"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

24 HORAS DE HQ!

E MAIS: promoção especial em quase todos os itens da RV Quadrinhos. Descontos de até 50% em diversas HQs, somente no sábado, dia 20 de outubro, até meia-noite!

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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

LEITURAS, 18: FERNANDO SABINO

O outro gume da faca integra o volume de novelas de Fernando Sabino intitulado A faca de dois gumes, publicado em 1985 e que, rapidamente, em dez anos apenas, atingiu a 11ª edição, tendo sido reeditado, também, pelo extinto Círculo do Livro, em 1993. A popularidade do conjunto pode, grosso modo, ser atribuída a esta novela, uma das mais lidas do autor e que, além do mais, foi adaptada para o cinema com o título Faca de dois gumes. Muito embora compreenda um relato policial, sem muita tradição no Brasil, cujos leitores, quando se dedicam a ler obras do gênero, dão preferência aos autores estrangeiros ― alguns deles fortemente amparados pelo marketing editorial, tanto a novela quanto o livro foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público. A trama, o autor arrancou-a do romance O assassino, de Georges Simenon, e, de forma a confessá-lo e, ao mesmo tempo, homenagear aquele que é, nos meios literários, o mais refinado dos autores do gênero policial, Fernando Sabino cria, ao fim do capítulo 5, o seguinte acróstico: SIsso MEra Necessário ONão. Ler mais.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

99 FILMES CLÁSSICOS PARA APRESSADINHOS

Depois de 90 livros clássicos para apressadinhos, o quadrinista sueco Henrik Lange oferece a seus leitores, e logicamente aos cinéfilos, 99 filmes clássicos para apressadinhos (Record, 2011), escrito e desenhado em parceria com Thomas Wengelewski. O gibi desfila humor e ironia, ao resumir a trama de alguns dos melhores filmes de todos os tempos e outros de (in)questionável valor a quatro quadrinhos gráficos em preto e branco. Alguns resumos são verdadeiras joias do humor, como Cidadão Kane, A era do rádio e Coração selvagem, respectivamente de Orson Welles, Woody Allen e David Lynch. Mas os autores não poupam os filmes populares, como Casablanca, Tubarão e Blade runner, nem ícones autorais do porte de O sétimo selo (de Bergman) e As férias do Sr. Hulot (de Jacques Tati). Para quem gosta de cinema, assistiu aos filmes e os admira, o livro é uma grande brincadeira, por sugerir que qualquer produção cinematográfica, séria ou cômica, pode ser reduzida a uma piada de mesa de bar. Para quem só vai ao cinema eventualmente e se contenta com sinopses, eis a chance de ampliar sua cinemateca pessoal, pois, depois da leitura, pode sair por aí, dizendo de Cidadão Kane: "Sim, já vi este filme, história de um cara bilionário, que possuía tudo e dominava a todos, mas que apenas desejava ter um trenó".

terça-feira, 2 de outubro de 2012

FAHRENHEIT 451 BRASIL

Querem proibir Negrinha, de Monteiro Lobato; o conto e o livro, sob alegação de racismo. Sabe, proíbam todo o Monteiro Lobato. Depois proíbam Machado de Assis, Drummond, Bandeira, Zé Lins, Cecília, Clarice, Quintana, Nelson Rodrigues, Eça, Pessoa, Camões, Castro Alves, Oswald, João Antônio e até Dyonélio Machado, que ousou sujar o leite. Para cada um, alguém há de achar uma alegação ou um motivo. Proíbam a leitura, o livro e especialmente a Literatura. Proíbam-nos de ler e pensar. Depois proíbam-nos de nos educar. Afinal de contas, há a tevê (com "n" canais cheios de boas intenções), a internet (também cheia de boas intenções, e sem proibições!) e filmes bem educativos, como E aí, comeu? Somos um país de elevado senso crítico... E eu que pensava que senso crítico era saber escolher, e liberdade, poder escolher! Mas não: senso crítico é patrulhar; e liberdade, proibir.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

COINCIDÊNCIA OU ACASO

Parei hoje para escrever uma breve biografia de Herberto Sales, destinada a compor a edição de bolso de O automóvel, um de seus melhores contos, e, para meu espanto, descobri que ele nasceu em 21 de setembro de 1917, há exatos 95 anos...

