"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

LEITURAS, 5: SÉRGIO FARACO

Aos setenta anos, o gaúcho Sérgio Faraco é um dos melhores e mais importantes escritores brasileiros da atualidade. Sua escrita abrange o conto, a crônica, o ensaio e também livros históricos, como o originalíssimo O crepúsculo da arrogância, que narra o naufrágio do Titanic minuto a minuto, desde sua festejada partida do cais na Europa, para a sua fatídica viagem, até seu último suspiro nas águas geladas do Atlântico. No conto, gênero em que Faraco é um mestre indubitável, sua produção, embora vasta, concentra-se primorosamente em quatro livros, que nenhum leitor sério da literatura brasileira pode deixar de conhecer: Contos completos (2004), Dançar tango em Porto Alegre (1998, antologia em formato de bolso que ganhou o Prêmio Nacional de Ficção da Academia Brasileira de Letras, em 1999), Noite de matar um homem: contos de fronteira (segunda edição ampliada, 2008) e Doce paraíso (também em segunda edição ampliada, 2008). Neste último, visando à conquista do leitor jovem, o autor reuniu 18 relatos de iniciação: contos cujos personagens são garotos e garotas em "aventuras" decisivas para a sua formação existencial. As dúvidas comuns à primeira idade, o amor, a sexualidade, os sonhos, os medos, os enigmas familiares, todos esses temas comparecem aos contos em linguagem direta, descarnada de excessos e, ao mesmo tempo, eloquente, em seu ciframento e sua amplitude. Cinco ou seis constituem obras-primas indiscutíveis e que nos remetem imediatamente ao que Anton Tchekov e Machado de Assis de melhor escreveram, nesta difícil e sedutora arte do conto, gênero que pretende dizer o máximo com o mínimo de palavras e inscrever-se na eternidade como uma espécie de esboço de uma obra maior que, no entanto, paradoxalmente, não pode existir senão como esboço. Os contos "Verdes canas de agosto", "Três segredos", "Guerras greco-pérsicas", "Quatro gringos na restinga", "Majestic Hotel" e "Doce paraíso" atingem esse patamar de fruto proibido que não se esgota, de luz afetuosa que não se apaga. Um livro que o leitor iniciante não vai esquecer, e que o experiente sempre irá revisitar.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

LEITURA DE BOLSO, 1: O ESTRANGEIRO

Uma excelente opção de bolso é a recém-lançada edição de O estrangeiro, de Albert Camus, pela coleção Best Bolso, da editora Record. Publicado em 1942, na França, este é o mais célebre romance do escritor franco-argelino e um dos dez melhores romances escritos no Ocidente na primeira metade do século XX, ombreando-se, apesar das poucas mais de 100 páginas, com obras como Ulisses, O som e a fúria, Em busca do tempo perdido, O processo, O castelo, Cem anos de solidão, Grande sertão: veredas, O mestre e Margarida, A náusea, O deserto dos tártaros, Pedro Páramo, Passeio ao farol, A colmeia e alguns poucos outros. O curioso é que, não obstante o tom "existencialista" e sua prosa vazada de poesia, com descrições visuais e sinestésicas, este é um relato que se lê com o mesmo interesse e fervor com que se mergulha num romance policial. Aliás, em certo sentido, O estrangeiro é um romance policial. Camus era um admirador do gênero, e reza a lenda de que ele se inspirou a escrevê-lo depois da leitura de O destino bate à sua porta, de James M. Cain, sem dúvida um clássico que não perde vigor, mesmo depois de mais de 70 anos de sua publicação. Com O estrangeiro não é diferente, basta abrir o livro e se deixar envolver por suas palavras, de sonho e rebeldia: "Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: 'Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames'. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem". Essa dúvida inicial é somente o princípio de uma dúvida maior, que vai fazer do protagonista um joguete do destino. Aproveite o verão que se aproxima e leve para ler na praia. Se o mar carregar seu livro, o prejuízo não será grande e você poderá comprar outro: só R$12,90.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

