"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

VÁ E VEJA 21: TRILOGIA DA VIDA

Gabriele Muccino é, sem dúvida, um dos melhores cineastas italianos da atualidade, ao lado de Gianni Amélio, Gabrielle Salvatores, Silvio Soldini, Emanuele Crialese e Giovanni Veronese, que continuaram, e até refinaram, a massa de filmes contundentes, realistas e sensíveis que são o legado do período que vai de Luchino Visconti a Giuseppe Tornatore. Pelo meio estão Pier Paolo Pasolini, Giuseppe de Santis, Michelangelo Antonioni, Roberto Rossellini, Federico Fellini, Mario Monicelli, Valerio Zurlini, Dino Risi, Franco Zeffirelli, Bernardo Bertolucci, Ettore Scola, só para citar os mais conhecidos.
 
Atento aos cineastas que o precederam, e visivelmente imbuído de renovação, Muccino consegue, em pelo menos três filmes, inspirar-se na tradição do cinema de seu país, que não é pequena, e, ao mesmo tempo, renová-la. Os três formam uma espécie de "Trilogia da Vida". São: Para sempre na minha vida (1999), O último beijo (2001) e No limite das emoções (2003).
 
No primeiro, o período da existência abordado é a adolescência, sempre rebelde e em busca de horizontes, especialmente quanto às relações amorosas. Estudantes decidem tomar a escola pública em que estudam e o fazem. Mas as questões políticas e suas reivindicações são apenas um pretexto, embalado por vídeos p&b dos anos 1960 e canções revolucionárias. O que importa, de fato, é sentir-se vivo, atuante e, além disso, conseguir, em meio ao caos instaurado, algum amor. É o que move as pessoas, e é o que fez a humanidade sobreviver. Tudo o mais é anexo. Não há fato da história humana que seja mais doloroso que a perda no amor. Nem mesmos os comunistas resistem a um rosto e um corpo bonitos.
 
Em O último beijo, os personagens, embora não sejam os mesmos, poderiam ser. A faixa etária é, agora, a dos trinta anos. Foi-se a adolescência, foram-se a rebeldia e as paixões, esvaiu-se o desejo de mudar o mundo. A tudo isso seguiram-se o casamento, o trabalho, os filhos, a morte em família, a separação dos país, o sentimento de nulidade, o vazio existencial e o desejo de que os grandes tempos voltassem. Uma paixão, súbita, não é mais avassaladora, torna-se fugaz, uma experiência apenas, pois as responsabilidades proclamam um comportamento mais adulto, e a família, o trabalho, os filhos vêm em primeiro lugar. O grande desafio não é ser outro, mas ser o mesmo, conservar-se ao lado do cônjuge, quaisquer que sejam os problemas. O desfecho, irônico, restaura o equilíbrio, ao passo que nos diz que somos, em se tratando de amor e sexo, todos iguais. Destaque para o desempenho de Giovanna Mezzogiorno, que interpreta a esposa grávida que não tolera um único deslize do marido.
 
No limite das emoções concilia os dois filmes anteriores. A faixa do casal de protagonistas é agora a dos 40-50 anos. Mas, deles, uma nova geração emerge, os filhos, na faixa dos 17. Enquanto os pais arrastam-se numa crise que parece insolúvel e levará, inevitavelmente, à separação, os filhos (um casal) despontam para a vida, rebeldes e atuantes. A garota quer entrar para a tevê e ser uma estrela, e tudo faz para conseguir isso. O rapaz, apenas encontrar uma namorada e fazer amigos fiéis. O pai revê uma antiga namorada, paixão que deixou marcas, e a mãe entra para o teatro, retomando uma de suas grandes paixões interrompidas: a arte de interpretar. Ou seja, todos estão apaixonados, ou por um ser ou por uma causa. Laura Morante é o grande destaque entre os atores. Metáfora de si mesma na narrativa, ela vive, não interpreta. Não se pode separar a personagem da atriz.
 
