Jake Singer é professor de literatura e frequenta um estranho psicanalista argentino, o Dr. Morales. Ao conhecer a bela viúva Allegra Marshall, sua vida ganha um novo sentido e, pouco a pouco, ele escapa da melancolia tchekhoviana em que está imerso. Mas, como a própria vida, as relações, e em especial as amorosas, não são fáceis. Surgem os incidentes, a pressão paterna, as exigências do seu psicanalista e a tensão que qualquer relacionamento impõe. O pessimismo do contista Raymond Carver paira sobre a cabeça dos amantes, e a indiferença camusiana, apesar de coerente com o absurdo da vida, não é a solução. Divã do amor, mal traduzido no Brasil, pois originalmente intitula-se The treatment, é uma grata surpresa, o tipo do filme que começamos a assistir despretensiosamente e, com poucos instantes, estamos arrebatados. Baseado em romance de Daniel Menaker (que assina o roteiro em parceria com o diretor, Dren Rudavsky), e repleto de citações literárias, com leves influências de Woody Allen, e uma ironia que costura todas as falas, Divã do amor seduz e empolga. Não é uma comédia, como anunciado na embalagem do DVD (às vezes me pergunto, assombrado, quais são os critérios dos distribuidores na classificação dos filmes), é um drama, uma história de amor quase "ordinária, como tantas outras, entre um professor de literatura meio inadaptado à vida e uma mulher frágil, marcada pela recente perda do marido. Sutil, delicado, vivo e literário, The treatment nos conduz à cura dos maus filmes, que não são poucos e geralmente sobram em pretensão, pois são menos eloquentes que tagarelas.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
VÁ E VEJA, 16: DIVÃ DO AMOR
Jake Singer é professor de literatura e frequenta um estranho psicanalista argentino, o Dr. Morales. Ao conhecer a bela viúva Allegra Marshall, sua vida ganha um novo sentido e, pouco a pouco, ele escapa da melancolia tchekhoviana em que está imerso. Mas, como a própria vida, as relações, e em especial as amorosas, não são fáceis. Surgem os incidentes, a pressão paterna, as exigências do seu psicanalista e a tensão que qualquer relacionamento impõe. O pessimismo do contista Raymond Carver paira sobre a cabeça dos amantes, e a indiferença camusiana, apesar de coerente com o absurdo da vida, não é a solução. Divã do amor, mal traduzido no Brasil, pois originalmente intitula-se The treatment, é uma grata surpresa, o tipo do filme que começamos a assistir despretensiosamente e, com poucos instantes, estamos arrebatados. Baseado em romance de Daniel Menaker (que assina o roteiro em parceria com o diretor, Dren Rudavsky), e repleto de citações literárias, com leves influências de Woody Allen, e uma ironia que costura todas as falas, Divã do amor seduz e empolga. Não é uma comédia, como anunciado na embalagem do DVD (às vezes me pergunto, assombrado, quais são os critérios dos distribuidores na classificação dos filmes), é um drama, uma história de amor quase "ordinária, como tantas outras, entre um professor de literatura meio inadaptado à vida e uma mulher frágil, marcada pela recente perda do marido. Sutil, delicado, vivo e literário, The treatment nos conduz à cura dos maus filmes, que não são poucos e geralmente sobram em pretensão, pois são menos eloquentes que tagarelas.
domingo, 16 de janeiro de 2011
PERPLEXIDADE
VÁ E VEJA, 15: JUVENTUDE
Domingos Oliveira, diretor de uma das obras-primas do cinema brasileiro, Todas as mulheres do mundo, coloca três homens numa enorme casa de campo, em Petrópolis, e, em meio a boa comida, bebida, música, cinema e literatura, discute assuntos como sexo, masculinidade, a vida, o amor, a juventude, a dor de viver e de amar, as mulheres, o dinheiro, as drogas, os sonhos que aos poucos se evaporam e, por fim, a irremediável velhice cuja culminância é a morte. O desfecho reafirma a ideia de que os homens passam, e a vida permanece, diariamente revitalizada pelo nascer do sol. Um dos momentos mais importantes do filme, e de certa forma simbólico, é aquele em que a jovem empregada da casa se aproxima de um dos personagens, que, recostado numa poltrona, recuperava-se de um "quase-infarto", e, pegando sua mão, começa a rezar: segundos depois ele se levanta, não sabemos se recuperado pela oração ou reagindo, como ateu ou agnóstico convicto, à "interferência divina".
O estilo de Domingos Oliveira é espontâneo, com câmara na mão, improviso e roteiro repleto de ironias e referências à literatura, ao cinema e ao conhecimento humano, desde os gregos. Uma vez que muito do desenvolvimento de seus filmes se dá através da palavra, do diálogo, não é demais afirmar que seus irmãos de estilo são Eric Rohmer e Woody Allen, dos quais ele se aproxima e ao mesmo tempo se distancia. Aliás, quando Domingos Oliveira estreou com Todas as mulheres do mundo (1967), Woody Allen ainda não havia achado sua arte, e Eric Rohmer vivia indeciso entre a Nouvelle Vague (Minha noite com ela, 1969) e um suposto neorealismo francês, que o marcou com O signo do leão (1959). Domingos Oliveira, por sua vez, começou solitário no Brasil em 1967 e chegou a Juventude, em 2008, fiel a si mesmo e avesso aos modismos de última hora.