VÁ E VEJA, 12: IMITAÇÃO DA VIDA

Finalmente disponível em DVD, Imitação da vida (1959), de Douglas Sirk. O assunto deste filme são muitos: família, preconceito, racismo e choque de gerações. Com sua habitual frieza e realismo ao abordar temas fortes, Douglas Sirk mostra o quanto o racismo faz doer e obriga que as pessoas sofram e sejam quem elas não são. Annie é negra e teve uma filha (Sarah Jane) com um branco. A menina despreza a mãe, pois entende, desde cedo, que não pode se permitir ser negra (ou filha de uma negra) num mundo onde "ser de cor" é quase uma ofensa. As duas vão morar na casa de Lora, atriz branca cuja carreira no teatro começa a decolar, e sua filha, Susie. Na estrutura familiar, Anne passa a ocupar os espaços tanto de mãe quanto de empregada doméstica e governanta. Formam então uma família "estranha", sem a figura masculina e com duas mulheres destituídas do olhar comum do preconceito e do racismo. Nem Lora lembra que Anne é negra, nem esta a faz recordar que ambas são, na cor da pele, tão diferentes. Elas são mulheres sem homens e com duas filhas para criar num mundo de competição e intolerância, isto é tudo. Tal condição exige que se ajudem mutuamente, cada uma exercendo a função que a sociedade previamente lhes reservou. E suas filhas, à parte, vão vivendo com se fossem irmãs. Com o passar dos anos, novos problemas, especialmente com Sarah Jane, que tenta a todo custo escapar da mãe, deixar de ser "a filha de uma mulher negra". É então que o espectador sente a dor mais aguda e brutal, a dor do desprezo absoluto, do abandono, da traição, e compreende como a sociedade, com seu sentido gregário e sua propensão à intolerância ao "outro", faz mal ao indivíduo e também à vida. A sequência final, em que negros e brancos dividem um mesmo espaço público, entrou para a história do cinema, por sua metáfora da igualdade entre as pessoas. E poucos chegam aquele ponto sem derramar lágrimas (e não poderia ser diferente, uma vez que o tema musical que emoldura a cena é um lamento de dor, na voz rasgada de Mahalia Jackson). Um filme que, longe de imitar a vida, a reproduz no que ela tem de pior (o preconceito) e de melhor (a esperança).

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

PORTAL FAHRENHEIT

Está chegando a Portal Fahrenheit, a última das revistas de science fiction organizadas pelo Nelson de Oliveira. O lançamento será em dezembro. Ao fazer o balanço de todas as edições, o Nelson assim resumiu o projeto Portal:

6 edições (Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit)
798 páginas
44 autores
129 contos (50 curtos, de até 3 páginas, e 79 longos)
2.450 exemplares distribuídos

Autores (até duas revistas):
Abilio Godoy
Ana Cristina Rodrigues
Braulio Tavares
Bruno Cobbi
Carlos Emílio C. Lima
Carlos Ribeiro
Claudio Brites
Claudio Parreira
Daniel Fresnot
Danny Marks
Delfin
Fábio Fernandes
Georgette Silen
Geraldo Lima
Giulia Moon
Homero Gomes
Ivan Hegenberg
Izilda Bichara
J. P. Balbino
Jacques Barcia
Laura Fuentes
Leandro Leite Leocadio
Lima Trindade
Luiz Roberto Guedes
Marcelo L. Bighetti
Márcia Olivieri
Martha Argel
Petê Rissatti
Richard Diegues
Roberto Melfra
Sérgio Tavares
Sid Castro

Autores mais frequentes (em três revistas ou mais):
Ataíde Tartari
Brontops Baruq
Luiz Bras
Marco Antônio de Araújo Bueno
Maria Helena Bandeira
Mayrant Gallo
Mustafá Ali Kanso
Ricardo Delfin
Roberto de Sousa Causo
Rodrigo Novaes de Almeida
Rogers Silva
Tiago Araújo

A Portal Fahrenheit será a mais extensa de todas, 160 páginas, com a participação de 21 autores.