Se o tema dos três filmes é a vida, conciliando gêneros como a comédia, o drama e o melodrama, o ritmo, no entanto, é de filme de ação, de aventura. E aqui está uma das grandes contribuições de Muccino. A condução narrativa é frenética, com cortes bruscos e intensa movimentação no tempo e no espaço. Correria o tempo todo. Há, de certo modo, um frenesi de viver, o que tanto intensifica a vida quanto a esvazia de experiências. Nem sempre mais é melhor. Mais vale uma experiência lenta e proveitosa que várias, em caudaloso fluxo, das quais ficam somente esboços, pálidas imagens. Não seria demais sugerir que o diretor, também roteirista, solicita que atentemos para a vida que estamos vivendo, rarefeita e diluída, imersa numa velocidade que não nos deixa ser quem somos. Ou o permite apenas em parte, na superfície.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

DESAPARECIMENTOS

Hiroxima, depois que a Bomba a fez "desaparecer", em 1945.
Recebi, do escritor Carlos Barbosa, um e-mail com um texto (de autoria desconhecida) afirmando que nove "coisas" desaparecerão de nossas vidas nos próximos anos. São: o correio, o cheque, o jornal (impresso), o livro (impresso), o telefone fixo, a música, a televisão, os bens pessoais físicos, a privacidade.

Faltou ao autor do texto admitir que ele próprio vai desaparecer, como tudo e todos no Universo. Ora, não sei qual o assombro com relação a estes supostos desaparecimentos, nem tampouco a novidade. Se até Roma, que era o império dos impérios, desapareceu. Se até os dropes Dulcora, que eram como poeira nas vitrines das bonbonnières dos cinemas de antigamente, desapareceram. Epa, a palavra "bonbonnière" também desapareceu, do português brasileiro! E igualmente os cinemas de antigamente.

Volta e meia, aparecem na internet esses textos sem autoria, pregando originalidade, terror ou pessimismo. Já até acabaram com o mundo, duas ou três vezes. E mataram antecipadamente algumas pessoas, sempre célebres. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades", já dizia Camões. Nada é perene, e mesmo o homem só o é, "temporariamente", enquanto espécie. Nenhuma novidade, portanto. Nenhum assombro: eu estou morrendo, você está, todos estamos. Somos desaparecimentos em curso. "Desde o instante em que se nasce já se começa a morrer". Cassiano Ricardo, poeta desaparecido.

O melhor a fazer é não dar atenção a esses textos sem autor. São o que há de mais execrável, tanto em ideias quanto em forma. E não servem mesmo para nada, nem sequer para nos tirar o sono.

Num dos melhores contos de Machado de Assis, que provavelmente o autor desconhecido não lê (verbo no presente, porque a leitura de literatura é sempre releitura), Deus volta-se para o Diabo e diz que, se ele não pode ser original ao escrever, que não escreva. Sábio conselho, que a Legião não logra seguir. Eu, inclusive. Laus Deo!

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

LEITURAS 39: AS PERNAS DE ÚRSULA



Primeira edição: Agir, 2006.

Num restaurante, enquanto janta em companhia da esposa, do filho recém-nascido e de um casal de amigos, Eduardo entrevê as estonteantes pernas de uma desconhecida... É então que tem início a sua odisseia. Ao mesmo tempo que rememora sua vida com a esposa, Alice, como a conheceu e se casaram, ele peregrina em busca de reencontrar e possuir Úrsula, a proprietária daquelas maravilhosas pernas. Longe de ser uma repetitiva história de traição conjugal, ou um simples episódio de sedução, As pernas de Úrsula se insere na tradição dos relatos de conteúdo sensual ou erótico que os iluministas consideravam obras de autoconhecimento. Ao experimentar desejos irrefreáveis por outra mulher, e abdicando, de imediato, de qualquer sentimento que não o de apenas a possuir, estar entre aquelas pernas, o protagonista se conhece e se aceita, para ao fim chegar a uma conclusão a que as pessoas, em geral, viram as costas ou procuram relevar: de que, muitas vezes, ama-se não a pessoa, mas o amor, a chance ou a possibilidade de “fazer amor”. No restante dos casos, prevalece a idealização romântica. Que não passa de teatro do mundo.
 