Se existe um cineasta brasileiro da atualidade que vale a pena conhecer de ponta a ponta é Domingos Oliveira, e Juventude pode ser, em sentido inverso, o princípio do iceberg.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
LEITURA DE BOLSO, 2: UM NEGÓCIO FRACASSADO
Trinta e oito contos de Anton Tchékhov (1860-1904) organizados, traduzidos e prefaciados por Maria Aparecida Botelho Pereira Soares, agraciada com a medalha Aleksandr Serguêivitch Púchkin, pelos "grandes serviços prestados à divulgação da língua russa", outorgada pela Associação Internacional de Professores de Língua e Literatura Russas. Trinta e oito contos aparentemente de humor do escritor russo que foi um dia chamado de gênio por outro gigante da literatura russa, Tolstói. "Todos nós somos grandes escritores", disse Tolstói a Górki, "mas ele", e apontou Tchékhov, que passeava sozinho, ao largo, na fazenda de Tolstói, "ele é o maior, é um gênio". Nestes contos, que em geral não vão além de quatro ou cinco páginas, Tchékhov exercita seu olhar impiedoso e sua pena crítica, fixando-se nos tipos humanos da vida russa, como as governantas, os preceptores, os funcionários públicos do alto e do baixo escalão, os militares, os estudantes, os maridos, as esposas infelizes, as adolescentes sonhadoras. Seu humor, vazado de melancolia, é mais irônico que engraçado, e nas entrelinhas das histórias, completamente banais, vai muito de não-dito, de sugerido, de disfarçado e terrível. Dramas, decepções, loucura, traições, dores, amores frustrados, desprezo pela vida humana, desdém pelos subalternos, autoritarismo e exercício de poder, ambição desmedida e a corrupção do funcionalismo público, covardia e canalhice, tudo através de uma lente opaca e que não aumenta nada, pelo contrário: deixa diminuto mesmo, porque assim é a vida.
Num dos contos, uma mulher revela a um escritor (o próprio Tchékhov talvez), durante uma viagem de trem, o quanto sacrificou de si mesma para melhorar de vida casando-se com um velho rico. Mas os anos passaram, ele morreu, e o que lhe restou foi... casar-se com outro velho rico. Tchékhov encerra a narrativa deste horror sem qualquer comentário, cortando para o cotidiano e a natureza: "O leque, quebrado, cobre o rostinho bonito. O escritor apoia sua cabeça pensativa no punho, suspira e se põe a refletir, com ar de psicólogo e especialista. A locomotiva assobia e solta chiados, as cortinas das janelas ficam avermelhadas ao sol poente".
O preço que se paga por esta "guloseima sagrada" e muitas outras é baixo, e o livro compensa em dobro cada centavo: R$13,00.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
VÁ E VEJA, 14: ROCCO E SEUS IRMÃOS
A estrutura desta obra-prima de Luchino Visconti é a romanesca, ao passo que a maioria dos filmes elege como veículo de realização a forma clássica do conto, que, grosso modo, pode ser resumida assim: 1)prólogo, 2) problema ou conflito, 3) desenvolvimento, 4) auge, 5) desfecho, e 6) epílogo. Quando a forma é a romanesca, tudo se transforma noutra coisa, pois o romance é o gênero de todas as possibilidades. É o gênero informe, destituído de um fluxo ideal e que flerta com outros registros de escrita: a narrativa histórica, o ensaio, o discurso acadêmico, o relato memorialístico, o panfleto político, o texto jornalístico e de publicidade, a redação epistolar, o diário íntimo etc. O romance, inclusive, é o gênero da liberdade no tempo e no espaço. Exemplos: O som e a fúria, de Faulkner, A lei, de Roger Vailland, Dom Carmurro, de Machado de Assis, A colmeia, de Camilo José Cela, Um amor, de Dino Buzzati. Pode ter, e quase sempre tem, vários personagens ou um só, mas o que não pode faltar é a liberdade de criação e expressão.E é nisso que Rocco e seus irmãos se apoiou. Não é à toa que vários escritores assinam o roteiro. E também não é à toa que o filme se divide em cinco capítulos, cada qual enfocando um dos cinco irmãos, embora o personagem central seja Rocco (interpretado pelo jovem Alain Delon), o mais humano e o mais verdadeiro do grupo, consequentemente o mais romanesco e heróico, de acordo com a fórmula primordial do gênero, que reza que ele vai sofrer de tudo um pouco e, ao fim, se redimir.
Visconti não poupa meios de expressão e faz um filme com humor, dor, amor, ação, drama familiar, luta de boxe, trabalho inútil e fatigante, crime e algum heroísmo, ainda que em silêncio ou tom menor. Um folhetim, por excelência, mas com arte, beleza estética, reflexão sobre o nosso tempo e a condição humana, e cenas maravilhosas que influenciaram cineastas no mundo inteiro (Wong Kar Wai, por exemplo), como a sequência sem falas em que Rocco se encontra com Nadia (Annie Giradot), tomam o bonde e, abraçados, num oásis de ternura e paixão, veem a cidade circular à sua volta, ao mesmo tempo com um olhar de aprovação e outro de ameaça àquele idílio privado de culpa.
Se você quer assistir a um monumental clássico do cinema mundial, de três horas de duração e ao longo do qual todos os nossos sentidos são espicaçados (pois chegamos a sentir o cheiro de lama e podridão humana na cena de estupro, e a provar o sal da pele de Nadia durante a cena de intimidade com Simone, processo sinestésico que somente o rigor pelo detalhe, marca de Visconti, torna possível), Rocco e seus irmãos é a melhor e, talvez, a única opção. Uma aula exemplar de "romance cinematográfico".
sábado, 8 de janeiro de 2011
FAHRENHEIT E A LEITURA IDEAL
Recebi ontem os exemplares de minha cota da Portal Fahrenheit, a última das seis revistas de contos de ficção científica idealizadas e concretizadas pelo Nelson de Oliveira. Confesso que sentirei falta desta recorrente missão: a cada seis meses escrever um conto original no gênero, enviar ao Nelson, esperar aprovação e, por fim, a publicação. Além do prazer de ver o conto impresso, depois de tanto trabalho, afinal de contas não reviso pouco meus textos, há a espera pelos demais relatos, saber o que os outros autores estão escrevendo, como estão pensando o mundo atual pelo ponto de vista da ficção científica.Na verdade, a literatura, mesmo ambientada no futuro ou no passado, volta-se para o presente, com o propósito de expressá-lo, julgá-lo ou simplesmente ironizá-lo. Se o leitor vai sair transformado da leitura e, com isso, tentar transformar o meio em que vive e o mundo, é consequência de quem é o leitor, de sua formação e de suas expectativas. No tempo em que vivemos, e com a educação que temos (a todo momento questionada por novos e inesperados valores, nem sempre valiosos, com o perdão do paradoxo), a recepção de qualquer texto literário é sempre um enigma, e a tendência de quem lê é, não satisfeito com o que leu, julgar o autor incompetente e seu texto ruim. Há ainda o fato, desalentador, de que muitos leitores não julgam o texto pelo que ele é e apresenta, mas simplesmente pelo que esperam dele. Se este é o tipo de leitura, é melhor não ler.