domingo, 7 de novembro de 2010

LEITURAS, 4: AU-AU

Au-Au: três contos de cão é o terceiro volume da Coleção 3 Contos, da pequena mas criteriosa editora Dantes, do RJ. Enfeixados junto ao colosso da literatura inglesa Rudyard Kipling, aparecem o carioca João do Rio e o baiano Dias da Costa. Este último, sem dúvida, é o mais esquecido. Nascido em 1907, no Largo da Piedade, aqui pertinho, pois estou nos Barris, Dias da Costa publicou dois volumes de contos: Canção do beco (1939) e Mirante dos Aflitos (1960). Ele comparece ao volume da Dantes com o conto O cachorro Au-Au e outros cachorros, de seu primeiro livro. O conto de João do Rio é Os cães e o de Kipling (o mais sofisticado dos três, repleto de reflexões e sutilezas psicológicas), Garm, um refém. Nos três relatos o cachorro é o centro da narrativa: ou porque sofreu um deslocamento (mudança de dono ou casa) ou porque infesta o ambiente, caso específico do conto de Dias da Costa, cuja trama se desenvolve num beco cheio de cães. Nestes contos, muito ficamos sabendo dos cães, mas igualmente dos homens. Em Kipling, compreendemos que a ausência é um sentimento que pertuba as duas espécies e faz sofrer; no de Dias da Costa, cão e Homem chegam a uma mesma solução para um problema cotidiano, que é o da interferência do "outro", e no de João do Rio, que o amor (ou desejo, como queiram chamar) é universal, comum a todas as espécies. Mais que sobre cães (ou pessoas), estes são relatos sobre a essência do ser vivo, ou da própria vida.

No final do volume, a editora dedica o livro a vários cães famosos, entre os quais Baleia, Pluto, Buck, Lassie e Bidu, mas esquece o Snoopy, talvez o mais célebre de todos.

sábado, 6 de novembro de 2010

LEITURAS, 3: BERNHARD SCHLINK

O limite do mistério familiar ou é a ignorância ou o silêncio. Tal dilema enche de dúvidas e de inadaptação a vida do jovem protagonista da bela novelinha A menina com a lagartixa, de Bernhard Schlink, autor do célebre O leitor (curiosamente este livro, lançado no Brasil pela Nova Fronteira, em cuidadosa edição no final da década de 1990, não teve eco, e seria preciso que a Record o relançasse no vácuo do filme norte-americano, para que o livro pudesse ser apreciado por uma camada maior de leitores, e os demais livros do autor chegassem aqui). Com A menina com a lagartixa não há esta facilidade proporcionada pelo cinema: ou os leitores arriscam, como fiz com a primeira edição de O leitor, que li e indiquei para muitos amigos, apesar de que bem poucos o leram naquela ocasião, ou simplesmente seguem alheios a um excelente texto, que vejo como uma metáfora do próprio mistério da existência. Um garoto passa a infância a admirar um quadro de seu pai: A menina com a lagartixa. Nada lhe é dito a respeito do quadro, que, no entanto, é comprovadamente a única fortuna da família, protegido de tudo e de todos por seu pai. Este morre repentinamente, quando o protagonista, já adulto, está fora, na universidade, e sua mãe se recusa a ficar com o quadro. O rapaz o leva para seu quarto de pensão, como um troféu e um bem familiar, e tudo faz para saber que obra é aquela, quem a pintou e por quê, e em que circunstâncias: o contexto artístico e político que a gerou. Suas pesquisas revelam que na base do quadro está a Segunda Guerra Mundial e, consequentemente, o Nazismo. A ferida. Talvez por isso seu pai se calou. Ou talvez por outra coisa, mais sutil e terrível. Qual o segredo? Límpido, exato, poético e simbólico, este relato é a um só tempo expurgo e alívio. Ao fim, o protagonista como que se descarta de uma camisa suada e veste outra limpa, para o resto de seus dias.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

