"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

segunda-feira, 20 de maio de 2013

82, O LIVRO

Cena de um dos três gols de Paolo Rossi.
Amigos, o blogue do livro 82, uma Copa, quinze histórias já está no ar. Ali os leitores encontrarão, paulatinamente, além das informações referentes ao livro, lembranças, fatos e depoimentos sobre aquele fatídico jogo da Copa da Espanha: os 3 x 2 que a Itália aplicou no Brasil, mandando a Seleção Canarinho para casa mais cedo do que o esperado, e que sedimentaram a sua escalada até o tricampeonato mundial. E mais: as intrigas internas da Azzurra; a fala do centroavante Reinaldo, que chama Telê Santana de reacionário; a pungente história do editor Rosel Soares, imerso entre porcos depois do jogo; o vídeo da estreia do Brasil contra a URSS; a ida do escritor Elieser Cesar ao cinema para apagar o vazio da derrota; os detalhes do processo de criação dos contos e a biografia dos autores que integram o livro. Clique aqui.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

terça-feira, 14 de maio de 2013

LEITURAS, 25: DORA BRUDER

Edição francesa, pela Folio, 1999.
Dora Bruder, de Patrick Modiano (Rio de Janeiro: Rocco, 1998), é sem sombra de dúvida uma pequena obra-prima. Mistura especulação ficcional com realidade histórica, para remontar os passos do desaparecimento de Dora Bruder, uma garota franco-judia de 16 anos que, em dezembro de 1941, foge de um colégio interno, administrado por católicos, e, depois de perambular pelas ruas de Paris, é presa e vai parar num campo de concentração nazista. O autor sugere que sua decisão talvez tenha sido motivada pelo entrecho do filme Premier rendez-vous, cujo assunto é exatamente a fuga de uma moça de sua idade, fato que não surpreende a ninguém, pois, naquelas circunstâncias, "Aos dezesseis anos, o mundo todo estava contra ela, sem que ela soubesse por quê". Um livro singular sobre um dos mais terríveis episódios da história da humanidade, o holocausto, e narrado com o estilo único de seu autor, um dos mais festejados e, ao mesmo tempo, subestimados autores franceses da atualidade.

Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da Verbo 21.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

ESCRITOR PLURAL | RESENHA


Com o mesmo estilo sóbrio, límpido, conciso, cuidadoso e carpinteiro de “um operário das palavras”, “um Sísifo que, em lugar de uma pedra, rola montanha acima um saco abarrotado de signos, intenções e sintaxes”, como se define o escritor na apresentação do livro, Mayrant Galo enfeixa 15 contos em Cidade Singular. Tributário de autores que admira, o escritor passeia pelo relato noir norte-americano (“Você não é Sam Spade” e “A Bonnie dos Barris”), pelo brasileiro Rubem Fonseca (“Brinquedo perdido”), por Camus (no início de “Diários da piscina”), Borges (“O quasídromo”) e pelos desencontros familiares em todas as prosas (“O fim da inocência”, “Pluma solta no vento” e “Viagem adentro do ano militar”). Também exibe seu cosmopolitismo humano com a perícia de um escritor plural que observa e denuncia os miasmas pulsantes de uma cidade singular em seus desencontros. LER MAIS.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

BRASIL DE TODAS AS COPAS!



A ótima prosa de Luís Pimentel, contista, poeta e cronista, a serviço do Brasil de todas as Copas. Ilustrando suas ideias e seu humor, o Amorim. Não vou ao lançamento, pois o Rio de Janeiro não é ali, mas vou comprar meu exemplar logo-logo! Pimentel integra uma coletânea que organizei recentemente sobre a Copa do Mundo de 1982, mas ainda sem data de lançamento.

Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

LEITURAS, 24: JAMILE SOB OS CEDROS

Jamile, seu noivo Khalil Khoury e, de repente, durante um passeio de verão, Omar. Os olhos de Jamille e Omar se encontram e, num tempo único, deles próprios, e que talvez seja a eternidade, mesclam-se, numa união que vai mudar suas vidas e, consequentemente, a do noivo preterido, narrador da história. Este é o argumento de Jamile sob os cedros, uma história supostamente verídica passada no Líbano do século XIX e que inspirou o escritor francês Henry Bordeaux (1870-1963) a escrever um de seus melhores romances. LER MAIS.

domingo, 5 de maio de 2013

MEUS "AMIGOS" PATRULHEIROS

Eu mesmo, Maria Cecília e "Cidade singular".
Desde que começou, há mais ou menos três semanas, a divulgação de lançamento de Cidade singular (Kalango, 2013) e Os encantos do sol (Escrituras, 2013), recebi quase vinte comentários ofensivos, ou através do Não leia! ou diretamente na minha caixa de e-mail. As mensagens são anônimas ou assinadas com nomes fictícios ou outros que lembram pessoas de minhas relações. Em geral, expressam ódio por minha pessoa ou por meus livros, que são taxados de "ruins", "sem valor", "frágeis", de "estilo magro" e que "não vão além da futilidade literária do momento", mas, de quando em quando, alguém sai com afirmações assim: "estou preocupado com o fato de que esses seus dois novos livros não serão melhores que os anteriores, que já eram lastimáveis". Ou: "suas opiniões e seus gostos literários são equivocados". Ora, se sou péssimo escritor e falo só bobagens, não entendo por que essas pessoas se ocupam tanto comigo e tanto se esforçam por me diminuir e execrar. A um escritor sem talento e que não diz nada de relevante deve-se oferecer silêncio. Não acredito que estas pessoas se deem ao trabalho de ler o que eu escrevo. Simplesmente opinam no vazio, para me atormentar, e num tom que faz parecer que são notáveis conhecedores de literatura. Mas não conseguem. A cada vez que recebo uma mensagem assim, mesmo que não a leia, pois sei o que dizem, sinto-me mais forte, recompensado, motivado a escrever ainda mais e a seguir em frente, porque, ao mesmo tempo que estou "cultivando meu terreno", sei que estou fustigando o suposto inimigo, que é Legião. De resto, este é o lado nefasto da internet. No passado, se alguém quisesse ofender um escritor, ou o fazia pessoal e publicamente, na tarde de autógrafos de um de seus livros; ou lhe mandava uma carta anônima, pela qual, pouco ou muito, teria que pagar um valor qualquer, referente à postagem; ou tentava publicar uma crítica nos jornais, que só raramente aceitavam textos anônimos, sob pena de sofrerem um processo. Com a internet, tudo é livre, de graça, e as pessoas dizem o que querem, porque se escondem por trás de uma máscara virtual de patrulheiros da beleza, da justiça e da perfeição. Continuem me enviando esses comentários, ao contrário do que vocês pensam, eles me fazem muito bem. E, sem que o saibam, vocês estão trabalhando para mim.

sábado, 27 de abril de 2013

QUASE QUE SÓ HÁ DITADURAS

Em O perseguidor, a liberdade é o artista.
"Ora, para onde olhamos há uma ditadura em curso... Cultural, política, econômica, literária, acadêmica, de gosto... Ditadura de um tipo de cinema, de um tipo de livro, de um tipo de política cultural, de uma teoria ou uma crítica... De magreza, de beleza, de juventude, de cor, de raça, de sexo... De comportamento. Quase que só há ditaduras. E, qualquer que seja o autor, ele precisa ser livre. Não escrever nem para alguém nem para uma causa."

Trecho de entrevista que concedi ao blogue de literatura do iBahia. Quem se interessar por ler mais, acesse aqui.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

