"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 26 de janeiro de 2013

A VIDA DENTRO DOS LIVROS, 2

Carmem, de Prosper Mérimée, é uma das minhas novelas favoritas. A cada dois ou três anos a releio. Depois assisto à sua mais notória adaptação para o cinema, com Rita Hayworth e Glenn Ford, e direção de Charles Vidor. Da última vez que a reli, me lembrei de outro livro: Carmen ou o desencontro dos sexos nos anos 80, do alemão Wolf Wondratschek, um longo poema narrativo com ironias assim: "A gente nem tem tempo de berrar com a própria boca". Bem, fui à estante pegá-lo. Para o meu espanto, não o achei na seção de literatura de língua alemã. Ou eu o pegara e pusera em outro nicho ou (o que eu temia fosse a mais pura verdade) levara-o ao sebo para, com outros, trocá-lo por algum livro de que necessitara em algum momento. Já fiz muito isso, especialmente na época da graduação e do mestrado. Decidi ir direto ao sebo e, sem nenhuma dificuldade, lá o achei, o mesmo exemplar. Realmente, eu o envolvera numa troca. Mas havia ainda uma outra surpresa, redentora: na terceira capa, eu havia rabiscado a lápis um poema, do qual já não me lembrava e nem tinha cópia. Um poema perdido recuperado por um ato de releitura. Depois deste episódio, não há como não acreditar que, de fato, reler um livro constitui sempre uma nova descoberta: do texto, do autor e de outras coisas.

domingo, 20 de janeiro de 2013

LEITURAS, 21: PRÉ-TCHÉKHOV


Um mês no campo (1850) é a mais importante peça teatral de Ivan Turgueniev (1818-1883) e uma obra-prima do gênero, na Rússia antes do aparecimento das revolucionárias peças de Anton Tchékhov (1860-1904). É consenso se afirmar que esta obra de Turgueniev influenciou Tchékhov, como retrato da burguesia campesina, frequentemente representada por ele como reduto de tédio, desespero e melancolia. Estão lá os tipos indefectíveis de sua dramaturgia: o médico, o rico proprietário rural, sua esposa entediada, os preceptores, os agregados, visitantes, vizinhos e alguém especial, motor da ação, que chega para romper o equilíbrio e desfazer a harmonia. Tio Vânia não foge a este padrão e se tornou, talvez, a mais cultuada peça de Tchékhov. A única edição no Brasil de Um mês no campo coube à editora Hucitec, em 1990, com recursos da Secretaria de Cultura de Estado de São Paulo, em tradução de Fernando Peixoto e José Celso Martinez. A edição é bonita, bem cuidada, com mancha gráfica confortável e fontes graúdas que facilitam a leitura, mas apresenta alguns erros grosseiros de revisão. Mesmo assim, é leitura obrigatória para os apreciadores da literatura russa.

Publicado originalmente na Verbo 21, na coluna Crítica Rasteira, em dezembro de 2012.

domingo, 13 de janeiro de 2013

LEITURAS, 20: BARATAS E MULHERES


O Brasil é um país de extremos em quase tudo. E esta assertiva, infelizmente, aplica-se também à literatura, que, de um lado, tem Graciliano e Drummond e, do outro, os intragáveis autores de moda e momento. O que vem pelo meio pouco interessa, porque nem é linguagem em modo radical, nem diversão em estado bruto. É por isso que a literatura brasileira talvez seja a única, no mundo, cujo cânone encolhe a cada ano, em lugar de aumentar. Posto isto, eu diria que a novela Só as mulheres e as baratas sobreviverão, de Claudia Tajes, é, ao mesmo tempo, literatura, porque reflexiva e irônica, e entretenimento, por constituir uma história original, despretensiosa e cheia de humor. O argumento é simples: num sábado, uma mulher, prestes a sair para um encontro, abre o armário para apanhar seu melhor vestido e, de súbito, depara-se com uma enorme barata. Apavorada, fecha o armário e, só de toalha, não faz mais coisa alguma. Fica ali, impotente, frágil, incapaz de reagir diante da presença daquele inseto hediondo. Só lhe resta conversar com a barata, contar-lhe toda a sua história, enquanto tenta, pelo telefone, chamar alguém que lhe faça o favor de varrer de sua noite de sábado aquele obstáculo. O ápice da narrativa se dá quando a protagonista telefona para a sua empregada, e esta, sem nenhuma afetação, com a maior naturalidade, recomenda-lhe a leitura de Clarice Lispector... Depois dizem que o povo não lê, nem gosta de ler. Será? Ou isso é desculpa de político indolente? A reflexão final da narradora, ao comparar mulheres e baratas, inspirada na ideia de que estas sobrevivem a tudo, é: “Eu não me espantaria se, depois do estouro da bomba, mulheres viessem em hordas de todas as partes para ajeitar a bagunça”. Nem eu.