VÁ E VEJA, 11: UM LUGAR AO SOL

Raros são os filmes que serão revistos, e ainda mais raros aqueles que, aconteça o que acontecer, serão sempre relembrados. Entre aqueles que jamais esqueci está Um lugar ao sol, de George Stevens, recém-lançado no Brasil em DVD. Baseado no romance Uma tragédia americana, de Theodore Dreiser, com duas ou três edições apenas em português, esta produção de 1951 constitui uma obra-prima da arte de narrar através de imagens. Se o assunto do filme já encerra por si só uma atração para o espectador (a ascensão de um jovem pobre na empresa de seu tio milionário, trama que a Globo "plagiou" em sua primeira versão de Selva de Pedra), mais sedutoras são as imagens que articulam, harmoniosamente, seu entrecho. Entre quatro ou cinco sequências magistrais, duas se destacam e tornaram-se para mim, por anos a fio, inesquecíveis.

1) O momento em que George e Angela se conhecem. Ele está sozinho jogando sinuca no palácio de seu tio, pois sente-se deslocado na festa e não conhece quase ninguém. Angela passa diante da porta e o surpreende a fazer uma jogada de efeito, digna de um mestre do bilhar:
"Uau!", ela exclama.
E depois o cumprimenta:
"Olá".
"Olá', ele responde.
"Vejo que desperdiçou sua juventude", ela ironiza com o fato dele ser um jogador exímio.
"Sim", ele concorda, fascinado com a beleza da garota.
"Por que está sozinho? Está sendo exclusivo?", ela brinca, dando volta à mesa, em direção a George.
Ele não diz nada.
"Sendo dramático?"
George continua sem responder, e a admirá-la.
"Sendo triste?", ela atinge o ápice de seu jogo de sedução.
Por fim ele responde:
"Só estou me divertindo. Quer jogar?"
"Não, só vou observar. Continue."
Daí por diante ele jogará com a vida, e ela praticamente só o observará, meio incrédula e extática, até o instante da segunda sequência que considero genial.

2) George está preso, populares querem linchá-lo. A cena corta para a casa de Angela, que está reclinada no sofá, olhando pela janela as árvores do jardim agitadas pela ventania. Sua mãe termina de ler no jornal a notícia sobre o crime de George e o joga na lareira; simbolicamente condena-o. Do fogo a imagem vai para Angela. E ela, o fogo e o vento tornam-se uma coisa só, em ebulição. Angela olha o jornal queimando, e das cinzas a câmera passeia pela sala, que já não é aquela, mas a futura, sem Angela, sem móveis, só jornais espalhados, símbolos da mudança que sua família foi obrigada a promover, por força das circunstâncias. Um sutil corte temporal que decide do lado de quem Angela vai ficar: da vida, em detrimento do amor.

O resto, ou o todo, confiram vocês mesmos, pois este é um dos mais bonitos e bem-feitos filmes de Hollywood. Bons tempos em que o dinheiro ainda era empregado em favor da arte e do bom gosto.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

VÁ E VEJA, 10: A JANELA DA FRENTE

Decisões radicais às vezes são tomadas pelos personagens de um filme exatamente porque a trama não pertence à vida, mas ao filme. Esta é uma regra que se aplica com frequência ao cinema norte-americano, especialmente o mais popular. Quando é um filme independente, ou de arte, ou de um diretor mais pessoal, como Sofia Coppola, a regra até pode ser quebrada, como em Encontros e desencontros. Já no cinema francês ou italiano acontece o contrário: é a coerência narrativa, baseada na verossimilhança, que estabelece a harmonia da trama. Um dos grandes exemplos modernos desta tendência é o poético A janela da frente (2006), de Ferzan Ozpetek. O casamento de Giovanna com Filippo não vai bem, e há algum tempo que ela está flertando com o vizinho do prédio em frente. Eles chegam a se encontrar, e ela precisa tomar a decisão de deixar o marido em favor do novo relacionamento, que promete ser intenso. Mas ela tem dois filhos, e a vida não é assim tão simples, como nos filmes. Então, coerentemente, ela vai optar por continuar a sua vida, com seu marido e seus filhos. Claro que apenas esmiucei a trama, deixando de lado propositalmente a poesia, as reflexões e vários outros aspectos (metalinguagem, citação a Janela indiscreta etc.) que fazem deste filme uma das melhores películas italianas dos últimos anos. E a festejada Giovanna Mezzogiorno, de O último beijo, mais uma vez dá um espetáculo de beleza e interpretação, bem na tradição das grandes atrizes italianas, como Sophia Loren, Claudia Cardinale e Monica Vitti.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

