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| Porto Alegre: L&PM, 2010. |
quinta-feira, 25 de abril de 2013
MAIGRET E O SILÊNCIO DO POETA
quarta-feira, 17 de abril de 2013
CIDADE SINGULAR | ENTRADA
O texto abaixo compreende a seção 11 do
conto De ratos e homens,
que está no livro Cidade singular
(Kalango, 2013), a ser lançado em 29 de abril, no restaurante Casa de Teresa, Rio
Vermelho, às 19 horas. Comecei a escrevê-lo em 1995, e a primeira pessoa que o leu
foi Josélia Aguiar, jornalista em São Paulo, e que foi minha colega no marketing do Banco Econômico. Apesar dos elogios que
ela fez, o conto em si jamais me contentou e, ao longo dos anos, o trabalhei
incansavelmente. A última versão é, a rigor, de dezembro de 2011, mas não
hesitei, diante das provas do livro, no mês passado, em muda-lo mais uma vez.
Espero que o leitor o aprecie e, depois, o leia na íntegra. Josélia Aguiar foi
a primeira pessoa que me incentivou a publicar um texto, ao levar meu conto Bicicletas para o extinto caderno A Tarde Cultural, em 1995 ou 1996. E, para a minha surpresa,
num dos eventos literários a que compareci em 2012, um senhor se aproximou de
mim, me cumprimentou e disse que lera meu conto Bicicletas e ainda o mantinha guardado. Este foi um
dos maiores elogios que já recebi.
11
Não
encontrei meu pai nem meus irmãos. Percorri todo o anzol de areia e não os vi.
Também já era tarde, quase meio-dia. Pensei que talvez já tivessem voltado,
estivessem em casa, com minha mãe, prontos para almoçar, e que eu os atrasava.
Mesmo assim, não contive o desejo de me prolongar um pouco mais em meio àqueles
biquínis minúsculos. Perto da Praia Negra, surgiram os primeiros seios nus.
Eram miúdos e belos, de uma tonalidade mais clara e macia, que os evidenciava
já à distância. Causou-me surpresa o fato de que os poucos homens que ali
estavam não os olhassem. Ou não representavam um gosto, um gozo? Para mim, que
pouco os tinha visto, eram frutos do paraíso.
Ao fim
de mais ou menos uma hora, eu tinha sede e, fatigado, com o pensamento meio
turvo de tanto ver seios nus e procurar, sob os finos tecidos úmidos de suor e
sal, uma intimidade, decidi ir embora.
Mal
deixei para trás o Iate Clube e entrei pelo extenso trecho de terra que levava
à nossa casa, ouvi um pesado ruído de motor, que foi crescendo e logo me
ultrapassou. Os dois únicos caminhões do Corpo de Bombeiros do município me
deixaram para trás, sufocado numa nuvem de poeira e incompreensão. Iam sem
sirenes, e isso na hora me intrigou. Depois, em conversa com meu pai, ele
esclareceu que as sirenes são limpa-trilhos, não colônia pós-banho.
Era
impossível seguir os caminhões. Por isso, me contentei em tentar identificar, à
frente deles, o local do incêndio ― se é que era um incêndio. Podia não ser.
Crianças desapareciam em poços inativos, animais eram atropelados, trens
abalroavam carroças ou carros no cruzamento que conduzia ao cemitério. Eram
tragédias comuns, estas. Até então eu convivera com elas naturalmente. Ainda
hoje acontecem, e quase com a mesma frequência dos afogamentos de verão, que
não são poucos. Lus é uma luz que ofusca e nos empurra para a noite.
Só
quando avistei o fio de fumaça no horizonte, foi que me dei conta de que do
fundo de um dos caminhões o bombeiro Isaías me olhara de um jeito estranho,
pesaroso, quase dócil. A fumaça preta subia do conjunto de casas de telhado
simples, brancas, amarelas, verdes ou azuis, a minha no meio. (Cidade singular, p. 117-118)
Publicado originalmente na Verbo 21, em março de 2013.
sexta-feira, 22 de março de 2013
quinta-feira, 21 de março de 2013
LEITURAS 23: OS MARINHEIROS PERDIDOS
Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da revista Verbo 21, em fevereiro de 2013.
quarta-feira, 13 de março de 2013
KAFKA NA BAHIA
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| Cena de O processo (1962). |
O
Planserv, plano de saúde do Governo do Estado da Bahia, não está emitindo
cartões de plástico para os seus associados, porque o contrato com a empresa
que os fabricava se encerrou, e uma nova licitação terá que ser feita ― e todos
nós sabemos como as tais licitações (desculpa para quase tudo) são rápidas neste Estado.
