costa Rica, foi como ganhar a Copa, o que ela dificilmente conseguirá, e digo isso com o mesmo sentimento de simpatia que inclinou o juiz a favorecer hoje o Uruguai.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 19: O ÓBVIO

Brasil coletivo (IG).
Nos quatro jogos do dia, deu o óbvio: em São Paulo, pelo grupo B, Holanda bateu o Chile por 2x0 e ficou com o primeiro lugar do grupo, ao passo que em Curitiba a Espanha se despediu da Copa com um 3x0 na esforçada Austrália. Mais tarde, em Brasília, pelo grupo A, Brasil 4x1 no já eliminado Camarões, enquanto o México, em Recife, despachava a Croácia: 3x1.
 
Os confrontos, portanto, ficaram definidos: Brasil versus Chile, Holanda versus México.
 
Neymar compensou seu individualismo com os dois gols, mas o gol mais importante do Brasil foi mesmo o de Fernandinho, resultado de um trabalho em conjunto e que é, no futebol moderno, a essência deste esporte praticado em todo o Planeta: na troca de passes entre Fernandinho, Oscar, Fred e Fernandinho, este fez o gol. Na Holanda aconteceu a mesma coisa: o segundo gol, em mais uma arrancada em velocidade de Robben, a bola passou por três jogadores da Holanda antes de chegar às redes.
 
O individualismo, consagrado pelo drible, é circunstância, um expediente necessário num momento específico, inevitável, e cujo propósito é livrar-se de um obstáculo, o adversário. Não é algo que se procure. Os dribles de Garrincha, por mais que sejam belos e empolgantes, ficaram para trás.
 
E a Espanha só na última rodada disse ao que veio nesta Copa. Uma vitória que é antes de tudo melancólica e marca o fim de uma hegemonia que, na minha opinião, sempre foi falsa: uma consequência da transição por que passou o futebol de 2002 para cá. A França volta a crescer, a Holanda se renova, o Brasil consegue se reciclar, a Alemanha se reinventa, a Bélgica ressurge, a Argentina e a Itália se apuram, o Uruguai revive, outras forças surgem, como Chile, Colômbia, México, Costa Rica, EUA e as africanas Costa do Marfim, Gana e Argélia. Dentre os primeiros provavelmente sairá o campeão, com ligeira vantagem para Holanda, Brasil, França, Argentina, Itália e Alemanha. Mas um país de menor expressão pode surpreender, e esta é a Copa das surpreendentes Costa Rica, Bélgica, Colômbia, EUA e Argélia.
 
Não era, de fato, uma Copa para os decadentes Portugal, Espanha e Inglaterra. O primeiro deposita tudo num jogador, que, por sua vez, parece meio entediado e fleumático em campo, alheio ao que pode produzir e muito afeito às situações de imagem pessoal (Neymar também caminha para isso); a segunda depende por demais de um sistema de jogo que não funciona mais e, além disso, não consegue implantar uma alternativa eficaz; e a terceira vive o fantasma de ter inventado o futebol e não conseguir jogá-lo modernamente.

domingo, 22 de junho de 2014

DIÁRIO DA COPA, 18: DISTRAÇÃO

Uma única bola de CR7 no jogo: 2x2 (IG).
Em Manaus, os EUA, com uma distração no final, deixaram escapar tanto a vitória quanto a classificação antecipada. Se ontem, Gana, não matou o jogo com a Alemanha por causa de um ato de egoísmo de um de seus jogadores, hoje, os EUA pecaram por achar que o jogo estava ganho. E não se deve descuidar com um time que tem um craque. Pois bem, o sete português, que não fizera nada o jogo inteiro, deu um passe milimétrico para seu companheiro Varela, que empatou o jogo a um minuto do fim: 2x2. Não é muito, para uma seleção que precisava ganhar a todo custo, mesmo porque agora Alemanha e EUA jogam por um empate, e um comportamento de compadre cai bem. De resto, levantou-se a hipótese, durante o jogo, de que Nani é Cristiano Ronaldo, e este é Nani, que estão disfarçados, os dois. O que não se sabe é se isso é uma trapalhada portuguesa ou uma jogada de marketing.

DIÁRIO DA COPA, 17: HAZARD

As diabinhas da Bélgica e uma torcedora russa (MSN).
No Maracanã, ao calor insuportável das 13 horas, Bélgica e Rússia jogaram sem muito ânimo. (Eu queria ver o Brasil correndo neste horário!) Sobretudo a Bélgica pareceu sentir mais a alta temperatura, mas, quase no fim, Hazard, o craque do time, despertou, fez linda jogada pela esquerda e serviu ao seu companheiro, Origi, que chutou e marcou: 1x0. (Essa sorte Fred não tem. Neymar ficaria a tarde inteira driblando os caras e não passaria a bola nem que ficasse nu de tanto levar pancada. O cara gosta de apanhar dos homens. É masoquismo.) Resultado: Bélgica classificada, para alegria das diabinhas presentes no Maracanã.
 
Mais tarde, em Porto Alegre, foi a vez da Argélia mostrar que está viva no grupo H e golear a brava Coreia: 4x2. Forte fisicamente, habilidosa, com um contra-ataque veloz e bom fluxo de passes, a seleção africana deve ficar com a segunda vaga do grupo, ainda que, do outro lado, na última rodada, esteja a Rússia, com mais camisa e mais história. Instável e pouco eficiente no ataque, o time russo deve, desde já, começar a pensar em reciclagem, para não fazer feio, como país sede, na próxima Copa.