Muitos livros, leitura e literatura para todos nós!Cartão: de autoria de A. Café-Gallo (2010).
Vivemos hoje um frenesi pela literatura fantástica, muito embora tal interesse fique restrito quase que exclusivamente às histórias de vampiros e de fantasmas. O fantástico mais sutil e irônico, de Borges, Rulfo, Buzzati, Fuentes, Machado de Assis, Tchekov, Maupassant, Edgard Allan Poe, Oscar Wilde, Gauthier, Kafka, Murilo Rubião, J. J. Veiga e Victor Giudice, permanece cativo de uma fatia específica de leitores, talvez mais refinados. Há ainda os autores esquecidos ou em via de completo desaparecimento, como Saki e W. W. Jacobs, autor do célebre conto A pata do macaco. Seria proveitoso para os leitores mais jovens se uma editora brasileira criasse uma coleção de literatura fantástica que resgatasse esses autores em antologias ou reedições populares, em formato bolso, de algumas de suas principais obras no gênero. Isso já foi feito no Brasil, sem muito êxito ou êxito moderado, e em Portugal, com sucesso. Em solo luso, a Editora Estampa incluiu na coleção Livro B um elenco fortíssimo de autores fantásticos, entre os quais Charles Nodier, Léon Bloy, Ambrose Bierce, Jean Potocki, Nerval, Lovecraft, Balzac, Gauthier, Henry James, Horace Walpole, Fitz James O'Brien, Remy de Gourmont, Marcel Schwob, Hoffmann e Paul Féval. Dos anos 1990 para cá, no Brasil, afora as antologias, das quais a mais popular é a de Flávio Moreira da Costa, Os melhores contos fantásticos (Nova Fronteira, 2006), e a mais criativa a de Bráulio Tavares, Contos fantásticos no labirinto de Borges (Casa da Palavra, 2005), tivemos algumas tentativas mal sucedidas de coleções do gênero. Uma das mais importantes foi a da editora paulista Marco Zero. Em 1994, seus editores projetaram e trouxeram a público a Coleção Mistério. Foram programados cinco títulos, mas acredito que o volume Monsieur Maurice, de Amelia B. Edwards, não chegou a ser publicado, pois jamais o encontrei, nem conheço ninguém que o tenha lido ou o possua. A coleção iniciou-se com O amante fantasma, de Vernon Lee, seguindo-se A casa desabitada, de J. H. Riddell, O fantasma dos Guirs, de Charles Willing Beale, e A bruxa âmbar, de Wilhelm Meinhold, que tem uma história curiosa: tornou-se um livro maldito, porque, uma vez que forjava na sua estrutura um documento histórico do século XII, não foi aceito como ficção, mas como verdade, tanto pelos leitores quanto pela Igreja, que o repudiou. Percebe-se que a coleção enfatizava os tradicionais relatos de fantasma, mas pretendia migrar para outros campos do fantástico, pois, de súbito, desviou-se para a bruxaria com o livro de Meinhold. Outra evidência é o questionário que a editora colocou no volume de Beale, para que o leitor preenchesse e postasse. A questão 7 diz: "A coleção tem cinco livros previstos. Você gostaria que tivesse mais?" Pelo ocorrido, bem poucos se manifestaram favoravelmente, e a coleção gorou.
Os editores Ana Mello e Marcelo Spalding, também "minicontistas", deram generosamente destaque na Veredas de dezembro aos meus minicontos publicados em Nem mesmo os passarinhos tristes (Rio de Janeiro: Multifoco, 2010). Entrei lá para conferir e agradecer e, para o meu contentamento, li muita coisa boa no gênero miniconto, de autores como: Ana Mello (uma moderna historieta de Natal), Wilson Gorj (a eficiente ironia de sempre), Chico Pascoal (que tem um blogue ótimo: Microrrelatos do Cheeko), Eduardo Cama, Carlos Tijolo e Maria Regina Caetano Soares. Conheçam a Veredas, revista de minicontos e micronarrativas. Além dos textos destes gêneros, publica artigos, livros no formato E-BOOK e aceita colaborações. O link: http://www.veredas.art.br.