Enquanto isso, minha esposa que teve o seu cartão roubado anteontem, terá que
emitir um novo através da internet, mas este cartão, supostamente provisório, é
tão fuleiro que o atendimento médico só ocorre mediante apresentação da carteira de
identidade. Ora, a sua identidade também foi roubada, junto com o cartão do
Planserv, e o SAC só emitirá outra daqui a duas ou três semanas... Este é o
Governo do Estado da Bahia, kafkiano ao extremo, complacente com o crime, negligente
com a saúde e que despreza a educação e o bem-estar das pessoas. Einstein estava certo, quando afirmou que o maior inimigo do indivíduo é o Governo.
sexta-feira, 1 de março de 2013
A PONTE DA INSENSATEZ
| A ironia de Flávio Luiz. |
Hoje, alguns dos leitores do Não leia!, comentando sobre o Metrô Imóvel de Salvador, que o atual governo imobilizou ainda mais, lembraram a ponte que eles querem construir, ligando Salvador a Itaparica. Obviamente que os (e)leitores só podem achar que, depois de tudo, esta ponte será mais uma piada. Pois foi isso mesmo que pensou o cartunista baiano Flávio Luiz, anos atrás, quando o projeto de construção foi anunciado. A charge acima sugere, com humor e ironia, que a ponte poderia se tornar a passarela de um incessante desfile de tudo o que Salvador é, para o bem e para o mal, e em grande parte por culpa dos políticos. Faraônica seria a ponte, mas seu uso, bem cotidiano, como a Av. Sete de Setembro, no Centro. O mais certo, porém, é que, pela tradição das últimas décadas, a ponte comece a ser construída e, depois de meses ou anos, pare, pela metade, como um braço amputado, suspenso na imensidão do mar. Um trampolim como aqueles sobre os quais, nos desenhos animados, os piratas obrigam que os marujos rebelados andem, para a morte... Um símbolo da insensatez dos políticos e de sua opção antes pela publicidade do que pelo bem estar da população que representam.
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METRÔ IMÓVEL NA CHUVA
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| Pichações e desgastes já são visíveis em vários trechos. |
Esse governo da Bahia deve supor que somos patetas ou eles mágicos para achar que, em 2015, eles continuarão sua ditadura ideológica. O maior símbolo de sua inoperância como gestores públicos, e que, no entanto, foi carro-chefe de campanha, é o Metrô de Salvador. Continua lá, parado, sob a chuva e o sol, o que nos leva, mais uma vez, à literatura, à poesia: "Há algo mais triste no mundo/ que um trem imóvel na chuva?" Mas eles não sabem o que é isso, pois nem Pablo Neruda, que foi comunista, eles leem.
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013
TAMBÉM, OS ENCANTOS DO SOL
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| Capa: Schäffer Editorial. |
Este romance é resultado da bolsa de criação literária MinC-Petrobras e sai pela Escrituras (SP). Comecei a escrevê-lo em 2004, ampliando o argumento de um conto, lido por Ângela Vilma e elogiado, com esta ressalva: "É história para mais páginas". Crítica e teórica da obra do grande Herberto Sales, que foi com igual êxito contista e romancista, Ângela Vilma sabe o que está dizendo, e como sabe!, e me incentivou, com aquele comentário, a transformar aquela história breve num romance ou, talvez, numa novela, como eu prefiro chamá-la. Foi o texto que escrevi que me deu mais prazer, até aqui. Ficar oito anos envolvido, ainda que como criador, com vários personagens é uma experiência única, e acho que alguns escritores protelam a conclusão de seus romances ou novelas não somente porque são rigorosos quanto à linguagem, mas igualmente porque, envolvidos com a história, é como se fossem também personagens e, assim, vivessem outra existência, sem nenhum dano para as suas vidas reais, como frisou Ernst Fischer. O lançamento está previsto para abril. A capa, de caráter conceitual, bem diferente dos meus últimos livros, já está definida, e o miolo encontra-se em fase de finalização, nas últimas correções.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
BAHIA: EDUCAÇÃO SEM LEITURA
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| Charge de Altair Oliveira da Fonseca. |
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
AS AVENTURAS DE BIMBA RHUIM E SUA TRUPE
1.