NOTAS DE LITERATURA, 1

Os críticos de literatura no Brasil ou são jornalistas ou simples leitores, que ficam no nível mais rasteiro das impressões de leitura. Em geral julgam o texto "pelo que ele não é", em lugar de avaliar de fato o seu propósito e as reflexões que desperta. Mas é assim mesmo: isso aqui é o Brasil, literatura é mais uma leitura, como qualquer outra, e, para muitos, não tem utilidade alguma. Nunca me enganei que fosse diferente, a prova é a quantidade de autores importantes, brasileiros, desterrados do cânone, que, entra ano, sai ano, continua o mesmo: exíguo e restrito a uma "forma de literatura" e ignorante quanto a gêneros importantes, como a ficção científica e o policial. Noutros países, há livros destes gêneros que são verdadeiras obras-primas da literatura, e não apenas no seu meio, como é o caso de Solaris, de Stanislaw Lem, e O longo adeus, de Raymond Chandler. Aqui, estes livros não teriam sido escritos ou, se escritos, seriam ignorados ou estigmatizados.

Imagem: capa da edição americana de 1989 de Éden, um dos melhores romances do polonês Stanislaw Lem.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

TEMPOS FÁUSTICOS

Neste livro, a escritora Dalila Machado examina a obra de três importantes poetas baianos. Vale a pena conferir quem são os eleitos e por quê.

Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

NOBEL DE LITERATURA 2010

Ao ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 2010, o peruano Mario Vargas Llosa vê coroada por um emblema importante, embora dispensável aos grandes escritores, uma obra que em vários aspectos é exemplar. Tivesse escrito apenas Os filhotes, novela recém-publicada pela Alfaguara em conjunto com o volume de contos Os chefes, ele já teria seu nome inscrito entre os maiores escritores do Continente. Mas sua obra é vasta e variada, com destaque para: Tia Júlia e o escrevinhador, Pantaleão e as visitadoras, A cidade e os cachorros, Quem matou Palomino Molero?, Cartas a um jovem escritor, A casa verde, A orgia perpétua, Conversa na catedral, Contra vento e maré, que constitui um saboroso conjunto de ensaios. Justíssima premiação.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

LEITURAS, 2: TONHO FRANÇA

A pequena e audaciosa editora Multifoco não se restringe à prosa, muito menos ao miniconto, gênero em que já publicou, entre outros, Wilson Gorj e Carlos Barbosa. Através da coleção FuturArte Poesias trouxe a lume ótimos poetas, como o paulista TONHO FRANÇA, autor de O bebedor de auroras (Rio de Janeiro: Multifoco, 2009). O poeta, que afirma "escrevo não para agradar ou convencer, escrevo o que minha alma grita e meu coração extravasa", tem poemas assim:

MUROS

A toda hora
A todo momento
Estou fora ou dentro?


URBE-DOIDA

toda bala é assassina
se (en)contra uma vida
não existe este papo
de "bala-perdida"


TRISTE

Amanheceu a primavera
E tudo se fez colorido e terno
Mas no olhar da moça
Ainda era inverno


FLORES...

As flores-de-maio, círio-de-nossa-senhora
Brincaram como tempo, f(l)ora de hora
Vermelhas como os versos que ora empunho
Tristes e perfumadas, como as tardes de junho.

sábado, 2 de outubro de 2010

LEITURAS, 1: A SEGUNDA SOMBRA

Se há um aspecto da literatura e do cinema brasileiros que abomino é o que chamo "minuto panfleto". Aquele momento em que a narrativa estaca e os personagens se põem a ensinar, protestar, recomendar, discursar: "use camisinha", "não trate assim as pessoas da terceira idade", "faça valer seus direitos de cidadão: vote" etc. Arre! Literatura modo de usar, cinema quadro do Fantástico. As séries de tevê e as telenovelas também estão cheias disso. Portanto, quando leio algo em que uma análise profunda do nosso país é feita sem que a literatura precise abrir mão de suas características de literariedade e ciframento fico feliz. É o caso deste miniconto de CARLOS BARBOSA:

