![]() |
| Charge de Altair Oliveira da Fonseca. |
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013
BAHIA: EDUCAÇÃO SEM LEITURA
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
AS AVENTURAS DE BIMBA RHUIM E SUA TRUPE
1.
Desafeto e saia
Chegou
a excessos emotivos a recepção a Bimba Rhuim e Papaiva durante a posse dos
mesmos no Cecult ― Centro Executivo de Cultura ― do Estado de Baraúna.
Oriundos
do povo ― o primeiro foi dublê de anão, mesmo não sendo anão, em Engovewood, e
o segundo regeu, com singular êxito, em Caracas, um coral de capivaras ―, ambos
prometem democratizar a cultura ― ou será arte? Não importa! Às vezes eles usam
uma palavra, às vezes a outra.
Durante
os festejos, nos quais não faltaram manifestações artísticas ― ou serão
culturais? ―, com cobertura de toda a imprensa de Baraúna, Bimba Rhuim,
presidente do Cecult, e Papaiva, chefe cultural, fizeram imitações. O primeiro
arrancou aplausos com sua performance de Carla Pérez, célebre dançarina de
lundu na Bahia, e o segundo ― nem precisou de frutas para dublar Carmen
Miranda.
No
dia seguinte, na entrevista coletiva, à mesa, um ao lado do outro e mais dois
assessores representativos, Bimba Rhuim ouve a imprensa.
―
Sr. Presidente ― começou um repórter ―, como o senhor pretende aparelhar sua
equipe? ― e antes que Rhuim o corrigisse, ele emendou: ― Quero dizer, sua
trupe?
―
Com saia rodada... ― disse, nem alto nem baixo, outro repórter, de modo que
todos ouviram e de modo que, mesmo assim, todos se calaram.
CIDADE SINGULAR, EM BREVE
![]() |
| Foto da capa: Jameson Pedra. |
Esta é a capa provisória de Cidade singular. O editor ainda está trabalhando sobre ela, que pode sofrer uma ou outra alteração, nas cores, especialmente.
Em breve, divulgaremos o dia e o local do lançamento e abriremos a opção de compra direta no site da editora, com antecedência e, provavelmente, por um preço mais convidativo.
O livro reúne contos escritos nos últimos vinte anos. O mais antigo data de 1993, e o mais recente só foi finalizado este ano. Assina a orelha a professora e escritora Dalila Machado. A editora é a baiana Kalango, de Simões Filho.
"A ESTRADA" DO FIM DO MUNDO
Durante os últimos anos, virou moda investir em filmes e romances sobre o fim do mundo. Especialmente por ocasião da virada de 1999 para 2000 e durante o curso do ano de 2012, quando uma certa previsão espúria correu os quatro cantos do planeta. Muito antes deste nosso tempo, em que as modas literárias têm a duração de um sopro, Ray Bradbury escreveu um dos contos mais exemplares e simbólicos sobre o assunto aqui em questão: A estrada. Corria a década de 1950, quando Bradbury escreveu e publicou Uma sombra passou por aqui (The illustrated man, 1951). Ele já era um autor célebre, respeitado por muitos escritores de língua inglesa, como Huxley e Isherwood, por causa da repercussão de Dark carnival (1947) e, sobretudo, de As crônicas marcianas (1950). Com a carreira apenas no início, e três livros importantes publicados, e prêmios acumulados, repercussão nos EUA e no mundo, Bradbury se consagrou definitivamente com Fahrenheit 451 (1953), filmado em 1966 pelo cineasta francês François Truffaut. A trama do conto aqui mencionado é simples, e é isso que deixa o leitor perplexo: Hernando mora com a esposa numa casa à beira de uma estrada de trânsito intenso. Um dia ele percebe que não passa nenhum carro. Por horas e horas. Acha estranho e comenta com a mulher. Então, de súbito, surge um automóvel com um homem e duas ou três moças. Eles estão apavorados e querem um pouco de água para pôr no radiador. Hernando traz a água, e todos ficam agradecidos. As mulheres não param de chorar, no entanto. E o motorista diz para Hernando que explodiu a guerra atômica, que tudo vai se acabar, é o fim do mundo. E vai embora. Em casa, a mulher pergunta o que aconteceu. Hernando responde; "Nada". E depois pergunta a sim mesmo: "O que eles quiseram dizer com o fim do mundo?" Alienação, alheamento, desdém, ignorância, atribuam a este comportamento o que quiserem, mas Hernando é quem menos vai sofrer. A última edição brasileira de Uma sombra passou por aqui é a da extinta Edibolso, 1976, com tradução de Ruy Jungmann. São vinte contos enquadrados entre um prólogo e um epílogo.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