A leitura ideal é aquela que fornece "a paisagem nova de uma mesma janela". Imaginemos um sujeito que more num lugar ermo e distante e do qual, por um motivo qualquer, não possa sair jamais. Todos os dias, quando acorda e olha pela janela, a paisagem é sempre a mesma, apenas com as variações, preexistentes, das estações do ano: sol, flores, nuvens, chuva etc. Essa paisagem constante é a que a janela de suas expectativas abre, diariamente, pois não há solução para mudá-la, a não ser que ele pudesse partir. O que ele espera, acomodado à sua condição, é o que ele vê, num desenho quase perfeito. No âmbito da leitura é a mesma coisa. Se temos expectativas, conforme nosso gosto ou nossos interesses, "mesmificamos" o que pretendemos ler, e, assim, se por acaso o desenho não coincidir, a leitura não converge. Os "dois desenhos" (texto e leitura) não se encaixam. É como se pela mesma janela de sempre entrasse uma nova paisagem, que nossas expectativas, no entanto, previamente já recusavam. Deste descompasso advêm os julgamentos inexatos e perversos, oriundos da evidência (inconsciente) de que o texto está em desacordo com o que somos. É muito mais fácil, diante da falta de parâmetros, julgar um texto ruim do que julgá-lo pelo que ele é, por ser esta "paisagem nova de uma mesma janela".
Durante a leitura, ao "acordarmos" diante desta nova paisagem, não podemos virar para o outro lado e continuar a "dormir" na expectativa do mesmo amanhã, daquela paisagem de sempre. Naturalmente, alguns dos melhores textos de literatura são os que por sua estranheza nos abrem uma paisagem nova. Mas precisamos estar à janela e com o olhar puro.
Quadro: Edward Hopper (1882-1967).
sábado, 1 de janeiro de 2011
VÁ E VEJA, 13: LE BONHEUR
Le bonheur (1965), que recebeu no Brasil o péssimo título As duas faces da felicidade, é um dos mais bonitos, sedutores e cifrados filmes franceses da década de 1960. Dirigido por Agnès Varda, que também assina o roteiro, Le Bonheur constitui uma narrativa completamente aberta a interpretações e significados, além de um exame despretensioso sobre o que é a família, o amor, o sexo, o homem e a mulher.Uma das reflexões mais visíveis que o filme apresenta, e que mesmo o espectador mais distraído não está longe de alcançar, propõe uma espécie de revisão, em versão moderna, fundada talvez no espírito da contracultura daquela década, do paraíso cristão; como ele poderia ter sido se Adão e Eva, por sua “falta”, não tivessem sido expulsos. Um paraíso onde haveria amor, crianças, trabalho, amigos, fins de semana, passeios no campo, sonecas nas tardes de domingo, amantes e especialmente sexo. Com isso, Varda nos diz, indiretamente, que o paraíso é a própria vida e que, ao nos expulsar daquele lugar aprazível dos primeiros tempos, e que Adão e Eva supostamente teriam maculado, Deus, na verdade, nos devolveu ao verdadeiro Éden: a vida humana. A cobra e a maçã eram, portanto, uma charada.
Agnès Varda, que começou como fotógrafa, nasceu na Bélgica, mas se notabilizou na França. É considerada, hoje, a precursora da Nouvelle Vague, movimento cinematográfico francês encabeçado por Jean-Luc Godard e François Truffaut, e com seguidores de primeiro momento como Claude Chabrol e Eric Rohmer. Seu estilo neste filme é vívido, claro e espontâneo, lembrando às vezes a “reserva autoral” do seu contemporâneo Robert Bresson. Usa a cor como marcação narrativa e também como representação tanto do verão, cenário edênico do filme, quanto da felicidade do protagonista. Quando a cor se ameniza, é porque a felicidade também se atenua. A música, de um Mozart quase abstrato, contrasta com a atmosfera de cor, luz e encanto que envolve os personagens.
Le bonheur recebeu três prêmios internacionais em 1966: o Louis Delluc, o David Selznick e o especial do Festival de Berlim.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
LEITURAS, 10: COLEÇÃO MISTÉRIO
Vivemos hoje um frenesi pela literatura fantástica, muito embora tal interesse fique restrito quase que exclusivamente às histórias de vampiros e de fantasmas. O fantástico mais sutil e irônico, de Borges, Rulfo, Buzzati, Fuentes, Machado de Assis, Tchekov, Maupassant, Edgard Allan Poe, Oscar Wilde, Gauthier, Kafka, Murilo Rubião, J. J. Veiga e Victor Giudice, permanece cativo de uma fatia específica de leitores, talvez mais refinados. Há ainda os autores esquecidos ou em via de completo desaparecimento, como Saki e W. W. Jacobs, autor do célebre conto A pata do macaco. Seria proveitoso para os leitores mais jovens se uma editora brasileira criasse uma coleção de literatura fantástica que resgatasse esses autores em antologias ou reedições populares, em formato bolso, de algumas de suas principais obras no gênero. Isso já foi feito no Brasil, sem muito êxito ou êxito moderado, e em Portugal, com sucesso. Em solo luso, a Editora Estampa incluiu na coleção Livro B um elenco fortíssimo de autores fantásticos, entre os quais Charles Nodier, Léon Bloy, Ambrose Bierce, Jean Potocki, Nerval, Lovecraft, Balzac, Gauthier, Henry James, Horace Walpole, Fitz James O'Brien, Remy de Gourmont, Marcel Schwob, Hoffmann e Paul Féval. Dos anos 1990 para cá, no Brasil, afora as antologias, das quais a mais popular é a de Flávio Moreira da Costa, Os melhores contos fantásticos (Nova Fronteira, 2006), e a mais criativa a de Bráulio Tavares, Contos fantásticos no labirinto de Borges (Casa da Palavra, 2005), tivemos algumas tentativas mal sucedidas de coleções do gênero. Uma das mais importantes foi a da editora paulista Marco Zero. Em 1994, seus editores projetaram e trouxeram a público a Coleção Mistério. Foram programados cinco títulos, mas acredito que o volume Monsieur Maurice, de Amelia B. Edwards, não chegou a ser publicado, pois jamais o encontrei, nem conheço ninguém que o tenha lido ou o possua. A coleção iniciou-se com O amante fantasma, de Vernon Lee, seguindo-se A casa desabitada, de J. H. Riddell, O fantasma dos Guirs, de Charles Willing Beale, e A bruxa âmbar, de Wilhelm Meinhold, que tem uma história curiosa: tornou-se um livro maldito, porque, uma vez que forjava na sua estrutura um documento histórico do século XII, não foi aceito como ficção, mas como verdade, tanto pelos leitores quanto pela Igreja, que o repudiou. Percebe-se que a coleção enfatizava os tradicionais relatos de fantasma, mas pretendia migrar para outros campos do fantástico, pois, de súbito, desviou-se para a bruxaria com o livro de Meinhold. Outra evidência é o questionário que a editora colocou no volume de Beale, para que o leitor preenchesse e postasse. A questão 7 diz: "A coleção tem cinco livros previstos. Você gostaria que tivesse mais?" Pelo ocorrido, bem poucos se manifestaram favoravelmente, e a coleção gorou.