Publicado originalmente na Verbo21.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

LEITURAS 38: MARCE


Foto: Stephanie Wicks por Kim Guerra.
O que se espera de qualquer romancista é que ele nos apresente um mundo que só ele conhece e que, doravante, também nos será íntimo. Não interessa se no presente, passado ou futuro do mundo. Ou até mesmo nos três tempos, simultaneamente. O mais importante é que o autor nos convença da existência daquele instante e daquele lugar. Isso Gláucia Lemos obtém, com sobras. Seu romance Marce (Solisluna, 2013), subintitulado Espelho chinês, é um preciso exemplo de universo específico romanceado. Narra a história da personagem-título, que, depois de 26 anos longe, volta ao solar da família para, entre a irmã, os primos e os tios, participar da leitura do testamento de sua tia Elaine, que a criou e à irmã, depois da morte de seus pais. Ovelha negra, ela não espera nada dos parentes e conta sua história, passada e presente, com o intuito de expurgar suas feridas e se redimir de si mesma. O cenário é de cidade pequena; o clima, chuvoso; e os personagens, sem qualquer maniqueísmo por parte da autora, alternam os estados de ânimo que são o fundo e a forma de todas as pessoas: simples seres humanos, com qualidades elogiáveis e equivalentes defeitos, alguns bem terríveis. Se não fosse assim, de que valeria ler literatura? Sonhar por sonhar, num leito é mais cômodo do que entre páginas. E o romance de Gláucia Lemos é exatamente isso: um refúgio de onde saímos mais conscientes do que sejam o mundo e os homens.

Publicado originalmente na Verbo 21

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

LEITURAS 37: CONTOS DE NATAL

Ilustração: Rogério Borges. 
Abri ontem o volume Os melhores contos de Natal (Círculo do Livro, 1988) e reli alguns dos mais tocantes contos de natalinos já escritos. Estão lá autores como Charles Dickens, Guy de Maupassant, Machado de Assis, Jack London, Górki, O. Henry, Hawthorne, Bret Hart e Robert Louis Stevenson. Os contos são realmente os mais clássicos do gênero, mas há algumas surpresas, como o sensível relato A lenda da casa número 15, da autora da extinta Iugoslávia, de idioma servo-croata, Ida Fürst, e O pároco, do brasileiro Coelho Neto, hoje esquecido e odiado, por seu estilo, considerado por muitos excessivo e empolado. Bem, quem vier a ler O pároco não vai achar nada disso e sairá do conto entusiasmado para ler outras obras do autor. Sabemos, de há muito, o quanto os brasileiros amam diminuir e até destruir gratuitamente seus artistas e heróis, e não seria nenhum disparate se algum leitor, aqui despertado, descobrisse que Coelho Neto tem valor e ainda é legível e atual.
 