Desafeto e saia
Chegou
a excessos emotivos a recepção a Bimba Rhuim e Papaiva durante a posse dos
mesmos no Cecult ― Centro Executivo de Cultura ― do Estado de Baraúna.
Oriundos
do povo ― o primeiro foi dublê de anão, mesmo não sendo anão, em Engovewood, e
o segundo regeu, com singular êxito, em Caracas, um coral de capivaras ―, ambos
prometem democratizar a cultura ― ou será arte? Não importa! Às vezes eles usam
uma palavra, às vezes a outra.
Durante
os festejos, nos quais não faltaram manifestações artísticas ― ou serão
culturais? ―, com cobertura de toda a imprensa de Baraúna, Bimba Rhuim,
presidente do Cecult, e Papaiva, chefe cultural, fizeram imitações. O primeiro
arrancou aplausos com sua performance de Carla Pérez, célebre dançarina de
lundu na Bahia, e o segundo ― nem precisou de frutas para dublar Carmen
Miranda.
No
dia seguinte, na entrevista coletiva, à mesa, um ao lado do outro e mais dois
assessores representativos, Bimba Rhuim ouve a imprensa.
―
Sr. Presidente ― começou um repórter ―, como o senhor pretende aparelhar sua
equipe? ― e antes que Rhuim o corrigisse, ele emendou: ― Quero dizer, sua
trupe?
―
Com saia rodada... ― disse, nem alto nem baixo, outro repórter, de modo que
todos ouviram e de modo que, mesmo assim, todos se calaram.
CIDADE SINGULAR, EM BREVE
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| Foto da capa: Jameson Pedra. |
Esta é a capa provisória de Cidade singular. O editor ainda está trabalhando sobre ela, que pode sofrer uma ou outra alteração, nas cores, especialmente.
Em breve, divulgaremos o dia e o local do lançamento e abriremos a opção de compra direta no site da editora, com antecedência e, provavelmente, por um preço mais convidativo.
O livro reúne contos escritos nos últimos vinte anos. O mais antigo data de 1993, e o mais recente só foi finalizado este ano. Assina a orelha a professora e escritora Dalila Machado. A editora é a baiana Kalango, de Simões Filho.
"A ESTRADA" DO FIM DO MUNDO
Durante os últimos anos, virou moda investir em filmes e romances sobre o fim do mundo. Especialmente por ocasião da virada de 1999 para 2000 e durante o curso do ano de 2012, quando uma certa previsão espúria correu os quatro cantos do planeta. Muito antes deste nosso tempo, em que as modas literárias têm a duração de um sopro, Ray Bradbury escreveu um dos contos mais exemplares e simbólicos sobre o assunto aqui em questão: A estrada. Corria a década de 1950, quando Bradbury escreveu e publicou Uma sombra passou por aqui (The illustrated man, 1951). Ele já era um autor célebre, respeitado por muitos escritores de língua inglesa, como Huxley e Isherwood, por causa da repercussão de Dark carnival (1947) e, sobretudo, de As crônicas marcianas (1950). Com a carreira apenas no início, e três livros importantes publicados, e prêmios acumulados, repercussão nos EUA e no mundo, Bradbury se consagrou definitivamente com Fahrenheit 451 (1953), filmado em 1966 pelo cineasta francês François Truffaut. A trama do conto aqui mencionado é simples, e é isso que deixa o leitor perplexo: Hernando mora com a esposa numa casa à beira de uma estrada de trânsito intenso. Um dia ele percebe que não passa nenhum carro. Por horas e horas. Acha estranho e comenta com a mulher. Então, de súbito, surge um automóvel com um homem e duas ou três moças. Eles estão apavorados e querem um pouco de água para pôr no radiador. Hernando traz a água, e todos ficam agradecidos. As mulheres não param de chorar, no entanto. E o motorista diz para Hernando que explodiu a guerra atômica, que tudo vai se acabar, é o fim do mundo. E vai embora. Em casa, a mulher pergunta o que aconteceu. Hernando responde; "Nada". E depois pergunta a sim mesmo: "O que eles quiseram dizer com o fim do mundo?" Alienação, alheamento, desdém, ignorância, atribuam a este comportamento o que quiserem, mas Hernando é quem menos vai sofrer. A última edição brasileira de Uma sombra passou por aqui é a da extinta Edibolso, 1976, com tradução de Ruy Jungmann. São vinte contos enquadrados entre um prólogo e um epílogo.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
MINICONTOS REAIS, 2: KARNAVAL
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| O Carnaval. Entre os foliões... |
O Dr. Spinola, médico respeitado em Juazeiro, foi passar o Carnaval em Salvador. Do camarote de luxo, ao lado de amigos e familiares, viu o circo passar, a noite inteira. Riu, dançou, fez os comentários comuns em tais ocasiões. Quase de manhã, ao deixar o local, foi surrado sem motivo algum por uma súcia de foliões e, em seguida, internado num hospital, onde veio a falecer. Em sua cidade, houve comoção durante o seu sepultamento, que reuniu centenas de pessoas, ao passo que, em Salvador, os responsáveis e as autoridades já planejam o próximo Carnaval.