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

CONTOS DE CRIME

"Antes de expressar seu preconceito, o leitor deve criar seu conceito, e este livro apresenta uma oportunidade para que ele, despido de grilhões e correntes, julgue por si mesmo até que ponto a leitura de relatos policiais entretém, deleita e faz pensar." Ler mais.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

TRECHO DE DIÁRIO

Mais um dia de sol... um típico dia de sol em Salvador, claro e ameno... Se viva, minha mãe completaria hoje oitenta anos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O ROMANCE

Há centenas e, talvez, milhares de definições do que seja o romance: gênero informe, massa de histórias com um tênue fio condutor, distensão no tempo e no espaço, multidão de personagens sem nada o que fazer e que o autor manipula ao seu bel-prazer, "o todo possível de uma narrativa" (esta é minha), o mundo de um deus, o autor (Faulkner). Todavia, uma das mais espirituosas e precisas com que já me deparei é a que se segue, arrancada de um romance de Stephen King e atribuída àquele que muitos consideram o fundador do romance norte-americano, Mark Twain, um humorista nato. Mais ou menos lá no primeiro terço de 'Salem's Lot, um calhamaço de quase seiscentas páginas, lê-se: "Mark Twain disse que um romance era uma confissão de todos os crimes por um homem que nunca comenteu nenhum."

sábado, 11 de agosto de 2012

SOBRE OS ESCRITORES, 1

"Sempre havia homens à procura de empregos na América, sempre essa oferta de corpos exploráveis. E eu queria ser um escritor. Quase todos eram escritores. Nem todos acreditavam que podiam ser dentistas ou mecânicos de automóvel, mas todos tinham a impressão de que podiam ser escritores. Daqueles cinquenta caras ali na sala, provavelmente quinze consideravam-se escritores. Quase todos usavam palavras e sabiam escrevê-las, isto é, quase todos podiam ser escritores. Mas a grande maioria dos homens, afortunadamente, não é composta de escritores, ou mesmo de taxistas, e alguns homens, muitos homens, infelizmente, não são nada." (CHARLES BUKOWSKI, Factótum. Porto Alegre: L&PM, 2007.)

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

LINDAS CAPAS, 4: O OUTRO HAGAR

Ele é gordo, rude e mal-educado. Inquieto e viril, vive de combater outros povos para fazer pilhagens, que são o sustento de sua família. O filho, Hamlet, não faz outra coisa senão ler, o que envergonha muitíssimo o pai. Por outro lado, a filha, embora eternamente à espera de um bom marido, também sonha em ser uma guerreira, combater e pilhar, como o pai. Helga, a esposa, é a guerreira do lar e trata Hagar como ele próprio combate seus inimigos, impiedosamente. Ou seja, é ela quem manda na casa, quer ele queira quer não. Não raras vezes, quando ele retorna de suas violentas escaramuças, e mesmo antes de ver o presente que ele lhe trouxe, Helga ordena: "Vá pôr o lixo pra fora!" É como releitura do personagem e contraponto ao contexto tão rígido e imutável de suas aventuras que a capa desta edição se sobressai, revelando um outro Hagar: inocente, dócil e frágil, quase um menino. Nesta capa, de refinada composição, o personagem criado por Dik Browne apresenta-se antagônico a si mesmo e reafirma, com humor, que "os brutos também amam".

terça-feira, 3 de julho de 2012

AS BAIANAS, DE NOVO!

Em lançamento coletivo, de novo As baianas. Dia 6 de julho, na Livraria Saraiva do Shop. Barrra, das 18 às 22 horas. Quem não pôde ir ao lançamento em fevereiro, porque a polícia estava de braços cruzados e os bandidos trabalhando intensamente, tem agora a segunda chance. Presentes, a Bonnie, a Guerreira, a Noivinha, a Piriguete, a Putinha e a Santinha, cada uma residente num bairro importante de Salvador. Literárias, livres dos estereótipos turísticos, arrojadas e sedutoras, estas Baianas chegaram para ficar e desafiar as Gabrielas, Terezas e Lívias a repensar seus conceitos.  

quarta-feira, 21 de março de 2012

A BONNIE E "AS BONNIES"

Amigos, depois digam que a vida não imita a arte. Embora inspirado numa história real, do casal de assaltantes norte-americanos dos anos 30, Bonnie e Clyde, o conto de Mayrant Gallo A Bonnie dos Barris, que integra a coletânea As baianas, acaba de se revelar premonitório. Não é que a polícia de São Paulo acaba de desarticular uma gangue formada por loiras nada inocentes que se autodenominavam de "Bonnies", comandadas por um sujeito apelidado de Clyde?