Há contos magistrais neste livro, que forma, em parte e no todo, um espectro profuso e variado de vozes e cores, no qual teses pró e contra o Natal emergem, elevando este acontecimento e impondo aos leitores horas de prazer e proveito. Missa do Galo, Cântico de Natal, Como Papai Noel chegou a Simpson's Bar, Sonho de uma noite de Natal, Natal no rancho e Markheim são, talvez, os mais famosos. Todos, porém, deixam sua contribuição tanto para uma compreensão mais profunda do Natal quanto da vida, espécie de contraponto ao que se espera da noite natalina. Neste aspecto, um dos melhores contos é, sem dúvida, o de Górki, pois, em sonho, seus personagens natalinos, quase todos pobres e tristes, voltam para lhe cobrar que seja menos cruel, pois a vida já o é, suficientemente. Um dos personagens lança-lhe na cara esta prédica: "Por que escreveu essas coisas? Para que vive inventando essas desgraças, essas tristezas? Que pretende com isso? Desfazer o que resta de fé e esperança no coração dos homens? Tirar-lhes a confiança na redenção, mostrando-lhes somente o mal? Aniquilar o desejo de viver, apresentando a existência como um suplício sem fim e sem remédio?" O narrador, estarrecido, mal consegue balbuciar uma defesa, alegando que é o que fazem todos os escritores, imaginam "cenas bem tristes, bem tocantes, para despertar", em seus leitores, "sentimentos compassivos, abrir os corações à piedade".
 
Metalinguístico e, ao mesmo tempo, um belo relato natalino, este conto ironiza com o encarceramento dos autores aos gêneros, sugere que precisam ser mais ousados e admite que, aqui e ali, os personagens tomam as rédeas das criações literárias e, à revelia do autor, abrem e fecham portas. Ao findar sua leitura, me lembrei do que me disse, recentemente, uma jovem leitora a quem perguntei sobre suas leituras de Máximo Górki. Ela simplesmente me disse que deixou de ler Górki, porque leu em algum lugar que ele escrevia mal. Mal ou aquém ou além do gosto e da capacidade de compreensão de quem o leu e criticou? É o mistério.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

POEMA DE NATAL

Foto: A. Café-Gallo.
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte -
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje à noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

VINÍCIUS DE MORAES (1913-1980). Poeta cujo centenário comemorou-se este ano e um dos mais originais de língua portuguesa. Profundo, lírico, grave. Infelizmente, a propensão à música, criando melodias e letras hoje gravadas no imaginário dos brasileiros, ofuscou a sua poesia. 

sábado, 21 de dezembro de 2013

NATAL CONSCIENTE E VERDADEIRO





Publicado com a permissão de SPACCA, a quem agradecemos a cessão.

PRÉ-VENDA DE "NICOLAU & RICARDO"

DESCONFIANÇA

Ricardo entra na sala e diz a Nicolau:
"Nosso livro já está em pré-venda!"
Nicolau mal levanta os olhos do relatório que está redigindo:
"Verdade?"
"É. Vou comprar logo meu exemplar."
Nicolau ergue a cabeça, encara o colega:
"Mas não estamos ali, não vivemos aquilo tudo, cada aventura?"
"Sim, claro! Mas posso esquecer..."

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

LEITURAS 36: ESQUECER O NATAL

Capa da 3. edição americana.
Há os que odeiam Natal. E há os que o adoram. Aqueles tudo fazem para se manter alheios, e os outros não se importam nem um pouco de seguir cegamente seu obsessivo fluxo de compras e ornamentação. É neste dilema que se insere a original novelinha Esquecer o Natal (Skipping Christmas, 2001), de John Grisham. Motivado pela viagem da filha única, que vai passar um ano no Peru, o casal Krunk decide pular o Natal e fazer um cruzeiro pelo Caribe. Mar, sol, calor, praia. Simples. Mas eles não contavam com a reação dos vizinhos, que veem naquela decisão um claro e inadmissível desdém pelo Natal. A história, portanto, vai sofrer grandes reviravoltas. Famoso internacionalmente por suas narrativas de tribunais, Grisham obtém com esta novela algo raro no gênero: reflete sobre o Natal, critica tanto os seus adeptos quanto seus reatores e ainda evoca, dentro de uma tradição que vem de Charles Dickens, a essência do seu espírito, laico ou religioso: a solidariedade e o respeito à vida.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