MAIGRET E O SILÊNCIO DO POETA

Porto Alegre: L&PM, 2010.
Quando soube da morte do poeta Alexandre Coutinho, eu estava lendo Maigret e o matador (1969), de Simenon. Foi o sexto romance com o célebre comissário que li só este mês. No momento, estou na metade do nono: Os escrúpulos de Maigret (1958). Por coincidência, o tema daquele livro é o assassinato de um jovem estudante de Letras, que tinha o hábito de sair, nas noites de Paris, gravando as conversas das pessoas que encontrava, como um "fotógrafo" do som, das palavras. Bares, restaurantes, boates, estações, cafés, praças e bistrôs, nenhum lugar público escapava à sua pesquisa in loco. Mas vejamos no que consiste a coincidência. Ora, se o personagem de Simenon procurava registrar a vida em seu gravador portátil, o poeta Alexandre Coutinho o fazia através de seus poemas... Há ainda a certeza de que ambos não se achavam confortáveis no mundo, como boa parte dos artistas, excetuando-se aqueles que se dedicam ao entretenimento. Eram, por assim dizer, seres inadaptados e talvez por isso fizeram da palavra o seu universo. É o que compete aos poetas: uma vez que a existência não basta, lançam mão das palavras, com o propósito de torná-la mais compreensível e suportável, se não melhor, e não apenas para si mesmos, pois também os leitores e ouvintes acabam por usufruir de suas epopeias verbais e se inquietam. O personagem de Simenon morreu em meio a uma coleta de sonoros "documentos humanos", ao passo que Alexandre Coutinho suprimiu a própria vida por ser ela mesma um documento humano, incorrigível e inadiável. Não foi o melhor poema que escreveu, mas foi o último e o mais grave, aquele pelo qual jamais será esquecido. Como uma inesperada lanterna a iluminar a trilha numa noite de tempestade, ele nos fez entender que, por mais exatas que sejam, as palavras falham, não dizem o suficiente ou tão somente esbarram na indiferença do mundo, e que, diante desta verdade, só resta ao poeta calar-se. Que a terra lhe seja leve!

quarta-feira, 17 de abril de 2013

CIDADE SINGULAR | ENTRADA


O texto abaixo compreende a seção 11 do conto De ratos e homens, que está no livro Cidade singular (Kalango, 2013), a ser lançado em 29 de abril, no restaurante Casa de Teresa, Rio Vermelho, às 19 horas. Comecei a escrevê-lo em 1995, e a primeira pessoa que o leu foi Josélia Aguiar, jornalista em São Paulo, e que foi minha colega no marketing do Banco Econômico. Apesar dos elogios que ela fez, o conto em si jamais me contentou e, ao longo dos anos, o trabalhei incansavelmente. A última versão é, a rigor, de dezembro de 2011, mas não hesitei, diante das provas do livro, no mês passado, em muda-lo mais uma vez. Espero que o leitor o aprecie e, depois, o leia na íntegra. Josélia Aguiar foi a primeira pessoa que me incentivou a publicar um texto, ao levar meu conto Bicicletas para o extinto caderno A Tarde Cultural, em 1995 ou 1996. E, para a minha surpresa, num dos eventos literários a que compareci em 2012, um senhor se aproximou de mim, me cumprimentou e disse que lera meu conto Bicicletas e ainda o mantinha guardado. Este foi um dos maiores elogios que já recebi.
                                               
11

Não encontrei meu pai nem meus irmãos. Percorri todo o anzol de areia e não os vi. Também já era tarde, quase meio-dia. Pensei que talvez já tivessem voltado, estivessem em casa, com minha mãe, prontos para almoçar, e que eu os atrasava. Mesmo assim, não contive o desejo de me prolongar um pouco mais em meio àqueles biquínis minúsculos. Perto da Praia Negra, surgiram os primeiros seios nus. Eram miúdos e belos, de uma tonalidade mais clara e macia, que os evidenciava já à distância. Causou-me surpresa o fato de que os poucos homens que ali estavam não os olhassem. Ou não representavam um gosto, um gozo? Para mim, que pouco os tinha visto, eram frutos do paraíso.
Ao fim de mais ou menos uma hora, eu tinha sede e, fatigado, com o pensamento meio turvo de tanto ver seios nus e procurar, sob os finos tecidos úmidos de suor e sal, uma intimidade, decidi ir embora.
Mal deixei para trás o Iate Clube e entrei pelo extenso trecho de terra que levava à nossa casa, ouvi um pesado ruído de motor, que foi crescendo e logo me ultrapassou. Os dois únicos caminhões do Corpo de Bombeiros do município me deixaram para trás, sufocado numa nuvem de poeira e incompreensão. Iam sem sirenes, e isso na hora me intrigou. Depois, em conversa com meu pai, ele esclareceu que as sirenes são limpa-trilhos, não colônia pós-banho.
Era impossível seguir os caminhões. Por isso, me contentei em tentar identificar, à frente deles, o local do incêndio ― se é que era um incêndio. Podia não ser. Crianças desapareciam em poços inativos, animais eram atropelados, trens abalroavam carroças ou carros no cruzamento que conduzia ao cemitério. Eram tragédias comuns, estas. Até então eu convivera com elas naturalmente. Ainda hoje acontecem, e quase com a mesma frequência dos afogamentos de verão, que não são poucos. Lus é uma luz que ofusca e nos empurra para a noite.
Só quando avistei o fio de fumaça no horizonte, foi que me dei conta de que do fundo de um dos caminhões o bombeiro Isaías me olhara de um jeito estranho, pesaroso, quase dócil. A fumaça preta subia do conjunto de casas de telhado simples, brancas, amarelas, verdes ou azuis, a minha no meio. (Cidade singular, p. 117-118)