MINICONTOS REAIS, 2: KARNAVAL
![]() |
| O Carnaval. Entre os foliões... |
O Dr. Spinola, médico respeitado em Juazeiro, foi passar o Carnaval em Salvador. Do camarote de luxo, ao lado de amigos e familiares, viu o circo passar, a noite inteira. Riu, dançou, fez os comentários comuns em tais ocasiões. Quase de manhã, ao deixar o local, foi surrado sem motivo algum por uma súcia de foliões e, em seguida, internado num hospital, onde veio a falecer. Em sua cidade, houve comoção durante o seu sepultamento, que reuniu centenas de pessoas, ao passo que, em Salvador, os responsáveis e as autoridades já planejam o próximo Carnaval.
Foto: Pousada São Bento.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
LEITURAS, 22: A PROVA DO MEL
A prova do mel (Objetiva, 2009) é de Salwa Al-Neimi, escritora síria
radicada em Paris, e foi publicado inicialmente por uma editora do Líbano.
Narra o cotidiano de uma bibliotecária que lê e, ainda mais estranho, lê os livros
proibidos, os livros árabes escritos para “ser lidos com uma só mão” e que
educam para a prática da cópula. Mas ela o faz de maneira escusa, colocando-os
dentro de outros livros. Certa de que ninguém conhece seu ambicioso hábito de
leitura, a moça segue sua rotina, até que um dia é convocada pelo diretor da
biblioteca, que lhe comunica que a inscreveu para fazer uma palestra sobre os
livros eróticos árabes na exposição Inferno
dos Livros, nos EUA. Daí por diante, enquanto intensifica suas leituras,
que agora ganharam um propósito justificável (como se simplesmente ler e
atingir o conhecimento, qualquer que seja, não fosse o bastante), ela nos
apresenta, com seu relato, o que aprendeu naqueles livros e como o pratica com seu
amante, o Pensador, e outros homens, ao passo que entrevista mulheres para
saber mais sobre a vida sexual das pessoas que estão à sua volta. Audacioso,
austero e sofisticado, A prova do mel
apresenta uma poética reflexão sobre a condição da mulher, de homens e mulheres
que não vão para a cama dormir e de
um mundo que sufoca seus desejos em favor de obscuros dogmas. Talvez a frase
que resuma este belo livro seja a que está no capítulo VII, “O corpo é quem
inicia a história”, embora a sua epígrafe seja mesmo o que dizia Ibn-Arabi: “A
prova da doçura do mel é o próprio mel”.
Publicado originalmente na coluna Crítica Rasteira, da revista Verbo 21, em janeiro de 2013.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
LINDAS CAPAS, 6: XANGAI BABY
Aos vinte e cinco anos, Wei Hui foi considerada uma revelação
literária em seu país e, quase imediatamente, no mundo. Pouco depois, a China a
sentenciou “decadente, devassa e escrava da cultura estrangeira”, queimando em
praça pública 40 mil exemplares do seu livro Xangai Baby, o que só fez aumentar o interesse por sua obra. Com o
propósito de se defender, mas não se justificar, a autora afirmou que o
conteúdo de seu romance é fruto de sua experiência de vida: família rígida,
inútil treinamento militar na faculdade, rebeldia e sexo. “Foi sobre isso que
escrevi”, um relato semi-autobiográfico por excelência. Mas esqueça que ouviu
ou leu sobre tais peripécias e, impelido(a) por esta linda capa, cheia de
sugestões, mergulhe na obra, para enfim julgá-la e à autora. Assim como esta ousada
fotografia revela e oculta, espicaçando a imaginação, toda e qualquer opinião
sobre uma obra prescinde do que é indecoroso e destaca o que é conveniente ― ou o inverso.
