"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

TEMPO GANHO, TEMPO PERDIDO

"Eu tinha tantas coisas na cabeça! Tantas, que me custava colocá-las em ordem. Acontecia-me às vezes, mesmo no escritório. Não reorganizava imediatamente uma pasta e acabava por não conseguir mais encontrá-la. E minha mãe dizia então que as coisas devem ser colocadas em seu lugar à medida que chegam, quando ainda podem ser administradas; que, quando se deixa espaço para a desordem, vem o desânimo e não se consegue mais reorganizar nada, perde-se um monte de tempo. Mas, ao contrário, quando se perde aquele bocadinho de tempo necessário para recolocar uma coisa imediatamente em seu lugar, depois é tudo tempo ganho, pois cada coisa está em seu lugar a qualquer momento que se procure..."

MARCELLO FOIS, escritor italiano, em Sempre caro (Record, 2004). Com pouco mais de cinquenta anos, Fois vem se notabilizando por uma produção de reconhecido valor literário e alguma penetração popular, talvez oriunda dos prêmios que ganhou, o Calvino, em 1995, e o Dessi, dois anos depois, bem como de seu estilo, preciso e envolvente. Criador do personagem Bustianu, um advogado que, por força das circunstâncias, acaba por resolver intrincados crimes.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

AMOR DE MÃE EM TARDES DE OUTONO

Pintura de José Pancetti (1902-1958).
No precioso volume As mais belas páginas da Literatura Árabe, organizado pelo insigne Mansour Challita, e que é uma fonte quase inesgotável de minicontos milenares, há este, de autoria de Al-Asbahani e intitulado:

AMOR DE MÃE

Uma anedota popular árabe conta que uma mãe, a quem perguntaram a qual dos filhos mais amava, respondeu:
"Ao pequenino, até que cresça; ao enfermo, até que cure; ao ausente, até que volte".

Minha mãe, ao mesmo tempo emotiva e cartesiana, era bem assim. E aqui fica este texto, em sua memória, pois hoje, se viva, completaria 81 anos.

Quanto ao belo quadro de Pancetti, é inevitável que ele me faça recordar o tempo em que moramos numa ilha, no RJ. Não era incomum que minha mãe, nas tardes de outono, que não eram quentes nem frias, me levasse, pequeno, a caminhar pela praia. A sensação que tenho hoje, ao me recordar daqueles momentos, é a de que estávamos sozinhos no mundo. Como as duas figuras no quadro. Assim são as lembranças, simples interpretações.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

CINECONHECIMENTO, 5: O VAZIO

"A gente está sempre desprotegido, contra tudo. Qualquer imbecil pode te estragar o dia, o mês, o ano, a vida. Uma notícia de jornal, um automóvel, micróbio, uma casca de banana podem mudar o quadro de sua vida ou acabar com tudo. Um sujeito mais forte que você pode te bater e te humilhar, a qualquer instante. Um louco qualquer pode te dar um tiro, agora, assim, bum!, e acabou. Você nunca consegue dispor de sua própria vida, ser o elemento decisivo dela. No fundo, nós estamos sempre fazendo o que os outros querem. Você tem que trabalhar, tem que estudar, tem que pagar impostos, ter documentos, tem que ir pra guerra e tem que ter dinheiro, roupa, casa, família."

Diz Paulo José para Anecy Rocha, no leito de amor, em As amorosas (1968), de Walter Hugo Khouri, que sofreu com o descaso e a perseguição dos adeptos do Cinema Novo, por fazer cinema psicológico num país e época em que quase toda a arte era de natureza sociopolítica e, consequentemente, datada.

Os patrulheiros cinema-novistas não o deixavam em paz, por constituir uma voz dissidente e única, cujos filmes escolhiam o indivíduo em detrimento do contexto e do tempo, enfatizando seu estado de ânimo. As angulações são subjetivas, silêncios contrastam com uma trilha sonora abstrata e nervosa, metáforas surgem espontaneamente, ideias entram em choque, a nudez é sempre poética e metonímica, e os pensamentos íntimos dos personagens emergem na tela sem a mediação de qualquer palavra. Noite vazia (1964) e Corpo ardente (1966) formam com As amorosas uma espécie de trilogia do desespero e do vazio.