Não sei ao certo o que espero de um poema quando o leio. Como não sei o que encontrarei num conto ou num romance, num filme ou numa peça teatral. Se não fosse assim, eu não diferiria em nada de um simples leitor de revistas e jornais ou de um assíduo espectador de programas de tevê. E é porque só me deparo com o “esperado quando inesperadamente me deparo com ele”, que sou um obstinado leitor de literatura. Retornar a um texto literário, qualquer que seja o gênero, é refazer o instante que o engendrou dentro de nós, trazer de novo à superfície sensível de nossos sentidos aquela “inesperada novidade”. Tornar a ler um poema é reinaugurá-lo, ainda que esta segunda leitura não esteja distante da primeira senão alguns minutos, ou mesmo segundos. E esta reinauguração não é gratuita: promove-a o delicado instante em que nos deparamos com o inesperado, que, no entanto, nos convence, com sua força, de que o esperávamos há séculos e que até “o procurávamos”. Três ou quatro poemas do novo livro de Georgio Rios me causaram este efeito singular quando o li. Não vou falar da “suposta evolução” do poeta, nem da felicidade que se instala no leitor, ao descobrir o quanto o poeta é encantatório. Esta é uma tarefa muito velha e que prefiro deixar à crítica oficial de poesia do nosso tempo, se é que ela existe e é necessária, afinal de contas o que é o poema senão um objeto para sentir e tão somente sentir? Como nestas duas surpresas:
Os grandes escritores se fazem em surdina, sem alarde. Dispensam outdoor e autopromoção. Vão como madeira no rio. Seguem com seu estilo, seus assuntos, sua verdade. E não fazem senão pôr a linguagem a serviço destes aspectos. Falo do gaúcho Sérgio Faraco e de seu excelente volume de contos de fronteira Noite de matar um homem. Raramente lemos na literatura brasileira atual um livro de contos tão consistente. Um livro que transpira vida e estilo. Um livro com trechos tão reveladores e tão bem fixados, em palavras simples, de seu meio, e que, no entanto, reverberam, de modo que muito depois da leitura os contos continuam a ecoar. No excepcional "O céu não é tão longe" um homem perde a vida por causa de uma mulher e, enquanto agoniza, transitando para o outro lado, reflete: "Não era tão longe o céu. Que lhe cobrasse a vida chica! Ao menos não a perdia na doença, mas por um corpo dourado de mulher e com o recuerdo daquela tarde na tapera". É, aliás, nos contos de base sexual, como a nos sinalizar que é no sexo que a vida começa e é também ali que ela acaba, que o autor resvala a perfeição. Em "Lá no campo", um rapaz se embola com uma moça na escuridão de um velório, ao passo que dois velhos concluem que isso é a vida. Em "Dois guaxos", um rapaz vai embora de casa não porque anseie partir, mas porque é preciso fugir da beleza da irmã, que acabou de se entregar a um "chiru": "Seus olhos se encheram de lágrimas e ele se ajoelhou, aproximou o rosto do ventre da irmã. Um beijo, e o sexo dela tinha um cheiro delicado, profundo". Em "Bugio amarelo", um sujeito encarregado de proteger a esposa de um amigo acaba cedendo a um apelo terrível, em forma de provocação: "Se tu é mesmo amigo dele, tu me come". O resto é vingança, duelo, lenda em Uruguaiana, Itaqui e Barra do Quaraí. Em "Noite de matar um homem", o relato central do livro, espécie de síntese de todos os demais, dois homens encarregados de matar um terceiro o fazem quase sem querer, doendo, sofrendo mais do que sofreu o morto enquanto agonizava. Claro, porque se viver é difícil, matar também não é fácil. Nos demais contos, Faraco conserva-se em sua coerência de estilo e assunto, de experimentações formais e representação do ambiente de fronteira: "Hombre", "Aventura na sombra", "Travessia", "Adeus aos passarinhos" e outros relatos são tanto revelações humanas quanto mergulhos sem limite no ato de viver. Experiência única, esta, de ler o volume Noite de matar um homem, de Sérgio Faraco, pois são contos que reverberam na mente e nos olhos, como facas afiadas num duelo pela honra e pela vida.
