"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 25 de dezembro de 2010

PONTOS DE ÔNIBUS E DE LEITURA

Se você gosta de ler e não se importa de esperar muito tempo no ponto pelo "ônibus que não chega nunca", o melhor lugar para morar é Paris. Criação da loja sueca IKEA, esta sala de espera nos faz desejar que o ônibus realmente não venha jamais: livros, sofá, abajur, globo terrestre, bibelôs, mapas e quadro de avisos. O prefeito de Salvador, BA, João Henrique, deveria se mirar neste exemplo e reproduzir por aqui apenas 5%. Bastaria. Quem já foi à estação da Lapa, principal terminal rodoviário urbano de Salvador, conferiu que o ambiente mais parece um refúgio de zumbis depois de uma hecatombe nuclear. E para ler, nem as placas que sinalizam as linhas de ônibus e seus itinerários prestam. Algumas nem existem mais, substituídas por borrões de tinta, pintados à mão por um funcionário mal pago e sem estímulo. Mas há quem goste de Salvador assim mesmo: bem pitoresca!

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

LEITURAS, 7: POEMA EM QUADRINHOS

É um consenso se afirmar que o criador da "graphic novel" é o norte-americano Will Eisner (1917-2005). De fato, a primeira publicação neste formato, que poderíamos traduzir como "romance gráfico", foi Um contrato com Deus, em 1978. Todavia (e é certo que qualquer sentido de organização do mundo ou da realidade mostra-se ao fim tão falho quanto a sua ausência), o Poema em quadrinhos (CosacNaify, 2010), do italiano Dino Buzzati (1906-1972), precede a criação de Eisner em quase dez anos e abarca, sem sombra de dúvida, o conceito de "graphic novel" proposto pelo renomado quadrinista norte-americano.

Como ocorre com os precursores de Kafka, que só depois de Kafka ganharam importância, e Borges foi mais do que feliz em (re)descobri-los, sem Will Eisner e sua conceituação do romance gráfico, esta importante criação de Buzzati passaria à história como uma simples curiosidade no conjunto da obra de um autor que, nas palavras do editor da CosacNaify, não é nem central nem marginal, sua originalidade está em ter inventado um lugar único para si mesmo, sem êmulos nem epígonos.

Poema em quadrinhos retoma e atualiza o mito de Orfeu e Eurídice. Numa época de supremacia da cultura pop e do rock in roll como um frenesi juvenil, o cantor Orfi desce aos infernos em busca de sua amada Eura, sombra entrevista por trás da vidraça de uma janela. Seu nome, além de uma redução de Eurídice, sugere uma corruptela de "aura": brisa, alento, aragem, sopro, o caldo da poesia e o éter do poeta. É um poema porque cunhado em versos e porque a linguagem se volta para si mesma, mas também é uma narrativa e igualmente uma narrativa gráfica, desenhada pelo próprio punho de Dino Buzzati, que alegava ter mais talento para o desenho e a pintura do que para a literatura, muito embora, por causa do êxito de seus livros, tornou-se para os críticos "um escritor que também desenhava e pintava".

Poema em quadrinhos é maravilhoso! É literatura e é HQ, é pintura e é cinema, os quatro gêneros amalgamados de uma forma tão coesa e criativa, que só podemos acreditar que alguns artistas são, na Terra, a parte humana de Deus. Em 1969, quando o publicou, Buzzati estava sozinho neste norte tão comum hoje em dia entre nós, sem saber que com ele inaugurava um artefato novo, responsável atualmente pela elevação dos quadrinhos ao patamar de obra de arte. Dizia ele, como se precisasse se desculpar da falta cometida junto aos seus críticos e leitores: "Acontece na vida de fazermos coisas de que gostamos sem restrições, coisas que parecem vir de nossas entranhas. Poema em quadrinhos é, para mim, uma destas, como O deserto dos tártaros, como Um amor".

Como conclusão, e porque é quase Natal, no poema de Buzzati nos deparamos com trechos assim:

Vocé se recorda quando, tarde da noite,
diante do portão da sua casa,
a lua se deitando por trás dos telhados de Milão,
o amigo lhe dizia: não é espantoso tudo isto,
a vida o trabalho o dinheiro o sucesso o amor?
Você respondia que sim, sim.
E no fundo de tudo a morte?
Não seria melhor dar um tiro em si mesmo?
Você respondia que sim, sim, não entendia
que esta angústia já era a beleza, a luz,
o sal da vida. (DINO BUZZATI)

A todos os leitores do Não Leia!, especialmente Bípede Falante, Carlos Barbosa, Ianice Gallo, Lidiane Nunes, Mônica Menezes, Patrícia Borges, Renata Belmonte e Wilson Gorj, que gentilmente me escreveram, me desejando um feliz Natal.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