LEMBRANÇAS DE VIAGEM

Ele não se lembra bem como aconteceu.
Perdeu o controle do carro e saiu da estrada.
Assim como quem sobe a calçada para cumprimentar pessoas, o carro e ele tocaram árvores, uma depois da outra, até se quedarem, cada qual em seu cantinho de mato.
Não tardou muito e os outros surgiram no local do acidente. Primeiro, curiosos; depois, sorrateiros.
Ele os viu, um a um, revirarem o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio corpo ― não podia se mexer, não podia falar. Depois o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vidas.
Disso ele se lembra bem.
(In: A segunda sombra. Rio de Janeiro: Multifoco, 2010)

Está tudo ali. A formação e o caráter de um país expostos num preto-e-branco sem concessões: a miséria, a falta de solidariedade, a impiedade, o desrespeito ao outro; a solidão profunda do homem diante da adversidade e da indiferença alheia; a dor. 106 palavras que dizem tudo o que somos.


Imagem: a hipnótica arte fotográfica de Chris Jordan.

domingo, 12 de setembro de 2010

A SEGUNDA SOMBRA

O escritor Carlos Barbosa lançará seu mais novo livro, pela editora Multifoco (RJ): o volume de minicontos A segunda sombra. Dia 18 de setembro, sábado, às 10:00 da manhã, na LDM, Rua Direita da Piedade, 20, Centro, Salvador, BA. O livro sai pela Coleção Três por Quatro, dirigida pelo escritor paulista Wilson Gorj, que já publicou prosadores da BA, RS, MG e SP. Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

sábado, 11 de setembro de 2010

ROMANCE DE PÓLVORA

O escritor e crítico literário Hélio Pólvora lançará seu mais novo livro, pela Casarão do Verbo: o romance Inúteis luas obscenas. Dia 23 de setembro, quinta-feira, às 19:30, na Galeria do Livro, Pç. Castro Alves, 132, Centro, Salvador, BA. Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

VÁ E VEJA, 9: RASTROS DE ÓDIO

Pouco se comenta, mas Rastros de ódio foi baseado num famoso romance de Alan Le May, publicado nos EUA em 1954 pela editora Harper & Brothers, com o título The searchers. E muito da estrutura narrativa do filme se deve à estrutura do romance. Mas isso pouco importa, pois é um dos maiores filmes de todos os tempos, pura arte: ambíguo, impiedoso, forte, inclassificável, verdadeiro, realista a ponto de até hoje incomodar e dividir platéias. E o seu final o resume: o destino do Homem é uma porta aberta, uma jornada da escuridão para a luz, do embotamento para a consciência, que foi o que aconteceu com o Tio Ethan, cujas convicções se esfumaçaram, ao fim. O grande personagem é aquele que se transforma, mas sem panfleto, naturalmente, de acordo com a experiência sofrida e com a lógica narrativa, sem a pretensão de mudar nem as pessoas (os espectadores), nem o mundo (a História). Já vi umas oito ou dez vezes e verei tantas mais! Classificam-no, erroneamente, como western ou bangue-bangue. Na verdade, é um grande drama humano, localizado num cenário hostil e implacável, o Oeste Selvagem. Os melhores filmes deste gênero, aliás, ultrapassam o próprio gênero: além de Rastros de ódio, Matar ou morrer, Hombre, Os imperdoáveis, Galante e sanguinário, Céu amarelo, Os brutos também amam, O homem que matou o facínora, e tantos outros. Assistir a estes filmes sob a ótica reducionista da fórmula "tiros, socos e ataques de índios" ou sob o crivo do multiculturalismo, que pretende idealizar o mundo, consequentemente os personagens, é atestar o quanto se desconhece o que seja Cinema, especialmente o Cinema dos Grandes Diretores.