Se você gosta de ler e não se importa de esperar muito tempo no ponto pelo "ônibus que não chega nunca", o melhor lugar para morar é Paris. Criação da loja sueca IKEA, esta sala de espera nos faz desejar que o ônibus realmente não venha jamais: livros, sofá, abajur, globo terrestre, bibelôs, mapas e quadro de avisos. O prefeito de Salvador, BA, João Henrique, deveria se mirar neste exemplo e reproduzir por aqui apenas 5%. Bastaria. Quem já foi à estação da Lapa, principal terminal rodoviário urbano de Salvador, conferiu que o ambiente mais parece um refúgio de zumbis depois de uma hecatombe nuclear. E para ler, nem as placas que sinalizam as linhas de ônibus e seus itinerários prestam. Algumas nem existem mais, substituídas por borrões de tinta, pintados à mão por um funcionário mal pago e sem estímulo. Mas há quem goste de Salvador assim mesmo: bem pitoresca!
É um consenso se afirmar que o criador da "graphic novel" é o norte-americano Will Eisner (1917-2005). De fato, a primeira publicação neste formato, que poderíamos traduzir como "romance gráfico", foi Um contrato com Deus, em 1978. Todavia (e é certo que qualquer sentido de organização do mundo ou da realidade mostra-se ao fim tão falho quanto a sua ausência), o Poema em quadrinhos (CosacNaify, 2010), do italiano Dino Buzzati (1906-1972), precede a criação de Eisner em quase dez anos e abarca, sem sombra de dúvida, o conceito de "graphic novel" proposto pelo renomado quadrinista norte-americano.
O traço cômico do espanhol Jordi Bernet se mescla à verve de Carlos Trillo e Eduardo Maicas, numa HQ que confere humor e crítica social ao contidiano de Clara, uma prostituta de rua. Perambulando pelas esquinas de uma grande cidade espanhola (Madri, provavelmente), Clara se envolve comercialmente com os mais estranhos tipos: um anão envergonhado, dois gângsteres rivais, um marido que depois de tantos anos de casado já esqueceu como se faz a coisa, um rapazinho em sua primeira vez, um padre tomado de fraqueza e esquecido de sua condição de celibatário, um professor carente de realidade e cheio de sonhos com suas alunas, um cego que não acha o caminho e até um técnico de futebol que resolve ministrar sexo para seus comandados, que, claro, com as ações de Clara, não tiveram nenhum êxito em campo. As histórias, de duas a três páginas, alternam comicidade, dor, desilusão e melancolia, pois, além de se defender nas ruas, Clara tem de criar seu filho e, como era de se esperar, sofre o preconceito e a intolerância das "mulheres direitas" do bairro onde mora. O tom irônico da série chega ao auge na história em que a protagonista, depois de estuprada por um desconhecido, volta-se para ele e diz, com estoicismo: "Sim, são trezentos... Mais cem pelo material estragado". Quadrinhos de arte de primeiríssima qualidade.
Amanhã, vou ministrar em Itaparica uma oficina de criação de minicontos que tem como base os textos do meu livro Nem mesmo os passarinhos tristes. Mas levarei também minicontos de outros autores que admiro e que partilho aqui com os leitores do Não leia! O primeiro conto, do Wilson Gorj, não tem título, e o de Dalton Trevisan é o número 11 de um total de 111, que ele chama de "ais".