domingo, 25 de agosto de 2013

VÁ E VEJA, 20: A FONTE DAS MULHERES

Lisístrata (411 a. C.), de Aristófanes (nascido em 445 a. C., morto entre 385 e 380 a. C.), é uma das mais importantes peças gregas do período clássico. Só não é mais cultuada que as célebres tragédias de Sófocles, Ésquilo e Eurípedes. E, obviamente, por se tratar de uma comédia, classificada como "gênero menor" por Aristóteles, não recebe a devida atenção do público, da crítica, nem dos estudiosos. O riso, mesmo hoje, ainda é preterido em favor do páthos da tragédia ou do drama. Mas foi em Lisístrata que o cineasta Radu Mihaileanu buscou inspiração para o seu excelente filme A fonte das mulheres (2010). Se na referida comédia grega as mulheres resolvem fazer greve de sexo como forma de protestar contra a guerra e obrigar seus cônjuges e filhos a abandonar as sangrentas batalhas, as mulheres do filme o fazem por uma causa mais prosaica: forçar seus maridos a se dirigir à fonte para pegar água, preservando-as, assim, de um esforço maior, que, em estado de gravidez, prejudica-as gravemente. Porque presencia uma de suas vizinhas cair, ao descer da montanha com o peso de dois baldes de água, e perder o filho que trazia no ventre, Leila sugere que todas as mulheres façam "greve de amor", até que seus maridos se prontifiquem a buscar água ou consigam que o Governo a canalize ao centro da aldeia. Com este argumento, A fonte das mulheres promove um debate acerca de importantes questões, como a condição da mulher árabe, sempre vista à sombra de uma suposta supremacia masculina e à qual veta-se o direito à voz e à opinião, bem como ao conforto e ao conhecimento. No auge de sua heterodoxia, o filme propõe que se proceda a uma leitura crítica do Alcorão, seguida de uma revisão dos dogmas impostos, adotados convenientemente para o proveito dos homens. Pelos lábios de Lisístrata, aprendemos que "onde está o tesouro está o poder". Pelas atitudes daquelas mulheres árabes, seus maridos compreendem, de uma vez por todas, que, se o tesouro da fonte é a água, o das mulheres é o "amor".

sábado, 17 de agosto de 2013

CENTENÁRIO DE ALBERT CAMUS, 2

Além de romancista, contista e ensaísta, Albert Camus (1913-1960) foi polêmico dramaturgo. Quatro peças o tornaram um importante escritor de teatro e muito respeitado: O estado de sítio (1948), Os justos (1949), Calígula (1945) e O equívoco (1944). As duas últimas foram reunidas num só volume pela editora portuguesa Livros do Brasil, de Lisboa, em edição sem data. Pelo que se sabe, é a única em língua portuguesa.

Em Calígula, Camus transforma o imperador romano, um dos mais cruéis da história de Roma, num homem solitário, amargurado pela morte de sua irmã Drusilla, seu único amor, e sempre à procura de uma liberdade plena, simbolizada pelo exercício absoluto do poder: "Este mundo, tal como está feito, não é suportável. Tenho, portanto, necessidade da Lua, ou da felicidade, ou da imortalidade, de qualquer coisa de demente, talvez, mas que não seja deste mundo", ele decreta logo no início. Daí por diante, confisca o dinheiro e os bens dos romanos, humilha-os, tripudia dos Deuses, das leis e dos poetas, desdenha da opinião alheia, pratica a tortura psicológica e principalmente mata, sem piedade. Nada muito diferente das práticas dos governantes contemporâneos, com a diferença de que, em Calígula, há um propósito "mais elevado", uma certa filosofia do caos, que o faz afirmar: "Acabo de compreender, enfim, a utilidade do poder. Ele dá as suas oportunidades ao impossível. Hoje, e por todo o tempo que virá, a minha liberdade não tem fronteiras".

Em O equívoco, cuja trama já aparece esboçada num breve trecho de O estrangeiro, Camus ironiza com o tema bíblico da volta do filho pródigo e escreve um de seus dramas mais gélidos e sombrios: depois de vinte anos ausente, Jan volta para o lar, a pensãadministrada por sua mãe e sua irmã; quer lhes fazer uma surpresa e, como não é reconhecido, registra-se com um outro nome; ele pretende ajudá-las financeiramente, mas não sabe que elas vivem há anos de roubar e assassinar os moradores da pousada, sobretudo os homens, e ele pode ser a próxima vítima... Ironicamente, uma das falas capitais da peça, pronunciada pela mãe de Jan, é: "É mais fácil matar o que não se conhece". Ou seja, o filho. Como em O estrangeiro, o responsável pelos atos da irmã é o sol, tropical e apaziguador, capaz de aliviar-lhe a inércia e a solidão, e sob o qual espera obter, afinal, a felicidade, longe de um "país de nuvens". Já a mãe, ela mata para descansar, chegar a um termo, como o protagonista de A morte feliz, romance póstumo de Camus e uma de suas melhores obras: a riqueza que ambos adquirem por matar justifica seu ato.

Nas duas peças, de caráter reflexivo, Camus emprega a ação dramática com o propósito de expor o seu pensamento, em especial a ideia de que a existência humana é absurda em si, uma vez que existe a morte, destino incontornável. Incapaz de driblá-la, o homem fica a meio caminho entre uma liberdade relativa e a felicidade possível, jamais alcançada: "Os homens morrem e não são felizes". Este é um de seus aforismos mais célebres e que, pronunciado por Calígula, adquire um sentido dúbio: de lamento e de sarcasmo. E é igualmente pelos lábios de Calígula que se chega a uma afirmação ainda mais cáustica, muito embora utópica, para não dizer verdadeira: "Este mundo não tem importância, e quem reconhece isto conquista a sua liberdade". Liberdade, desprezo e, talvez, felicidade têm uma só face.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