Foto: Pousada São Bento.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
LEITURAS, 22: A PROVA DO MEL
A prova do mel (Objetiva, 2009) é de Salwa Al-Neimi, escritora síria
radicada em Paris, e foi publicado inicialmente por uma editora do Líbano.
Narra o cotidiano de uma bibliotecária que lê e, ainda mais estranho, lê os livros
proibidos, os livros árabes escritos para “ser lidos com uma só mão” e que
educam para a prática da cópula. Mas ela o faz de maneira escusa, colocando-os
dentro de outros livros. Certa de que ninguém conhece seu ambicioso hábito de
leitura, a moça segue sua rotina, até que um dia é convocada pelo diretor da
biblioteca, que lhe comunica que a inscreveu para fazer uma palestra sobre os
livros eróticos árabes na exposição Inferno
dos Livros, nos EUA. Daí por diante, enquanto intensifica suas leituras,
que agora ganharam um propósito justificável (como se simplesmente ler e
atingir o conhecimento, qualquer que seja, não fosse o bastante), ela nos
apresenta, com seu relato, o que aprendeu naqueles livros e como o pratica com seu
amante, o Pensador, e outros homens, ao passo que entrevista mulheres para
saber mais sobre a vida sexual das pessoas que estão à sua volta. Audacioso,
austero e sofisticado, A prova do mel
apresenta uma poética reflexão sobre a condição da mulher, de homens e mulheres
que não vão para a cama dormir e de
um mundo que sufoca seus desejos em favor de obscuros dogmas. Talvez a frase
que resuma este belo livro seja a que está no capítulo VII, “O corpo é quem
inicia a história”, embora a sua epígrafe seja mesmo o que dizia Ibn-Arabi: “A
prova da doçura do mel é o próprio mel”.
Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da revista Verbo 21, em janeiro de 2013.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
LINDAS CAPAS, 6: XANGAI BABY
Aos vinte e cinco anos, Wei Hui foi considerada uma revelação
literária em seu país e, quase imediatamente, no mundo. Pouco depois, a China a
sentenciou “decadente, devassa e escrava da cultura estrangeira”, queimando em
praça pública 40 mil exemplares do seu livro Xangai Baby, o que só fez aumentar o interesse por sua obra. Com o
propósito de se defender, mas não se justificar, a autora afirmou que o
conteúdo de seu romance é fruto de sua experiência de vida: família rígida,
inútil treinamento militar na faculdade, rebeldia e sexo. “Foi sobre isso que
escrevi”, um relato semi-autobiográfico por excelência. Mas esqueça que ouviu
ou leu sobre tais peripécias e, impelido(a) por esta linda capa, cheia de
sugestões, mergulhe na obra, para enfim julgá-la e à autora. Assim como esta ousada
fotografia revela e oculta, espicaçando a imaginação, toda e qualquer opinião
sobre uma obra prescinde do que é indecoroso e destaca o que é conveniente ― ou o inverso.