Uma das loiras guarda incrível semelhança com a trajetória da personagem despirocada de A Bonnie dos Barris, que saí do Rio de Janeiro para delinquir em Salvador. Carina Geremias Vendramini, de 25 anos, tinha uma vida dupla, de mãe de família, zelosa e recatada, e bandida, na clandestinidade. Alegando ao marido que ia visitar a família, costumava viajar de Curitiba a São Paulo, para cometer sequestros relâmpagos, junto com outras cinco “Bonnies”. Deixava uma vida de conforto para se aventurar no crime, em busca de muita, mas muita, adrenalina! Carine foi presa na presença do marido, que, coitado!, ainda não acredita na história. Deveria perguntar a Clyde, o chefe das Bonnies.

Quanto a uma putinha na Vitória, uma santinha na Ribeira, uma noivinha no Cabula, uma piriguete em Ondina e uma guerreira na Lapinha, estas não são lá tão difíceis de encontrar!

Aposto que As baianas chegou a Curitiba e que o conto de Mayrant emulou a “gangue das Bonnies”

ELIESER CESAR, autor de A guerreira da Lapinha.

quinta-feira, 8 de março de 2012

É HOJE!

Dênisson Padilha Filho lança, pela Casarão do Verbo, seu terceiro livro: Menelau e os homens, que reúne dois relatos, Calumbi e Menelau e os homens, ambientados respectivamente na Bahia rural do século XIX e da primeira metade do século XX. A orelha é do contista sergipano Antônio Carlos Viana, que, em palavras diretas e precisas, expressa sua admiração pelo autor.

A festa será no Grande Sertão, a partir das 19 horas. Clique sobre o cartaz.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

LER É PERIGOSO!

Uma bela reflexão do Laerte sobre o fim do hábito de ler LIVROS.
Clique sobre a imagem para ampliá-la.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

LEITURAS, 17: MARTHA GALRÃO

Recebo tantos livros pelos Correios (ontem chegou mais um, de contos), que, se eu fosse parar imediatamente para lê-los, não faria mais nada. Tenho em casa uma pilha de livros que recebi desde 2006, e mais outra, um pouco menor e mais recente, no trabalho. A maioria ainda espera leitura, e é assim mesmo, pois todo escritor, como todo leitor, tem suas escolhas de leitura, os autores e as literaturas de sua preferência, sem os quais ele ficaria meio solitário, se não órfão. Portanto, os livros que chegam precisam se encaixar no gosto e no ritmo do leitor. Um dos últimos livros que recebi (e curiosamente a poetisa me enviou dois exemplares, talvez por esquecimento ou porque não lhe dei uma resposta imediata) foi A chuva de Maria (Simões Filho: Kalango, 2011), de Martha Galrão. Este abri a esmo num dia qualquer e fui lendo, lendo e me deliciando. Ao fim, me convenci de que estava diante de mais uma pupila de Safo. Há poemas muito bonitos, como os que se seguem: sonoros, líricos, toantes, confessionais; e cujos assuntos são aqueles mesmos, que cabem nos dedos de uma só mão e fazem a fama de qualquer grande poeta: a morte, a perda da infância, o amor, o tempo, Deus. Só me resta agradecer a Martha Galrão, duplamente, o presente e a oportunidade de desfrutar de sua poesia.

PALAVRAS

Uma palavra lasciva: delícia,
uma palavra dengosa.

Duas palavras alegres: peteca e
manhã.

Uma palavra tensa:
tempo.

Uma palavra firme: chão.
Duas palavras tristes: dor e saudade.

Uma palavra livre:
beija-flor.


SAUDADE

o que me mata
é o silêncio
e o beijo
não ser na boca

o que me mata
é a falta
de seus olhos
nos meus

o que me mata
é a ausência
de mãos
e palavras

o que me mata
é esse breu.


XXXVI

Deixei a menina gritando no coreto da praça.
Larguei lá ― a menina chorando no quintal
passarinho morto na mão.

A menina parada
com seu vestido cada vez mais curto
estatelada.

Tanto gritou que escutei
e fui buscá-la.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

VÁ E VEJA, 18: L'APOLLONIDE

Em cartaz em Salvador, L'apollonide, os amores da casa de tolerância, de Bertrand Bonello. O filme se passa em três momentos específicos de Paris: fins do século XIX, começo do século XX e os dias atuais. Propositalmente sem uma trama nítida, a narrativa se concentra no cotidiano das garotas de um bordel de luxo: suas transas, seus clientes, sua preparação para a noite, seu descanso ao longo do dia, suas alegrias e decepções.

Prisioneiras, tristes, solitárias e à mercê da violência e dissolução masculinas, elas só gozam de algum prazer quando estão longe dos homens. Uma delas chega ao ponto de afirmar que, quando deixar aquela vida, nunca mais vai trepar, ou fazer amor, conforme suas próprias palavras. Obviamente que elas preferem as conversas à mesa, entre elas mesmas, ou os passeios ao ar livre, cujo apogeu é o banho no lago, todas nuas. Mas isso não dá dinheiro, nem liberdade, nem esperança.