LEITURAS, 6: CLARA DA NOITE

O traço cômico do espanhol Jordi Bernet se mescla à verve de Carlos Trillo e Eduardo Maicas, numa HQ que confere humor e crítica social ao contidiano de Clara, uma prostituta de rua. Perambulando pelas esquinas de uma grande cidade espanhola (Madri, provavelmente), Clara se envolve comercialmente com os mais estranhos tipos: um anão envergonhado, dois gângsteres rivais, um marido que depois de tantos anos de casado já esqueceu como se faz a coisa, um rapazinho em sua primeira vez, um padre tomado de fraqueza e esquecido de sua condição de celibatário, um professor carente de realidade e cheio de sonhos com suas alunas, um cego que não acha o caminho e até um técnico de futebol que resolve ministrar sexo para seus comandados, que, claro, com as ações de Clara, não tiveram nenhum êxito em campo. As histórias, de duas a três páginas, alternam comicidade, dor, desilusão e melancolia, pois, além de se defender nas ruas, Clara tem de criar seu filho e, como era de se esperar, sofre o preconceito e a intolerância das "mulheres direitas" do bairro onde mora. O tom irônico da série chega ao auge na história em que a protagonista, depois de estuprada por um desconhecido, volta-se para ele e diz, com estoicismo: "Sim, são trezentos... Mais cem pelo material estragado". Quadrinhos de arte de primeiríssima qualidade.

sábado, 18 de dezembro de 2010

MINICONTOS INSPIRADORES

Amanhã, vou ministrar em Itaparica uma oficina de criação de minicontos que tem como base os textos do meu livro Nem mesmo os passarinhos tristes. Mas levarei também minicontos de outros autores que admiro e que partilho aqui com os leitores do Não leia! O primeiro conto, do Wilson Gorj, não tem título, e o de Dalton Trevisan é o número 11 de um total de 111, que ele chama de "ais".


Cansado de tirar o filho da cadeia, o pai comprometeu-se, de uma vez por todas, em pôr aquele delinquente na linha!
O maquinista não viu o corpo amarrado nos trilhos.

WILSON GORJ: Sem contos longos

LEMBRANÇAS DE VIAGEM

Ele não se lembra bem como aconteceu.
Perdeu o controle do carro e saiu da estrada.
Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, o carro e ele tocaram árvores, uma depois da outra, até se quedarem, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio corpo ― não podia se mexer, não podia falar. Depois o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas.
Disso ele se lembra bem.

CARLOS BARBOSA: A segunda sombra

11.

― Tua professora ligou. De castigo, você. Beijando na boca os meninos. Que feio, meu filho. Não é assim que se faz.
― ...
― Menino beija menina.
― Você é gozada, cara.
― ...
― Pensa que elas deixam?

DALTON TREVISAN: 111 ais

SNAP

Algo instintivo, intestinal, me levou a empunhar esta arma, agora apontada para a sua cabeça. Você tem filhos, sim, eu nunca os tive. Explosão seca de metal incandescente.

PATRICK BROCK: Textorama


O REENCONTRO

Um homem que o Sr. K. não via há muito o saudou com as palavras: “O senhor não mudou nada”. “Oh!”, fez o Sr. K., empalidecendo.

BERTOLT BRECHT: Histórias do Sr. Keuner

MAU NEGÓCIO

Começaram a tirar o pelo do porco para depois o comerem. Mesmo antes de morrer o animal murmurou: Eu-não-sou-um-porco-sou-um-homem. O casal ajoelhou-se e pôs-se a chorar.
― Este porco fala. Como seria rentável!

GONÇALO M. TAVARES: O senhor Brecht

O MILAGRE DOS COPOS

1

Tarde da noite, no bar quase vazio, dois amigos conversam.
― Pois é isso: eu e sua mulher nos amamos.
Susto. Incredulidade. Depois:
― E vocês, vocês...?

2

O garçom a recolher os cacos.


OS FUNERAIS

Foi somente quando se deu conta de que não podia mais ser pai e já não era mais filho que ele foi feliz.


MOMENTO

Tarde... Nenhuma vontade, nenhum sonho... O dia acabando, o sol morrendo... Eu também morrendo. A última cena de Encontros e desencontros me passando por dentro...


MAYRANT GALLO: Nem mesmo os passarinhos tristes


HISTÓRIA EDIFICANTE

Era uma vez duas pulguinhas que passaram a vida inteira economizando e compraram um cachorro só para elas.

MÁRIO QUINTANA: Porta giratória

IMAGEM: cena do filme Rumble fish (1983), de Francis Ford Coppola

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

MARIO MONICELLI

O cineasta italiano Mario Monicelli morreu nesta segunda-feira, aos 95 anos, depois de fazer o mundo inteiro rir, ainda que fosse com amargor, como em Parente é serpente (2006), a mais terrível história de Natal já filmada, ou com melancolia, como em Os eternos desconhecidos (1958), que retrata as ações de uma pífia e malfadada quadrilha de ladrões. Seus filmes, especialmente os dois citados, mostram as pessoas como elas são: humanas, fracas, vulneráveis e comicamente condenadas ao fracasso. No desfecho de Os eternos desconhecidos, depois que a quadrilha se arruína na tentativa de assaltar uma loja de penhores, um dos bandidos decide se tornar operário: trabalhar o dia inteiro por um salário miserável. Humor e dor. Riso e melancolia. Uma retrospectiva de Monicelli seria fundamental agora, para mostrar a muitos diretores de cinema que o verdadeiro humor não se caracteriza por queda em piscina ou torta na cara, nem, por outro lado, por piadas pseudointeligentes, em pastiches de Woody Allen, que, aliás, faz uma bela homenagem a Monicelli, em Trapaceiros, um de seus filmes mais populares e literalmente inspirado em Os eternos desconhecidos. Monicelli junta-se agora a Fellini, Antonioni, Zurlini, Pasolini e Risi, formando no lado escuro da vida um sexteto irreverente.