sábado, 26 de janeiro de 2013
A VIDA DENTRO DOS LIVROS, 2
Carmem, de Prosper Mérimée, é uma das minhas novelas favoritas. A cada dois ou três anos a releio. Depois assisto à sua mais notória adaptação para o cinema, com Rita Hayworth e Glenn Ford, e direção de Charles Vidor. Da última vez que a reli, me lembrei de outro livro: Carmen ou o desencontro dos sexos nos anos 80, do alemão Wolf Wondratschek, um longo poema narrativo com ironias assim: "A gente nem tem tempo de berrar com a própria boca". Bem, fui à estante pegá-lo. Para o meu espanto, não o achei na seção de literatura de língua alemã. Ou eu o pegara e pusera em outro nicho ou (o que eu temia fosse a mais pura verdade) levara-o ao sebo para, com outros, trocá-lo por algum livro de que necessitara em algum momento. Já fiz muito isso, especialmente na época da graduação e do mestrado. Decidi ir direto ao sebo e, sem nenhuma dificuldade, lá o achei, o mesmo exemplar. Realmente, eu o envolvera numa troca. Mas havia ainda uma outra surpresa, redentora: na terceira capa, eu havia rabiscado a lápis um poema, do qual já não me lembrava e nem tinha cópia. Um poema perdido recuperado por um ato de releitura. Depois deste episódio, não há como não acreditar que, de fato, reler um livro constitui sempre uma nova descoberta: do texto, do autor e de outras coisas.
domingo, 20 de janeiro de 2013
LEITURAS, 21: PRÉ-TCHÉKHOV
Um mês no campo (1850) é a mais importante peça teatral de Ivan
Turgueniev (1818-1883) e uma obra-prima do gênero, na Rússia antes do
aparecimento das revolucionárias peças de Anton Tchékhov (1860-1904). É consenso se afirmar
que esta obra de Turgueniev influenciou Tchékhov, como retrato da burguesia
campesina, frequentemente representada por ele como reduto de tédio, desespero
e melancolia. Estão lá os tipos indefectíveis de sua dramaturgia: o médico, o rico proprietário rural, sua esposa entediada, os preceptores, os agregados,
visitantes, vizinhos e alguém especial, motor da ação, que chega para romper o
equilíbrio e desfazer a harmonia. Tio
Vânia não foge a este padrão e se tornou, talvez, a mais cultuada peça de
Tchékhov. A única edição no Brasil de Um
mês no campo coube à editora Hucitec, em 1990, com recursos da Secretaria
de Cultura de Estado de São Paulo, em tradução de Fernando Peixoto e José Celso
Martinez. A edição é bonita, bem cuidada, com mancha gráfica confortável e
fontes graúdas que facilitam a leitura, mas apresenta alguns erros grosseiros
de revisão. Mesmo assim, é leitura obrigatória para os apreciadores da
literatura russa.
Publicado originalmente na Verbo 21, na coluna Crítica Rasteira, em dezembro de 2012.
domingo, 13 de janeiro de 2013
LEITURAS, 20: BARATAS E MULHERES
O
Brasil é um país de extremos em quase tudo. E esta assertiva, infelizmente,
aplica-se também à literatura, que, de um lado, tem Graciliano e Drummond e, do
outro, os intragáveis autores de moda e momento. O que vem pelo meio pouco interessa,
porque nem é linguagem em modo radical, nem diversão em estado bruto. É por isso
que a literatura brasileira talvez seja a única, no mundo, cujo cânone encolhe
a cada ano, em lugar de aumentar. Posto isto, eu diria que a novela Só as mulheres e as baratas sobreviverão,
de Claudia Tajes, é, ao mesmo tempo, literatura, porque reflexiva e irônica, e
entretenimento, por constituir uma história original, despretensiosa e cheia de humor. O
argumento é simples: num sábado, uma mulher, prestes a sair para um encontro,
abre o armário para apanhar seu melhor vestido e, de súbito, depara-se com uma
enorme barata. Apavorada, fecha o armário e, só de toalha, não faz mais coisa alguma.
Fica ali, impotente, frágil, incapaz de reagir diante da presença daquele
inseto hediondo. Só lhe resta conversar com a barata, contar-lhe toda a sua
história, enquanto tenta, pelo telefone, chamar alguém que lhe faça o favor de
varrer de sua noite de sábado aquele obstáculo. O ápice da narrativa se dá
quando a protagonista telefona para a sua empregada, e esta, sem nenhuma
afetação, com a maior naturalidade, recomenda-lhe a leitura de Clarice
Lispector... Depois dizem que o povo não lê, nem gosta de ler. Será? Ou isso é desculpa de político indolente? A reflexão
final da narradora, ao comparar mulheres e baratas, inspirada na ideia de que estas sobrevivem a tudo, é: “Eu não me espantaria se,
depois do estouro da bomba, mulheres viessem em hordas de todas as partes para
ajeitar a bagunça”. Nem eu.