O cineasta italiano Mario Monicelli morreu nesta segunda-feira, aos 95 anos, depois de fazer o mundo inteiro rir, ainda que fosse com amargor, como em Parente é serpente (2006), a mais terrível história de Natal já filmada, ou com melancolia, como em Os eternos desconhecidos (1958), que retrata as ações de uma pífia e malfadada quadrilha de ladrões. Seus filmes, especialmente os dois citados, mostram as pessoas como elas são: humanas, fracas, vulneráveis e comicamente condenadas ao fracasso. No desfecho de Os eternos desconhecidos, depois que a quadrilha se arruína na tentativa de assaltar uma loja de penhores, um dos bandidos decide se tornar operário: trabalhar o dia inteiro por um salário miserável. Humor e dor. Riso e melancolia. Uma retrospectiva de Monicelli seria fundamental agora, para mostrar a muitos diretores de cinema que o verdadeiro humor não se caracteriza por queda em piscina ou torta na cara, nem, por outro lado, por piadas pseudointeligentes, em pastiches de Woody Allen, que, aliás, faz uma bela homenagem a Monicelli, em Trapaceiros, um de seus filmes mais populares e literalmente inspirado em Os eternos desconhecidos. Monicelli junta-se agora a Fellini, Antonioni, Zurlini, Pasolini e Risi, formando no lado escuro da vida um sexteto irreverente.
Vai longe o tempo em que um livro de literatura se vendia e circulava só pelo seu conteúdo. Claro que isso ainda ocorre, nos casos dos escritores que ou se inscreveram definitivamente na história da literatura, pelo seu valor estético ou de assunto (Kafka, Faulkner, Camus, Buzzati, Bandeira) ou que, além disso, foram incorporados à cultura (Pessoa, Salinger, Neruda, Calvino, Borges). Mas, com a multiplicação do número de autores, uma capa atraente é fundamental, como esta, do volume de poemas de Kátia Borges, uma das mais autênticas vozes da poesia contemporânea na Bahia. É uma capa de observador curioso, de voyeur urbano que em cada janela acesa, de prédios ou de ônibus, vê um mundo. Uma capa que nos coloca dentro de um veículo que passa, de um livro que, seduzidos, logo abrimos, a esmo, para nos depararmos com versos assim:
Entre 29 de novembro e 3 de dezembro, das 8:30 às 17:30, a Editora da Universidade Federal da Bahia promoverá a "Feira de Livros da EDUFBA". O evento já acontece há alguns anos, nas duas livrarias da universidade, nos campi de Ondina e do Canela. Os livros terão descontos de até 50%.
Aos setenta anos, o gaúcho Sérgio Faraco é um dos melhores e mais importantes escritores brasileiros da atualidade. Sua escrita abrange o conto, a crônica, o ensaio e também livros históricos, como o originalíssimo O crepúsculo da arrogância, que narra o naufrágio do Titanic minuto a minuto, desde sua festejada partida do cais na Europa, para a sua fatídica viagem, até seu último suspiro nas águas geladas do Atlântico. No conto, gênero em que Faraco é um mestre indubitável, sua produção, embora vasta, concentra-se primorosamente em quatro livros, que nenhum leitor sério da literatura brasileira pode deixar de conhecer: Contos completos (2004), Dançar tango em Porto Alegre (1998, antologia em formato de bolso que ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras, em 1999), Noite de matar um homem: contos de fronteira (segunda edição ampliada, 2008) e Doce paraíso (também em segunda edição ampliada, 2008). Neste último, visando à conquista do leitor jovem, o autor reuniu 18 relatos de iniciação: contos cujos personagens são garotos e garotas em "aventuras" decisivas para a sua formação existencial. As dúvidas comuns à primeira idade, o amor, a sexualidade, os sonhos, os medos, os enigmas familiares, todos esses temas comparecem aos contos em linguagem direta, descarnada de excessos e, ao mesmo tempo, eloquente, em seu ciframento e sua amplitude. Cinco ou seis constituem obras-primas indiscutíveis e que nos remetem imediatamente ao que Anton Tchekov e Machado de Assis de melhor escreveram, nesta difícil e sedutora arte do conto, gênero que pretende dizer o máximo com o mínimo de palavras e inscrever-se na eternidade como uma espécie de esboço de uma obra maior que, no entanto, paradoxalmente, não pode existir senão como esboço. Os contos "Verdes canas de agosto", "Três segredos", "Guerras greco-pérsicas", "Quatro gringos na restinga", "Majestic Hotel" e "Doce paraíso" atingem esse patamar de fruto proibido que não se esgota, de luz afetuosa que não se apaga. Um livro que o leitor iniciante não vai esquecer, e que o experiente sempre irá revisitar.