sábado, 20 de novembro de 2010

LINDAS CAPAS, 3

Vai longe o tempo em que um livro de literatura se vendia e circulava só pelo seu conteúdo. Claro que isso ainda ocorre, nos casos dos escritores que ou se inscreveram definitivamente na história da literatura, pelo seu valor estético ou de assunto (Kafka, Faulkner, Camus, Buzzati, Bandeira) ou que, além disso, foram incorporados à cultura (Pessoa, Salinger, Neruda, Calvino, Borges). Mas, com a multiplicação do número de autores, uma capa atraente é fundamental, como esta, do volume de poemas de Kátia Borges, uma das mais autênticas vozes da poesia contemporânea na Bahia. É uma capa de observador curioso, de voyeur urbano que em cada janela acesa, de prédios ou de ônibus, vê um mundo. Uma capa que nos coloca dentro de um veículo que passa, de um livro que, seduzidos, logo abrimos, a esmo, para nos depararmos com versos assim:

DESERTO

Eu te asseguro que nunca estive só,
mesmo quando o mundo
inteiro pousou seu peso
sobre o meu ombro. E muito
menos quando o vento
arremessou a vida, como uma
carícia violenta, em meu rosto.

Belo poema, linda capa! Uma combinação perfeita de cores e palavras, que a fotografia da falecida escritora Maria Guimarães Sampaio, com sua lente sensível ao mistério, certamente inspirou. Aliás, a capa é toda esta foto!

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

LIVROS A MANCHEIAS

Entre 29 de novembro e 3 de dezembro, das 8:30 às 17:30, a Editora da Universidade Federal da Bahia promoverá a "Feira de Livros da EDUFBA". O evento já acontece há alguns anos, nas duas livrarias da universidade, nos campi de Ondina e do Canela. Os livros terão descontos de até 50%.

Compareça e antecipe seus presentes de Natal! Seus amigos e parentes vão adorar. Você também!

Livraria 1: R. Augusto Viana, s/n, estacionamento da reitoria, Campus do Canela
Livraria 2: R. Barão de Jeremoabo, s/n, Biblioteca Reitor Macedo Costa, Campus de Ondina

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

LEITURAS, 5: SÉRGIO FARACO

Aos setenta anos, o gaúcho Sérgio Faraco é um dos melhores e mais importantes escritores brasileiros da atualidade. Sua escrita abrange o conto, a crônica, o ensaio e também livros históricos, como o originalíssimo O crepúsculo da arrogância, que narra o naufrágio do Titanic minuto a minuto, desde sua festejada partida do cais na Europa, para a sua fatídica viagem, até seu último suspiro nas águas geladas do Atlântico. No conto, gênero em que Faraco é um mestre indubitável, sua produção, embora vasta, concentra-se primorosamente em quatro livros, que nenhum leitor sério da literatura brasileira pode deixar de conhecer: Contos completos (2004), Dançar tango em Porto Alegre (1998, antologia em formato de bolso que ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras, em 1999), Noite de matar um homem: contos de fronteira (segunda edição ampliada, 2008) e Doce paraíso (também em segunda edição ampliada, 2008). Neste último, visando à conquista do leitor jovem, o autor reuniu 18 relatos de iniciação: contos cujos personagens são garotos e garotas em "aventuras" decisivas para a sua formação existencial. As dúvidas comuns à primeira idade, o amor, a sexualidade, os sonhos, os medos, os enigmas familiares, todos esses temas comparecem aos contos em linguagem direta, descarnada de excessos e, ao mesmo tempo, eloquente, em seu ciframento e sua amplitude. Cinco ou seis constituem obras-primas indiscutíveis e que nos remetem imediatamente ao que Anton Tchekov e Machado de Assis de melhor escreveram, nesta difícil e sedutora arte do conto, gênero que pretende dizer o máximo com o mínimo de palavras e inscrever-se na eternidade como uma espécie de esboço de uma obra maior que, no entanto, paradoxalmente, não pode existir senão como esboço. Os contos "Verdes canas de agosto", "Três segredos", "Guerras greco-pérsicas", "Quatro gringos na restinga", "Majestic Hotel" e "Doce paraíso" atingem esse patamar de fruto proibido que não se esgota, de luz afetuosa que não se apaga. Um livro que o leitor iniciante não vai esquecer, e que o experiente sempre irá revisitar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