Publicado originalmente na Verbo 21, na coluna Crítica Rasteira, em dezembro de 2012.
domingo, 6 de janeiro de 2013
LEITURAS, 19: MULHERES
O livro As baianas (Casarão do Verbo, 2012) surgiu de uma conversa de
Elieser Cesar comigo, durante a Bienal do Livro da Bahia de 2009, sobre o livro
As cariocas, de Sérgio Porto.
Portanto, algum tempo antes do seriado exibido pela Rede Globo e que acabou se
ramificando em outros, de qualidade duvidosa. Bem, o projeto vingou,
conseguiu editor antes mesmo de ser gerado e, escolhidos os seis autores, os
contos foram escritos e, já em livro, experimentaram um relativo êxito
doméstico. O que não sabíamos era que, em 2006, um artista japonês publicara em
seu país a obra Mulheres (Zarabatana
Books, 2007), igualmente seis narrativas cujas protagonistas são mulheres. Ou,
se preferirmos, seis estudos gráficos sobre a essência do feminino num Japão
pós-guerra, precisamente na década de 1960, quando a reconstrução do país era evidente,
e a modernização, uma consequência inevitável, como a liberdade sexual. É neste
contexto que o gekigá (“geki”, drama,
e “gá”, ilustrado) de Yoshihiro Tatsumi se desenvolve e coloca as mulheres em
luta consigo mesmas e com o mundo à sua volta. As seis narrativas gráficas,
simples e com exatas pinceladas de realismo (o autor não se perde em excessos),
aproximam-se muito do que os autores de As
baianas se propuseram a escrever, inspirados em Sérgio Porto. Se
na intitulação dos contos, optamos por seguir o modelo sintético do escritor
carioca (A guerreira da Lapinha, A santinha da Ribeira, A putinha da Vitória etc.), o
quadrinista japonês preferiu, no geral, a forma analítica e assim nomeou seus
contos: A mulher determinada, A mulher que namorava, A mulher que cuidava de um homem, A mulher lasciva, A mulher que murmurava, A
mulher que pescava. O gibi de Yoshihiro Tatsumi, um veterano dos quadrinhos
japoneses, é uma excelente porta de entrada para uma arte séria e profunda, que
começou há muito tempo, no século XIX, quando o insigne gravador Hokusai
(1760-1849) decidiu soltar a mão e criar “de maneira inconsequente”. De seu
ato, provêm o “mangá” e o “gekigá”: o primeiro, mais ingênuo e romântico; o
segundo, mais sisudo e realista, representando dramas humanos com a relativa
complexidade psicológica que só a literatura e o cinema alcançaram.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A VIDA DENTRO DOS LIVROS, 1
Escrito no verso deste postal, postado de Paris para Salvador em 30 de setembro de 1982 e achado dentro de um livro num sebo da capital baiana: "Tia S., temos feito, conforme disse anteriormente, ótima viagem. Beijo [nos] meninos, abração [em] L. [e] tio J. Paris é bonita, o Rio é mais; aqui não tem mar. Dia 5 iremos para a Suíça, o V. vem de N. Y. para se encontrar conosco. Beijo, E.". Mais de trinta anos se passaram, talvez um ou outro personagem já não exista, o mundo deu voltas, mudaram-se os costumes, novos hábitos foram introduzidos, mas as palavras, vivas como quando escritas, congelaram num presente contínuo aquele momento de redação do postal, bem como as circunstâncias da viagem, a lembrança dos parentes distantes, a perspectiva de continuidade, agora em outro país, e a presença iminente do parente ou amigo, que chegará de longe para se juntar aos viajantes. E isso tudo num simples pedaço de papel cartão de 15x10cm, com carimbo do correio francês, dois selos ordinários (0,05 e 2,60 francos) e que, de propósito, pela mão desastrosa de um sujeito insensível, ou por acaso, poderia já não existir. Objetos como este guardam a memória do mundo e proporcionam aos flagrantes pretéritos da vida conservar todo o seu frescor.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
MODELO DE GENEROSIDADE