Publicado originalmente na Verbo 21, na coluna Crítica Rasteira, em dezembro de 2012.

domingo, 6 de janeiro de 2013

LEITURAS, 19: MULHERES


O livro As baianas (Casarão do Verbo, 2012) surgiu de uma conversa de Elieser Cesar comigo, durante a Bienal do Livro da Bahia de 2009, sobre o livro As cariocas, de Sérgio Porto. Portanto, algum tempo antes do seriado exibido pela Rede Globo e que acabou se ramificando em outros, de qualidade duvidosa. Bem, o projeto vingou, conseguiu editor antes mesmo de ser gerado e, escolhidos os seis autores, os contos foram escritos e, já em livro, experimentaram um relativo êxito doméstico. O que não sabíamos era que, em 2006, um artista japonês publicara em seu país a obra Mulheres (Zarabatana Books, 2007), igualmente seis narrativas cujas protagonistas são mulheres. Ou, se preferirmos, seis estudos gráficos sobre a essência do feminino num Japão pós-guerra, precisamente na década de 1960, quando a reconstrução do país era evidente, e a modernização, uma consequência inevitável, como a liberdade sexual. É neste contexto que o gekigá (“geki”, drama, e “gá”, ilustrado) de Yoshihiro Tatsumi se desenvolve e coloca as mulheres em luta consigo mesmas e com o mundo à sua volta. As seis narrativas gráficas, simples e com exatas pinceladas de realismo (o autor não se perde em excessos), aproximam-se muito do que os autores de As baianas se propuseram a escrever, inspirados em Sérgio Porto. Se na intitulação dos contos, optamos por seguir o modelo sintético do escritor carioca (A guerreira da Lapinha, A santinha da Ribeira, A putinha da Vitória etc.), o quadrinista japonês preferiu, no geral, a forma analítica e assim nomeou seus contos: A mulher determinada, A mulher que namorava, A mulher que cuidava de um homem, A mulher lasciva, A mulher que murmurava, A mulher que pescava. O gibi de Yoshihiro Tatsumi, um veterano dos quadrinhos japoneses, é uma excelente porta de entrada para uma arte séria e profunda, que começou há muito tempo, no século XIX, quando o insigne gravador Hokusai (1760-1849) decidiu soltar a mão e criar “de maneira inconsequente”. De seu ato, provêm o “mangá” e o “gekigá”: o primeiro, mais ingênuo e romântico; o segundo, mais sisudo e realista, representando dramas humanos com a relativa complexidade psicológica que só a literatura e o cinema alcançaram.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A VIDA DENTRO DOS LIVROS, 1