LEITURA DE BOLSO, 1: O ESTRANGEIRO

Uma excelente opção de bolso é a recém-lançada edição de O estrangeiro, de Albert Camus, pela coleção Best Bolso, da editora Record. Publicado em 1942, na França, este é o mais célebre romance do escritor franco-argelino e um dos dez melhores romances escritos no Ocidente na primeira metade do século XX, ombreando-se, apesar das poucas mais de 100 páginas, com obras como Ulisses, O som e a fúria, Em busca do tempo perdido, O processo, O castelo, Cem anos de solidão, Grande sertão: veredas, O mestre e Margarida, A náusea, O deserto dos tártaros, Pedro Páramo, Passeio ao farol, A colmeia e alguns poucos outros. O curioso é que, não obstante o tom "existencialista" e sua prosa vazada de poesia, com descrições visuais e sinestésicas, este é um relato que se lê com o mesmo interesse e fervor com que se mergulha num romance policial. Aliás, em certo sentido, O estrangeiro é um romance policial. Camus era um admirador do gênero, e reza a lenda de que ele se inspirou a escrevê-lo depois da leitura de O destino bate à sua porta, de James M. Cain, sem dúvida um clássico que não perde vigor, mesmo depois de mais de 70 anos de sua publicação. Com O estrangeiro não é diferente, basta abrir o livro e se deixar envolver por suas palavras, de sonho e rebeldia: "Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem". Essa dúvida inicial é somente o princípio de uma dúvida maior, que vai fazer do protagonista um joguete do destino. Aproveite o verão que se aproxima e leve para ler na praia. Se o mar carregar seu livro, o prejuízo não será grande e você poderá comprar outro: só R$12,90.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

VÁ E VEJA, 12: IMITAÇÃO DA VIDA

Finalmente disponível em DVD, Imitação da vida (1959), de Douglas Sirk. O assunto deste filme são muitos: família, preconceito, racismo e choque de gerações. Com sua habitual frieza e realismo ao abordar temas fortes, Douglas Sirk mostra o quanto o racismo faz doer e obriga que as pessoas sofram e sejam quem elas não são. Annie é negra e teve uma filha (Sarah Jane) com um branco. A menina despreza a mãe, pois entende, desde cedo, que não pode se permitir ser negra (ou filha de uma negra) num mundo onde "ser de cor" é quase uma ofensa. As duas vão morar na casa de Lora, atriz branca cuja carreira no teatro começa a decolar, e sua filha, Susie. Na estrutura familiar, Anne passa a ocupar os espaços tanto de mãe quanto de empregada doméstica e governanta. Formam então uma família "estranha", sem a figura masculina e com duas mulheres destituídas do olhar comum do preconceito e do racismo. Nem Lora lembra que Anne é negra, nem esta a faz recordar que ambas são, na cor da pele, tão diferentes. Elas são mulheres sem homens e com duas filhas para criar num mundo de competição e intolerância, isto é tudo. Tal condição exige que se ajudem mutuamente, cada uma exercendo a função que a sociedade previamente lhes reservou. E suas filhas, à parte, vão vivendo com se fossem irmãs. Com o passar dos anos, novos problemas, especialmente com Sarah Jane, que tenta a todo custo escapar da mãe, deixar de ser "a filha de uma mulher negra". É então que o espectador sente a dor mais aguda e brutal, a dor do desprezo absoluto, do abandono, da traição, e compreende como a sociedade, com seu sentido gregário e sua propensão à intolerância ao "outro", faz mal ao indivíduo e também à vida. A sequência final, em que negros e brancos dividem um mesmo espaço público, entrou para a história do cinema, por sua metáfora da igualdade entre as pessoas. E poucos chegam aquele ponto sem derramar lágrimas (e não poderia ser diferente, uma vez que o tema musical que emoldura a cena é um lamento de dor, na voz rasgada de Mahalia Jackson). Um filme que, longe de imitar a vida, a reproduz no que ela tem de pior (o preconceito) e de melhor (a esperança).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

PORTAL FAHRENHEIT

Está chegando a Portal Fahrenheit, a última das revistas de science fiction organizadas pelo Nelson de Oliveira. O lançamento será em dezembro. Ao fazer o balanço de todas as edições, o Nelson assim resumiu o projeto Portal:

6 edições (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit)
798 páginas
44 autores
129 contos (50 curtos, de até 3 páginas, e 79 longos)
2.450 exemplares distribuídos

Autores (até duas revistas):
Abilio Godoy
Ana Cristina Rodrigues
Braulio Tavares
Bruno Cobbi
Carlos Emílio C. Lima
Carlos Ribeiro
Claudio Brites
Claudio Parreira
Daniel Fresnot
Danny Marks
Delfin
Fábio Fernandes
Georgette Silen
Geraldo Lima
Giulia Moon
Homero Gomes
Ivan Hegenberg
Izilda Bichara
J. P. Balbino
Jacques Barcia
Laura Fuentes
Leandro Leite Leocadio
Lima Trindade
Luiz Roberto Guedes
Marcelo L. Bighetti
Márcia Olivieri
Martha Argel
Petê Rissatti
Richard Diegues
Roberto Melfra
Sérgio Tavares
Sid Castro

Autores mais frequentes (em três revistas ou mais):
Ataíde Tartari
Brontops Baruq
Luiz Bras
Marco Antônio de Araújo Bueno
Maria Helena Bandeira
Mayrant Gallo
Mustafá Ali Kanso
Ricardo Delfin
Roberto de Sousa Causo
Rodrigo Novaes de Almeida
Rogers Silva
Tiago Araújo