sábado, 26 de janeiro de 2013
A VIDA DENTRO DOS LIVROS, 2
Carmem, de Prosper Mérimée, é uma das minhas novelas favoritas. A cada dois ou três anos a releio. Depois assisto à sua mais notória adaptação para o cinema, com Rita Hayworth e Glenn Ford, e direção de Charles Vidor. Da última vez que a reli, me lembrei de outro livro: Carmen ou o desencontro dos sexos nos anos 80, do alemão Wolf Wondratschek, um longo poema narrativo com ironias assim: "A gente nem tem tempo de berrar com a própria boca". Bem, fui à estante pegá-lo. Para o meu espanto, não o achei na seção de literatura de língua alemã. Ou eu o pegara e pusera em outro nicho ou (o que eu temia fosse a mais pura verdade) levara-o ao sebo para, com outros, trocá-lo por algum livro de que necessitara em algum momento. Já fiz muito isso, especialmente na época da graduação e do mestrado. Decidi ir direto ao sebo e, sem nenhuma dificuldade, lá o achei, o mesmo exemplar. Realmente, eu o envolvera numa troca. Mas havia ainda uma outra surpresa, redentora: na terceira capa, eu havia rabiscado a lápis um poema, do qual já não me lembrava e nem tinha cópia. Um poema perdido recuperado por um ato de releitura. Depois deste episódio, não há como não acreditar que, de fato, reler um livro constitui sempre uma nova descoberta: do texto, do autor e de outras coisas.
domingo, 20 de janeiro de 2013
LEITURAS, 21: PRÉ-TCHÉKHOV
Um mês no campo (1850) é a mais importante peça teatral de Ivan
Turgueniev (1818-1883) e uma obra-prima do gênero, na Rússia antes do
aparecimento das revolucionárias peças de Anton Tchékhov (1860-1904). É consenso se afirmar
que esta obra de Turgueniev influenciou Tchékhov, como retrato da burguesia
campesina, frequentemente representada por ele como reduto de tédio, desespero
e melancolia. Estão lá os tipos indefectíveis de sua dramaturgia: o médico, o rico proprietário rural, sua esposa entediada, os preceptores, os agregados,
visitantes, vizinhos e alguém especial, motor da ação, que chega para romper o
equilíbrio e desfazer a harmonia. Tio
Vânia não foge a este padrão e se tornou, talvez, a mais cultuada peça de
Tchékhov. A única edição no Brasil de Um
mês no campo coube à editora Hucitec, em 1990, com recursos da Secretaria
de Cultura de Estado de São Paulo, em tradução de Fernando Peixoto e José Celso
Martinez. A edição é bonita, bem cuidada, com mancha gráfica confortável e
fontes graúdas que facilitam a leitura, mas apresenta alguns erros grosseiros
de revisão. Mesmo assim, é leitura obrigatória para os apreciadores da
literatura russa.
Publicado originalmente na Verbo 21, na coluna Crítica Rasteira, em dezembro de 2012.
domingo, 13 de janeiro de 2013
LEITURAS, 20: BARATAS E MULHERES
O
Brasil é um país de extremos em quase tudo. E esta assertiva, infelizmente,
aplica-se também à literatura, que, de um lado, tem Graciliano e Drummond e, do
outro, os intragáveis autores de moda e momento. O que vem pelo meio pouco interessa,
porque nem é linguagem em modo radical, nem diversão em estado bruto. É por isso
que a literatura brasileira talvez seja a única, no mundo, cujo cânone encolhe
a cada ano, em lugar de aumentar. Posto isto, eu diria que a novela Só as mulheres e as baratas sobreviverão,
de Claudia Tajes, é, ao mesmo tempo, literatura, porque reflexiva e irônica, e
entretenimento, por constituir uma história original, despretensiosa e cheia de humor. O
argumento é simples: num sábado, uma mulher, prestes a sair para um encontro,
abre o armário para apanhar seu melhor vestido e, de súbito, depara-se com uma
enorme barata. Apavorada, fecha o armário e, só de toalha, não faz mais coisa alguma.