LABIRINTO-HOMEM

Metalinguístico, engraçado, labiríntico. O novo livro de Carlos Vilarinho, seu primeiro romance, amplia o arco de inquietações que seus contos já sugeriam e propõe que a literatura não é diferente da vida, e que a experiência obtida em uma antecipa a outra. Tive a honra de ser convidado para escrever a orelha e reconheço que foi um prazer mergulhar na mitologia urbana do autor. Sou daqueles leitores que esperam de um livro o seu oposto, tanto em assunto e sujeito quanto em estilo e forma; e o romance de Vilarinho aguçou o meu olhar no que diz respeito à cidade e aos seus indivíduos. Não conhece Salvador a fundo e em detalhes quem ainda não passou pelo filtro que Vilarinho arquitetou.

sábado, 30 de novembro de 2013

IRMANDADE CONTRA OS LIVROS

Ao Sr. Albino Rubim, Secretário de Cultura, que odeia livros e tudo fez (e faz) para transformar a maior biblioteca pública do Estado da Bahia, nos Barris, em centro de cultura, com suas manifestações artísticas de gosto duvidoso e, não raro, barulhentas, e ao Sr. Aurélio Schommer, conselheiro de cultura, que decretou, há três anos, o fim do livro, ironicamente oferecemos o parágrafo de JOHN FANTE a seguir, frisando que se enganam aqueles que acham que estas duas personalidades são democráticas e querem o melhor para a nossa sociedade. Em surdina, com atos e falas, eles vão retirando do alcance das pessoas o mais avassalador objeto de conhecimento e transformação que qualquer indivíduo pode ter em mãos: O LIVRO. Cargos públicos são política, escadaria para o céu, e estes dois alimentam, sim, ambições maiores, as quais só poderemos deter se ficarmos atentos, na hora das urnas. Não podemos esquecer que o mal reside nos detalhes, e que, obviamente, não devemos colaborar com ele. Um secretário de cultura que chegou a cogitar não realizar a Bienal do Livro da Bahia 2013 não pode mesmo ter a cabeça no lugar, a não ser na hora passar xampu. E agora, FANTE:

"Como Paulo, que teve seu momento de verdade diante de Damasco, também Henry Molise tivera seu fragmento de êxtase 25 anos antes na Biblioteca Pública de San Elmo. Encostei ao lado do gracioso edifício, subi os degraus de arenito que meu pai tinha construído com suas próprias mãos e segui com passos firmes ao longo de um corredor de estantes até aquele local familiar, na quina junto à janela perto do apontador de lápis, debaixo do retrato de Mark Twain, e puxei o exemplar encadernado em couro de Os irmãos Karamazov. Segurei-o em minhas mãos, folheei as páginas, agarrei-o com força entre meus braços, minha vida, minha alegria, meu sublime Dostoievski. Posso ter falhado com ele em meus atos, mas nunca em minha devoção. Meu querido Papa se fora, mas Fiodor Mikhailovich me acompanharia até o fim da vida". (Em A irmandade da uva, José Olympio, 2013)

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A IRMANDADE DOS ERROS

Capa: Sérgio Liuzzi.
Foi o escritor Dênisson Padilha Filho quem me avisou que o romance A irmandade da uva tinha sido publicado no Brasil, em maio deste ano, pela José Olympio Editora. Eu me valia até então da edição da espanhola Editorial Anagrama, de 2004. Belíssima, a propósito. Um livro impecável. Não podemos dizer o mesmo desta edição da saudosa José Olympio. Primeiramente, deve-se esclarecer que a José Olympio é hoje um cômodo do Grupo Record. Não lembra em nada a grande editora que foi, com a sua magistral coleção Sagarana, que reunia grandes autores brasileiros, como José Lins do Rego, José Cândido de Carvalho, Guimarães Rosa, Cyro dos Anjos, Antônio Olavo Pereira, Dinah Silveira de Queiroz e tantos outros. E que estampava os mais generosos textos de colofão já escritos no Brasil, lembrando os aniversários de eminentes personalidades do conhecimento e das artes, brasileiros e estrangeiros.