A Portal Fahrenheit será a mais extensa de todas, 160 páginas, com a participação de 21 autores.

domingo, 7 de novembro de 2010

LEITURAS, 4: AU-AU

Au-Au: três contos de cão é o terceiro volume da Coleção 3 Contos, da pequena mas criteriosa editora Dantes, do RJ. Enfeixados junto ao colosso da literatura inglesa Rudyard Kipling, aparecem o carioca João do Rio e o baiano Dias da Costa. Este último, sem dúvida, é o mais esquecido. Nascido em 1907, no Largo da Piedade, aqui pertinho, pois estou nos Barris, Dias da Costa publicou dois volumes de contos: Canção do beco (1939) e Mirante dos Aflitos (1960). Ele comparece ao volume da Dantes com o conto O cachorro Au-Au e outros cachorros, de seu primeiro livro. O conto de João do Rio é Os cães e o de Kipling (o mais sofisticado dos três, repleto de reflexões e sutilezas psicológicas), Garm, um refém. Nos três relatos o cachorro é o centro da narrativa: ou porque sofreu um deslocamento (mudança de dono ou casa) ou porque infesta o ambiente, caso específico do conto de Dias da Costa, cuja trama se desenvolve num beco cheio de cães. Nestes contos, muito ficamos sabendo dos cães, mas igualmente dos homens. Em Kipling, compreendemos que a ausência é um sentimento que pertuba as duas espécies e faz sofrer; no de Dias da Costa, cão e Homem chegam a uma mesma solução para um problema cotidiano, que é o da interferência do "outro", e no de João do Rio, que o amor (ou desejo, como queiram chamar) é universal, comum a todas as espécies. Mais que sobre cães (ou pessoas), estes são relatos sobre a essência do ser vivo, ou da própria vida.

No final do volume, a editora dedica o livro a vários cães famosos, entre os quais Baleia, Pluto, Buck, Lassie e Bidu, mas esquece o Snoopy, talvez o mais célebre de todos.

sábado, 6 de novembro de 2010

LEITURAS, 3: BERNHARD SCHLINK

O limite do mistério familiar ou é a ignorância ou o silêncio. Tal dilema enche de dúvidas e de inadaptação a vida do jovem protagonista da bela novelinha A menina com a lagartixa, de Bernhard Schlink, autor do célebre O leitor (curiosamente este livro, lançado no Brasil pela Nova Fronteira, em cuidadosa edição no final da década de 1990, não teve eco, e seria preciso que a Record o relançasse no vácuo do filme norte-americano, para que o livro pudesse ser apreciado por uma camada maior de leitores, e os demais livros do autor chegassem aqui). Com A menina com a lagartixa não há esta facilidade proporcionada pelo cinema: ou os leitores arriscam, como fiz com a primeira edição de O leitor, que li e indiquei para muitos amigos, apesar de que bem poucos o leram naquela ocasião, ou simplesmente seguem alheios a um excelente texto, que vejo como uma metáfora do próprio mistério da existência. Um garoto passa a infância a admirar um quadro de seu pai: A menina com a lagartixa. Nada lhe é dito a respeito do quadro, que, no entanto, é comprovadamente a única fortuna da família, protegido de tudo e de todos por seu pai. Este morre repentinamente, quando o protagonista, já adulto, está fora, na universidade, e sua mãe se recusa a ficar com o quadro. O rapaz o leva para seu quarto de pensão, como um troféu e um bem familiar, e tudo faz para saber que obra é aquela, quem a pintou e por quê, e em que circunstâncias: o contexto artístico e político que a gerou. Suas pesquisas revelam que na base do quadro está a Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, o Nazismo. A ferida. Talvez por isso seu pai se calou. Ou talvez por outra coisa, mais sutil e terrível. Qual o segredo? Límpido, exato, poético e simbólico, este relato é a um só tempo expurgo e alívio. Ao fim, o protagonista como que se descarta de uma camisa suada e veste outra limpa, para o resto de seus dias.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

VÁ E VEJA, 11: UM LUGAR AO SOL

Raros são os filmes que serão revistos, e ainda mais raros aqueles que, aconteça o que acontecer, serão sempre relembrados. Entre aqueles que jamais esqueci está Um lugar ao sol, de George Stevens, recém-lançado no Brasil em DVD. Baseado no romance Uma tragédia americana, de Theodore Dreiser, com duas ou três edições apenas em português, esta produção de 1951 constitui uma obra-prima da arte de narrar através de imagens. Se o assunto do filme já encerra por si só uma atração para o espectador (a ascensão de um jovem pobre na empresa de seu tio milionário, trama que a Globo "plagiou" em sua primeira versão de Selva de Pedra), mais sedutoras são as imagens que articulam, harmoniosamente, seu entrecho. Entre quatro ou cinco sequências magistrais, duas se destacam e tornaram-se para mim, por anos a fio, inesquecíveis.