TRECHOS SINGULARES

Estudo de capa, não aprovado.
Emmanuel Mirdad, um dos mentores da Festa Literária de Cachoeira (FLICA), postou em seu blogue, alguns trechos de sua preferência, extraídos de Cidade singular (Kalango, 2013). Recentemente, conversamos sobre o livro, e ele me falou dos contos que mais apreciara, expondo os motivos e comentando algumas passagens. Como autor, sempre me surpreendo com os efeitos que um conto provoca no leitor, bem diversos da motivação que me levou a escrevê-lo. Lembro-me de Mirdad me perguntar sobre o conto Muros, ao que eu respondi que era um dos meus favoritos, mas, certamente, por uma razão completamente diferente da que ele ou outro leitor viesse a apontar. Na verdade, como falei que gostava de Muros, ele não disse nada, talvez porque, por elegância, não quisesse confrontar o autor. Minha preferência por Muros se justifica pela forma, especialmente o tom das frases, o ritmo da trama e o uso do tempo verbal presente, que confere ao relato uma expressividade poética e onírica. Não se assemelha em linguagem e estrutura a nenhum dos demais contos e, por isso, é quase um ente estranho ao conjunto, o que me parece o bastante para ressaltá-lo. Quem quiser ler os textos pescados de Cidade singular pelo Mirdad, acesse aqui

terça-feira, 6 de agosto de 2013

LEITURAS, 33: ARTE DO ROMANCE

A capa forja o livro dentro do livro.
Dois escritores franceses são convidados pela embaixada da França a ir ao Cairo, no Egito, participar de algumas atividades literárias. Lá, se misturam às pessoas, vivem o cotidiano noturno da cidade (em nada parecido com o do Ocidente), enchem a cara, envolvem-se numa disputa amorosa, encetam um debate sobre religião e, enfim, mais experientes como homens e escritores, voltam a Paris. Depois de um tempo, um dos autores recebe pelo correio o exemplar de um romance que narra a história vivida por eles durante aquela temporada no Egito. Supostamente o autor é o outro escritor, escamoteado sob um pseudônimo. Ou talvez a bela e intrigante Lamia, pivô dos interesses amorosos de ambos lá no Cairo. O livro, tão logo chega às livrarias, ecoa como uma bomba na imprensa francesa, por causa do seu ataque ao islamismo. Tal argumento, cheio de peripécias, é só um pretexto para Florian Zeller escrever um romance cujo propósito é refletir sobre o papel do escritor na sociedade, seu compromisso com a verdade e seu direito de romancear qualquer acontecimento, seja ele de que natureza for. Com A fascinação pelo pior (Rio de Janeiro: Rocco, 2008), obra elegantemente bem escrita (uma característica da ficção francesa contemporânea), Zeller propõe que a literatura, e em especial o romance, é o lugar da liberdade, a única modalidade de texto em que tudo pode ser dito e que é um erro da parte dos leitores supor que a ficção constitui um espelho do pensamento e da personalidade do autor. Bem, às vezes isso pode ocorrer: há os que insistem, depois de tudo, em repetir a si mesmo, e ainda mais hoje, quando se cobra do autor engajamento com as causas mais bizarras e uma postura politicamente correta que beira o delírio. Mas, em geral, o que o autor representa num romance é uma verdade possível, não a Verdade, e sua permanência e efeito reais terminam quando fechamos a obra. No rastro de Milan Kundera, Zeller afirma que o romance é uma arte "incompatível com qualquer espírito religioso, pois ela é, essencialmente, uma profanação. O romance torna intangível tudo aquilo que ele mesmo toca e que remete, assim, à ambiguidade moral do homem e à relativização fundamental das coisas. Aqueles que acreditam ser os donos da verdade e que não admitem contestações sentem-se, portanto, diretamente ameaçados pela arte do romance. Por isso têm um interesse cruel na sua destruição. Através de Rushdie, o que o imã queria eliminar era a própria arte do romance como um todo".

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

LEITURAS, 32: HELENA TERRA

Capa: Humberto Nunes.
Conheci a Helena Terra através do blogue Bípede Falante, que, infelizmente, ela encerrou. Desde o princípio, percebi que ela escrevia bem e que seus pontos de vista diferiam dos demais blogueiros que eu acompanhava. Além do mais, alimentávamos, ela e eu, uma predileção literária: os autores húngaros. Sándor Márai, Ferenc Molnár e seus compatriotas não são de gastar palavras e, em geral, nos impõem uma experiência primordial, que excede a estética europeia, e da qual não conseguimos, jamais, nos libertar. Uma vez lidos, serão sempre admirados, revisitados e relidos. E foi assim, com estas lembranças, que abri o seu A condição indestrutível de ter sido (Porto Alegre: Dublinense, 2013), feliz com o fato de ela publicar sua primeira narrativa longa, mas com receio de, por algum motivo, não conseguir apreciá-lo. Os mais difíceis julgamentos são aqueles em que um segundo princípio, neste caso a amizade, está em jogo. Mas foi o contrário. Li-o inteiramente durante uma madrugada. A história de amor que surge em meio às navegações da internet e alcança o corpo a corpo me arrebatou, e não fosse o seu estilo, econômico e reflexivo, ainda assim eu a admiraria, pois as histórias de amor são as que ficam. Na linhagem de Henry James, pois abdica de cenários e ação em favor das ideias e dos torneios dialéticos, Helena Terra reafirma a minha convicção de que literatura é linguagem, frases bem construídas, ideias em debate, gozo estético, arrebatamento e metáforas. Não é senão por isso que nos entregamos à leitura de poesia e ficção. Outro aspecto a se ressaltar é a estrutura da trama, que, no desfecho, resgata um motivo apenas esboçado no início, surpreendendo o leitor, que, naquele momento, teme por alguma solução mais fácil. E o mais edificante é que ela não o faz de maneira postiça: a conclusão é tão espontânea e vívida, que, de imediato, sabemos que é a própria existência que a esculpe, com seu fluxo implacável. Todas as ficções só encerram um propósito: representar a vida, e é esta que acaba por moldar as histórias, por mais estranhas que sejam. Pensemos somente em Os ratos, de Dyonélio Machado, ou em Noite, de Érico Veríssimo. Seus protagonistas pouco interferem e, quando o fazem, é por efeito dos cordames que os movem. Minha felicidade, portanto, foi plena: por admirar a obra em si e por saber que, de alguma forma, durante aqueles anos que acompanhei o Bípede Falante, testemunhava, indiretamente, a autora surgir. E para ficar, obviamente, pois não são de curto alcance os autores que escrevem trechos assim: "Desde o princípio, a vida se transforma conforme a incidência de luz; as pessoas, com a chegada de outras. Uma chegada é um enigma". Saudemos a chegada de Helena Terra, uma escritora por quem expresso aqui a minha admiração. 