Meu primeiro problema com esta edição do romance de Fante pela José Olympio começou na página 30, com a nota, que aqui transcrevo: "Fante errava muito na ortografia italiana. No caso, o correto é 'paesani' (N. do T.)". Ora, toda esta pose só porque aparece no texto a forma "paisani". Que deselegante! E que desperdício de forças e ideias! Parece, de fato, que, em geral, nós, brasileiros, adoramos desmitificar quem quer que seja, de escritores a expoentes da música popular. Detestamos os bem-sucedidos, odiamos os supostos heróis. Na edição espanhola, que prescinde de nota, aparece tão somente, também à página 30, a forma "paisanos". Simples, direta, elegante. Mas aqui, no Brasil, precisamos, em favor de um preciosismo de tradução, transcrever a forma original em italiano, pôr nota, grifar que houve erro do autor e sermos grosseiros.
 
Daí por diante, minha leitura, que é sempre atenta a tudo, não perdoou os responsáveis por trazer este livro de Fante para o nosso idioma. Na página 63, encontramos: "Puxou do bolso um lenço de bolinhas, 'assuou' o nariz e emborcou outro trago de vinho". A forma correta é "assoou", do verbo "assoar", limpar o nariz. "Assuou" é forma conjugada de "assuar", cujo sentido é "insultar com vaia, vaiar, apupar". E não é de se conceber que Fante escreveria: "Puxou do bolso um lenço de bolinhas, 'vaiou' o nariz e emborcou outro trago de vinho". Só em literatura fantástica ou linguagem figurada alguém "vaia o nariz". Gogol (ou Gógol), certamente, escreveria isso em seu conto O nariz!
 
Por fim, e para não me acusarem de que leio os livros somente em busca de erros, lá está na orelha este tesouro: "João Fante foi acometido de diabetes em 1955". João Fante! Deus, fico pensando se se referem a Machado de Assis, nos EUA, como "Axe de Assis, autor de Dom Casmurro".
 
Bem, encerremos com uma nota: a editora José Olympio erra muito. Atualmente.

sábado, 23 de novembro de 2013

AH, AS POSSIBILIDADES!

"Em uma praia sem atrativos como aquela, sem charme como um resort do Nordeste jamais imaginaria existir, eu via mulheres de todos os tipos e de todos os jeitos, mesmo que procurasse não olhar. Morenas de maiô branco. Loiras com a parte de cima do biquíni aberta nas costas, espécie de topless familiar. Ruivas ficando mais sardentas, meninas aprendendo a virar moças e ainda aquelas com livros na mão, ou revistas, ou jornais, ou a bula do protetor solar, que fosse. Cada uma, uma possibilidade.
"Então eu tive a única iluminação da minha vida, contrariando todos os avisos de apagar as luzes que o governo, em crise de energia, andava espalhando pelo país.
"Não era Úrsula que eu queria, quando me separei de Alice. O que eu queria, na verdade, eram as possibilidades."
 
CLAUDIA TAJES, em As pernas de Úrsula (L&PM, 2011). A autora vem desenvolvendo um belo trabalho de renovação da literatura brasileira contemporânea, conferindo às suas tramas cotidianas uma mistura de psicologia e humor. Nesta novela, assistimos ao despertar de um Casanova moderno, aprisionado durante anos a um casamento insalubre.

domingo, 17 de novembro de 2013

A CARTOMANTE, EM CORDEL

A Nova Alexandria, editora de São Paulo, criou tempos atrás uma coleção de clássicos brasileiros e universais adaptados para o cordel. Na coleção, está o nosso Antônio Barreto, poeta e cordelista baiano, com o seu A cartomante, em cordel (São Paulo, 2012), adaptado do célebre conto de Machado de Assis. Recebi do autor um exemplar na Bienal do Livro da Bahia, na terça-feira, li e gostei muito, por três motivos básicos: 1) o psicologismo do conto se mantém; 2) a ironia de Machado permanece intacta, e 3) a história, um dos melhores relatos curtos de Machado, continua a ser uma trama policial. Barreto, habilidoso cordelista que é, soube reverenciar Machado de Assis, ao mesmo tempo que o entrega, de bom grado, a um público que, talvez, por outras vias, não chegasse a conhece-lo. Portanto, esta adaptação, antes de promover um afastamento da obra machadiana, diluindo-a, constitui um portal de entrada para o seu universo: um dos mais instigantes e complexos de toda a literatura universal.
 