domingo, 5 de setembro de 2010

LINDAS CAPAS, 2

O amor de um professor por sua aluna, e dela por ele. O sentimento, portanto, é recíproco, mas as convenções da época e o temperamento do professor, aliado à sua consciência crítica e ao seu respeito pela profissão, não permitem que a relação se concretize. E esta capa, da edição comemorativa aos cem anos de nascimento de Cyro dos Anjos (1906-1994), expressa tal dilema: o professor, cioso de seu papel de educador, não avança, nem a garota, num ato impensado de audácia, o encoraja. Permanece então o impasse, o verdadeiro assunto do relato: ela, acima dele socialmente, o rosto escondido pela contenção, e ele anulado por sua condição docente, representada aqui pelo recurso gráfico de uma tarja amarela, que ao mesmo tempo o apaga, reprime e aprisiona. Uma capa à altura da excelência de um romance que comprovou, em 1945, o valor literário de Cyro dos Anjos, que, já na estreia, deixava sua obra-prima: O amanuense Belmiro. Para muitos, em vários aspectos, Abdias lhe-é superior.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

VÁ E VEJA, 8: RITOS DE PASSAGEM

Se há um gênero de filme em que os americanos são insuperáveis é a narrativa de rito de passagem da adolescência para a idade adulta. Podemos arrolar facilmente uns dez filmes importantes no gênero produzidos nos EUA. Mas três se destacam: Juventude transviada (Rebel whitout a cause, 1955), de Nicholas Ray, Loucuras de verão (American graffiti, 1973), de George Lucas, e O selvagem da motocicleta (Rumble fish, 1983), de Francis Ford Coppola.

Se o tom do primeiro é de rebeldia e tédio, o do segundo é de indecisão e humor, e o do terceiro, de violência e desorientação. Nos três, porém, os jovens estão transitando: já não são mais crianças, mas ainda não são adultos. Falta algo, talvez segurança, certeza ou simplesmente a capacidade de conciliar a diferença individual com o padrão coletivo. No filme de Ray a fuga da existência vazia e sem horizontes se dá através das noites de farra e pegas automobilísticos, até que um dos participantes morre, e o sonho muda de rumo, para convergir noutra morte, ainda mais estúpida, porque cunhada no erro. No início do filme, num ato de rebeldia da rebeldia o personagem de James Dean bebe leite, numa cena que se tornou célebre e que, em geral, o público não compreendeu. O desfecho, preparado com rigor ao longo da narrativa, parece afirmar que crescer, tornar-se adulto, é o correlato de acordar para a própria vida.

No filme de Lucas, o dilema existencial se resolve numa única noite em que os personagens transitam insones pelas ruas de uma pequena cidade interiorana. Mais uma vez, o pega de automóveis é o emblema de uma transmutação, mas, embora haja ainda um acidente, ninguém morre: o desastre, citação clara ao filme de Ray, serve como um baque, que desperta os personagens do sonho acordado de uma noite inteira, mas sem feri-los gravemente: a vida é outra coisa, e sérias decisões precisam ser tomadas, só isso.

No filme de Coppola, num preto e branco comovente, que a música quase abstrata intensifica ao máximo, tornando-o onírico, os personagens vivem à sombra do Motoqueiro, espécie de herói da juventude da cidade. Forte, bom de briga, inteligente, sensível, capaz de se dar bem em tudo, ele só não é exitoso consigo mesmo: vive em crise e despreza a influência que exerce sobre os mais jovens. Enquanto todos querem imitá-lo, especialmente seu irmão, ser quem ele é, o Motoqueiro, de sua parte, quer ser outra pessoa. Não há mais pegas, nem acidentes de automóveis: o emblema de mudança é mais sutil e poético e, não sem ironia, conduz a um final ambíguo, entre a dor e a redenção. O Motoqueiro reina e reinará sempre, apesar de tudo. Antes pelo seu heroísmo, pelos seus atos, agora pelo que fizeram com ele, lição que seu irmão Rusty James absorve e com a qual, finalmente, cresce.