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
MINICONTOS DA "VEREDAS"
Os editores Ana Mello e Marcelo Spalding, também "minicontistas", deram generosamente destaque na Veredas de dezembro aos meus minicontos publicados em Nem mesmo os passarinhos tristes (Rio de Janeiro: Multifoco, 2010). Entrei lá para conferir e agradecer e, para o meu contentamento, li muita coisa boa no gênero miniconto, de autores como: Ana Mello (uma moderna historieta de Natal), Wilson Gorj (a eficiente ironia de sempre), Chico Pascoal (que tem um blogue ótimo: Microrrelatos do Cheeko), Eduardo Cama, Carlos Tijolo e Maria Regina Caetano Soares. Conheçam a Veredas, revista de minicontos e micronarrativas. Além dos textos destes gêneros, publica artigos, livros no formato E-BOOK e aceita colaborações. O link: http://www.veredas.art.br.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
LEITURAS 9: MODUS OPERANDI
Não sei ao certo o que espero de um poema quando o leio. Como não sei o que encontrarei num conto ou num romance, num filme ou numa peça teatral. Se não fosse assim, eu não diferiria em nada de um simples leitor de revistas e jornais ou de um assíduo espectador de programas de tevê. E é porque só me deparo com o “esperado quando inesperadamente me deparo com ele”, que sou um obstinado leitor de literatura. Retornar a um texto literário, qualquer que seja o gênero, é refazer o instante que o engendrou dentro de nós, trazer de novo à superfície sensível de nossos sentidos aquela “inesperada novidade”. Tornar a ler um poema é reinaugurá-lo, ainda que esta segunda leitura não esteja distante da primeira senão alguns minutos, ou mesmo segundos. E esta reinauguração não é gratuita: promove-a o delicado instante em que nos deparamos com o inesperado, que, no entanto, nos convence, com sua força, de que o esperávamos há séculos e que até “o procurávamos”. Três ou quatro poemas do novo livro de Georgio Rios me causaram este efeito singular quando o li. Não vou falar da “suposta evolução” do poeta, nem da felicidade que se instala no leitor, ao descobrir o quanto o poeta é encantatório. Esta é uma tarefa muito velha e que prefiro deixar à crítica oficial de poesia do nosso tempo, se é que ela existe e é necessária, afinal de contas o que é o poema senão um objeto para sentir e tão somente sentir? Como nestas duas surpresas:VERDADES
Gosto de tudo que não conheço:
Das cores que não sei
Das fotos que não vi
Dos livros que nunca li
Das coisas que não sei
Dos versos que nunca escrevi.
HOJE É DOMINGO
Esquecer o ofício e o ócio
os orifícios
aquietar os ossos
e lembrar apenas do
óbvio
estamos vivos e
a morte é negócio.
Ambas de GEORGIO RIOS, a quem agradeço por me ter enviado um exemplar do seu Modus operandi (Itabuna: Via Litterarum, 2010).
domingo, 26 de dezembro de 2010
LEITURAS, 8: NOITE DE MATAR UM HOMEM
Os grandes escritores se fazem em surdina, sem alarde. Dispensam outdoor e autopromoção. Vão como madeira no rio. Seguem com seu estilo, seus assuntos, sua verdade. E não fazem senão pôr a linguagem a serviço destes aspectos. Falo do gaúcho Sérgio Faraco e de seu excelente volume de contos de fronteira Noite de matar um homem. Raramente lemos na literatura brasileira atual um livro de contos tão consistente. Um livro que transpira vida e estilo. Um livro com trechos tão reveladores e tão bem fixados, em palavras simples, de seu meio, e que, no entanto, reverberam, de modo que muito depois da leitura os contos continuam a ecoar. No excepcional "O céu não é tão longe" um homem perde a vida por causa de uma mulher e, enquanto agoniza, transitando para o outro lado, reflete: "Não era tão longe o céu. Que lhe cobrasse a vida chica! Ao menos não a perdia na doença, mas por um corpo dourado de mulher e com o recuerdo daquela tarde na tapera". É, aliás, nos contos de base sexual, como a nos sinalizar que é no sexo que a vida começa e é também ali que ela acaba, que o autor resvala a perfeição. Em "Lá no campo", um rapaz se embola com uma moça na escuridão de um velório, ao passo que dois velhos concluem que isso é a vida. Em "Dois guaxos", um rapaz vai embora de casa não porque anseie partir, mas porque é preciso fugir da beleza da irmã, que acabou de se entregar a um "chiru": "Seus olhos se encheram de lágrimas e ele se ajoelhou, aproximou o rosto do ventre da irmã. Um beijo, e o sexo dela tinha um cheiro delicado, profundo". Em "Bugio amarelo", um sujeito encarregado de proteger a esposa de um amigo acaba cedendo a um apelo terrível, em forma de provocação: "Se tu é mesmo amigo dele, tu me come". O resto é vingança, duelo, lenda em Uruguaiana, Itaqui e Barra do Quaraí. Em "Noite de matar um homem", o relato central do livro, espécie de síntese de todos os demais, dois homens encarregados de matar um terceiro o fazem quase sem querer, doendo, sofrendo mais do que sofreu o morto enquanto agonizava. Claro, porque se viver é difícil, matar também não é fácil. Nos demais contos, Faraco conserva-se em sua coerência de estilo e assunto, de experimentações formais e representação do ambiente de fronteira: "Hombre", "Aventura na sombra", "Travessia", "Adeus aos passarinhos" e outros relatos são tanto revelações humanas quanto mergulhos sem limite no ato de viver. Experiência única, esta, de ler o volume Noite de matar um homem, de Sérgio Faraco, pois são contos que reverberam na mente e nos olhos, como facas afiadas num duelo pela honra e pela vida.