O início
 
"Camilo ria da amada
Com sarcasmo e ironia,
Apenas porque a moça
Por crença e ideologia
Consultou a cartomante,
Que algo estranho previa."
 
O meio
 
"Tinha vontade de rir...
E ria, ria sozinho...
Por saber que a cartomante
Retirara o seu espinho,
Devolvera-lhe a alegria
Pra seguir o seu caminho."
 
O fim
 
"Ele pegou-o pela gola
E deu fim na traição.
Com dois tiros disparados,
Outro corpo foi ao chão...
Restara somente um vivo,
Perdido na solidão."

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

NA BIENAL, NESTE FERIADO

O editor Rosel Soares, da Casarão do Verbo, me convidou para bater um papo com os leitores e autografar exemplares do Três infâncias e outros livros, sexta-feira, dia 15, a partir das 15 horas, na Bienal do Livro da Bahia, no estande da editora (E-04). Os interessados são mais do que bem-vindos.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

ARTE E ORALIDADE

São Paulo: Octavo, 2010.
A tendência contemporânea de se ouvir o autor falar, mais do que ler sua obra, que fica à margem das discussões e das ideias, apenas como um pretexto, já havia sido prevista por Octave Uzanne (1851-1931), escritor francês, em sua obra O fim dos livros:
 
"Ao se referirem a um autor de sucesso, as senhoras não mais dirão: 'Eu gosto tanto de sua escrita!' Elas suspirarão trêmulas: 'Oh! Este falante tem uma voz que penetra. Que charme, que emoção; suas notas baixas são adoráveis; seus gritos de amor transpassam. Ele nos parte de emoção após a audição do seu trabalho. É um sequestrador de ouvidos incomparável'".
 
Octave Uzanne ainda previu: "A arte será então uma aristocracia fechada; a produção será rara, mística, devota e altamente pessoal. Esta arte talvez compreenderá de dez a doze apóstolos por geração e, quem sabe, uma centena a mais de fervorosos discípulos".
 
LAUS UZANNE!

domingo, 10 de novembro de 2013

AS PÉROLAS DA SECULT-BA

Capa e contracapa: projeto gráfico da P55.
Abri o livro Autores baianos: um panorama (Secult-BA & P55, 2013), organizado para aumentar o leque de autores baianos "presentes" em Frankfurt, com o coração livre, mas os sentidos aguçados. Como, aliás, faço com qualquer livro que começo a ler. Mas, já nos primeiros textos institucionais, me deparei com tantas "pérolas", que não resisti a fazer uma breve seleta do que li. E foi inevitável que, durante o curso da operação, eu me lembrasse de uma conferência municipal de cultura a que compareci, em Irará, em 2009. Na mesa oficial, encabeçada pelo ex-secretário Márcio Meirelles, não foram poucas as pérolas entregues aos porcos, na plateia. A mais sofisticada de todas procedeu dos lábios, e da mente arguta, de um dos políticos locais: "Cultura é cultura". Houve ainda esta, do chefe da mesa: "Se vocês fizerem uma abundância de silêncio, posso continuar o meu discurso".
 
Mas vamos às pérolas prometidas, começando pelas do eminente secretário de cultura Albino Rubim:
 
1) "Com estas ações, a Secretária de Cultura busca contribuir para a internacionalização da cultura da Bahia e, em especial, para o estabelecimento de novos diálogos interculturais, tão vitais para a cultura".
 