sábado, 27 de julho de 2013

LIVROS DE POLÍTICOS

Que inocência!
"Há vários anos, todo político escreve (ou, mais precisamente, encomenda) um livro tentando seduzir os imbecis para recuperar um pouco do prestígio que perde a cada dia. É a espinha mais dolorosa que temos de engolir em nome da liberdade de expressão: os políticos dando de espertinhos para lá e para cá, num e noutro estúdio de televisão, tentando mostrar que no fundo são pessoas legais e que estaríamos equivocados se não votássemos neles. Mas a situação é justamente essa. Então, para não acabarem se desmoralizando totalmente, preferem fazer acreditar que também se interessam por outras coisas além da própria carreira; encomendam a alguém um pequeno livro, apõem impunemente sua assinatura nele e voltam aos estúdios de televisão, dessa vez sem gravata, para tentar se vender de novo; com efeito, os políticos se tornaram meras prostitutas que já não conseguem divertir ninguém e rodam as bolsinhas por aí, miseravelmente."

Palavras do escritor francês FLORIAN ZELLER, em A fascinação pelo pior (Rio de Janeiro: Rocco, 2008), publicado originalmente na França em 2004, pelas Éditions Flammarion.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

DIA DO ESCRITOR: TRÊS HISTÓRIAS

Capa: Guilherme Peres.
AVE, PALAVRA

O poeta sentou debaixo da árvore. Armou o alçapão e ficou à espera.
Esperando o quê?
Ninguém sabia. A armadilha era tão invisível quanto o pássaro que ele esperava.


CANÁRIO

Ao atravessar a rua, o poeta se distraiu e não viu o carro vindo em sua direção.
Trágico acidente.
Do fio do poste voou impune o verdadeiro culpado.


EÇA É BOA

Em dias assim, kafka eu a pensar: kundera eu fosse um grande escritor, capaz de escrever obras-primas camus estas... Poe certo, eu não estaria aqui, camões doendo de tanto empilhar livros. Eu, homero bibliotecário.

Todas de Histórias para ninar dragões (Multifoco, 2012), de Wilson Gorj, que, além de poeta, contista e editor, nasceu no dia do escritor, profissão reconhecida, mas não regulamentada. Uma das justificativas: "O Brasil é um País que lê pouco, o livro custa caro, e a população não tem renda disponível para tais luxos", afirmou Elias Daher, na condição de presidente do Sindicato dos Escritores (DF). Parabéns, Governo Brasileiro, pelo excelente País que os senhores estão formando!

terça-feira, 23 de julho de 2013

LEITURAS, 31: ABAIXO DE ZERO

L&PM e Rocco, 2011.
O tom é de frieza e desinteresse; o assunto, sexo, drogas e violência; ao ritmo de festas, rock e videogame. Poucas vezes um romance foi tão cínico. E poucas vezes o cinismo foi tão belo. Com Abaixo de zero (Less than zero, 1985), Bret Easton Ellis apareceu para o mundo da literatura, e o fez de maneira contundente, descrevendo, num estilo seco e sem envolvimento emocional, o universo alienado dos jovens ricos da Califórnia. Clay, Rip, Kim, Alana, Blair, Muriel, Trent, Daniel e tantos outros (ninguém tem sobrenome) gozam as férias de fim de ano e, em seus carrões, perambulam por boates, restaurantes, lanchonetes, shopping centers, bares, cinemas e festas. As conversas são vazias e giram sobre assuntos os mais fúteis. Eles não apreciam nada, e nada lhes importa, senão as canções do momento e as drogas, que os mantêm estimulados. As relações amorosas são efêmeras e, em geral, não vão além de uma trepada, num estado de ânimo tão intenso que faria desaparecer a espécie. Um motor de desencanto e impaciência conduz suas vidas, que, durante aquele mês, avançam mais um pouco em direção ao nada e ao fim. Quase ao final do livro, o narrador, que, sem dúvida, nos assusta com sua passividade e seu alheamento, incapaz de pronunciar qualquer reflexão, praticamente se justifica e define seu comportamento estoico e niilista: "Não quero me interessar. Se eu me interessar pelas coisas, vai ser pior. É menos doloroso não ligar". Creio que ele está certo. Como creio que este livro é tão mortal quanto um tiro. Experimente. Ou não. Às vezes, é melhor não ler. Não leia!