Uma excelente opção de bolso é a recém-lançada edição de O estrangeiro, de Albert Camus, pela coleção Best Bolso, da editora Record. Publicado em 1942, na França, este é o mais célebre romance do escritor franco-argelino e um dos dez melhores romances escritos no Ocidente na primeira metade do século XX, ombreando-se, apesar das poucas mais de 100 páginas, com obras como Ulisses, O som e a fúria, Em busca do tempo perdido, O processo, O castelo, Cem anos de solidão, Grande sertão: veredas, O mestre e Margarida, A náusea, O deserto dos tártaros, Pedro Páramo, Passeio ao farol, A colmeia e alguns poucos outros. O curioso é que, não obstante o tom "existencialista" e sua prosa vazada de poesia, com descrições visuais e sinestésicas, este é um relato que se lê com o mesmo interesse e fervor com que se mergulha num romance policial. Aliás, em certo sentido, O estrangeiro é um romance policial. Camus era um admirador do gênero, e reza a lenda de que ele se inspirou a escrevê-lo depois da leitura de O destino bate à sua porta, de James M. Cain, sem dúvida um clássico que não perde vigor, mesmo depois de mais de 70 anos de sua publicação. Com O estrangeiro não é diferente, basta abrir o livro e se deixar envolver por suas palavras, de sonho e rebeldia: "Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem". Essa dúvida inicial é somente o princípio de uma dúvida maior, que vai fazer do protagonista um joguete do destino. Aproveite o verão que se aproxima e leve para ler na praia. Se o mar carregar seu livro, o prejuízo não será grande e você poderá comprar outro: só R$12,90.
Finalmente disponível em DVD, Imitação da vida (1959), de Douglas Sirk. O assunto deste filme são muitos: família, preconceito, racismo e choque de gerações. Com sua habitual frieza e realismo ao abordar temas fortes, Douglas Sirk mostra o quanto o racismo faz doer e obriga que as pessoas sofram e sejam quem elas não são. Annie é negra e teve uma filha (Sarah Jane) com um branco. A menina despreza a mãe, pois entende, desde cedo, que não pode se permitir ser negra (ou filha de uma negra) num mundo onde "ser de cor" é quase uma ofensa. As duas vão morar na casa de Lora, atriz branca cuja carreira no teatro começa a decolar, e sua filha, Susie. Na estrutura familiar, Anne passa a ocupar os espaços tanto de mãe quanto de empregada doméstica e governanta. Formam então uma família "estranha", sem a figura masculina e com duas mulheres destituídas do olhar comum do preconceito e do racismo. Nem Lora lembra que Anne é negra, nem esta a faz recordar que ambas são, na cor da pele, tão diferentes. Elas são mulheres sem homens e com duas filhas para criar num mundo de competição e intolerância, isto é tudo. Tal condição exige que se ajudem mutuamente, cada uma exercendo a função que a sociedade previamente lhes reservou. E suas filhas, à parte, vão vivendo com se fossem irmãs. Com o passar dos anos, novos problemas, especialmente com Sarah Jane, que tenta a todo custo escapar da mãe, deixar de ser "a filha de uma mulher negra". É então que o espectador sente a dor mais aguda e brutal, a dor do desprezo absoluto, do abandono, da traição, e compreende como a sociedade, com seu sentido gregário e sua propensão à intolerância ao "outro", faz mal ao indivíduo e também à vida. A sequência final, em que negros e brancos dividem um mesmo espaço público, entrou para a história do cinema, por sua metáfora da igualdade entre as pessoas. E poucos chegam aquele ponto sem derramar lágrimas (e não poderia ser diferente, uma vez que o tema musical que emoldura a cena é um lamento de dor, na voz rasgada de Mahalia Jackson). Um filme que, longe de imitar a vida, a reproduz no que ela tem de pior (o preconceito) e de melhor (a esperança).