Publicado originalmente na Verbo 21, em março de 2013.

quinta-feira, 21 de março de 2013

LEITURAS 23: OS MARINHEIROS PERDIDOS

Jean-Claude Izzo (1945-2000) era contista, poeta e romancista. Autodidata, empregou antes de tudo a intuição e, assim, filiou-se ao grupo dos grandes escritores intuitivos franceses, dentre os quais os mais notáveis talvez sejam Jean Genet e Céline. Nascido em Marselha, um dos mais antigos e importantes portos da Europa, impregnou de sal e sol toda a sua obra, mesmo os romances policiais, aos quais não falta certo tom de melancolia e desencanto, características marcantes tanto de sua prosa quanto de seus versos. “Os marinheiros perdidos” (Record, 2001), publicado originalmente em 1997, conserva esta moldura. Concentra-se nos dias que se seguem à inércia do navio Aldebaran, retido no porto de Marselha como garantia de pagamento das dívidas de seu proprietário. A tripulação ou aceita um acordo, com indenização, ou fica à espera de um desfecho mais propício, que, no entanto, pode demorar. Em meio a este impasse, o capitão Aziz, seu imediato Diamantis e o marinheiro Nedim se aprofundam na cidade, mesclam-se aos seus habitantes e veem, a pouco e pouco, suas vidas se transformar. Em estilo rápido e direto, mas trespassado de poesia e refrações psicológicas, Izzo escreve um romance marítimo sem mar. Os aforismos pontuam toda a trama, numa espécie de advertência ao nosso tempo, marcado pelas narrativas vazias: “No futuro, tudo existe, tudo é possível”. Enriquecem a edição as ilustrações, inclusive de capa, do quadrinista brasileiro Flávio Colin, de fama internacional e que, infelizmente, já não está entre nós, os marinheiros perdidos. 

Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da revista Verbo 21, em fevereiro de 2013.

quarta-feira, 13 de março de 2013

KAFKA NA BAHIA

Cena de O processo (1962).
O Planserv, plano de saúde do Governo do Estado da Bahia, não está emitindo cartões de plástico para os seus associados, porque o contrato com a empresa que os fabricava se encerrou, e uma nova licitação terá que ser feita ― e todos nós sabemos como as tais licitações (desculpa para quase tudo) são rápidas neste Estado. Enquanto isso, minha esposa que teve o seu cartão roubado anteontem, terá que emitir um novo através da internet, mas este cartão, supostamente provisório, é tão fuleiro que o atendimento médico só ocorre mediante apresentação da carteira de identidade. Ora, a sua identidade também foi roubada, junto com o cartão do Planserv, e o SAC só emitirá outra daqui a duas ou três semanas... Este é o Governo do Estado da Bahia, kafkiano ao extremo, complacente com o crime, negligente com a saúde e que despreza a educação e o bem-estar das pessoas. Einstein estava certo, quando afirmou que o maior inimigo do indivíduo é o Governo.