Se é certo que para um filme ser uma obra de arte é preciso estética, vale destacar a cor da fotografia: um claro-escuro constante que prepara nosso olhar para receber o tom da nudez das moças, bem como de suas roupas, sempre vistosas e sensuais. Uma cena de crueldade logo no início não permite que o espectador imagine senão outras mais, em sequência, como um efeito dominó, mas o diretor surpreende e apenas as promete, nos igualando aos frequentadores do bordel, afinal de contas talvez não haja diferença entre "pensar" e "praticar". Nos dois atos, chega-se à experiência, e esta é a essência da obra de arte.

O desfecho, um dos mais ousados que vi no cinema atual, introduzido por um abrupto corte temporal de mais de cem anos, sugere que nada mudou: as prostitutas agora estão nas ruas e ainda mais vulneráveis, à espera dos clientes em seus carros, rumo a um destino sempre ignorado.

Oriundo de uma linhagem tradicional no cinema europeu, com notáveis incursões de importantes diretores como Zurlini e Godard, L'apollonide constitui uma profunda reflexão sobre a profissão mais antiga do mundo e para a qual o único ingresso é abrir as pernas, refrão de boa parte do filme.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

AS BAIANAS ESTÃO CHEGANDO

O blogue As baianas, o livro já está no ar, com a história e as curiosidades do projeto, idealizado pelo jornalista e escritor Elieser Cesar e concretizado em livro pela editora Casarão do Verbo, que publicou recentemente, dentre outros autores, o baiano Hélio Pólvora e a paulista Lílian Lovisi. As baianas reúne seis contos com seis mulheres em seis bairros de Salvador. Inspirado no célebre As cariocas, de Sérgio Porto, o livro foi pensado em 2009, planejado em 2010 e finalizado em 2011. Chega agora ao público, com a intenção de divertir e fazer pensar, pois a Salvador e as mulheres representadas nos seis relatos ganharam vida a partir do olhar literário de autores que não estão na Literatura para distribuir flores. Para isto já bastam os coelhos de ocasião, que não são poucos. O lançamento será dia 10 de fevereiro, na Livraria Cultura, do Shopping Salvador, às 19 horas.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

MINICONTOS REAIS, 1: MÃE-PÁSSARO

Depois de um incêndio florestal no Parque Nacional de Yellowstone, Wyoming, EUA, guardas florestais começaram a sua caminhada até a montanha, para avaliar os danos causados à fauna e à flora. Um deles encontrou um pássaro literalmente petrificado pelas cinzas, no chão, ao pé de uma árvore. Abalado com a cena trágica, o guarda tocou delicadamente o pássaro com uma vara, e três filhotes minúsculos correram de sob as asas de sua mãe morta. A mãe, amorosa e protetora, convicta do desastre iminente, tinha levado seus filhos para a base da árvore, reunindo-os sob suas asas. Por instinto, sabia que a fumaça tóxica subiria. Ela poderia ter voado para a sua própria segurança, mas se recusou a abandonar seus bebês. Em seguida, quando o incêndio chegou, o calor queimou seu corpo, mas ela permaneceu firme, permitindo-se morrer por aqueles que, sob a proteção de suas asas, viveriam.

sábado, 3 de dezembro de 2011

SOB O SOL

"Uma jovem de corpo bem feito é muito parecida com outra qualquer. Duas pernas bronzeadas, dois braços bronzeados, uma roupa de banho ― apenas um corpo exposto ao sol. Quando uma mulher fala, ri, vira a cabeça, mexe a mão ― aí sim, aí tem personalidade ― individualidade. Mas no rito do sol ― não."
Trecho de Morte na praia, de Agatha Christie, cujo título em inglês soa como uma poética sentença: Evil under the sun. O mal sob o sol.
Um ótimo texto para celebrar o Verão, que se aproxima. Na foto: a jovem Brigitte Bardot.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

IN MEMORIAM DE MINHA MÃE



BASTOU QUE O TELEFONE TOCASSE

Passei meses sem ser mais poeta.
Passei meses sendo qualquer coisa
Entre a certeza e a vida, que são coisas
Que evitam a poesia e não exigem rima.

Mas bastou que o telefone tocasse,
Que a voz do outro lado dissesse
“Se prepare, você precisa ser forte”,
Para que eu soubesse o que sempre soube:
Que o que acontece já aconteceu.