domingo, 21 de julho de 2013

quarta-feira, 17 de julho de 2013

CINECONHECIMENTO, 4: DIAMANTES

Em meio ao mítico deserto africano, onde os diamantes pululam à flor da terra, Peter Lorre diz para Burt Lancaster, à entrada de um restaurante chique de Diamantstad:

"Olhe este lugar um instante. Sempre me lembra o interior de uma baleia. É só uma associação intelectual, claro. Mas é do interior de uma baleia que retiramos a base para os perfumes mais incríveis, o que, em troca, confundimos com desejo, virtude, uma grande paixão. Por que está aqui? Eu, você, qualquer um de nós, por que ficamos em Diamantstad? Porque nos apaixonamos. É, sim, nós nos apaixonamos, colhendo desta mulher, deste deserto, desta cortesã impiedosa. Mas ficamos aqui, eternamente esperançosos, por um pequeno privilégio resplandecente. Este deserto é um lugar incrível, onde as pedras preciosas estão logo aqui embaixo, livres. Livres e prontas a ser apanhadas, não fossem algumas restrições infelizes".

Com roteiro de Walter Doniger e John Paxton, e direção do alemão William Dieterle, que se especializou em filmes biográficos, Zona proibida (Rope of sand, 1949) é um noir diferente, passado sob o sol implacável do deserto e na escuridão silenciosa da ambiguidade humana. Mas os ícones básicos estão presentes: a femme fatal (interpretada pela francesa Corinne Calvet), homens ambiciosos em luta, riqueza imensurável, marcas do passado, traições, caprichos, virtudes inesperadas e beijos de perder o fôlego. Se a maior conquista dos filmes do gênero noir é mesmo a mulher, não será demais afirmar que seus melhores companheiros são, de fato, os diamantes.

sábado, 6 de julho de 2013

LEITURAS, 30: DO AMOR AUSENTE

Do amor ausente, de Paulo Roberto Pires (Rio de Janeiro: Rocco, 2000), é um dos mais originais romances breves de nossa literatura, nos últimos anos. No estilo, mistura registro poético com linguagem protocolar; no assunto, contrapõe não-ditos com análises sutis; no desfecho, faz opção pela ambiguidade. A própria história é uma metáfora da impossibilidade de apreensão e domínio da vida, do amor, das relações. Sua originalidade o faz desgarrado de qualquer linhagem, para frente ou para trás. Um romance em tom menor (sem lamentos, nem queixas, nem gritos), discreto como uma brisa, mas de alcance largo, profundo. Reflexões, algumas singulares, outras meramente funcionais, em coerência com a narrativa, costuram a trama. Como esta, que desenvolve uma suposta teoria sobre o destino final das paixões: "As que se consomem em sim mesmas, e se apagam. As outras, que se extraviam por motivos vários, desde os desencontros cotidianos até a inadaptação à vida prática, que segue. Há ainda as que sequer se consumaram, que subsistem como memória simulada". A lamentar somente a péssima edição da Rocco, com erros crassos, tanto de revisão quanto de edição.

Também publicado na Verbo 21.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

AS 10+ DE WHISKY COM BOLACHAS

O verdadeiro Juvenal Juvêncio. Fonte: Uol.
Semana passada, publiquei aqui uma resenha do livro Whisky com bolachas (Casarão do Verbo, 2012), de Juvenal Juvêncio Fake, e rapidamente tornou-se uma das postagens mais visitadas. Isso me motivou a escolher as dez melhores frases do livro, segundo critérios pessoais de gosto e, claro, de humor, ironia  essência de todo o livro. No mais, optei por aquelas frases que não necessitam de contexto, cujo entendimento é imediato, e não perdem sentido com o passar do tempo.

1. "Com a morte do gênio Chico Anísio, o maior comediante do país passa a ser o Corinthians mesmo."

2. "Ronaldinho pediu a camisa 49 para ficar mais perto da 51."

3. "Existe um antigo provérbio chinês que diz: esporte é só futebol, o resto é gincana."

4. "Os deuses do futebol jamais permitiriam que o Neymar tivesse uma medalha de ouro e o Romário não."

5. "Bolão do Pai Juvenal: o juiz vai errar a favor do Corinthians no primeiro ou no segundo tempo?"

6. "Hoje, no elevador, o ascensorista: ― Vai subir ou vai Palmeiras?"

7. "Não é que eu erre em algumas contratações. Às vezes eu contrato pernas de pau só pra fazer piada."

8. "Num país sério, a história do Rogério Ceni seria ensinada nas escolas."

9. "Tô pensando em comprar algum time pequeno da Espanha e montar uma filial do São Paulo, só pra gente também ganhar a Champions League."