1) O momento em que George e Angela se conhecem. Ele está sozinho jogando sinuca no palácio de seu tio, pois sente-se deslocado na festa e não conhece quase ninguém. Angela passa diante da porta e o surpreende a fazer uma jogada de efeito, digna de um mestre do bilhar:
"Uau!", ela exclama.
E depois o cumprimenta:
"Olá".
"Olá', ele responde.
"Vejo que desperdiçou sua juventude", ela ironiza com o fato dele ser um jogador exímio.
"Sim", ele concorda, fascinado com a beleza da garota.
"Por que está sozinho? Está sendo exclusivo?", ela brinca, dando volta à mesa, em direção a George.
Ele não diz nada.
"Sendo dramático?"
George continua sem responder, e a admirá-la.
"Sendo triste?", ela atinge o ápice de seu jogo de sedução.
Por fim ele responde:
"Só estou me divertindo. Quer jogar?"
"Não, só vou observar. Continue."
Daí por diante ele jogará com a vida, e ela praticamente só o observará, meio incrédula e extática, até o instante da segunda sequência que considero genial.

2) George está preso, populares querem linchá-lo. A cena corta para a casa de Angela, que está reclinada no sofá, olhando pela janela as árvores do jardim agitadas pela ventania. Sua mãe termina de ler no jornal a notícia sobre o crime de George e o joga na lareira; simbolicamente condena-o. Do fogo a imagem vai para Angela. E ela, o fogo e o vento tornam-se uma coisa só, em ebulição. Angela olha o jornal queimando, e das cinzas a câmera passeia pela sala, que já não é aquela, mas a futura, sem Angela, sem móveis, só jornais espalhados, símbolos da mudança que sua família foi obrigada a promover, por força das circunstâncias. Um sutil corte temporal que decide do lado de quem Angela vai ficar: da vida, em detrimento do amor.

O resto, ou o todo, confiram vocês mesmos, pois este é um dos mais bonitos e bem-feitos filmes de Hollywood. Bons tempos em que o dinheiro ainda era empregado em favor da arte e do bom gosto.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

VÁ E VEJA, 10: A JANELA DA FRENTE

Decisões radicais às vezes são tomadas pelos personagens de um filme exatamente porque a trama não pertence à vida, mas ao filme. Esta é uma regra que se aplica com frequência ao cinema norte-americano, especialmente o mais popular. Quando é um filme independente, ou de arte, ou de um diretor mais pessoal, como Sofia Coppola, a regra até pode ser quebrada, como em Encontros e desencontros. Já no cinema francês ou italiano acontece o contrário: é a coerência narrativa, baseada na verossimilhança, que estabelece a harmonia da trama. Um dos grandes exemplos modernos desta tendência é o poético A janela da frente (2006), de Ferzan Ozpetek. O casamento de Giovanna com Filippo não vai bem, e há algum tempo que ela está flertando com o vizinho do prédio em frente. Eles chegam a se encontrar, e ela precisa tomar a decisão de deixar o marido em favor do novo relacionamento, que promete ser intenso. Mas ela tem dois filhos, e a vida não é assim tão simples, como nos filmes. Então, coerentemente, ela vai optar por continuar a sua vida, com seu marido e seus filhos. Claro que apenas esmiucei a trama, deixando de lado propositalmente a poesia, as reflexões e vários outros aspectos (metalinguagem, citação a Janela indiscreta etc.) que fazem deste filme uma das melhores películas italianas dos últimos anos. E a festejada Giovanna Mezzogiorno, de O último beijo, mais uma vez dá um espetáculo de beleza e interpretação, bem na tradição das grandes atrizes italianas, como Sophia Loren, Claudia Cardinale e Monica Vitti.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

NOTAS DE LITERATURA, 1

Os críticos de literatura no Brasil ou são jornalistas ou simples leitores, que ficam no nível mais rasteiro das impressões de leitura. Em geral julgam o texto "pelo que ele não é", em lugar de avaliar de fato o seu propósito e as reflexões que desperta. Mas é assim mesmo: isso aqui é o Brasil, literatura é mais uma leitura, como qualquer outra, e, para muitos, não tem utilidade alguma. Nunca me enganei que fosse diferente, a prova é a quantidade de autores importantes, brasileiros, desterrados do cânone, que, entra ano, sai ano, continua o mesmo: exíguo e restrito a uma "forma de literatura" e ignorante quanto a gêneros importantes, como a ficção científica e o policial. Noutros países, há livros destes gêneros que são verdadeiras obras-primas da literatura, e não apenas no seu meio, como é o caso de Solaris, de Stanislaw Lem, e O longo adeus, de Raymond Chandler. Aqui, estes livros não teriam sido escritos ou, se escritos, seriam ignorados ou estigmatizados.

Imagem: capa da edição americana de 1989 de Éden, um dos melhores romances do polonês Stanislaw Lem.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

TEMPOS FÁUSTICOS

Neste livro, a escritora Dalila Machado examina a obra de três importantes poetas baianos. Vale a pena conferir quem são os eleitos e por quê.

Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

NOBEL DE LITERATURA 2010

Ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 2010, o peruano Mario Vargas Llosa vê coroada por um emblema importante, embora dispensável aos grandes escritores, uma obra que em vários aspectos é exemplar. Tivesse escrito apenas Os filhotes, novela recém-publicada pela Alfaguara em conjunto com o volume de contos Os chefes, ele já teria seu nome inscrito entre os maiores escritores do Continente. Mas sua obra é vasta e variada, com destaque para: Tia Júlia e o escrevinhador, Pantaleão e as visitadoras, A cidade e os cachorros, Quem matou Palomino Molero?, Cartas a um jovem escritor, A casa verde, A orgia perpétua, Conversa na catedral, Contra vento e maré, que constitui um saboroso conjunto de ensaios. Justíssima premiação.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

LEITURAS, 2: TONHO FRANÇA

A pequena e audaciosa editora Multifoco não se restringe à prosa, muito menos ao miniconto, gênero em que já publicou, entre outros, Wilson Gorj e Carlos Barbosa. Através da coleção FuturArte Poesias trouxe a lume ótimos poetas, como o paulista TONHO FRANÇA, autor de O bebedor de auroras (Rio de Janeiro: Multifoco, 2009). O poeta, que afirma "escrevo não para agradar ou convencer, escrevo o que minha alma grita e meu coração extravasa", tem poemas assim:

MUROS

A toda hora
A todo momento
Estou fora ou dentro?


URBE-DOIDA

toda bala é assassina
se (en)contra uma vida
não existe este papo
de "bala-perdida"


TRISTE

Amanheceu a primavera
E tudo se fez colorido e terno
Mas no olhar da moça
Ainda era inverno


FLORES...

As flores-de-maio, círio-de-nossa-senhora
Brincaram como tempo, f(l)ora de hora
Vermelhas como os versos que ora empunho
Tristes e perfumadas, como as tardes de junho.

sábado, 2 de outubro de 2010

LEITURAS, 1: A SEGUNDA SOMBRA

Se há um aspecto da literatura e do cinema brasileiros que abomino é o que chamo "minuto panfleto". Aquele momento em que a narrativa estaca e os personagens se põem a ensinar, protestar, recomendar, discursar: "use camisinha", "não trate assim as pessoas da terceira idade", "faça valer seus direitos de cidadão: vote" etc. Arre! Literatura modo de usar, cinema quadro do Fantástico. As séries de tevê e as telenovelas também estão cheias disso. Portanto, quando leio algo em que uma análise profunda do nosso país é feita sem que a literatura precise abrir mão de suas características de literariedade e ciframento fico feliz. É o caso deste miniconto de CARLOS BARBOSA:

LEMBRANÇAS DE VIAGEM

Ele não se lembra bem como aconteceu.
Perdeu o controle do carro e saiu da estrada.
Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, o carro e ele tocaram árvores, uma depois da outra, até se quedarem, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio corpo ― não podia se mexer, não podia falar. Depois o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas.
Disso ele se lembra bem.
(In: A segunda sombra. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010)

Está tudo ali. A formação e o caráter de um país expostos num preto-e-branco sem concessões: a miséria, a falta de solidariedade, a impiedade, o desrespeito ao outro; a solidão profunda do homem diante da adversidade e da indiferença alheia; a dor. 106 palavras que dizem tudo o que somos.


Imagem: a hipnótica arte fotográfica de Chris Jordan.

domingo, 12 de setembro de 2010

A SEGUNDA SOMBRA

O escritor Carlos Barbosa lançará seu mais novo livro, pela editora Multifoco (RJ): o volume de minicontos A segunda sombra. Dia 18 de setembro, sábado, às 10:00 da manhã, na LDM, Rua Direita da Piedade, 20, Centro, Salvador, BA. O livro sai pela Coleção Três por Quatro, dirigida pelo escritor paulista Wilson Gorj, que já publicou prosadores da BA, RS, MG e SP. Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

sábado, 11 de setembro de 2010

ROMANCE DE PÓLVORA

O escritor e crítico literário Hélio Pólvora lançará seu mais novo livro, pela Casarão do Verbo: o romance Inúteis luas obscenas. Dia 23 de setembro, quinta-feira, às 19:30, na Galeria do Livro, Pç. Castro Alves, 132, Centro, Salvador, BA. Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