Está chegando a Portal Fahrenheit, a última das revistas de science fiction organizadas pelo Nelson de Oliveira. O lançamento será em dezembro. Ao fazer o balanço de todas as edições, o Nelson assim resumiu o projeto Portal:
Au-Au: três contos de cão é o terceiro volume da Coleção 3 Contos, da pequena mas criteriosa editora Dantes, do RJ. Enfeixados junto ao colosso da literatura inglesa Rudyard Kipling, aparecem o carioca João do Rio e o baiano Dias da Costa. Este último, sem dúvida, é o mais esquecido. Nascido em 1907, no Largo da Piedade, aqui pertinho, pois estou nos Barris, Dias da Costa publicou dois volumes de contos: Canção do beco (1939) e Mirante dos Aflitos (1960). Ele comparece ao volume da Dantes com o conto O cachorro Au-Au e outros cachorros, de seu primeiro livro. O conto de João do Rio é Os cães e o de Kipling (o mais sofisticado dos três, repleto de reflexões e sutilezas psicológicas), Garm, um refém. Nos três relatos o cachorro é o centro da narrativa: ou porque sofreu um deslocamento (mudança de dono ou casa) ou porque infesta o ambiente, caso específico do conto de Dias da Costa, cuja trama se desenvolve num beco cheio de cães. Nestes contos, muito ficamos sabendo dos cães, mas igualmente dos homens. Em Kipling, compreendemos que a ausência é um sentimento que pertuba as duas espécies e faz sofrer; no de Dias da Costa, cão e Homem chegam a uma mesma solução para um problema cotidiano, que é o da interferência do "outro", e no de João do Rio, que o amor (ou desejo, como queiram chamar) é universal, comum a todas as espécies. Mais que sobre cães (ou pessoas), estes são relatos sobre a essência do ser vivo, ou da própria vida.
O limite do mistério familiar ou é a ignorância ou o silêncio. Tal dilema enche de dúvidas e de inadaptação a vida do jovem protagonista da bela novelinha A menina com a lagartixa, de Bernhard Schlink, autor do célebre O leitor (curiosamente este livro, lançado no Brasil pela Nova Fronteira, em cuidadosa edição no final da década de 1990, não teve eco, e seria preciso que a Record o relançasse no vácuo do filme norte-americano, para que o livro pudesse ser apreciado por uma camada maior de leitores, e os demais livros do autor chegassem aqui). Com A menina com a lagartixa não há esta facilidade proporcionada pelo cinema: ou os leitores arriscam, como fiz com a primeira edição de O leitor, que li e indiquei para muitos amigos, apesar de que bem poucos o leram naquela ocasião, ou simplesmente seguem alheios a um excelente texto, que vejo como uma metáfora do próprio mistério da existência. Um garoto passa a infância a admirar um quadro de seu pai: A menina com a lagartixa. Nada lhe é dito a respeito do quadro, que, no entanto, é comprovadamente a única fortuna da família, protegido de tudo e de todos por seu pai. Este morre repentinamente, quando o protagonista, já adulto, está fora, na universidade, e sua mãe se recusa a ficar com o quadro. O rapaz o leva para seu quarto de pensão, como um troféu e um bem familiar, e tudo faz para saber que obra é aquela, quem a pintou e por quê, e em que circunstâncias: o contexto artístico e político que a gerou. Suas pesquisas revelam que na base do quadro está a Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, o Nazismo. A ferida. Talvez por isso seu pai se calou. Ou talvez por outra coisa, mais sutil e terrível. Qual o segredo? Límpido, exato, poético e simbólico, este relato é a um só tempo expurgo e alívio. Ao fim, o protagonista como que se descarta de uma camisa suada e veste outra limpa, para o resto de seus dias.