10. "É duro torcer para o Atlético (MG). Você nada, nada, nada e não tem nem praia pra morrer."

terça-feira, 2 de julho de 2013

LEITURAS, 29: O HOMEM DE FERRO

Capa: Marcos Lisboa.
Raros são os livros escritos para o público jovem (infância ou adolescência) que resistem a uma leitura adulta. Sem muito pensar, podemos citar dois ou três: A árvore generosa, Os meninos da Rua Paulo, O flautista de Hamelin. Condição partilhada pela novela O homem de ferro (The iron man, Martins Fontes, 1998), do inglês Ted Hughes, uma fábula sobre a importância de todos os seres para a vida e para o mundo, sua utilidade ingênita na harmonia do Cosmo. Ninguém sabe de onde o gigantesco Homem de Ferro veio, nem como foi criado, mas isso não faz dele uma ameaça. Apenas evidencia a diversidade da vida e das formas de vida, e nos diz ironicamente que as boas índoles não escolhem corpo nem matéria. Publicada originalmente em 1968, gerou, mais de trinta anos depois, um longa-metragem de animação inesquecível: O gigante de ferro (1999), dirigido por Brad Bird. Uma atração a mais para os aficionados por livros ilustrados: os sensacionais desenhos em P&B de Andrew Davidson.

Também publicado na revista Verbo 21.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

FÃ MIRIM DE "82" RECOMENDA

Maria Cecília, leitora precoce e fã de 82, uma Copa, quinze histórias, recomenda o livro. O lançamento é hoje, às 18 horas, na Livraria LDM, no Espaço Itaú de Cinema, Praça Castro Alves, Centro, Salvador, BA. Abaixo, como aperitivo, trecho do conto Arrivederci, Garoto!, de Carlos Vilarinho.

"O ponta-esquerda Edu driblou o lateral direito rubro-negro ao lado da Ladeira da Fonte das Pedras, na Fonte Nova, foi à linha de fundo e centrou na área, à meia altura. O menino arregalou os olhos como quem se assusta de prazer ao ver algo excepcional. Era Pelé, vindo não se sabe de onde, um vulto negro vestido com um manto branco, de santo, subindo entre dois zagueiros absortos, inermes, e cabeceando o balão de couro, que explodiu no peito do goleiro e se perdeu a córner. O negrón olhou incrédulo para o arqueiro dentro do gol, onde deveria estar a bola, morta, mas satisfeita, pois era ali que ela gostava de se ajeitar para dividir alegria delirante e tristeza desesperada, uma para cada lado. Indignado, o jogador deixaria sua marca minutos depois, num chute potente de voleio, como quem dá um aú de capoeira, quase uma bicicleta, golpe mortal, na entrada da área."

A Casarão do Verbo, os autores e a Livraria LDM agradecem a todos que direta ou indiretamente colaboraram com o livro ou o divulgaram. Assim como no trecho acima Pelé para perplexo diante do goleiro, nos prostramos agradecidos diante da reverência com a qual, nas últimas semanas, o nosso livro foi referido, notadamente pelos jornalistas esportivos Milton Neves, José Trajano, Juca Kfouri e Márcio Guedes, bem como pelos blogueiros Luiz Carlos de Almeida, Tércia Montenegro e Daniel Thame. 

Nosso especial agradecimento a Tostão, pelo texto da orelha e pela generosa menção ao livro em sua coluna semanal; a Kátia Borges, que tornou possível contactá-lo; a Reginaldo Manente, pela cessão da histórica foto do Menino do Sarriá, e a José Carlos Villela Jr., pela cessão de sua imagem, retrato de uma perene tristeza, mas símbolo de uma incondicional alegria: 82, uma Copa, quinze histórias.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

LEITURAS, 28: WHISKY COM BOLACHAS

Capa: Gustavo Sobral.
Quando alguém me diz assim, "Detesto Woody Allen", já sei que, qualquer que seja a relação, o humor será difícil. Se Mario Quintana nos ensinou que devemos desconfiar das pessoas cujas casas não possuem livros, mais ainda devemos de quem não gosta de Woody Allen, pois não tem humor, não entende ironia e leva a vida muito a sério. Não é o caso do Juvenal Juvêncio Fake, autor do hilariante Whisky com bolachas (Casarão do Verbo, 2012).

Nascido de uma brincadeira que um anônimo fez no Twitter e no Facebook com o presidente do São Paulo Futebol Clube, o verdadeiro Sr. Juvenal Juvêncio, o livro transforma o futebol, tema não raro de grandes debates pseudofilosóficos ou de acaloradas pancadarias, no palco ideal de duas intenções: ironia e humor. Nada, nem ninguém, escapa à verve do Juvenal Juvêncio Fake, que, a cada frase, ironiza com o Palmeiras, o Corinthians ou o Flamengo, seus alvos prediletos; Neymar, Mano Menezes, o goleiro Cássio, a Seleção Brasileira, a Seleção da China, os jogadores do São Paulo (exceto Rogério Ceni, seu deus!) e consigo mesmo, sempre retratado como um indefectível apreciador de uísque e capaz de vender qualquer perna de pau por milhões ao futebol europeu.