sexta-feira, 1 de março de 2013

A PONTE DA INSENSATEZ

A ironia de Flávio Luiz.
Hoje, alguns dos leitores do Não leia!, comentando sobre o Metrô Imóvel de Salvador, que o atual governo imobilizou ainda mais, lembraram a ponte que eles querem construir, ligando Salvador a Itaparica. Obviamente que os (e)leitores só podem achar que, depois de tudo, esta ponte será mais uma piada. Pois foi isso mesmo que pensou o cartunista baiano Flávio Luiz, anos atrás, quando o projeto de construção foi anunciado. A charge acima sugere, com humor e ironia, que a ponte poderia se tornar a passarela de um incessante desfile de tudo o que Salvador é, para o bem e para o mal, e em grande parte por culpa dos políticos. Faraônica seria a ponte, mas seu uso, bem cotidiano, como a Av. Sete de Setembro, no Centro. O mais certo, porém, é que, pela tradição das últimas décadas, a ponte comece a ser construída e, depois de meses ou anos, pare, pela metade, como um braço amputado, suspenso na imensidão do mar. Um trampolim como aqueles sobre os quais, nos desenhos animados, os piratas obrigam que os marujos rebelados andem, para a morte... Um símbolo da insensatez dos políticos e de sua opção antes pela publicidade do que pelo bem estar da população que representam.

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METRÔ IMÓVEL NA CHUVA

Pichações e desgastes já são visíveis em vários trechos.
Esse governo da Bahia deve supor que somos patetas ou eles mágicos para achar que, em 2015, eles continuarão sua ditadura ideológica. O maior símbolo de sua inoperância como gestores públicos, e que, no entanto, foi carro-chefe de campanha, é o Metrô de Salvador. Continua lá, parado, sob a chuva e o sol, o que nos leva, mais uma vez, à literatura, à poesia: "Há algo mais triste no mundoque um trem imóvel na chuva?" Mas eles não sabem o que é isso, pois nem Pablo Neruda, que foi comunista, eles leem.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

TAMBÉM, OS ENCANTOS DO SOL

Capa: Schäffer Editorial.
Este romance é resultado da bolsa de criação literária MinC-Petrobras e sai pela Escrituras (SP). Comecei a escrevê-lo em 2004, ampliando o argumento de um conto, lido por Ângela Vilma e elogiado, com esta ressalva: "É história para mais páginas". Crítica e teórica da obra do grande Herberto Sales, que foi com igual êxito contista e romancista, Ângela Vilma sabe o que está dizendo, e como sabe!, e me incentivou, com aquele comentário, a transformar aquela história breve num romance ou, talvez, numa novela, como eu prefiro chamá-la. Foi o texto que escrevi que me deu mais prazer, até aqui. Ficar oito anos envolvido, ainda que como criador, com vários personagens é uma experiência única, e acho que alguns escritores protelam a conclusão de seus romances ou novelas não somente porque são rigorosos quanto à linguagem, mas igualmente porque, envolvidos com a história, é como se fossem também personagens e, assim, vivessem outra existência, sem nenhum dano para as suas vidas reais, como frisou Ernst Fischer. O lançamento está previsto para abril. A capa, de caráter conceitual, bem diferente dos meus últimos livros, já está definida, e o miolo encontra-se em fase de finalização, nas últimas correções.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

BAHIA: EDUCAÇÃO SEM LEITURA

Charge de Altair Oliveira da Fonseca.
Domingo agora se realizará a Feira Mensal de Livros no Campo Grande, a primeira do ano. Idealizada por mim, quando à frente da Diretoria do Livro e da Leitura, da Fundação Pedro Calmon, era uma das atividades de livro e leitura que mais agradavam ao falecido professor Ubiratan Castro de Araújo. Aglutina livreiros, editores, leitores e escritores e conseguiu, durante o ano passado, impor uma tradição que não sei se o secretário de cultura Albino Rubim, com o seu ódio aos livros, especialmente de literatura, vai manter. Um poeta meu amigo me telefonou ontem. Durante a longa conversa que tivemos, ele me revelou uma história aterradora. O referido secretário, quando era professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, ao receber do poeta seu livro, obviamente um volume de poemas, retrucou, enfiando a mão no bolso e pegando uma cédula para lhe pagar: "Vou comprar, mas não vou ler". Este fato revela, ao mesmo tempo, desprezo pela produção intelectual alheia e falta de educação. Se ele não iria ler o livro, nem deveria comprá-lo. Deveria simplesmente recusá-lo e seguir ministrando suas aulas. É nas mãos desta pessoa que está o destino do livro, da leitura e da literatura na Bahia. Depois desta história, é difícil crer que a Feira Mensal de Livros no Campo Grande dure muito tempo, e ainda mais com a educação que temos, preparando pessoas sem senso crítico e para servir ao mercado de trabalho. Sem falar que o que "eles" querem mesmo é pessoas votando às cegas, em 2014, porque são obrigadas por lei. Certa vez, na feira de livros no Campo Grande, uma jovem repórter de A Tarde me procurou para uma entrevista. Sua primeira pergunta foi: "Por que se lê tão pouco na Bahia?" Respondi, sem hesitar: "Por que a nossa Educação não educa as pessoas para ler". É a verdade, mesmo que não queiramos admitir.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