A generosidade perdeu o seu arquétipo. Morreu hoje, pela manhã, o historiador Ubiratan Castro de Araújo, diretor geral da Fundação Pedro Calmon, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFBA, e membro da Acadêmia de Letras da Bahia. Conheci o prof. Ubiratan em 2008, quando cheguei para trabalhar na FPC. Desde então, aprendi com ele muitas lições, mas a maior de todas foi a de que ainda existe, neste mundo, generosidade sem intenções de crédito e débito. Ele era generoso porque era generoso, e um humanista. Um ótimo exemplo aconteceu em setembro, não por acaso o meu último encontro com ele. Eu estava em minha sala, trabalhando, e recebi o recado de que ele queria falar comigo. Subi, fui recebido em sua sala, ele me cumprimentou, alegre e empolgado como sempre, e foi logo perguntando como estava a edição do livro O automóvel, conto de Herberto Sales que a FPC e a editora Casarão do Verbo publicaram em dezembro, na coleção Estante de Bolso. Falei que a digitação estava pronta, em fase de revisão, e que em breve eu montaria o original para enviar à editora, onde se daria a editoração. Depois, acrescentei que, até a impressão, todo o processo consumiria em torno de dois meses e que, sendo assim, dificilmente cumpriríamos o cronograma, para lançamento em novembro. Pacientemente, e com humildade, ele respondeu que não era preciso pressa, que aprontássemos o livro sem agitação e o lançássemos em dezembro. Foi a última vez que nos encontramos, e esta é, sem dúvida, uma cena poderosa, que revela o quanto o prof. Ubiratan era generoso e humilde. Ele não viu o lançamento de O automóvel e já não vê as cores deste mundo, mas continuará existindo para todos aqueles que com ele conviveram e que aprenderam, com sua forma cortês de lidar com as situações mais corriqueiras ou extremas, que a dimensão da sabedoria de uma pessoa tem a medida de um gesto simples, sem soberba.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
POETAS DA PSEUDOINFORMAÇÃO
A atriz preferida de meu pai era Ava Gardner.
Ele não perdia um filme da beldade americana, e isso causava em
minha mãe certo rasgo de ciúme, a ponto de ela sempre se referir à
moça num inconfundível tom de desprezo. Um amigo, apreciador de
filmes antigos, sente-se muito mais feliz se a película vier
encabeçada pela saudosa Rita Hayworth. Também tenho lá minhas
preferências, mas procuro não destacar a beleza física do talento
de representar, que, no fundo, é muito mais importante. Mas a
verdade é que esta inclinação, ou fraqueza, que muitas pessoas têm
para se deter diante de um rosto bonito leva-as, às vezes, a
incorrer num certo mau hábito, bem comum em nosso tempo: a vontade
de ser a todo custo o que dificilmente se pode alcançar, que Machado
de Assis tão bem ilustrou em Um homem célebre.
Semanas atrás, ao mexer num monte de livros
que recebi de autores pouco considerados, achei um volume de poemas
dedicados a mulheres famosas, embora não especificamente por sua
beleza. Em meio a fotos e breves textos biográficos, lá estavam
alguns dos poemas mais horrendos que já li. E pior: a foto de uma
das mulheres, a atriz Maria Schneider (1952-2011), não correspondia
à mesma, era de outra pessoa; de uma homônima cantora de jazz, na
verdade. Como conheço a atriz razoavelmente bem, por todos os seus
filmes a que assisti, e guardando ela ainda certa popularidade por
causa do polêmico filme de Bernardo Bertolucci, em que contracena
com Marlon Brando, O último tango em Paris (1972), aquele
erro grosseiro me chocou. E, com meus botões, me perguntei como
seria possível que um poeta, por menor que fosse, tivesse cometido
tamanho disparate: escrito um poema exaltando uma atriz que ele mal
conhecia, tanto que lhe atribui uma foto que não é dela. A resposta
é simples: o mau hábito de se querer ser o que não se é, que,
mesclado às facilidades da internet (a fonte de pesquisa do autor
foi o famigerado Wikipédia), eleva o sujeito a uma altura que lhe é
indevida.
No entanto, muito mais que isso, nosso poeta
carece de senso crítico, o que, diga-se de passagem, só se obtém
com sólida educação formal e leitura. Se, numa sociedade, ambas
fracassam (não há nem educação formal de alta qualidade, nem
leitura, porque, grosso modo, a educação atual não educa o sujeito
para ler), os poetas acabam por se tornar pseudopoetas, acríticos,
vaidosos e entontecidos pelas possibilidades que a tecnologia oferece
e nas quais, não raramente, não se deve confiar. Um poeta, para ser
grande e ecoar, precisa, antes de tudo, de talento e de uma robusta
formação educacional e intelectual, de modo que, sem percalços,
angarie credibilidade e, por fim, devoção. Em duas palavras: Castro
Alves.