VÁ E VEJA, 9: RASTROS DE ÓDIO

Pouco se comenta, mas Rastros de ódio foi baseado num famoso romance de Alan Le May, publicado nos EUA em 1954 pela editora Harper & Brothers, com o título The searchers. E muito da estrutura narrativa do filme se deve à estrutura do romance. Mas isso pouco importa, pois é um dos maiores filmes de todos os tempos, pura arte: ambíguo, impiedoso, forte, inclassificável, verdadeiro, realista a ponto de até hoje incomodar e dividir platéias. E o seu final o resume: o destino do Homem é uma porta aberta, uma jornada da escuridão para a luz, do embotamento para a consciência, que foi o que aconteceu com o Tio Ethan, cujas convicções se esfumaçaram, ao fim. O grande personagem é aquele que se transforma, mas sem panfleto, naturalmente, de acordo com a experiência sofrida e com a lógica narrativa, sem a pretensão de mudar nem as pessoas (os espectadores), nem o mundo (a História). Já vi umas oito ou dez vezes e verei tantas mais! Classificam-no, erroneamente, como western ou bangue-bangue. Na verdade, é um grande drama humano, localizado num cenário hostil e implacável, o Oeste Selvagem. Os melhores filmes deste gênero, aliás, ultrapassam o próprio gênero: além de Rastros de ódio, Matar ou morrer, Hombre, Os imperdoáveis, Galante e sanguinário, Céu amarelo, Os brutos também amam, O homem que matou o facínora, e tantos outros. Assistir a estes filmes sob a ótica reducionista da fórmula "tiros, socos e ataques de índios" ou sob o crivo do multiculturalismo, que pretende idealizar o mundo, consequentemente os personagens, é atestar o quanto se desconhece o que seja Cinema, especialmente o Cinema dos Grandes Diretores.

domingo, 5 de setembro de 2010

LINDAS CAPAS, 2

O amor de um professor por sua aluna, e dela por ele. O sentimento, portanto, é recíproco, mas as convenções da época e o temperamento do professor, aliado à sua consciência crítica e ao seu respeito pela profissão, não permitem que a relação se concretize. E esta capa, da edição comemorativa aos cem anos de nascimento de Cyro dos Anjos (1906-1994), expressa tal dilema: o professor, cioso de seu papel de educador, não avança, nem a garota, num ato impensado de audácia, o encoraja. Permanece então o impasse, o verdadeiro assunto do relato: ela, acima dele socialmente, o rosto escondido pela contenção, e ele anulado por sua condição docente, representada aqui pelo recurso gráfico de uma tarja amarela, que ao mesmo tempo o apaga, reprime e aprisiona. Uma capa à altura da excelência de um romance que comprovou, em 1945, o valor literário de Cyro dos Anjos, que, já na estreia, deixava sua obra-prima: O amanuense Belmiro. Para muitos, em vários aspectos, Abdias lhe-é superior.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

VÁ E VEJA, 8: RITOS DE PASSAGEM

Se há um gênero de filme em que os americanos são insuperáveis é a narrativa de rito de passagem da adolescência para a idade adulta. Podemos arrolar facilmente uns dez filmes importantes no gênero produzidos nos EUA. Mas três se destacam: Juventude transviada (Rebel whitout a cause, 1955), de Nicholas Ray, Loucuras de verão (American graffiti, 1973), de George Lucas, e O selvagem da motocicleta (Rumble fish, 1983), de Francis Ford Coppola.

Se o tom do primeiro é de rebeldia e tédio, o do segundo é de indecisão e humor, e o do terceiro, de violência e desorientação. Nos três, porém, os jovens estão transitando: já não são mais crianças, mas ainda não são adultos. Falta algo, talvez segurança, certeza ou simplesmente a capacidade de conciliar a diferença individual com o padrão coletivo. No filme de Ray a fuga da existência vazia e sem horizontes se dá através das noites de farra e pegas automobilísticos, até que um dos participantes morre, e o sonho muda de rumo, para convergir noutra morte, ainda mais estúpida, porque cunhada no erro. No início do filme, num ato de rebeldia da rebeldia o personagem de James Dean bebe leite, numa cena que se tornou célebre e que, em geral, o público não compreendeu. O desfecho, preparado com rigor ao longo da narrativa, parece afirmar que crescer, tornar-se adulto, é o correlato de acordar para a própria vida.

No filme de Lucas, o dilema existencial se resolve numa única noite em que os personagens transitam insones pelas ruas de uma pequena cidade interiorana. Mais uma vez, o pega de automóveis é o emblema de uma transmutação, mas, embora haja ainda um acidente, ninguém morre: o desastre, citação clara ao filme de Ray, serve como um baque, que desperta os personagens do sonho acordado de uma noite inteira, mas sem feri-los gravemente: a vida é outra coisa, e sérias decisões precisam ser tomadas, só isso.

No filme de Coppola, num preto e branco comovente, que a música quase abstrata intensifica ao máximo, tornando-o onírico, os personagens vivem à sombra do Motoqueiro, espécie de herói da juventude da cidade. Forte, bom de briga, inteligente, sensível, capaz de se dar bem em tudo, ele só não é exitoso consigo mesmo: vive em crise e despreza a influência que exerce sobre os mais jovens. Enquanto todos querem imitá-lo, especialmente seu irmão, ser quem ele é, o Motoqueiro, de sua parte, quer ser outra pessoa. Não há mais pegas, nem acidentes de automóveis: o emblema de mudança é mais sutil e poético e, não sem ironia, conduz a um final ambíguo, entre a dor e a redenção. O Motoqueiro reina e reinará sempre, apesar de tudo. Antes pelo seu heroísmo, pelos seus atos, agora pelo que fizeram com ele, lição que seu irmão Rusty James absorve e com a qual, finalmente, cresce.

Três belos filmes sobre a juventude, três eficientes ritos de passagem, três olhares sobre uma época que ninguém esquece e que, perdida, jamais será recuperada, a não ser pela memória, que é o que resta, até que chegue a morte.