Escrito no verso deste postal, postado de Paris para Salvador em 30 de setembro de 1982 e achado dentro de um livro num sebo da capital baiana: "Tia S., temos feito, conforme disse anteriormente, ótima viagem. Beijo [nos] meninos, abração [em] L. [e] tio J. Paris é  bonita, o Rio é mais; aqui não tem mar. Dia 5 iremos para a Suíça, o V. vem de N. Y. para se encontrar conosco. Beijo, E.". Mais de trinta anos se passaram, talvez um ou outro personagem já não exista, o mundo deu voltas, mudaram-se os costumes, novos hábitos foram introduzidos, mas as palavras, vivas como quando escritas, congelaram num presente contínuo aquele momento de redação do postal, bem como as circunstâncias da viagem, a lembrança dos parentes distantes, a perspectiva de continuidade, agora em outro país, e a presença iminente do parente ou amigo, que chegará de longe para se juntar aos viajantes. E isso tudo num simples pedaço de papel cartão de 15x10cm, com carimbo do correio francês, dois selos ordinários (0,05 e 2,60 francos) e que, de propósito, pela mão desastrosa de um sujeito insensível, ou por acaso, poderia já não existir. Objetos como este guardam a memória do mundo e proporcionam aos flagrantes pretéritos da vida conservar todo o seu frescor.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MODELO DE GENEROSIDADE

A generosidade perdeu o seu arquétipo. Morreu hoje, pela manhã, o historiador Ubiratan Castro de Araújo, diretor geral da Fundação Pedro Calmon, professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da UFBA, e membro da Acadêmia de Letras da Bahia. Conheci o prof. Ubiratan em 2008, quando cheguei para trabalhar na FPC. Desde então, aprendi com ele muitas lições, mas a maior de todas foi a de que ainda existe, neste mundo, generosidade sem intenções de crédito e débito. Ele era generoso porque era generoso, e um humanista. Um ótimo exemplo aconteceu em setembro, não por acaso o meu último encontro com ele. Eu estava em minha sala, trabalhando, e recebi o recado de que ele queria falar comigo. Subi, fui recebido em sua sala, ele me cumprimentou, alegre e empolgado como sempre, e foi logo perguntando como estava a edição do livro O automóvel, conto de Herberto Sales que a FPC e a editora Casarão do Verbo publicaram em dezembro, na coleção Estante de Bolso. Falei que a digitação estava pronta, em fase de revisão, e que em breve eu montaria o original para enviar à editora, onde se daria a editoração. Depois, acrescentei que, até a impressão, todo o processo consumiria em torno de dois meses e que, sendo assim, dificilmente cumpriríamos o cronograma, para lançamento em novembro. Pacientemente, e com humildade, ele respondeu que não era preciso pressa, que aprontássemos o livro sem agitação e o lançássemos em dezembro. Foi a última vez que nos encontramos, e esta é, sem dúvida, uma cena poderosa, que revela o quanto o prof. Ubiratan era generoso e humilde. Ele não viu o lançamento de O automóvel e já não vê as cores deste mundo, mas continuará existindo para todos aqueles que com ele conviveram e que aprenderam, com sua forma cortês de lidar com as situações mais corriqueiras ou extremas, que a dimensão da sabedoria de uma pessoa tem a medida de um gesto simples, sem soberba.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