Publicado originalmente no Correio da Bahia, 29/12/2012.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
VÁ E VEJA, 19: PRIMEIRO AMOR
As histórias de amor existem
desde o princípio do mundo. Representá-las na literatura ou no cinema ―
quaisquer que sejam ― implica que se invista na forma. O segredo, portanto,
para se alcançar êxito artístico, é trabalhar a linguagem, a estrutura, o tom, ritmo,
textura, cor. É com estes atributos que a cineasta Mia Hansen-Love dirigiu um
dos melhores filmes franceses deste começo de século, Adeus, primeiro amor, que, na verdade, deveria ser traduzido em
português por Amor jovem ou, mais
literalmente, Um amor de juventude. O
idílio ― trivial, diga-se de passagem ― envolve uma garota de quinze anos,
Camille, e seu namorado, Sullivan, alguns anos mais velho. De espírito
aventureiro, ele quer viajar para a América do Sul, viver outras histórias, sofrer
peripécias e ganhar experiência. Ela, por sua vez, mais sensata e menos
sonhadora, deseja apenas amá-lo, chama-o de “meu Romeu” e afirma, sem
hesitação, que o rapaz é o amor de sua vida, o que deixa sua mãe perplexa. Mas,
de fato, quem mais pode dizer quem é o amor de sua vida senão aquele que ama?
Obviamente que, ainda no primeiro terço do filme, eles se separam, e a garota
sofre, à espera de seu Romeu, de quem recebe cartas periódicas, até que também
estas cessam, silenciando-o. Demonstrando profundo conhecimento do cinema
francês desde a Nouvelle Vague, especialmente de Rohmer, Truffaut, Chabrol e
Blier, e exercitando de forma natural as influências e seu próprio estilo, a
diretora transforma o périplo amoroso de Camille num tour de force, ao qual se acrescenta todo um repertório de recursos
estéticos que fazem de seu sofrimento ― e do filme! ― um deleite para os olhos
e o espírito. As estações meteorológicas tornam-se as estações da juventude e
da vida, as cores de seu estado de ânimo migram para a paisagem e desta para a
sua alma, campo e cidade se alternam com suas cores e seus respiros, o choro e a melancolia
dão lugar ao mutismo e à impertinência de mudar, superar-se a qualquer custo, e
da contenção existencial de início chega-se à expansão. Com o retorno de
Sullivan, uma nova fase começa, até o desfecho, metafórico, simbólico,
oriental: a vida é como um rio. O amor, sobretudo o amor de juventude, é rito
de passagem, uma espécie de organizador da vida. Infelizes os que não passam
por ele; bem-aventurados os que o superam.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
É NATAL!
VERSOS DE NATAL
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Ícone da poesia de língua portuguesa
no século XX, ao lado de Drummond, Pessoa, Quintana e Cecília Meireles,
Bandeira escreveu este poema de Natal em 1939 e o enfeixou com outros no livro Lira dos cinquent’anos, inserido na
primeira edição do volume Poesias
completas (1940).
Foto: Andréia Gallo.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
ALIEN MUSICAL
Para os fãs de Woody
Allen, de cinema e da boa música em geral, uma ótima novidade made in França: CD duplo com os temas musicais de
alguns dos melhores filmes do cineasta e ator americano, de Manhattan (1979) a
Meia-noite em Paris (2011). Nesta coletânea, tem-se a noção
exata de que Woddy Allen é um artista completo e de gosto
apuradíssimo. Se lhe sobra completo domínio da narrativa, tanto a
literária quanto a cinematográfica, não menos talentoso ele é
quando se trata de ouvir bem e selecionar, com precisão, a música
que vai compor uma cena ou, não raro, enriquecê-la. Os dois discos
são fantásticos, mas, como sou um apreciador incondicional de A
era do rádio (1987), me deliciei especialmente ao ouvir quatro
dos temas que embalam as historietas deste filme, de Glenn Miller a
Carmen Miranda, que foi interpretada pela atriz brasileira Denise Dumont. No entanto, todas as músicas nos transportam para o âmbito do filme ou para a época em que foram compostas ou gravadas. São saborosas cápsulas de tempo e vidas passadas que ingerimos com renovado prazer, a cada vez que as ouvimos. No atual panorama da música baiana, e talvez
brasileira, com tanto lixo vingando nas rádios e na tevê, estes
dois discos soam como um alien musical. E talvez sejam!
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