2)"Tais relações interculturais, nacionais e internacionais, por óbvio, pressupõem a afirmação da singularidade da cultura baiana e a relevância da nossa identidade cultural. A rigor, sem estes reconhecimentos, não pode haver uma verdadeira troca cultural, pois ela implica sempre em um encontro entre culturas que se (re)conheçam e respeitem como movimentos relevantes. Sem isto, em lugar de trocas, emergem imposições, dominações e imperialismos culturais."
 
3) "Nesta perspectiva, os diálogos interculturais adquirem um papel essencial para a vida cultural em uma contemporaneidade cada vez mais glocalizada (sic)".
 
Bem, já temos uma amostra suficiente que marca um discurso vazio e tautológico. As palavras "cultura", "intercultural" e "cultural" esvaziam-se de sentido pela repetição e acabam por determinar a incapacidade do autor em ser mais claro e, talvez, de se aprofundar em sua matéria, na qual, se pressupõe, ele seja especialista. Na verdade, ele está embromando, no texto e a todos nós. Numa apresentação de nove parágrafos, apenas em um ele não usa, abundantemente, estas palavras. E é exatamente naquele em que revela, para a minha surpresa, e talvez de muitos, que os autores arrolados no livro o foram, também, pelos "perfis" que possuem. Ou seja, não prevaleceu a relevância estética, se é que, aos olhos do secretário, algum daqueles autores a possui. A esse propósito, cabe citar aqui a fala de um escritor baiano, que, ao saber dos escolhidos, disse: "Eu diminuiria a massa de texto de cada um e aumentaria o arco de autores. Incluiria Antônio Brasileiro, Adelmo Oliveira, José Inácio Vieira de Melo, Carlos Barbosa, Lita Passos, Elieser Cesar, Renata Belmonte, Luís Pimentel, Antônio Barreto, Wladimir Cazé, Nádia São Paulo, Sandro Ornelas e alguns outros. Chegaria a trinta autores. Pecaria antes pelo excesso que pela falta". Mas a verdade é que não houve pesquisa: os próprios autores selecionaram seus textos, os próprios autores redigiram suas biografias. É um livro cujo mérito é dos autores, de ninguém mais. Fica fácil organizar o que quer que seja assim.
 
Encerremos, portanto, com mais algumas pérolas, agora dos colaboradores do secretário:
 
4) "Publicar, traduzir e difundir são passos fundamentais para a internacionalização das políticas públicas para o livro, leitura (sic) e literatura". Ou seja: o propósito é divulgar as "políticas públicas", os autores foram apenas "um modo se usar". Bem dizia Octavio Paz que as palavras dizem mais do que seus autores pretendiam.
 
5) "São literaturas que podem estar configuradas em diferentes tempos num mesmo momento, o presente".  Ah, configuradas... A informática fornece, mesmo, um ótimo vocabulário para se aplicar à cultura e à literatura. Um vocabulário rarefeito.
 
6) "A capoeira, a culinária, o candomblé e o carnaval são as mais especuladas características desta terra, mas há uma Bahia contemporânea desconhecida para muitos". Sem dúvida, inclusive para quem disse isto, pois a capoeira, a culinária, o candomblé e o carnaval não são "características", são manifestações culturais. E o secretário gastando tanta "cultura"...
 
Um amigo costuma dizer que uma das frases mais criativas que ele leu em pichação de muro foi: "Em terra de olho, quem tem um cego, errei". A minha preferida é esta tabuleta, que eu lia e relia, na porta de uma granja, no Rio de Janeiro, sempre que voltava da escola: "Temos frangos abatidos vivos". Pois bem, os escritores baianos, e talvez os leitores baianos, "estão sendo abatidos vivos" por uma secretaria de cultura que tem em seu comando um cego, que jamais dirá: "Errei".