POETAS DA PSEUDOINFORMAÇÃO

A atriz preferida de meu pai era Ava Gardner. Ele não perdia um filme da beldade americana, e isso causava em minha mãe certo rasgo de ciúme, a ponto de ela sempre se referir à moça num inconfundível tom de desprezo. Um amigo, apreciador de filmes antigos, sente-se muito mais feliz se a película vier encabeçada pela saudosa Rita Hayworth. Também tenho lá minhas preferências, mas procuro não destacar a beleza física do talento de representar, que, no fundo, é muito mais importante. Mas a verdade é que esta inclinação, ou fraqueza, que muitas pessoas têm para se deter diante de um rosto bonito leva-as, às vezes, a incorrer num certo mau hábito, bem comum em nosso tempo: a vontade de ser a todo custo o que dificilmente se pode alcançar, que Machado de Assis tão bem ilustrou em Um homem célebre.
Semanas atrás, ao mexer num monte de livros que recebi de autores pouco considerados, achei um volume de poemas dedicados a mulheres famosas, embora não especificamente por sua beleza. Em meio a fotos e breves textos biográficos, lá estavam alguns dos poemas mais horrendos que já li. E pior: a foto de uma das mulheres, a atriz Maria Schneider (1952-2011), não correspondia à mesma, era de outra pessoa; de uma homônima cantora de jazz, na verdade. Como conheço a atriz razoavelmente bem, por todos os seus filmes a que assisti, e guardando ela ainda certa popularidade por causa do polêmico filme de Bernardo Bertolucci, em que contracena com Marlon Brando, O último tango em Paris (1972), aquele erro grosseiro me chocou. E, com meus botões, me perguntei como seria possível que um poeta, por menor que fosse, tivesse cometido tamanho disparate: escrito um poema exaltando uma atriz que ele mal conhecia, tanto que lhe atribui uma foto que não é dela. A resposta é simples: o mau hábito de se querer ser o que não se é, que, mesclado às facilidades da internet (a fonte de pesquisa do autor foi o famigerado Wikipédia), eleva o sujeito a uma altura que lhe é indevida.
No entanto, muito mais que isso, nosso poeta carece de senso crítico, o que, diga-se de passagem, só se obtém com sólida educação formal e leitura. Se, numa sociedade, ambas fracassam (não há nem educação formal de alta qualidade, nem leitura, porque, grosso modo, a educação atual não educa o sujeito para ler), os poetas acabam por se tornar pseudopoetas, acríticos, vaidosos e entontecidos pelas possibilidades que a tecnologia oferece e nas quais, não raramente, não se deve confiar. Um poeta, para ser grande e ecoar, precisa, antes de tudo, de talento e de uma robusta formação educacional e intelectual, de modo que, sem percalços, angarie credibilidade e, por fim, devoção. Em duas palavras: Castro Alves.

Publicado originalmente no Correio da Bahia, 29/12/2012.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

VÁ E VEJA, 19: PRIMEIRO AMOR


As histórias de amor existem desde o princípio do mundo. Representá-las na literatura ou no cinema ― quaisquer que sejam ― implica que se invista na forma. O segredo, portanto, para se alcançar êxito artístico, é trabalhar a linguagem, a estrutura, o tom, ritmo, textura, cor. É com estes atributos que a cineasta Mia Hansen-Love dirigiu um dos melhores filmes franceses deste começo de século, Adeus, primeiro amor, que, na verdade, deveria ser traduzido em português por Amor jovem ou, mais literalmente, Um amor de juventude. O idílio ― trivial, diga-se de passagem ― envolve uma garota de quinze anos, Camille, e seu namorado, Sullivan, alguns anos mais velho. De espírito aventureiro, ele quer viajar para a América do Sul, viver outras histórias, sofrer peripécias e ganhar experiência. Ela, por sua vez, mais sensata e menos sonhadora, deseja apenas amá-lo, chama-o de “meu Romeu” e afirma, sem hesitação, que o rapaz é o amor de sua vida, o que deixa sua mãe perplexa. Mas, de fato, quem mais pode dizer quem é o amor de sua vida senão aquele que ama? Obviamente que, ainda no primeiro terço do filme, eles se separam, e a garota sofre, à espera de seu Romeu, de quem recebe cartas periódicas, até que também estas cessam, silenciando-o. Demonstrando profundo conhecimento do cinema francês desde a Nouvelle Vague, especialmente de Rohmer, Truffaut, Chabrol e Blier, e exercitando de forma natural as influências e seu próprio estilo, a diretora transforma o périplo amoroso de Camille num tour de force, ao qual se acrescenta todo um repertório de recursos estéticos que fazem de seu sofrimento ― e do filme! ― um deleite para os olhos e o espírito. As estações meteorológicas tornam-se as estações da juventude e da vida, as cores de seu estado de ânimo migram para a paisagem e desta para a sua alma, campo e cidade se alternam com suas cores e seus respiros, o choro e a melancolia dão lugar ao mutismo e à impertinência de mudar, superar-se a qualquer custo, e da contenção existencial de início chega-se à expansão. Com o retorno de Sullivan, uma nova fase começa, até o desfecho, metafórico, simbólico, oriental: a vida é como um rio. O amor, sobretudo o amor de juventude, é rito de passagem, uma espécie de organizador da vida. Infelizes os que não passam por ele; bem-aventurados os que o superam.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

É NATAL!


VERSOS DE NATAL

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Ícone da poesia de língua portuguesa no século XX, ao lado de Drummond, Pessoa, Quintana e Cecília Meireles, Bandeira escreveu este poema de Natal em 1939 e o enfeixou com outros no livro Lira dos cinquent’anos, inserido na primeira edição do volume Poesias completas (1940).

Foto: Andréia Gallo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

ALIEN MUSICAL


Para os fãs de Woody Allen, de cinema e da boa música em geral, uma ótima novidade made in França: CD duplo com os temas musicais de alguns dos melhores filmes do cineasta e ator americano, de Manhattan (1979) a Meia-noite em Paris (2011). Nesta coletânea, tem-se a noção exata de que Woddy Allen é um artista completo e de gosto apuradíssimo. Se lhe sobra completo domínio da narrativa, tanto a literária quanto a cinematográfica, não menos talentoso ele é quando se trata de ouvir bem e selecionar, com precisão, a música que vai compor uma cena ou, não raro, enriquecê-la. Os dois discos são fantásticos, mas, como sou um apreciador incondicional de A era do rádio (1987), me deliciei especialmente ao ouvir quatro dos temas que embalam as historietas deste filme, de Glenn Miller a Carmen Miranda, que foi interpretada pela atriz brasileira Denise Dumont. No entanto, todas as músicas nos transportam para o âmbito do filme ou para a época em que foram compostas ou gravadas. São saborosas cápsulas de tempo e vidas passadas que ingerimos com renovado prazer, a cada vez que as ouvimos. No atual panorama da música baiana, e talvez brasileira, com tanto lixo vingando nas rádios e na tevê, estes dois discos soam como um alien musical. E talvez sejam!

terça-feira, 6 de novembro de 2012

LINDAS CAPAS, 5: DIANA KRALL

Depois do advento da internet, que favoreceu a pirataria, o CD virou artigo de luxo ou simples objeto de colecionador. Consequentemente, as capas passaram a prescindir de refinamento estético e apuro gráfico. Tornaram-se feias, descuidadas, burocráticas, com fotos anódinas ou desenhos irrelevantes, que não despertam nenhum interesse. O maior exemplo é o mais recente CD de Céu, em cuja capa a cantora surge deformada, como um monstro de outro planeta. A grande maioria dos CDs não escapa a esta condição ou, quando o fazem, não vão além de capas piegas, com design de telenovela. Neste sentido, a capa do novo CD de Diana Krall causa um sobressalto e faz da estrela canadense a "pin-up do ano". Depois de se firmar como excelente cantora, pianista e compositora, a moça revela toda a sua sensualidade e beleza numa foto que remonta aos ambientes dos bordéis de luxo parisienses do século XIX, como o representado no belo filme L'apollonide. E não é só a capa: o disco é maravilhoso! Repertório, melodias, arranjos, letras, interpretações. Sempre a mesma e outra, Diana Krall não cessa de emitir luz própria. E audácia! Como a desta linda capa. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

REALIDADES EXPANDIDAS

Os Portais estão de volta! Agora num único volume e com distribuição comercial, pela Terracota. 21 autores e seus universos de ficção científica. Lançamento em 24 de novembro de 2012, Biblioteca Viriato Correia, Vila Mariana, SP, a partir das 15:30. Entre os autores, Braulio Tavares, Fábio Fernandes, Luiz Bras e Roberto de Sousa Causo. Clique no cartaz para ler melhor.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

24 HORAS DE HQ!

E MAIS: promoção especial em quase todos os itens da RV Quadrinhos. Descontos de até 50% em diversas HQs, somente no sábado, dia 20 de outubro, até meia-noite!

Rua Barro Vermelho, 32, Rio Vermelho, Salvador, BA. (71) 3347-4929. rvculturaearte@gmail.com

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

LEITURAS, 18: FERNANDO SABINO

O outro gume da faca integra o volume de novelas de Fernando Sabino intitulado A faca de dois gumes, publicado em 1985 e que, rapidamente, em dez anos apenas, atingiu a 11ª edição, tendo sido reeditado, também, pelo extinto Círculo do Livro, em 1993. A popularidade do conjunto pode, grosso modo, ser atribuída a esta novela, uma das mais lidas do autor e que, além do mais, foi adaptada para o cinema com o título Faca de dois gumes. Muito embora compreenda um relato policial, sem muita tradição no Brasil, cujos leitores, quando se dedicam a ler obras do gênero, dão preferência aos autores estrangeiros ― alguns deles fortemente amparados pelo marketing editorial, tanto a novela quanto o livro foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público. A trama, o autor arrancou-a do romance O assassino, de Georges Simenon, e, de forma a confessá-lo e, ao mesmo tempo, homenagear aquele que é, nos meios literários, o mais refinado dos autores do gênero policial, Fernando Sabino cria, ao fim do capítulo 5, o seguinte acróstico: SIsso MEra Necessário ONão. Ler mais.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

99 FILMES CLÁSSICOS PARA APRESSADINHOS

Depois de 90 livros clássicos para apressadinhos, o quadrinista sueco Henrik Lange oferece a seus leitores, e logicamente aos cinéfilos, 99 filmes clássicos para apressadinhos (Record, 2011), escrito e desenhado em parceria com Thomas Wengelewski. O gibi desfila humor e ironia, ao resumir a trama de alguns dos melhores filmes de todos os tempos e outros de (in)questionável valor a quatro quadrinhos gráficos em preto e branco. Alguns resumos são verdadeiras joias do humor, como Cidadão Kane, A era do rádio e Coração selvagem, respectivamente de Orson Welles, Woody Allen e David Lynch. Mas os autores não poupam os filmes populares, como Casablanca, Tubarão e Blade runner, nem ícones autorais do porte de O sétimo selo (de Bergman) e As férias do Sr. Hulot (de Jacques Tati). Para quem gosta de cinema, assistiu aos filmes e os admira, o livro é uma grande brincadeira, por sugerir que qualquer produção cinematográfica, séria ou cômica, pode ser reduzida a uma piada de mesa de bar. Para quem só vai ao cinema eventualmente e se contenta com sinopses, eis a chance de ampliar sua cinemateca pessoal, pois, depois da leitura, pode sair por aí, dizendo de Cidadão Kane: "Sim, já vi este filme, história de um cara bilionário, que possuía tudo e dominava a todos, mas que apenas desejava ter um trenó".

terça-feira, 2 de outubro de 2012

FAHRENHEIT 451 BRASIL

Querem proibir Negrinha, de Monteiro Lobato; o conto e o livro, sob alegação de racismo. Sabe, proíbam todo o Monteiro Lobato. Depois proíbam Machado de Assis, Drummond, Bandeira, Zé Lins, Cecília, Clarice, Quintana, Nelson Rodrigues, Eça, Pessoa, Camões, Castro Alves, Oswald, João Antônio e até Dyonélio Machado, que ousou sujar o leite. Para cada um, alguém há de achar uma alegação ou um motivo. Proíbam a leitura, o livro e especialmente a Literatura. Proíbam-nos de ler e pensar. Depois proíbam-nos de nos educar. Afinal de contas, há a tevê (com "n" canais cheios de boas intenções), a internet (também cheia de boas intenções, e sem proibições!) e filmes bem educativos, como E aí, comeu? Somos um país de elevado senso crítico... E eu que pensava que senso crítico era saber escolher, e liberdade, poder escolher! Mas não: senso crítico é patrulhar; e liberdade, proibir.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

COINCIDÊNCIA OU ACASO

Parei hoje para escrever uma breve biografia de Herberto Sales, destinada a compor a edição de bolso de O automóvel, um de seus melhores contos, e, para meu espanto, descobri que ele nasceu em 21 de setembro de 1917, há exatos 95 anos...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