sábado, 25 de dezembro de 2010
PONTOS DE ÔNIBUS E DE LEITURA
Se você gosta de ler e não se importa de esperar muito tempo no ponto pelo "ônibus que não chega nunca", o melhor lugar para morar é Paris. Criação da loja sueca IKEA, esta sala de espera nos faz desejar que o ônibus realmente não venha jamais: livros, sofá, abajur, globo terrestre, bibelôs, mapas e quadro de avisos. O prefeito de Salvador, BA, João Henrique, deveria se mirar neste exemplo e reproduzir por aqui apenas 5%. Bastaria. Quem já foi à estação da Lapa, principal terminal rodoviário urbano de Salvador, conferiu que o ambiente mais parece um refúgio de zumbis depois de uma hecatombe nuclear. E para ler, nem as placas que sinalizam as linhas de ônibus e seus itinerários prestam. Algumas nem existem mais, substituídas por borrões de tinta, pintados à mão por um funcionário mal pago e sem estímulo. Mas há quem goste de Salvador assim mesmo: bem pitoresca!
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
LEITURAS, 7: POEMA EM QUADRINHOS
É um consenso se afirmar que o criador da "graphic novel" é o norte-americano Will Eisner (1917-2005). De fato, a primeira publicação neste formato, que poderíamos traduzir como "romance gráfico", foi Um contrato com Deus, em 1978. Todavia (e é certo que qualquer sentido de organização do mundo ou da realidade mostra-se ao fim tão falho quanto a sua ausência), o Poema em quadrinhos (CosacNaify, 2010), do italiano Dino Buzzati (1906-1972), precede a criação de Eisner em quase dez anos e abarca, sem sombra de dúvida, o conceito de "graphic novel" proposto pelo renomado quadrinista norte-americano.Como ocorre com os precursores de Kafka, que só depois de Kafka ganharam importância, e Borges foi mais do que feliz em (re)descobri-los, sem Will Eisner e sua conceituação do romance gráfico, esta importante criação de Buzzati passaria à história como uma simples curiosidade no conjunto da obra de um autor que, nas palavras do editor da CosacNaify, não é nem central nem marginal, sua originalidade está em ter inventado um lugar único para si mesmo, sem êmulos nem epígonos.
Poema em quadrinhos retoma e atualiza o mito de Orfeu e Eurídice. Numa época de supremacia da cultura pop e do rock in roll como um frenesi juvenil, o cantor Orfi desce aos infernos em busca de sua amada Eura, sombra entrevista por trás da vidraça de uma janela. Seu nome, além de uma redução de Eurídice, sugere uma corruptela de "aura": brisa, alento, aragem, sopro, o caldo da poesia e o éter do poeta. É um poema porque cunhado em versos e porque a linguagem se volta para si mesma, mas também é uma narrativa e igualmente uma narrativa gráfica, desenhada pelo próprio punho de Dino Buzzati, que alegava ter mais talento para o desenho e a pintura do que para a literatura, muito embora, por causa do êxito de seus livros, tornou-se para os críticos "um escritor que também desenhava e pintava".
Poema em quadrinhos é maravilhoso! É literatura e é HQ, é pintura e é cinema, os quatro gêneros amalgamados de uma forma tão coesa e criativa, que só podemos acreditar que alguns artistas são, na Terra, a parte humana de Deus. Em 1969, quando o publicou, Buzzati estava sozinho neste norte tão comum hoje em dia entre nós, sem saber que com ele inaugurava um artefato novo, responsável atualmente pela elevação dos quadrinhos ao patamar de obra de arte. Dizia ele, como se precisasse se desculpar da falta cometida junto aos seus críticos e leitores: "Acontece na vida de fazermos coisas de que gostamos sem restrições, coisas que parecem vir de nossas entranhas. Poema em quadrinhos é, para mim, uma destas, como O deserto dos tártaros, como Um amor".
Como conclusão, e porque é quase Natal, no poema de Buzzati nos deparamos com trechos assim:
Vocé se recorda quando, tarde da noite,
diante do portão da sua casa,
a lua se deitando por trás dos telhados de Milão,
o amigo lhe dizia: não é espantoso tudo isto,
a vida o trabalho o dinheiro o sucesso o amor?
Você respondia que sim, sim.
E no fundo de tudo a morte?
Não seria melhor dar um tiro em si mesmo?
Você respondia que sim, sim, não entendia
que esta angústia já era a beleza, a luz,
o sal da vida. (DINO BUZZATI)
A todos os leitores do Não Leia!, especialmente Bípede Falante, Carlos Barbosa, Ianice Gallo, Lidiane Nunes, Mônica Menezes, Patrícia Borges, Renata Belmonte e Wilson Gorj, que gentilmente me escreveram, me desejando um feliz Natal.
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
LEITURAS, 6: CLARA DA NOITE
O traço cômico do espanhol Jordi Bernet se mescla à verve de Carlos Trillo e Eduardo Maicas, numa HQ que confere humor e crítica social ao contidiano de Clara, uma prostituta de rua. Perambulando pelas esquinas de uma grande cidade espanhola (Madri, provavelmente), Clara se envolve comercialmente com os mais estranhos tipos: um anão envergonhado, dois gângsteres rivais, um marido que depois de tantos anos de casado já esqueceu como se faz a coisa, um rapazinho em sua primeira vez, um padre tomado de fraqueza e esquecido de sua condição de celibatário, um professor carente de realidade e cheio de sonhos com suas alunas, um cego que não acha o caminho e até um técnico de futebol que resolve ministrar sexo para seus comandados, que, claro, com as ações de Clara, não tiveram nenhum êxito em campo. As histórias, de duas a três páginas, alternam comicidade, dor, desilusão e melancolia, pois, além de se defender nas ruas, Clara tem de criar seu filho e, como era de se esperar, sofre o preconceito e a intolerância das "mulheres direitas" do bairro onde mora. O tom irônico da série chega ao auge na história em que a protagonista, depois de estuprada por um desconhecido, volta-se para ele e diz, com estoicismo: "Sim, são trezentos... Mais cem pelo material estragado". Quadrinhos de arte de primeiríssima qualidade.