De fato, minha mãe já havia morrido,
E eu já fora seu filho, em todo o sempre
Que só agora a física explica
E a poesia sempre susteve.

O futuro é, o passado será e o presente foi.
Tudo já aconteceu e ainda acontece e acontecerá.

Minha mãe, portanto, está nascendo, neste momento,
E também está sonhando, seu rosto lindo e adolescente,
Com seu amado, de quem nascerei em breve.

E é inevitável que eu pense, como Wislawa Szymborska,
Que, tão logo começa a ser pronunciada,
A palavra futuro torna-se passado.

Tão logo se morre, começa-se a nascer, por analogia.

E, assim, em algum lugar minha mãe está à minha espera.
E, assim, em algum momento eu saio de suas entranhas.
Noutro, meu pai me faz,
E seus olhos e os dela são os mais felizes.
Noutro ― ainda mais puro ―, ela me acaricia,
Me põe para dormir,
Me faz tomar o remédio, o banho, e comer e rir
E pronunciar as primeiras sílabas.

Noutro ainda, e não mais importante,
Ela me ensina a ler, a escrever,
A combinar as palavras.
Estas, com sua falta, sua imensa presença ― incorpórea.

Muitas pessoas confundem humor e sarcasmo com ironia.
Ironia é isto:
Em setembro, levei minha mãe ao aeroporto,
Para passar um mês em São Paulo com meu irmão.
Em novembro, fui buscá-la, no mesmo aeroporto,
E ela estava dentro de um caixão.
Mas nem mesmo isto é novo nem será,
Pois já aconteceu, está acontecendo e acontecerá.

Tatibitateio minhas primeiras sílabas num futuro passado,
E meu pai e minha mãe riem.
Acabaram de se conhecer, de se amar,
E já me viram nascer
E já se separaram
E já de volta de novo, olhos nos olhos,
Lábios que se tocam.

Costuma-se chamar tempo ao correr dos dias.
Mas tempo é palavra imprecisa.
Chamemos a tudo vida ― o antes, o depois e o agora.
E fiquemos à espera, no entrepalavras,
Do que nos reserva a sintaxe da História.

MAYRANT GALLO. Salvador, 21 de novembro de 2011.

domingo, 20 de novembro de 2011

DUAS MÃES

A querida Aeronauta escreveu em seu blogue este texto para mim e, indiretamente, para minha mãe, para todas as mães. Transcrevo-o aqui, porque as coisas bonitas devem estar em mais de um lugar, até mesmo nos sonhos.

"(Para Mayrant Gallo). As mães nunca deveriam morrer. Drummond disse algo assim, mas de uma maneira linda. Eu digo aqui, à minha maneira, como uma dor prenunciada, ensaiada, dolorida. Não, Deus, não permita que minha mãe vá embora, e de novo parafraseio tristemente Drummond. Toda vez que uma mãe conhecida morre, morro num soterramento plano. Em maio de 2010 senti um grande abalo. Em maio de 2010 morreu a mãe de minha amiga de infância, uma segunda mãe, e que se dava tão bem com a minha, de muitas e longas datas; ambas viram as duas meninas, eu e minha amiga, cresceram. Ambas conversavam sobre rádio e novela. Quando essa mãe querida, e tão parecida com a minha, morreu, eu sofri muito; era como se, Deus livre e guarde, morresse um pedaço de minha mãe, como se fosse um pré-ensaio de sua morte. Chorei de maneira multiplicada. Ontem morreu a mãe de um amigo. Uma mãe conhecida, que exercia, igualzinho à minha, o papel de mãe. Ambas foram apresentadas no Natal de dois mil e cinco, e estavam vestidas com um vestido parecido; logo se identificaram. Deram-se tão bem, e no mesmo instante já estavam trocando a receita de rabanada. Ontem soube de sua morte, e de repente senti a pontada da dor, o anúncio de uma dor ingrata, pérfida. Passei vários emails para o meu amigo, imaginava que a dor que ele sentia era imensa, pois que repercutia em mim de uma maneira terrivelmente incômoda e cruel. Disse Jorge Luis Borges, sabiamente, que devemos olhar para todas as pessoas como se elas já estivessem mortas. Faço esse exercício desde que li tal frase. E olho para mãe sempre com lágrimas nos olhos. E nem posso pedir a Deus para eu ir antes dela; não posso, pois de todas as saudades e dores que uma mãe pode sentir, essa deve ser a mais inimaginável e perversa."(AERONAUTA)

Foto: Maria José e sua amiga Carmelita, que não é a mãe da Aeronauta, mas a mãe de minhas irmãs.