AS AVENTURAS DE BIMBA RHUIM E SUA TRUPE

The Brazilian Bombshell. 
1. Desafeto e saia

Chegou a excessos emotivos a recepção a Bimba Rhuim e Papaiva durante a posse dos mesmos no Cecult ― Centro Executivo de Cultura ― do Estado de Baraúna.
Oriundos do povo ― o primeiro foi dublê de anão, mesmo não sendo anão, em Engovewood, e o segundo regeu, com singular êxito, em Caracas, um coral de capivaras ―, ambos prometem democratizar a cultura ― ou será arte? Não importa! Às vezes eles usam uma palavra, às vezes a outra.
Durante os festejos, nos quais não faltaram manifestações artísticas ― ou serão culturais? ―, com cobertura de toda a imprensa de Baraúna, Bimba Rhuim, presidente do Cecult, e Papaiva, chefe cultural, fizeram imitações. O primeiro arrancou aplausos com sua performance de Carla Pérez, célebre dançarina de lundu na Bahia, e o segundo ― nem precisou de frutas para dublar Carmen Miranda.
No dia seguinte, na entrevista coletiva, à mesa, um ao lado do outro e mais dois assessores representativos, Bimba Rhuim ouve a imprensa.
― Sr. Presidente ― começou um repórter ―, como o senhor pretende aparelhar sua equipe? ― e antes que Rhuim o corrigisse, ele emendou: ― Quero dizer, sua trupe?
― Com saia rodada... ― disse, nem alto nem baixo, outro repórter, de modo que todos ouviram e de modo que, mesmo assim, todos se calaram.  

CIDADE SINGULAR, EM BREVE

Foto da capa: Jameson Pedra.
Esta é a capa provisória de Cidade singular. O editor ainda está trabalhando sobre ela, que pode sofrer uma ou outra alteração, nas cores, especialmente.
Em breve, divulgaremos o dia e o local do lançamento e abriremos a opção de compra direta no site da editora, com antecedência e, provavelmente, por um preço mais convidativo. 
O livro reúne contos escritos nos últimos vinte anos. O mais antigo data de 1993, e o mais recente só foi finalizado este ano. Assina a orelha a professora e escritora Dalila Machado. A editora é a baiana Kalango, de Simões Filho.

"A ESTRADA" DO FIM DO MUNDO

Durante os últimos anos, virou moda investir em filmes e romances sobre o fim do mundo. Especialmente por ocasião da virada de 1999 para 2000 e durante o curso do ano de 2012, quando uma certa previsão espúria correu os quatro cantos do planeta. Muito antes deste nosso tempo, em que as modas literárias têm a duração de um sopro, Ray Bradbury escreveu um dos contos mais exemplares e simbólicos sobre o assunto aqui em questão: A estrada. Corria a década de 1950, quando Bradbury escreveu e publicou Uma sombra passou por aqui (The illustrated man, 1951). Ele já era um autor célebre, respeitado por muitos escritores de língua inglesa, como Huxley e Isherwood, por causa da repercussão de Dark carnival (1947) e, sobretudo, de As crônicas marcianas (1950). Com a carreira apenas no início, e três livros importantes publicados, e prêmios acumulados, repercussão nos EUA e no mundo, Bradbury se consagrou definitivamente com Fahrenheit 451 (1953), filmado em 1966 pelo cineasta francês François Truffaut. A trama do conto aqui mencionado é simples, e é isso que deixa o leitor perplexo: Hernando mora com a esposa numa casa à beira de uma estrada de trânsito intenso. Um dia ele percebe que não passa nenhum carro. Por horas e horas. Acha estranho e comenta com a mulher. Então, de súbito, surge um automóvel com um homem e duas ou três moças. Eles estão apavorados e querem um pouco de água para pôr no radiador. Hernando traz a água, e todos ficam agradecidos. As mulheres não param de chorar, no entanto. E o motorista diz para Hernando que explodiu a guerra atômica, que tudo vai se acabar, é o fim do mundo. E vai embora. Em casa, a mulher pergunta o que aconteceu. Hernando responde; "Nada". E depois pergunta a sim mesmo: "O que eles quiseram dizer com o fim do mundo?" Alienação, alheamento, desdém, ignorância, atribuam a este comportamento o que quiserem, mas Hernando é quem menos vai sofrer. A última edição brasileira de Uma sombra passou por aqui é a da extinta Edibolso, 1976, com tradução de Ruy Jungmann. São vinte contos enquadrados entre um prólogo e um epílogo.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