Raros são os filmes que serão revistos, e ainda mais raros aqueles que, aconteça o que acontecer, serão sempre relembrados. Entre aqueles que jamais esqueci está Um lugar ao sol, de George Stevens, recém-lançado no Brasil em DVD. Baseado no romance Uma tragédia americana, de Theodore Dreiser, com duas ou três edições apenas em português, esta produção de 1951 constitui uma obra-prima da arte de narrar através de imagens. Se o assunto do filme já encerra por si só uma atração para o espectador (a ascensão de um jovem pobre na empresa de seu tio milionário, trama que a Globo "plagiou" em sua primeira versão de Selva de Pedra), mais sedutoras são as imagens que articulam, harmoniosamente, seu entrecho. Entre quatro ou cinco sequências magistrais, duas se destacam e tornaram-se para mim, por anos a fio, inesquecíveis.
Os críticos de literatura no Brasil ou são jornalistas ou simples leitores, que ficam no nível mais rasteiro das impressões de leitura. Em geral julgam o texto "pelo que ele não é", em lugar de avaliar de fato o seu propósito e as reflexões que desperta. Mas é assim mesmo: isso aqui é o Brasil, literatura é mais uma leitura, como qualquer outra, e, para muitos, não tem utilidade alguma. Nunca me enganei que fosse diferente, a prova é a quantidade de autores importantes, brasileiros, desterrados do cânone, que, entra ano, sai ano, continua o mesmo: exíguo e restrito a uma "forma de literatura" e ignorante quanto a gêneros importantes, como a ficção científica e o policial. Noutros países, há livros destes gêneros que são verdadeiras obras-primas da literatura, e não apenas no seu meio, como é o caso de Solaris, de Stanislaw Lem, e O longo adeus, de Raymond Chandler. Aqui, estes livros não teriam sido escritos ou, se escritos, seriam ignorados ou estigmatizados.
Ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 2010, o peruano Mario Vargas Llosa vê coroada por um emblema importante, embora dispensável aos grandes escritores, uma obra que em vários aspectos é exemplar. Tivesse escrito apenas Os filhotes, novela recém-publicada pela Alfaguara em conjunto com o volume de contos Os chefes, ele já teria seu nome inscrito entre os maiores escritores do Continente. Mas sua obra é vasta e variada, com destaque para: Tia Júlia e o escrevinhador, Pantaleão e as visitadoras, A cidade e os cachorros, Quem matou Palomino Molero?, Cartas a um jovem escritor, A casa verde, A orgia perpétua, Conversa na catedral, Contra vento e maré, que constitui um saboroso conjunto de ensaios. Justíssima premiação.
A pequena e audaciosa editora Multifoco não se restringe à prosa, muito menos ao miniconto, gênero em que já publicou, entre outros, Wilson Gorj e Carlos Barbosa. Através da coleção FuturArte Poesias trouxe a lume ótimos poetas, como o paulista TONHO FRANÇA, autor de O bebedor de auroras (Rio de Janeiro: Multifoco, 2009). O poeta, que afirma "escrevo não para agradar ou convencer, escrevo o que minha alma grita e meu coração extravasa", tem poemas assim:
Se há um aspecto da literatura e do cinema brasileiros que abomino é o que chamo "minuto panfleto". Aquele momento em que a narrativa estaca e os personagens se põem a ensinar, protestar, recomendar, discursar: "use camisinha", "não trate assim as pessoas da terceira idade", "faça valer seus direitos de cidadão: vote" etc. Arre! Literatura modo de usar, cinema quadro do Fantástico. As séries de tevê e as telenovelas também estão cheias disso. Portanto, quando leio algo em que uma análise profunda do nosso país é feita sem que a literatura precise abrir mão de suas características de literariedade e ciframento fico feliz. É o caso deste miniconto de CARLOS BARBOSA: