
A coleção Cartas Bahianas, da P55, se acresce de mais dois autores: Cláudia Barral e Ruy Espinheira Filho. Prestigiem!
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1. Por que o Brasil ainda não levou o Nobel de Literatura?
“Um homem diante de um deserto pode, ao menos, caminhar em qualquer direção.” Esta é, talvez, a chave para decifrar a metáfora da novela O invasor, de Marçal Aquino, recém-publicada em formato “quase de bolso” pela Companhia das Letras, na coleção Má Companhia.
De vez em quando lemos um livro que não conhecíamos, de um autor que não conhecíamos, e saímos da leitura renovados para a vida. Obviamente que, para que isso aconteça, é preciso que o livro desperte a nossa sensibilidade tanto pelo assunto abordado quanto pela forma, compreendida esta como a soma de quatro aspectos básicos: estrutura, tom, ritmo e linguagem.
Cinco obras tornaram o franco-argelino Albert Camus (1913-1960) um autor mundialmente célebre, nesta ordem: O estrangeiro, O mito de Sísifo, A peste, Calígula e O homem revoltado. Dois romances, uma peça teatral e dois ensaios. Todavia, Camus foi também um grande contista, o que pode ser comprovado pelo volume O exílio e o reino (L'exil et le royaume), publicado em 1957, pelas Éditions Gallimard.
Foram três anos de viagens no tempo e no espaço, através de seis portais: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.
Hoje é o Dia da Marmota. Aproveite para assistir ao Feitiço do tempo (1993), dirigido por Harold Ramis (que assina o roteiro com Danny Rubin) e com um excelente desempenho da dupla Bill Murray e Andie MacDowell, que fazem o par romântico. Nos "gêneros fechados", como a comédia romântica e o relato policial de mistério ou enigma, nos quais regras específicas precisam ser cumpridas (por exemplo, na comédia romântica o casal deve, depois de tudo o que passou, terminar junto, ainda que se separe no dia seguinte), um dos grandes desafios para roteiristas e diretores é inovar ou pelo menos variar o entrecho sem destruir a "coerência de fundo". Neste sentido, Feitiço do tempo é ouro puro! Consegue ao mesmo tempo divergir na narrativa, convergindo na forma.
Se o leitor jamais leu Guy de Maupassant, considerado ao lado de Edgar Allan Poe, Anton Tchekhov e Machado de Assis um dos criadores do conto moderno, e quiser de uma assentada ter acesso a um panorama perfeito do que ele escreveu de melhor no âmbito da ficção breve, o livro indicado é Bola de Sebo e outros contos e novelas (Civilização Brasileira, 1970). Com tradução de Lygia Junqueira Fernandes, constam do volume os relatos Bola de Sebo, Pensão Tellier, Miss Harriet, Mademoiselle Fifi, O horla e A herança, todos indiscutivelmente obras-primas da ficção universal. No primeiro texto, Maupassant examina, na figura da prostituta Bola de Sebo, os contextos que favorecem as conveniências sociais: uma simples operação de débito e crédito e cujos maiores objetivos são o bem-estar, o sucesso pessoal e a sobrevivência. Em Pensão Tellier, afirma que os bordéis são necessários e faz Deus entrar na igreja com as prostitutas, como se vivesse entre elas e as perdoasse. Em Mademoiselle Fifi, que é um homem, janota e afetado, o palco é a guerra e seus horrores. Em A herança, talvez o texto mais cáustico da antologia, expõe um caso de gravidez, traição, dinheiro e tribunais, acentuando o caráter frio, calculista e burocrático da vida em sociedade. O horla é simplesmente um dos mais conhecidos contos sobrenaturais do mundo, adaptado para os quadrinhos e, não raras vezes, imitado (ou pelo menos citado) por autores modernos e atuais. Maupassant não quis agradar a ninguém, nem muito menos passar, forçosamente, à história da literatura. Escreveu o que viu, viveu ou imaginou a partir do que viu e viveu, em estilo direto, claro e irônico. Mais de cem contos e novelas e alguns romances formam o seu legado, escrito num período muito curto, de mais ou menos dez anos, até que a loucura o devastasse. Sua obra permanecerá viva e legível, enquanto existir o sol.
Jake Singer é professor de literatura e frequenta um estranho psicanalista argentino, o Dr. Morales. Ao conhecer a bela viúva Allegra Marshall, sua vida ganha um novo sentido e, pouco a pouco, ele escapa da melancolia tchekhoviana em que está imerso. Mas, como a própria vida, as relações, e em especial as amorosas, não são fáceis. Surgem os incidentes, a pressão paterna, as exigências do seu psicanalista e a tensão que qualquer relacionamento impõe. O pessimismo do contista Raymond Carver paira sobre a cabeça dos amantes, e a indiferença camusiana, apesar de coerente com o absurdo da vida, não é a solução. Divã do amor, mal traduzido no Brasil, pois originalmente intitula-se The treatment, é uma grata surpresa, o tipo do filme que começamos a assistir despretensiosamente e, com poucos instantes, estamos arrebatados. Baseado em romance de Daniel Menaker (que assina o roteiro em parceria com o diretor, Dren Rudavsky), e repleto de citações literárias, com leves influências de Woody Allen, e uma ironia que costura todas as falas, Divã do amor seduz e empolga. Não é uma comédia, como anunciado na embalagem do DVD (às vezes me pergunto, assombrado, quais são os critérios dos distribuidores na classificação dos filmes), é um drama, uma história de amor quase "ordinária, como tantas outras, entre um professor de literatura meio inadaptado à vida e uma mulher frágil, marcada pela recente perda do marido. Sutil, delicado, vivo e literário, The treatment nos conduz à cura dos maus filmes, que não são poucos e geralmente sobram em pretensão, pois são menos eloquentes que tagarelas.
Domingos Oliveira, diretor de uma das obras-primas do cinema brasileiro, Todas as mulheres do mundo, coloca três homens numa enorme casa de campo, em Petrópolis, e, em meio a boa comida, bebida, música, cinema e literatura, discute assuntos como sexo, masculinidade, a vida, o amor, a juventude, a dor de viver e de amar, as mulheres, o dinheiro, as drogas, os sonhos que aos poucos se evaporam e, por fim, a irremediável velhice cuja culminância é a morte. O desfecho reafirma a ideia de que os homens passam, e a vida permanece, diariamente revitalizada pelo nascer do sol.
Trinta e oito contos de Anton Tchékhov (1860-1904) organizados, traduzidos e prefaciados por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, agraciada com a medalha Aleksandr Serguêivitch Púchkin, pelos "grandes serviços prestados à divulgação da língua russa", outorgada pela Associação Internacional de Professores de Língua e Literatura Russas. Trinta e oito contos aparentemente de humor do escritor russo que foi um dia chamado de gênio por outro gigante da literatura russa, Tolstói. "Todos nós somos grandes escritores", disse Tolstói a Górki, "mas ele", e apontou Tchékhov, que passeava sozinho, ao largo, na fazenda de Tolstói, "ele é o maior, é um gênio".
A estrutura desta obra-prima de Luchino Visconti é a romanesca, ao passo que a maioria dos filmes elege como veículo de realização a forma clássica do conto, que, grosso modo, pode ser resumida assim: 1)prólogo, 2) problema ou conflito, 3) desenvolvimento, 4) auge, 5) desfecho, e 6) epílogo. Quando a forma é a romanesca, tudo se transforma noutra coisa, pois o romance é o gênero de todas as possibilidades. É o gênero informe, destituído de um fluxo ideal e que flerta com outros registros de escrita: a narrativa histórica, o ensaio, o discurso acadêmico, o relato memorialístico, o panfleto político, o texto jornalístico e de publicidade, a redação epistolar, o diário íntimo etc. O romance, inclusive, é o gênero da liberdade no tempo e no espaço. Exemplos: O som e a fúria, de Faulkner, A lei, de Roger Vailland, Dom Carmurro, de Machado de Assis, A colmeia, de Camilo José Cela, Um amor, de Dino Buzzati. Pode ter, e quase sempre tem, vários personagens ou um só, mas o que não pode faltar é a liberdade de criação e expressão.
Recebi ontem os exemplares de minha cota da Portal Fahrenheit, a última das seis revistas de contos de ficção científica idealizadas e concretizadas pelo Nelson de Oliveira. Confesso que sentirei falta desta recorrente missão: a cada seis meses escrever um conto original no gênero, enviar ao Nelson, esperar aprovação e, por fim, a publicação. Além do prazer de ver o conto impresso, depois de tanto trabalho, afinal de contas não reviso pouco meus textos, há a espera pelos demais relatos, saber o que os outros autores estão escrevendo, como estão pensando o mundo atual pelo ponto de vista da ficção científica.
Le bonheur (1965), que recebeu no Brasil o péssimo título As duas faces da felicidade, é um dos mais bonitos, sedutores e cifrados filmes franceses da década de 1960. Dirigido por Agnès Varda, que também assina o roteiro, Le Bonheur constitui uma narrativa completamente aberta a interpretações e significados, além de um exame despretensioso sobre o que é a família, o amor, o sexo, o homem e a mulher.
Vivemos hoje um frenesi pela literatura fantástica, muito embora tal interesse fique restrito quase que exclusivamente às histórias de vampiros e de fantasmas. O fantástico mais sutil e irônico, de Borges, Rulfo, Buzzati, Fuentes, Machado de Assis, Tchekov, Maupassant, Edgard Allan Poe, Oscar Wilde, Gauthier, Kafka, Murilo Rubião, J. J. Veiga e Victor Giudice, permanece cativo de uma fatia específica de leitores, talvez mais refinados. Há ainda os autores esquecidos ou em via de completo desaparecimento, como Saki e W. W. Jacobs, autor do célebre conto A pata do macaco. Seria proveitoso para os leitores mais jovens se uma editora brasileira criasse uma coleção de literatura fantástica que resgatasse esses autores em antologias ou reedições populares, em formato bolso, de algumas de suas principais obras no gênero. Isso já foi feito no Brasil, sem muito êxito ou êxito moderado, e em Portugal, com sucesso. Em solo luso, a Editora Estampa incluiu na coleção Livro B um elenco fortíssimo de autores fantásticos, entre os quais Charles Nodier, Léon Bloy, Ambrose Bierce, Jean Potocki, Nerval, Lovecraft, Balzac, Gauthier, Henry James, Horace Walpole, Fitz James O'Brien, Remy de Gourmont, Marcel Schwob, Hoffmann e Paul Féval. Dos anos 1990 para cá, no Brasil, afora as antologias, das quais a mais popular é a de Flávio Moreira da Costa, Os melhores contos fantásticos (Nova Fronteira, 2006), e a mais criativa a de Bráulio Tavares, Contos fantásticos no labirinto de Borges (Casa da Palavra, 2005), tivemos algumas tentativas mal sucedidas de coleções do gênero. Uma das mais importantes foi a da editora paulista Marco Zero. Em 1994, seus editores projetaram e trouxeram a público a Coleção Mistério. Foram programados cinco títulos, mas acredito que o volume Monsieur Maurice, de Amelia B. Edwards, não chegou a ser publicado, pois jamais o encontrei, nem conheço ninguém que o tenha lido ou o possua. A coleção iniciou-se com O amante fantasma, de Vernon Lee, seguindo-se A casa desabitada, de J. H. Riddell, O fantasma dos Guirs, de Charles Willing Beale, e A bruxa âmbar, de Wilhelm Meinhold, que tem uma história curiosa: tornou-se um livro maldito, porque, uma vez que forjava na sua estrutura um documento histórico do século XII, não foi aceito como ficção, mas como verdade, tanto pelos leitores quanto pela Igreja, que o repudiou. Percebe-se que a coleção enfatizava os tradicionais relatos de fantasma, mas pretendia migrar para outros campos do fantástico, pois, de súbito, desviou-se para a bruxaria com o livro de Meinhold. Outra evidência é o questionário que a editora colocou no volume de Beale, para que o leitor preenchesse e postasse. A questão 7 diz: "A coleção tem cinco livros previstos. Você gostaria que tivesse mais?" Pelo ocorrido, bem poucos se manifestaram favoravelmente, e a coleção gorou.
Os editores Ana Mello e Marcelo Spalding, também "minicontistas", deram generosamente destaque na Veredas de dezembro aos meus minicontos publicados em Nem mesmo os passarinhos tristes (Rio de Janeiro: Multifoco, 2010). Entrei lá para conferir e agradecer e, para o meu contentamento, li muita coisa boa no gênero miniconto, de autores como: Ana Mello (uma moderna historieta de Natal), Wilson Gorj (a eficiente ironia de sempre), Chico Pascoal (que tem um blogue ótimo: Microrrelatos do Cheeko), Eduardo Cama, Carlos Tijolo e Maria Regina Caetano Soares. Conheçam a Veredas, revista de minicontos e micronarrativas. Além dos textos destes gêneros, publica artigos, livros no formato E-BOOK e aceita colaborações. O link: http://www.veredas.art.br.
Não sei ao certo o que espero de um poema quando o leio. Como não sei o que encontrarei num conto ou num romance, num filme ou numa peça teatral. Se não fosse assim, eu não diferiria em nada de um simples leitor de revistas e jornais ou de um assíduo espectador de programas de tevê. E é porque só me deparo com o “esperado quando inesperadamente me deparo com ele”, que sou um obstinado leitor de literatura. Retornar a um texto literário, qualquer que seja o gênero, é refazer o instante que o engendrou dentro de nós, trazer de novo à superfície sensível de nossos sentidos aquela “inesperada novidade”. Tornar a ler um poema é reinaugurá-lo, ainda que esta segunda leitura não esteja distante da primeira senão alguns minutos, ou mesmo segundos. E esta reinauguração não é gratuita: promove-a o delicado instante em que nos deparamos com o inesperado, que, no entanto, nos convence, com sua força, de que o esperávamos há séculos e que até “o procurávamos”. Três ou quatro poemas do novo livro de Georgio Rios me causaram este efeito singular quando o li. Não vou falar da “suposta evolução” do poeta, nem da felicidade que se instala no leitor, ao descobrir o quanto o poeta é encantatório. Esta é uma tarefa muito velha e que prefiro deixar à crítica oficial de poesia do nosso tempo, se é que ela existe e é necessária, afinal de contas o que é o poema senão um objeto para sentir e tão somente sentir? Como nestas duas surpresas:
Os grandes escritores se fazem em surdina, sem alarde. Dispensam outdoor e autopromoção. Vão como madeira no rio. Seguem com seu estilo, seus assuntos, sua verdade. E não fazem senão pôr a linguagem a serviço destes aspectos. Falo do gaúcho Sérgio Faraco e de seu excelente volume de contos de fronteira Noite de matar um homem. Raramente lemos na literatura brasileira atual um livro de contos tão consistente. Um livro que transpira vida e estilo. Um livro com trechos tão reveladores e tão bem fixados, em palavras simples, de seu meio, e que, no entanto, reverberam, de modo que muito depois da leitura os contos continuam a ecoar. No excepcional "O céu não é tão longe" um homem perde a vida por causa de uma mulher e, enquanto agoniza, transitando para o outro lado, reflete: "Não era tão longe o céu. Que lhe cobrasse a vida chica! Ao menos não a perdia na doença, mas por um corpo dourado de mulher e com o recuerdo daquela tarde na tapera". É, aliás, nos contos de base sexual, como a nos sinalizar que é no sexo que a vida começa e é também ali que ela acaba, que o autor resvala a perfeição. Em "Lá no campo", um rapaz se embola com uma moça na escuridão de um velório, ao passo que dois velhos concluem que isso é a vida. Em "Dois guaxos", um rapaz vai embora de casa não porque anseie partir, mas porque é preciso fugir da beleza da irmã, que acabou de se entregar a um "chiru": "Seus olhos se encheram de lágrimas e ele se ajoelhou, aproximou o rosto do ventre da irmã. Um beijo, e o sexo dela tinha um cheiro delicado, profundo". Em "Bugio amarelo", um sujeito encarregado de proteger a esposa de um amigo acaba cedendo a um apelo terrível, em forma de provocação: "Se tu é mesmo amigo dele, tu me come". O resto é vingança, duelo, lenda em Uruguaiana, Itaqui e Barra do Quaraí. Em "Noite de matar um homem", o relato central do livro, espécie de síntese de todos os demais, dois homens encarregados de matar um terceiro o fazem quase sem querer, doendo, sofrendo mais do que sofreu o morto enquanto agonizava. Claro, porque se viver é difícil, matar também não é fácil. Nos demais contos, Faraco conserva-se em sua coerência de estilo e assunto, de experimentações formais e representação do ambiente de fronteira: "Hombre", "Aventura na sombra", "Travessia", "Adeus aos passarinhos" e outros relatos são tanto revelações humanas quanto mergulhos sem limite no ato de viver. Experiência única, esta, de ler o volume Noite de matar um homem, de Sérgio Faraco, pois são contos que reverberam na mente e nos olhos, como facas afiadas num duelo pela honra e pela vida.
Se você gosta de ler e não se importa de esperar muito tempo no ponto pelo "ônibus que não chega nunca", o melhor lugar para morar é Paris. Criação da loja sueca IKEA, esta sala de espera nos faz desejar que o ônibus realmente não venha jamais: livros, sofá, abajur, globo terrestre, bibelôs, mapas e quadro de avisos. O prefeito de Salvador, BA, João Henrique, deveria se mirar neste exemplo e reproduzir por aqui apenas 5%. Bastaria. Quem já foi à estação da Lapa, principal terminal rodoviário urbano de Salvador, conferiu que o ambiente mais parece um refúgio de zumbis depois de uma hecatombe nuclear. E para ler, nem as placas que sinalizam as linhas de ônibus e seus itinerários prestam. Algumas nem existem mais, substituídas por borrões de tinta, pintados à mão por um funcionário mal pago e sem estímulo. Mas há quem goste de Salvador assim mesmo: bem pitoresca!
É um consenso se afirmar que o criador da "graphic novel" é o norte-americano Will Eisner (1917-2005). De fato, a primeira publicação neste formato, que poderíamos traduzir como "romance gráfico", foi Um contrato com Deus, em 1978. Todavia (e é certo que qualquer sentido de organização do mundo ou da realidade mostra-se ao fim tão falho quanto a sua ausência), o Poema em quadrinhos (CosacNaify, 2010), do italiano Dino Buzzati (1906-1972), precede a criação de Eisner em quase dez anos e abarca, sem sombra de dúvida, o conceito de "graphic novel" proposto pelo renomado quadrinista norte-americano.
O traço cômico do espanhol Jordi Bernet se mescla à verve de Carlos Trillo e Eduardo Maicas, numa HQ que confere humor e crítica social ao contidiano de Clara, uma prostituta de rua. Perambulando pelas esquinas de uma grande cidade espanhola (Madri, provavelmente), Clara se envolve comercialmente com os mais estranhos tipos: um anão envergonhado, dois gângsteres rivais, um marido que depois de tantos anos de casado já esqueceu como se faz a coisa, um rapazinho em sua primeira vez, um padre tomado de fraqueza e esquecido de sua condição de celibatário, um professor carente de realidade e cheio de sonhos com suas alunas, um cego que não acha o caminho e até um técnico de futebol que resolve ministrar sexo para seus comandados, que, claro, com as ações de Clara, não tiveram nenhum êxito em campo. As histórias, de duas a três páginas, alternam comicidade, dor, desilusão e melancolia, pois, além de se defender nas ruas, Clara tem de criar seu filho e, como era de se esperar, sofre o preconceito e a intolerância das "mulheres direitas" do bairro onde mora. O tom irônico da série chega ao auge na história em que a protagonista, depois de estuprada por um desconhecido, volta-se para ele e diz, com estoicismo: "Sim, são trezentos... Mais cem pelo material estragado". Quadrinhos de arte de primeiríssima qualidade.
Amanhã, vou ministrar em Itaparica uma oficina de criação de minicontos que tem como base os textos do meu livro Nem mesmo os passarinhos tristes. Mas levarei também minicontos de outros autores que admiro e que partilho aqui com os leitores do Não leia! O primeiro conto, do Wilson Gorj, não tem título, e o de Dalton Trevisan é o número 11 de um total de 111, que ele chama de "ais".
O cineasta italiano Mario Monicelli morreu nesta segunda-feira, aos 95 anos, depois de fazer o mundo inteiro rir, ainda que fosse com amargor, como em Parente é serpente (2006), a mais terrível história de Natal já filmada, ou com melancolia, como em Os eternos desconhecidos (1958), que retrata as ações de uma pífia e malfadada quadrilha de ladrões. Seus filmes, especialmente os dois citados, mostram as pessoas como elas são: humanas, fracas, vulneráveis e comicamente condenadas ao fracasso. No desfecho de Os eternos desconhecidos, depois que a quadrilha se arruína na tentativa de assaltar uma loja de penhores, um dos bandidos decide se tornar operário: trabalhar o dia inteiro por um salário miserável. Humor e dor. Riso e melancolia. Uma retrospectiva de Monicelli seria fundamental agora, para mostrar a muitos diretores de cinema que o verdadeiro humor não se caracteriza por queda em piscina ou torta na cara, nem, por outro lado, por piadas pseudointeligentes, em pastiches de Woody Allen, que, aliás, faz uma bela homenagem a Monicelli, em Trapaceiros, um de seus filmes mais populares e literalmente inspirado em Os eternos desconhecidos. Monicelli junta-se agora a Fellini, Antonioni, Zurlini, Pasolini e Risi, formando no lado escuro da vida um sexteto irreverente.