Fica ali, impotente, frágil, incapaz de reagir diante da presença daquele
inseto hediondo. Só lhe resta conversar com a barata, contar-lhe toda a sua
história, enquanto tenta, pelo telefone, chamar alguém que lhe faça o favor de
varrer de sua noite de sábado aquele obstáculo. O ápice da narrativa se dá
quando a protagonista telefona para a sua empregada, e esta, sem nenhuma
afetação, com a maior naturalidade, recomenda-lhe a leitura de Clarice
Lispector... Depois dizem que o povo não lê, nem gosta de ler. Será? Ou isso é desculpa de político indolente? A reflexão
final da narradora, ao comparar mulheres e baratas, inspirada na ideia de que estas sobrevivem a tudo, é: “Eu não me espantaria se,
depois do estouro da bomba, mulheres viessem em hordas de todas as partes para
ajeitar a bagunça”. Nem eu.
Publicado originalmente na Verbo 21, na coluna Crítica Rasteira, em dezembro de 2012.
domingo, 6 de janeiro de 2013
LEITURAS, 19: MULHERES
O livro As baianas (Casarão do Verbo, 2012) surgiu de uma conversa de
Elieser Cesar comigo, durante a Bienal do Livro da Bahia de 2009, sobre o livro
As cariocas, de Sérgio Porto.
Portanto, algum tempo antes do seriado exibido pela Rede Globo e que acabou se
ramificando em outros, de qualidade duvidosa. Bem, o projeto vingou,
conseguiu editor antes mesmo de ser gerado e, escolhidos os seis autores, os
contos foram escritos e, já em livro, experimentaram um relativo êxito
doméstico. O que não sabíamos era que, em 2006, um artista japonês publicara em
seu país a obra Mulheres (Zarabatana
Books, 2007), igualmente seis narrativas cujas protagonistas são mulheres. Ou,
se preferirmos, seis estudos gráficos sobre a essência do feminino num Japão
pós-guerra, precisamente na década de 1960, quando a reconstrução do país era evidente,
e a modernização, uma consequência inevitável, como a liberdade sexual. É neste
contexto que o gekigá (“geki”, drama,
e “gá”, ilustrado) de Yoshihiro Tatsumi se desenvolve e coloca as mulheres em
luta consigo mesmas e com o mundo à sua volta. As seis narrativas gráficas,
simples e com exatas pinceladas de realismo (o autor não se perde em excessos),
aproximam-se muito do que os autores de As
baianas se propuseram a escrever, inspirados em Sérgio Porto. Se
na intitulação dos contos, optamos por seguir o modelo sintético do escritor
carioca (A guerreira da Lapinha, A santinha da Ribeira, A putinha da Vitória etc.), o
quadrinista japonês preferiu, no geral, a forma analítica e assim nomeou seus
contos: A mulher determinada, A mulher que namorava, A mulher que cuidava de um homem, A mulher lasciva, A mulher que murmurava, A
mulher que pescava. O gibi de Yoshihiro Tatsumi, um veterano dos quadrinhos
japoneses, é uma excelente porta de entrada para uma arte séria e profunda, que
começou há muito tempo, no século XIX, quando o insigne gravador Hokusai
(1760-1849) decidiu soltar a mão e criar “de maneira inconsequente”. De seu
ato, provêm o “mangá” e o “gekigá”: o primeiro, mais ingênuo e romântico; o
segundo, mais sisudo e realista, representando dramas humanos com a relativa
complexidade psicológica que só a literatura e o cinema alcançaram.