sábado, 18 de dezembro de 2010
MINICONTOS INSPIRADORES
Amanhã, vou ministrar em Itaparica uma oficina de criação de minicontos que tem como base os textos do meu livro Nem mesmo os passarinhos tristes. Mas levarei também minicontos de outros autores que admiro e que partilho aqui com os leitores do Não leia! O primeiro conto, do Wilson Gorj, não tem título, e o de Dalton Trevisan é o número 11 de um total de 111, que ele chama de "ais".Cansado de tirar o filho da cadeia, o pai comprometeu-se, de uma vez por todas, em pôr aquele delinquente na linha!
O maquinista não viu o corpo amarrado nos trilhos.
WILSON GORJ: Sem contos longos
LEMBRANÇAS DE VIAGEM
Ele não se lembra bem como aconteceu.
Perdeu o controle do carro e saiu da estrada.
Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, o carro e ele tocaram árvores, uma depois da outra, até se quedarem, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio corpo ― não podia se mexer, não podia falar. Depois o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas.
Disso ele se lembra bem.
CARLOS BARBOSA: A segunda sombra
11.
― Tua professora ligou. De castigo, você. Beijando na boca os meninos. Que feio, meu filho. Não é assim que se faz.
― ...
― Menino beija menina.
― Você é gozada, cara.
― ...
― Pensa que elas deixam?
DALTON TREVISAN: 111 ais
SNAP
Algo instintivo, intestinal, me levou a empunhar esta arma, agora apontada para a sua cabeça. Você tem filhos, sim, eu nunca os tive. Explosão seca de metal incandescente.
PATRICK BROCK: Textorama
O REENCONTRO
Um homem que o Sr. K. não via há muito o saudou com as palavras: “O senhor não mudou nada”. “Oh!”, fez o Sr. K., empalidecendo.
BERTOLT BRECHT: Histórias do Sr. Keuner
MAU NEGÓCIO
Começaram a tirar o pelo do porco para depois o comerem. Mesmo antes de morrer o animal murmurou: Eu-não-sou-um-porco-sou-um-homem. O casal ajoelhou-se e pôs-se a chorar.
― Este porco fala. Como seria rentável!
GONÇALO M. TAVARES: O senhor Brecht
O MILAGRE DOS COPOS
1
Tarde da noite, no bar quase vazio, dois amigos conversam.
― Pois é isso: eu e sua mulher nos amamos.
Susto. Incredulidade. Depois:
― E vocês, vocês...?
2
O garçom a recolher os cacos.
OS FUNERAIS
Foi somente quando se deu conta de que não podia mais ser pai e já não era mais filho que ele foi feliz.
MOMENTO
Tarde... Nenhuma vontade, nenhum sonho... O dia acabando, o sol morrendo... Eu também morrendo. A última cena de Encontros e desencontros me passando por dentro...
MAYRANT GALLO: Nem mesmo os passarinhos tristes
HISTÓRIA EDIFICANTE
Era uma vez duas pulguinhas que passaram a vida inteira economizando e compraram um cachorro só para elas.
MÁRIO QUINTANA: Porta giratória
IMAGEM: cena do filme Rumble fish (1983), de Francis Ford Coppola
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
MARIO MONICELLI
O cineasta italiano Mario Monicelli morreu nesta segunda-feira, aos 95 anos, depois de fazer o mundo inteiro rir, ainda que fosse com amargor, como em Parente é serpente (2006), a mais terrível história de Natal já filmada, ou com melancolia, como em Os eternos desconhecidos (1958), que retrata as ações de uma pífia e malfadada quadrilha de ladrões. Seus filmes, especialmente os dois citados, mostram as pessoas como elas são: humanas, fracas, vulneráveis e comicamente condenadas ao fracasso. No desfecho de Os eternos desconhecidos, depois que a quadrilha se arruína na tentativa de assaltar uma loja de penhores, um dos bandidos decide se tornar operário: trabalhar o dia inteiro por um salário miserável. Humor e dor. Riso e melancolia. Uma retrospectiva de Monicelli seria fundamental agora, para mostrar a muitos diretores de cinema que o verdadeiro humor não se caracteriza por queda em piscina ou torta na cara, nem, por outro lado, por piadas pseudointeligentes, em pastiches de Woody Allen, que, aliás, faz uma bela homenagem a Monicelli, em Trapaceiros, um de seus filmes mais populares e literalmente inspirado em Os eternos desconhecidos. Monicelli junta-se agora a Fellini, Antonioni, Zurlini, Pasolini e Risi, formando no lado escuro da vida um sexteto irreverente.
sábado, 20 de novembro de 2010
LINDAS CAPAS, 3
Vai longe o tempo em que um livro de literatura se vendia e circulava só pelo seu conteúdo. Claro que isso ainda ocorre, nos casos dos escritores que ou se inscreveram definitivamente na história da literatura, pelo seu valor estético ou de assunto (Kafka, Faulkner, Camus, Buzzati, Bandeira) ou que, além disso, foram incorporados à cultura (Pessoa, Salinger, Neruda, Calvino, Borges). Mas, com a multiplicação do número de autores, uma capa atraente é fundamental, como esta, do volume de poemas de Kátia Borges, uma das mais autênticas vozes da poesia contemporânea na Bahia. É uma capa de observador curioso, de voyeur urbano que em cada janela acesa, de prédios ou de ônibus, vê um mundo. Uma capa que nos coloca dentro de um veículo que passa, de um livro que, seduzidos, logo abrimos, a esmo, para nos depararmos com versos assim:DESERTO
Eu te asseguro que nunca estive só,
mesmo quando o mundo
inteiro pousou seu peso
sobre o meu ombro. E muito
menos quando o vento
arremessou a vida, como uma
carícia violenta, em meu rosto.
Belo poema, linda capa! Uma combinação perfeita de cores e palavras, que a fotografia da falecida escritora Maria Guimarães Sampaio, com sua lente sensível ao mistério, certamente inspirou. Aliás, a capa é toda esta foto!