Se me lembrei de Woody Allen e o usei para começar este texto, é porque inevitavelmente associei algumas das frases mais risíveis do Juvenal Juvêncio Fake às tiradas bem-humoradas do ator e diretor norte-americano. Na página 51, encontra-se uma de suas melhores criações. Em 6 de outubro do ano passado, o São Paulo venceu o Palmeiras por 3x0, com um gol em que Lucas dá um drible desconcertante no zagueiro Márcio Araújo e toca para um companheiro arrematar. A conclusão do Juvenal Juvêncio Fake sobre o lance é a seguinte: "O drible de Lucas foi tão genial, que machucou a coluna do Márcio Araújo na ida e curou na volta. Ele nem sabe ainda que sofreu a lesão". Perfeito! Puro nonsense.

Com muito de Nelson Rodrigues misturado a Groucho Marx, Whisky com bolachas só tem um defeito: dura apenas 45 minutos, o tempo que levei para lê-lo por completo e relê-lo em parte. Talvez o autor esteja, de propósito, se guardando para o segundo tempo, no qual há de se superar e ser eleito o craque da rodada. De uísque, é claro!

domingo, 23 de junho de 2013

UM BRASIL MELANCÓLICO

Edição: Círculo do Livro, sem data.
A brasileira residente nos EUA, Carla Dauden, criou um vídeo fazendo duras críticas ao governo brasileiro e sua megalomania por eventos internacionais, especialmente os esportivos: Copa das Confederações, Copa do Mundo, Olimpíadas. A moça, com desenvoltura e consciente do que acontece em sua pátria, mesmo vivendo fora, no centro político-econômico do mundo, desfia sua verve entremeada de imagens de um Brasil pobre, precário, contrastante com o discurso oficial e triste. O vídeo, disponível na internet, já ultrapassou meio milhão de acessos e se soma às passeatas das últimas semanas, em todo o país, em protesto contra a precariedade da educação, a falta de segurança, a saúde doente, os gastos abusivos, a corrupção dos políticos e o desejo dos governantes de diminuir cada vez mais a possibilidade de os brasileiros reagirem diante do que é óbvio: somos mal governados. O acontecimento-símbolo desta política de carpete é o procedimento adotado pelo prefeito Raimundo Macedo (PMDB), de Juazeiro do Norte, CE, que, precisando enxugar os gastos da prefeitura, cortou em até 40% os salários dos professores. Dos professores, que, ao que parece, ganham milhões! Enquanto isso o Ceará gasta 320 milhões de reais na construção de um aquário gigante para turista ver. Melhor seria adotar nas salas de aula do Ceará Vinte mil léguas submarinas, de Júlio Verne. Mais leitura nunca é demais.

sábado, 22 de junho de 2013

FIAPO, O AMARGO

Ilustração: Balaio.
E então estávamos lá, naquele bar de beira de estrada, sem nem uma alma, eu e Fiapo. No balcão, o proprietário lia o jornal e, no extremo oposto, sentado numa cadeira à porta de entrada, com o peito firmado no espaldar, o único garçom presente aparava as unhas. Eu repassava as perguntas com o Fiapo, enquanto o câmera e o iluminador ajeitavam o equipamento. Na mesa ao lado, diante do vídeo, a produtora acertava os últimos detalhes para o início da entrevista. Nosso programa ia ao ar toda segunda-feira, às 22 horas. Era um sumário de esportes diferente. Depois de uma passagem rápida pelos resultados da semana, nas modalidades mais populares, cumpríamos uma pauta de recuos históricos, com ênfase em grandes jogos, jogadas inesquecíveis e ídolos que ficaram. ENTRAR NO "BALAIO" PARA LER O CONTO NA ÍNTEGRA.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

CENTENÁRIO DE ALBERT CAMUS, 1

Edição da Record (RJ), sem data.
Os dois livros que tornaram o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) famoso em todo o mundo foram os romances O estrangeiro (1942) e A peste (1947). Mas Camus era, em igual valor, romancista, contista, dramaturgo e ensaísta. Esteta incansável, capaz de cunhar uma prosa ao mesmo tempo exata e poética, polida e sedutora, rica de sons, imagens e odores, tornou-se um dos mais jovens escritores a ser agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, em 1957, aos 44 anos, e um dos poucos autores ocidentais que, de fato, não se pode deixar de ler. Formou com Jean-Paul Sartre, Boris Vian, Roger Vailland, Simone du Bauvoir, Jean Genet, Françoise Sagan, Georges Simenon, Leo Malet, Alfred Jarry, Marcel Proust, André Gide, Guillaume Apollinaire, Jean Anouilh, Paul Éluard, Paul Claudel, Colette, Paul Valéry, André Malraux, Julien Green, Saint-John Perse, André Breton, René Char, Henri Barbusse, Georges Bataille, Roger Martin du Gard, François Mauriac, Raymond Queneau, Henri Michaux, Jean Giono, Georges Perec, Marcel Aymé, Georges Bernanos, Drieu La Rochelle, Francis Carco, Francis Ponge, Paul Nizan e outros a frente de escritores que fizeram da literatura de língua francesa uma das mais diversas e arrojadas do período que abrange os fins do século XIX e a primeira metade do século XX. Destacado de sua obra relativamente breve, com pouco mais de quinze livros, o volume de contos O exílio e o reino (1957) é, de certa forma, uma porta de entrada para os temas que Camus desenvolve com mais intensidade nos romances, nas peças e nos ensaios. Composto de seis relatos, em cada um deles o autor estabelece uma condenação coletiva (exílio) e uma superação pessoal (reino) para o sujeito enquanto ser individual preso a uma sociedade específica que se esforça por controlá-lo. Comparecem aos contos o artista que cria, o operário que faz greve, o professor que é obrigado a cooperar politicamente, o condenado que tem a chance de decidir por ele mesmo, a mulher que pode escolher amar à sua maneira, o patrão de mãos atadas que lamenta não poder agir etc. São seres individuais e também sociais. Qualquer escolha que façam reflete em si mesmos e no mundo que os rodeia. Mas é uma escolha, pessoal e decisiva, única forma de superar a condição absurda de viver.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