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
A VIDA DENTRO DOS LIVROS, 1
Escrito no verso deste postal, postado de Paris para Salvador em 30 de setembro de 1982 e achado dentro de um livro num sebo da capital baiana: "Tia S., temos feito, conforme disse anteriormente, ótima viagem. Beijo [nos] meninos, abração [em] L. [e] tio J. Paris é bonita, o Rio é mais; aqui não tem mar. Dia 5 iremos para a Suíça, o V. vem de N. Y. para se encontrar conosco. Beijo, E.". Mais de trinta anos se passaram, talvez um ou outro personagem já não exista, o mundo deu voltas, mudaram-se os costumes, novos hábitos foram introduzidos, mas as palavras, vivas como quando escritas, congelaram num presente contínuo aquele momento de redação do postal, bem como as circunstâncias da viagem, a lembrança dos parentes distantes, a perspectiva de continuidade, agora em outro país, e a presença iminente do parente ou amigo, que chegará de longe para se juntar aos viajantes. E isso tudo num simples pedaço de papel cartão de 15x10cm, com carimbo do correio francês, dois selos ordinários (0,05 e 2,60 francos) e que, de propósito, pela mão desastrosa de um sujeito insensível, ou por acaso, poderia já não existir. Objetos como este guardam a memória do mundo e proporcionam aos flagrantes pretéritos da vida conservar todo o seu frescor.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
MODELO DE GENEROSIDADE
A generosidade perdeu o seu arquétipo. Morreu hoje, pela manhã, o historiador Ubiratan Castro de Araújo, diretor geral da Fundação Pedro Calmon, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFBA, e membro da Acadêmia de Letras da Bahia. Conheci o prof. Ubiratan em 2008, quando cheguei para trabalhar na FPC. Desde então, aprendi com ele muitas lições, mas a maior de todas foi a de que ainda existe, neste mundo, generosidade sem intenções de crédito e débito. Ele era generoso porque era generoso, e um humanista. Um ótimo exemplo aconteceu em setembro, não por acaso o meu último encontro com ele. Eu estava em minha sala, trabalhando, e recebi o recado de que ele queria falar comigo. Subi, fui recebido em sua sala, ele me cumprimentou, alegre e empolgado como sempre, e foi logo perguntando como estava a edição do livro O automóvel, conto de Herberto Sales que a FPC e a editora Casarão do Verbo publicaram em dezembro, na coleção Estante de Bolso. Falei que a digitação estava pronta, em fase de revisão, e que em breve eu montaria o original para enviar à editora, onde se daria a editoração. Depois, acrescentei que, até a impressão, todo o processo consumiria em torno de dois meses e que, sendo assim, dificilmente cumpriríamos o cronograma, para lançamento em novembro. Pacientemente, e com humildade, ele respondeu que não era preciso pressa, que aprontássemos o livro sem agitação e o lançássemos em dezembro. Foi a última vez que nos encontramos, e esta é, sem dúvida, uma cena poderosa, que revela o quanto o prof. Ubiratan era generoso e humilde. Ele não viu o lançamento de O automóvel e já não vê as cores deste mundo, mas continuará existindo para todos aqueles que com ele conviveram e que aprenderam, com sua forma cortês de lidar com as situações mais corriqueiras ou extremas, que a dimensão da sabedoria de uma pessoa tem a medida de um gesto simples, sem soberba.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
POETAS DA PSEUDOINFORMAÇÃO
A atriz preferida de meu pai era Ava Gardner.
Ele não perdia um filme da beldade americana, e isso causava em
minha mãe certo rasgo de ciúme, a ponto de ela sempre se referir à
moça num inconfundível tom de desprezo. Um amigo, apreciador de
filmes antigos, sente-se muito mais feliz se a película vier
encabeçada pela saudosa Rita Hayworth. Também tenho lá minhas
preferências, mas procuro não destacar a beleza física do talento
de representar, que, no fundo, é muito mais importante. Mas a
verdade é que esta inclinação, ou fraqueza, que muitas pessoas têm
para se deter diante de um rosto bonito leva-as, às vezes, a
incorrer num certo mau hábito, bem comum em nosso tempo: a vontade
de ser a todo custo o que dificilmente se pode alcançar, que Machado
de Assis tão bem ilustrou em Um homem célebre.