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
LIVROS A MANCHEIAS
Entre 29 de novembro e 3 de dezembro, das 8:30 às 17:30, a Editora da Universidade Federal da Bahia promoverá a "Feira de Livros da EDUFBA". O evento já acontece há alguns anos, nas duas livrarias da universidade, nos campi de Ondina e do Canela. Os livros terão descontos de até 50%.Compareça e antecipe seus presentes de Natal! Seus amigos e parentes vão adorar. Você também!
Livraria 1: R. Augusto Viana, s/n, estacionamento da reitoria, Campus do Canela
Livraria 2: R. Barão de Jeremoabo, s/n, Biblioteca Reitor Macedo Costa, Campus de Ondina
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
LEITURAS, 5: SÉRGIO FARACO
Aos setenta anos, o gaúcho Sérgio Faraco é um dos melhores e mais importantes escritores brasileiros da atualidade. Sua escrita abrange o conto, a crônica, o ensaio e também livros históricos, como o originalíssimo O crepúsculo da arrogância, que narra o naufrágio do Titanic minuto a minuto, desde sua festejada partida do cais na Europa, para a sua fatídica viagem, até seu último suspiro nas águas geladas do Atlântico. No conto, gênero em que Faraco é um mestre indubitável, sua produção, embora vasta, concentra-se primorosamente em quatro livros, que nenhum leitor sério da literatura brasileira pode deixar de conhecer: Contos completos (2004), Dançar tango em Porto Alegre (1998, antologia em formato de bolso que ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras, em 1999), Noite de matar um homem: contos de fronteira (segunda edição ampliada, 2008) e Doce paraíso (também em segunda edição ampliada, 2008). Neste último, visando à conquista do leitor jovem, o autor reuniu 18 relatos de iniciação: contos cujos personagens são garotos e garotas em "aventuras" decisivas para a sua formação existencial. As dúvidas comuns à primeira idade, o amor, a sexualidade, os sonhos, os medos, os enigmas familiares, todos esses temas comparecem aos contos em linguagem direta, descarnada de excessos e, ao mesmo tempo, eloquente, em seu ciframento e sua amplitude. Cinco ou seis constituem obras-primas indiscutíveis e que nos remetem imediatamente ao que Anton Tchekov e Machado de Assis de melhor escreveram, nesta difícil e sedutora arte do conto, gênero que pretende dizer o máximo com o mínimo de palavras e inscrever-se na eternidade como uma espécie de esboço de uma obra maior que, no entanto, paradoxalmente, não pode existir senão como esboço. Os contos "Verdes canas de agosto", "Três segredos", "Guerras greco-pérsicas", "Quatro gringos na restinga", "Majestic Hotel" e "Doce paraíso" atingem esse patamar de fruto proibido que não se esgota, de luz afetuosa que não se apaga. Um livro que o leitor iniciante não vai esquecer, e que o experiente sempre irá revisitar.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
LEITURA DE BOLSO, 1: O ESTRANGEIRO
Uma excelente opção de bolso é a recém-lançada edição de O estrangeiro, de Albert Camus, pela coleção Best Bolso, da editora Record. Publicado em 1942, na França, este é o mais célebre romance do escritor franco-argelino e um dos dez melhores romances escritos no Ocidente na primeira metade do século XX, ombreando-se, apesar das poucas mais de 100 páginas, com obras como Ulisses, O som e a fúria, Em busca do tempo perdido, O processo, O castelo, Cem anos de solidão, Grande sertão: veredas, O mestre e Margarida, A náusea, O deserto dos tártaros, Pedro Páramo, Passeio ao farol, A colmeia e alguns poucos outros. O curioso é que, não obstante o tom "existencialista" e sua prosa vazada de poesia, com descrições visuais e sinestésicas, este é um relato que se lê com o mesmo interesse e fervor com que se mergulha num romance policial. Aliás, em certo sentido, O estrangeiro é um romance policial. Camus era um admirador do gênero, e reza a lenda de que ele se inspirou a escrevê-lo depois da leitura de O destino bate à sua porta, de James M. Cain, sem dúvida um clássico que não perde vigor, mesmo depois de mais de 70 anos de sua publicação. Com O estrangeiro não é diferente, basta abrir o livro e se deixar envolver por suas palavras, de sonho e rebeldia: "Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem". Essa dúvida inicial é somente o princípio de uma dúvida maior, que vai fazer do protagonista um joguete do destino. Aproveite o verão que se aproxima e leve para ler na praia. Se o mar carregar seu livro, o prejuízo não será grande e você poderá comprar outro: só R$12,90.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
VÁ E VEJA, 12: IMITAÇÃO DA VIDA
Finalmente disponível em DVD, Imitação da vida (1959), de Douglas Sirk. O assunto deste filme são muitos: família, preconceito, racismo e choque de gerações. Com sua habitual frieza e realismo ao abordar temas fortes, Douglas Sirk mostra o quanto o racismo faz doer e obriga que as pessoas sofram e sejam quem elas não são. Annie é negra e teve uma filha (Sarah Jane) com um branco. A menina despreza a mãe, pois entende, desde cedo, que não pode se permitir ser negra (ou filha de uma negra) num mundo onde "ser de cor" é quase uma ofensa. As duas vão morar na casa de Lora, atriz branca cuja carreira no teatro começa a decolar, e sua filha, Susie. Na estrutura familiar, Anne passa a ocupar os espaços tanto de mãe quanto de empregada doméstica e governanta. Formam então uma família "estranha", sem a figura masculina e com duas mulheres destituídas do olhar comum do preconceito e do racismo. Nem Lora lembra que Anne é negra, nem esta a faz recordar que ambas são, na cor da pele, tão diferentes. Elas são mulheres sem homens e com duas filhas para criar num mundo de competição e intolerância, isto é tudo. Tal condição exige que se ajudem mutuamente, cada uma exercendo a função que a sociedade previamente lhes reservou. E suas filhas, à parte, vão vivendo com se fossem irmãs. Com o passar