COMO EM 1982...

Duelo de gigantes: 9 títulos mundiais.
E, como em 1982, sábado o Brasil só precisa do empate. Nosso livro "82, uma Copa, quinze histórias" não poderia obter um aperitivo melhor. Talvez haja uma conspiração dos deuses por "82" ou seja apenas coincidência, simples acaso. O fato é que, desde que pensamos este livro, em 2011, certos eventos têm colaborado para deixar frente a frente Brasil e Itália. Até uma decisão entre os dois países, semana que vem, é possível. Bem, que vença aquele que tiver de vencer. Mesmo porque há coisas mais importantes acontecendo no Brasil, no momento, que deixam em segundo plano este grande clássico do futebol mundial.

PROTESTOS EM SALVADOR

Na tarde-noite desta quinta-feira, polícia reprime com violência protestos em Salvador, na entrada do Dique do Tororó, impedindo que os manifestantes se aproximassem da Arena Fonte Nova. Pouco depois, na Centenário, um ônibus é incendiado. A mídia que fez a cobertura se perguntou pelo que a multidão se manifestava. Ora, por um país melhor! Uma Bahia melhor, uma Salvador melhor! Governo e prefeitura mostram o que são: inoperantes. Voto facultativo já! Vejam a sequência de fotos, de autoria de Andréia Gallo. Clique sobre as imagens para ampliá-las.
A multidão se concentra.

A polícia começa a reprimir.

Intensifica a ação.

As pessoas recuam.

Correm em direção à Centenário.

Dispersão.

Ônibus em chamas.


DUAS MOEDINHAS POR UM PAÍS!

Multidão nas ruas, mostrando o que quer.
E duas moedinhas fizeram a diferença... Os políticos, acostumados a ganhar milhares de reais por mês e a acumular milhões ao longo da vida, jamais poderiam imaginar que 20 centavos pudessem significar tanto para os brasileiros. Mas, Presidente, Governadores e Prefeitos, saibam que essas duas moedinhas são apenas um símbolo: vai ali a nossa educação precária, especialmente no Nordeste, mais especialmente na Bahia, cujas escolas públicas estão fechando e cujo Secretário mal consegue se expressar sem incorrer em erros crassos, ao passo que bibliotecas são transformadas em "casas de espetáculos"; a segurança, que é sofrível, exceto para os Senhores; a saúde, que, sobretudo para os mais pobres, é tratada com descaso; a Arte, vítima do processo conveniente de padronização e folclorização por parte do Governo em geral; e, claro, o nosso saco, que já está cheio, e também o seu anagrama, "asco", por todos vocês, avatares da pose, da arrogância, da traição e do egoísmo. Foi dado o primeiro passo. O último, que pode ser o próximo, será tomarmos as ruas, no futuro, em protesto pela adoção do voto facultativo, estágio final da absoluta democracia, pois o voto deve ser um direito, não uma obrigação. Depois disso, quero ver os Senhores nos enganarem com suas "drogas": industrialização do Carnaval, corridas de automóveis, São João do Pelô, Micaretas, Copas do Mundo e das Confederações, Olimpíadas etc. Uma moeda de 25 centavos vale muito mais!

terça-feira, 18 de junho de 2013

CINECONHECIMENTO, 3: TER

"Só não quero que minha filha cresça assim. Quero que ela tenha o que quer. Não o tempo todo, para não ficar mimada, mas às vezes... Às vezes, você deve ter aquilo que quer... No seu aniversário."

Dito por Brittany Murphy a Josh Brolin, que promete levá-la até a filha, mas não o faz e jamais poderá lhe pedir desculpas, pois ela será morta naquela noite, sem ver a filha que fazia aniversário, em A garota morta (The dead girl, 2006), escrito e dirigido por Karen Moncrieff.

Composto pelos contos A estranha, A irmã, A esposa e A mãe, que se interligam pelo tocante drama da história central, A garota morta, é um filme bonito, forte e realista, como poucos que se tem visto atualmente e que não incorre em nenhuma espécie de panfleto, ainda que seu tema seja um dos mais cruéis e recorrentes da cultura americana: o assassinato de uma mulher jovem e bonita.