Semanas atrás, ao mexer num monte de livros
que recebi de autores pouco considerados, achei um volume de poemas
dedicados a mulheres famosas, embora não especificamente por sua
beleza. Em meio a fotos e breves textos biográficos, lá estavam
alguns dos poemas mais horrendos que já li. E pior: a foto de uma
das mulheres, a atriz Maria Schneider (1952-2011), não correspondia
à mesma, era de outra pessoa; de uma homônima cantora de jazz, na
verdade. Como conheço a atriz razoavelmente bem, por todos os seus
filmes a que assisti, e guardando ela ainda certa popularidade por
causa do polêmico filme de Bernardo Bertolucci, em que contracena
com Marlon Brando, O último tango em Paris (1972), aquele
erro grosseiro me chocou. E, com meus botões, me perguntei como
seria possível que um poeta, por menor que fosse, tivesse cometido
tamanho disparate: escrito um poema exaltando uma atriz que ele mal
conhecia, tanto que lhe atribui uma foto que não é dela. A resposta
é simples: o mau hábito de se querer ser o que não se é, que,
mesclado às facilidades da internet (a fonte de pesquisa do autor
foi o famigerado Wikipédia), eleva o sujeito a uma altura que lhe é
indevida.
No entanto, muito mais que isso, nosso poeta
carece de senso crítico, o que, diga-se de passagem, só se obtém
com sólida educação formal e leitura. Se, numa sociedade, ambas
fracassam (não há nem educação formal de alta qualidade, nem
leitura, porque, grosso modo, a educação atual não educa o sujeito
para ler), os poetas acabam por se tornar pseudopoetas, acríticos,
vaidosos e entontecidos pelas possibilidades que a tecnologia oferece
e nas quais, não raramente, não se deve confiar. Um poeta, para ser
grande e ecoar, precisa, antes de tudo, de talento e de uma robusta
formação educacional e intelectual, de modo que, sem percalços,
angarie credibilidade e, por fim, devoção. Em duas palavras: Castro
Alves.
Publicado originalmente no Correio da Bahia, 29/12/2012.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
VÁ E VEJA, 19: PRIMEIRO AMOR
As histórias de amor existem
desde o princípio do mundo. Representá-las na literatura ou no cinema ―
quaisquer que sejam ― implica que se invista na forma. O segredo, portanto,
para se alcançar êxito artístico, é trabalhar a linguagem, a estrutura, o tom, ritmo,
textura, cor. É com estes atributos que a cineasta Mia Hansen-Love dirigiu um
dos melhores filmes franceses deste começo de século, Adeus, primeiro amor, que, na verdade, deveria ser traduzido em
português por Amor jovem ou, mais
literalmente, Um amor de juventude. O
idílio ― trivial, diga-se de passagem ― envolve uma garota de quinze anos,
Camille, e seu namorado, Sullivan, alguns anos mais velho. De espírito
aventureiro, ele quer viajar para a América do Sul, viver outras histórias, sofrer
peripécias e ganhar experiência. Ela, por sua vez, mais sensata e menos
sonhadora, deseja apenas amá-lo, chama-o de “meu Romeu” e afirma, sem
hesitação, que o rapaz é o amor de sua vida, o que deixa sua mãe perplexa. Mas,
de fato, quem mais pode dizer quem é o amor de sua vida senão aquele que ama?
Obviamente que, ainda no primeiro terço do filme, eles se separam, e a garota
sofre, à espera de seu Romeu, de quem recebe cartas periódicas, até que também
estas cessam, silenciando-o. Demonstrando profundo conhecimento do cinema
francês desde a Nouvelle Vague, especialmente de Rohmer, Truffaut, Chabrol e
Blier, e exercitando de forma natural as influências e seu próprio estilo, a
diretora transforma o périplo amoroso de Camille num tour de force, ao qual se acrescenta todo um repertório de recursos
estéticos que fazem de seu sofrimento ― e do filme! ― um deleite para os olhos
e o espírito. As estações meteorológicas tornam-se as estações da juventude e
da vida, as cores de seu estado de ânimo migram para a paisagem e desta para a
sua alma, campo e cidade se alternam com suas cores e seus respiros, o choro e a melancolia
dão lugar ao mutismo e à impertinência de mudar, superar-se a qualquer custo, e
da contenção existencial de início chega-se à expansão. Com o retorno de
Sullivan, uma nova fase começa, até o desfecho, metafórico, simbólico,
oriental: a vida é como um rio. O amor, sobretudo o amor de juventude, é rito
de passagem, uma espécie de organizador da vida. Infelizes os que não passam
por ele; bem-aventurados os que o superam.