dos anos, novos problemas, especialmente com Sarah Jane, que tenta a todo custo escapar da mãe, deixar de ser "a filha de uma mulher negra". É então que o espectador sente a dor mais aguda e brutal, a dor do desprezo absoluto, do abandono, da traição, e compreende como a sociedade, com seu sentido gregário e sua propensão à intolerância ao "outro", faz mal ao indivíduo e também à vida. A sequência final, em que negros e brancos dividem um mesmo espaço público, entrou para a história do cinema, por sua metáfora da igualdade entre as pessoas. E poucos chegam aquele ponto sem derramar lágrimas (e não poderia ser diferente, uma vez que o tema musical que emoldura a cena é um lamento de dor, na voz rasgada de Mahalia Jackson). Um filme que, longe de imitar a vida, a reproduz no que ela tem de pior (o preconceito) e de melhor (a esperança).quarta-feira, 10 de novembro de 2010
PORTAL FAHRENHEIT
Está chegando a Portal Fahrenheit, a última das revistas de science fiction organizadas pelo Nelson de Oliveira. O lançamento será em dezembro. Ao fazer o balanço de todas as edições, o Nelson assim resumiu o projeto Portal:6 edições (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit)
798 páginas
44 autores
129 contos (50 curtos, de até 3 páginas, e 79 longos)
2.450 exemplares distribuídos
Autores (até duas revistas):
Abilio Godoy
Ana Cristina Rodrigues
Braulio Tavares
Bruno Cobbi
Carlos Emílio C. Lima
Carlos Ribeiro
Claudio Brites
Claudio Parreira
Daniel Fresnot
Danny Marks
Delfin
Fábio Fernandes
Georgette Silen
Geraldo Lima
Giulia Moon
Homero Gomes
Ivan Hegenberg
Izilda Bichara
J. P. Balbino
Jacques Barcia
Laura Fuentes
Leandro Leite Leocadio
Lima Trindade
Luiz Roberto Guedes
Marcelo L. Bighetti
Márcia Olivieri
Martha Argel
Petê Rissatti
Richard Diegues
Roberto Melfra
Sérgio Tavares
Sid Castro
Autores mais frequentes (em três revistas ou mais):
Ataíde Tartari
Brontops Baruq
Luiz Bras
Marco Antônio de Araújo Bueno
Maria Helena Bandeira
Mayrant Gallo
Mustafá Ali Kanso
Ricardo Delfin
Roberto de Sousa Causo
Rodrigo Novaes de Almeida
Rogers Silva
Tiago Araújo
A Portal Fahrenheit será a mais extensa de todas, 160 páginas, com a participação de 21 autores.
domingo, 7 de novembro de 2010
LEITURAS, 4: AU-AU
Au-Au: três contos de cão é o terceiro volume da Coleção 3 Contos, da pequena mas criteriosa editora Dantes, do RJ. Enfeixados junto ao colosso da literatura inglesa Rudyard Kipling, aparecem o carioca João do Rio e o baiano Dias da Costa. Este último, sem dúvida, é o mais esquecido. Nascido em 1907, no Largo da Piedade, aqui pertinho, pois estou nos Barris, Dias da Costa publicou dois volumes de contos: Canção do beco (1939) e Mirante dos Aflitos (1960). Ele comparece ao volume da Dantes com o conto O cachorro Au-Au e outros cachorros, de seu primeiro livro. O conto de João do Rio é Os cães e o de Kipling (o mais sofisticado dos três, repleto de reflexões e sutilezas psicológicas), Garm, um refém. Nos três relatos o cachorro é o centro da narrativa: ou porque sofreu um deslocamento (mudança de dono ou casa) ou porque infesta o ambiente, caso específico do conto de Dias da Costa, cuja trama se desenvolve num beco cheio de cães. Nestes contos, muito ficamos sabendo dos cães, mas igualmente dos homens. Em Kipling, compreendemos que a ausência é um sentimento que pertuba as duas espécies e faz sofrer; no de Dias da Costa, cão e Homem chegam a uma mesma solução para um problema cotidiano, que é o da interferência do "outro", e no de João do Rio, que o amor (ou desejo, como queiram chamar) é universal, comum a todas as espécies. Mais que sobre cães (ou pessoas), estes são relatos sobre a essência do ser vivo, ou da própria vida.No final do volume, a editora dedica o livro a vários cães famosos, entre os quais Baleia, Pluto, Buck, Lassie e Bidu, mas esquece o Snoopy, talvez o mais célebre de todos.
sábado, 6 de novembro de 2010
LEITURAS, 3: BERNHARD SCHLINK
O limite do mistério familiar ou é a ignorância ou o silêncio. Tal dilema enche de dúvidas e de inadaptação a vida do jovem protagonista da bela novelinha A menina com a lagartixa, de Bernhard Schlink, autor do célebre O leitor (curiosamente este livro, lançado no Brasil pela Nova Fronteira, em cuidadosa edição no final da década de 1990, não teve eco, e seria preciso que a Record o relançasse no vácuo do filme norte-americano, para que o livro pudesse ser apreciado por uma camada maior de leitores, e os demais livros do autor chegassem aqui). Com A menina com a lagartixa não há esta facilidade proporcionada pelo cinema: ou os leitores arriscam, como fiz com a primeira edição de O leitor, que li e indiquei para muitos amigos, apesar de que bem poucos o leram naquela ocasião, ou simplesmente seguem alheios a um excelente texto, que vejo como uma metáfora do próprio mistério da existência. Um garoto passa a infância a admirar um quadro de seu pai: A menina com a lagartixa. Nada lhe é dito a respeito do quadro, que, no entanto, é comprovadamente a única fortuna da família, protegido de tudo e de todos por seu pai. Este morre repentinamente, quando o protagonista, já adulto, está fora, na universidade, e sua mãe se recusa a ficar com o quadro. O rapaz o leva para seu quarto de pensão, como um troféu e um bem familiar, e tudo faz para saber que obra é aquela, quem a pintou e por quê, e em que circunstâncias: o contexto artístico e político que a gerou. Suas pesquisas revelam que na base do quadro está a Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, o Nazismo. A ferida. Talvez por isso seu pai se calou. Ou talvez por outra coisa, mais sutil e terrível. Qual o segredo? Límpido, exato, poético e simbólico, este relato é a um só tempo expurgo e alívio. Ao fim, o protagonista como que se descarta de uma camisa suada e veste outra limpa, para o resto de seus dias.
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