MINICONTOS REAIS, 2: KARNAVAL

O Carnaval. Entre os foliões...
O Dr. Spinola, médico respeitado em Juazeiro, foi passar o Carnaval em Salvador. Do camarote de luxo, ao lado de amigos e familiares, viu o circo passar, a noite inteira. Riu, dançou, fez os comentários comuns em tais ocasiões. Quase de manhã, ao deixar o local, foi surrado sem motivo algum por uma súcia de foliões e, em seguida, internado num hospital, onde veio a falecer. Em sua cidade, houve comoção durante o seu sepultamento, que reuniu centenas de pessoas, ao passo que, em Salvador, os responsáveis e as autoridades já planejam o próximo Carnaval.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

LEITURAS, 22: A PROVA DO MEL

A prova do mel (Objetiva, 2009) é de Salwa Al-Neimi, escritora síria radicada em Paris, e foi publicado inicialmente por uma editora do Líbano. Narra o cotidiano de uma bibliotecária que lê e, ainda mais estranho, lê os livros proibidos, os livros árabes escritos para “ser lidos com uma só mão” e que educam para a prática da cópula. Mas ela o faz de maneira escusa, colocando-os dentro de outros livros. Certa de que ninguém conhece seu ambicioso hábito de leitura, a moça segue sua rotina, até que um dia é convocada pelo diretor da biblioteca, que lhe comunica que a inscreveu para fazer uma palestra sobre os livros eróticos árabes na exposição Inferno dos Livros, nos EUA. Daí por diante, enquanto intensifica suas leituras, que agora ganharam um propósito justificável (como se simplesmente ler e atingir o conhecimento, qualquer que seja, não fosse o bastante), ela nos apresenta, com seu relato, o que aprendeu naqueles livros e como o pratica com seu amante, o Pensador, e outros homens, ao passo que entrevista mulheres para saber mais sobre a vida sexual das pessoas que estão à sua volta. Audacioso, austero e sofisticado, A prova do mel apresenta uma poética reflexão sobre a condição da mulher, de homens e mulheres que não vão para a cama dormir e de um mundo que sufoca seus desejos em favor de obscuros dogmas. Talvez a frase que resuma este belo livro seja a que está no capítulo VII, “O corpo é quem inicia a história”, embora a sua epígrafe seja mesmo o que dizia Ibn-Arabi: “A prova da doçura do mel é o próprio mel”.

Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da revista Verbo 21, em janeiro de 2013.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

LINDAS CAPAS, 6: XANGAI BABY

Aos vinte e cinco anos, Wei Hui foi considerada uma revelação literária em seu país e, quase imediatamente, no mundo. Pouco depois, a China a sentenciou “decadente, devassa e escrava da cultura estrangeira”, queimando em praça pública 40 mil exemplares do seu livro Xangai Baby, o que só fez aumentar o interesse por sua obra. Com o propósito de se defender, mas não se justificar, a autora afirmou que o conteúdo de seu romance é fruto de sua experiência de vida: família rígida, inútil treinamento militar na faculdade, rebeldia e sexo. “Foi sobre isso que escrevi”, um relato semi-autobiográfico por excelência. Mas esqueça que ouviu ou leu sobre tais peripécias e, impelido(a) por esta linda capa, cheia de sugestões, mergulhe na obra, para enfim julgá-la e à autora. Assim como esta ousada fotografia revela e oculta, espicaçando a imaginação, toda e qualquer opinião sobre uma obra prescinde do que é indecoroso e destaca o que é conveniente ou o inverso.