CONTOS DE CRIME

"Antes de expressar seu preconceito, o leitor deve criar seu conceito, e este livro apresenta uma oportunidade para que ele, despido de grilhões e correntes, julgue por si mesmo até que ponto a leitura de relatos policiais entretém, deleita e faz pensar." Ler mais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

TRECHO DE DIÁRIO

Mais um dia de sol... um típico dia de sol em Salvador, claro e ameno... Se viva, minha mãe completaria hoje oitenta anos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O ROMANCE

Há centenas e, talvez, milhares de definições do que seja o romance: gênero informe, massa de histórias com um tênue fio condutor, distensão no tempo e no espaço, multidão de personagens sem nada o que fazer e que o autor manipula ao seu bel-prazer, "o todo possível de uma narrativa" (esta é minha), o mundo de um deus, o autor (Faulkner). Todavia, uma das mais espirituosas e precisas com que já me deparei é a que se segue, arrancada de um romance de Stephen King e atribuída àquele que muitos consideram o fundador do romance norte-americano, Mark Twain, um humorista nato. Mais ou menos lá no primeiro terço de 'Salem's Lot, um calhamaço de quase seiscentas páginas, lê-se: "Mark Twain disse que um romance era uma confissão de todos os crimes por um homem que nunca comenteu nenhum."

sábado, 11 de agosto de 2012

SOBRE OS ESCRITORES, 1

"Sempre havia homens à procura de empregos na América, sempre essa oferta de corpos exploráveis. E eu queria ser um escritor. Quase todos eram escritores. Nem todos acreditavam que podiam ser dentistas ou mecânicos de automóvel, mas todos tinham a impressão de que podiam ser escritores. Daqueles cinquenta caras ali na sala, provavelmente quinze consideravam-se escritores. Quase todos usavam palavras e sabiam escrevê-las, isto é, quase todos podiam ser escritores. Mas a grande maioria dos homens, afortunadamente, não é composta de escritores, ou mesmo de taxistas, e alguns homens, muitos homens, infelizmente, não são nada." (CHARLES BUKOWSKI, Factótum. Porto Alegre: L&PM, 2007.)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

LINDAS CAPAS, 4: O OUTRO HAGAR

Ele é gordo, rude e mal-educado. Inquieto e viril, vive de combater outros povos para fazer pilhagens, que são o sustento de sua família. O filho, Hamlet, não faz outra coisa senão ler, o que envergonha muitíssimo o pai. Por outro lado, a filha, embora eternamente à espera de um bom marido, também sonha em ser uma guerreira, combater e pilhar, como o pai. Helga, a esposa, é a guerreira do lar e trata Hagar como ele próprio combate seus inimigos, impiedosamente. Ou seja, é ela quem manda na casa, quer ele queira quer não. Não raras vezes, quando ele retorna de suas violentas escaramuças, e mesmo antes de ver o presente que ele lhe trouxe, Helga ordena: "Vá pôr o lixo pra fora!" É como releitura do personagem e contraponto ao contexto tão rígido e imutável de suas aventuras que a capa desta edição se sobressai, revelando um outro Hagar: inocente, dócil e frágil, quase um menino. Nesta capa, de refinada composição, o personagem criado por Dik Browne apresenta-se antagônico a si mesmo e reafirma, com humor, que "os brutos também amam".

terça-feira, 3 de julho de 2012

AS BAIANAS, DE NOVO!

Em lançamento coletivo, de novo As baianas. Dia 6 de julho, na Livraria Saraiva do Shop. Barrra, das 18 às 22 horas. Quem não pôde ir ao lançamento em fevereiro, porque a polícia estava de braços cruzados e os bandidos trabalhando intensamente, tem agora a segunda chance. Presentes, a Bonnie, a Guerreira, a Noivinha, a Piriguete, a Putinha e a Santinha, cada uma residente num bairro importante de Salvador. Literárias, livres dos estereótipos turísticos, arrojadas e sedutoras, estas Baianas chegaram para ficar e desafiar as Gabrielas, Terezas e Lívias a repensar seus conceitos.