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
É NATAL!
VERSOS DE NATAL
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!
Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Ícone da poesia de língua portuguesa
no século XX, ao lado de Drummond, Pessoa, Quintana e Cecília Meireles,
Bandeira escreveu este poema de Natal em 1939 e o enfeixou com outros no livro Lira dos cinquent’anos, inserido na
primeira edição do volume Poesias
completas (1940).
Foto: Andréia Gallo.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
ALIEN MUSICAL
Para os fãs de Woody
Allen, de cinema e da boa música em geral, uma ótima novidade made in França: CD duplo com os temas musicais de
alguns dos melhores filmes do cineasta e ator americano, de Manhattan (1979) a
Meia-noite em Paris (2011). Nesta coletânea, tem-se a noção
exata de que Woddy Allen é um artista completo e de gosto
apuradíssimo. Se lhe sobra completo domínio da narrativa, tanto a
literária quanto a cinematográfica, não menos talentoso ele é
quando se trata de ouvir bem e selecionar, com precisão, a música
que vai compor uma cena ou, não raro, enriquecê-la. Os dois discos
são fantásticos, mas, como sou um apreciador incondicional de A
era do rádio (1987), me deliciei especialmente ao ouvir quatro
dos temas que embalam as historietas deste filme, de Glenn Miller a
Carmen Miranda, que foi interpretada pela atriz brasileira Denise Dumont. No entanto, todas as músicas nos transportam para o âmbito do filme ou para a época em que foram compostas ou gravadas. São saborosas cápsulas de tempo e vidas passadas que ingerimos com renovado prazer, a cada vez que as ouvimos. No atual panorama da música baiana, e talvez
brasileira, com tanto lixo vingando nas rádios e na tevê, estes
dois discos soam como um alien musical. E talvez sejam!
terça-feira, 6 de novembro de 2012
LINDAS CAPAS, 5: DIANA KRALL
Depois do advento da internet, que favoreceu a pirataria, o CD virou artigo de luxo ou simples objeto de colecionador. Consequentemente, as capas passaram a prescindir de refinamento estético e apuro gráfico. Tornaram-se feias, descuidadas, burocráticas, com fotos anódinas ou desenhos irrelevantes, que não despertam nenhum interesse. O maior exemplo é o mais recente CD de Céu, em cuja capa a cantora surge deformada, como um monstro de outro planeta. A grande maioria dos CDs não escapa a esta condição ou, quando o fazem, não vão além de capas piegas, com design de telenovela. Neste sentido, a capa do novo CD de Diana Krall causa um sobressalto e faz da estrela canadense a "pin-up do ano". Depois de se firmar como excelente cantora, pianista e compositora, a moça revela toda a sua sensualidade e beleza numa foto que remonta aos ambientes dos bordéis de luxo parisienses do século XIX, como o representado no belo filme L'apollonide. E não é só a capa: o disco é maravilhoso! Repertório, melodias, arranjos, letras, interpretações. Sempre a mesma e outra, Diana Krall não cessa de emitir luz própria. E audácia! Como a desta linda capa.
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
REALIDADES EXPANDIDAS
Os Portais estão de volta! Agora num único volume e com distribuição comercial, pela Terracota. 21 autores e seus universos de ficção científica. Lançamento em 24 de novembro de 2012, Biblioteca Viriato Correia, Vila Mariana, SP, a partir das 15:30. Entre os autores, Braulio Tavares, Fábio Fernandes, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo. Clique no cartaz para ler melhor.
quarta-feira, 17 de outubro de 2012
24 HORAS DE HQ!
E MAIS: promoção especial em quase todos os itens da RV Quadrinhos. Descontos de até 50% em
diversas HQs, somente no sábado, dia 20 de outubro, até meia-noite!
Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho, Salvador, BA. (71) 3347-4929. rvculturaearte@gmail.com
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
LEITURAS, 18: FERNANDO SABINO
O outro gume da faca integra o volume de novelas de Fernando Sabino intitulado A faca de dois gumes, publicado em 1985 e que, rapidamente, em dez anos apenas, atingiu a 11ª edição, tendo sido reeditado, também, pelo extinto Círculo do Livro, em 1993. A popularidade do conjunto pode, grosso modo, ser atribuída a esta novela, uma das mais lidas do autor e que, além do mais, foi adaptada para o cinema com o título Faca de dois gumes. Muito embora compreenda um relato policial, sem muita tradição no Brasil, cujos leitores, quando se dedicam a ler obras do gênero, dão preferência aos autores estrangeiros ― alguns deles fortemente amparados pelo marketing editorial, tanto a novela quanto o livro foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público. A trama, o autor arrancou-a do romance O assassino, de Georges Simenon, e, de forma a confessá-lo e, ao mesmo tempo, homenagear aquele que é, nos meios literários, o mais refinado dos autores do gênero policial, Fernando Sabino cria, ao fim do capítulo 5, o seguinte acróstico: Se Isso Me Era Necessário Ou Não. Ler mais.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
99 FILMES CLÁSSICOS PARA APRESSADINHOS
Depois de 90 livros clássicos para apressadinhos, o quadrinista sueco Henrik Lange oferece a seus leitores, e logicamente aos cinéfilos, 99 filmes clássicos para apressadinhos (Record, 2011), escrito e desenhado em parceria com Thomas Wengelewski. O gibi desfila humor e ironia, ao resumir a trama de alguns dos melhores filmes de todos os tempos e outros de (in)questionável valor a quatro quadrinhos gráficos em preto e branco. Alguns resumos são verdadeiras joias do humor, como Cidadão Kane, A era do rádio e Coração selvagem, respectivamente de Orson Welles, Woody Allen e David Lynch. Mas os autores não poupam os filmes populares, como Casablanca, Tubarão e Blade runner, nem ícones autorais do porte de O sétimo selo (de Bergman) e As férias do Sr. Hulot (de Jacques Tati). Para quem gosta de cinema, assistiu aos filmes e os admira, o livro é uma grande brincadeira, por sugerir que qualquer produção cinematográfica, séria ou cômica, pode ser reduzida a uma piada de mesa de bar. Para quem só vai ao cinema eventualmente e se contenta com sinopses, eis a chance de ampliar sua cinemateca pessoal, pois, depois da leitura, pode sair por aí, dizendo de Cidadão Kane: "Sim, já vi este filme, história de um cara bilionário, que possuía tudo e dominava a todos, mas que apenas desejava ter um trenó".
terça-feira, 2 de outubro de 2012
FAHRENHEIT 451 BRASIL
Querem proibir Negrinha, de Monteiro Lobato; o conto e o livro, sob alegação de racismo. Sabe, proíbam todo o Monteiro Lobato. Depois proíbam Machado de Assis, Drummond, Bandeira, Zé Lins, Cecília, Clarice, Quintana, Nelson Rodrigues, Eça, Pessoa, Camões, Castro Alves, Oswald, João Antônio e até Dyonélio Machado, que ousou sujar o leite. Para cada um, alguém há de achar uma alegação ou um motivo. Proíbam a leitura, o livro e especialmente a Literatura. Proíbam-nos de ler e pensar. Depois proíbam-nos de nos educar. Afinal de contas, há a tevê (com "n" canais cheios de boas intenções), a internet (também cheia de boas intenções, e sem proibições!) e filmes bem educativos, como E aí, comeu? Somos um país de elevado senso crítico... E eu que pensava que senso crítico era saber escolher, e liberdade, poder escolher! Mas não: senso crítico é patrulhar; e liberdade, proibir.
terça-feira, 25 de setembro de 2012
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
COINCIDÊNCIA OU ACASO
Parei hoje para escrever uma breve biografia de Herberto Sales, destinada a compor a edição de bolso de O automóvel, um de seus melhores contos, e, para meu espanto, descobri que ele nasceu em 21 de setembro de 1917, há exatos 95 anos...
Assinar:
Postagens (Atom)