Três belos filmes sobre a juventude, três eficientes ritos de passagem, três olhares sobre uma época que ninguém esquece e que, perdida, jamais será recuperada, a não ser pela memória, que é o que resta, até que chegue a morte.

domingo, 29 de agosto de 2010

90 LIVROS CLÁSSICOS PARA APRESSADINHOS

O quadrinista sueco Henrik Lange reuniu, no volume 90 livros clássicos para apressadinhos, paródias gráficas de livros famosos, de Dom Quixote (1605) a Mistério na neve (1992). Há supremacia de autores de língua inglesa, e a língua portuguesa só comparece com um único livro, que deixo aos leitores descobrir. As paródias resumem as histórias com humor e uma certa atualização irônica, conforme nossa época e o gosto temático atual. A intenção é provocar riso com alguns dos livros mais importantes já escritos no Ocidente, destroná-los de sua pose de seriedade. O resultado é delicioso, pois nos vemos rindo com o entrecho de obras que foram marcantes para as nossas vidas, como no meu caso O estrangeiro, A náusea, O processo e Fome. Algumas paródias são magistrais, como a de Factótum, de Bukowski: "Henri Chinaski bebe. E dorme com putas. E bebe mais. É o estilo Bukowski de vida". Faltaram, claro, os quadrinhos. A tradução e adaptação foram feitas pelo cartunista Ota. E o gato barra-pesada da capa é o Behemoth, do romance O mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

CIDADE DE VIDRO

Extraordinária adaptação para os quadrinhos do conto homônimo de Paul Auster. Os autores conseguem a proeza de amalgamar o caráter literário do conto, que não se apaga em momento algum, à agilidade das HQs. E o resultado é uma das melhores obras do gênero, com palavras e imagens funcionando como num filme. Destaca-se sobretudo a sequência em que o protagonista, Quinn, detetive particular de ocasião, decai e envelhece a observar a porta do edifício de seu cliente, numa indiscutível alusão ao célebre conto Diante da lei, de Kafka. Se ainda há dúvidas quanto ao caráter literário das HQs, não há mais quanto à sua capacidade de conservá-lo quando o texto inspirador é a Literatura.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

IMAGEM DA PAZ FUTURA

Inspirado no meu conto A paz forçada, recém-publicado na revista Portal 2001, o escritor Carlos Américo Kogl fez esta bonita ilustração. Idealizada pelo escritor Nelson de Oliveira, a revista reúne vários autores brasileiros atuais em suas incursões pela literatura de ficção científica.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

DUAS POETISAS, DOIS LIVROS


Finalmente Ângela Vilma e Mônica Menezes trazem a público seus tão esperados livros, pela coleção Cartas Bahianas: Poemas para Antônio e Estranhamentos. O lançamento é amanhã, de 19 a 22 horas, na Livraria Tom do Saber, Rio Vermelho, Salvador, BA. Os escritores já confirmaram presença. Que compareçam os leitores!

Clique sobre o cartaz para ampliá-lo.

domingo, 22 de agosto de 2010

2 DEDOS DE POESIA


O SUMO DE UM LIVRO DE LUÍS PIMENTEL

Belo livro para crianças e também adultos,
Adultos que esqueceram que a poesia está em tudo.
E que a linguagem é só um meio,
E que este não deve anular
Os sentimentos que as imagens despertam,
Nas montanhas, na terra, no mar,
Sob pena de que a poesia se transforme
Em simples discurso,
Sem conteúdo, como o dos políticos,
Ou fruto sem sumo, raquítico.


Embebido da poesia de Luís Pimentel, só consegui falar do livro dele, Dois dedos de poesia, lançando mão da linguagem poética. Mérito para o poeta Luís Pimentel, que já possui mais de vinte livros só para o público infanto-juvenil, entre os quais As roupas do papai foram embora e Todas as cores do mar, e para o artista plástico Orlando, que ilustrou maravilhosamente os poemas. Aperitivo:

Poesia
não é só
o que há
de bom.
Poesia
muda de tom:
um dia é azul,
de céu e harmonia.
No outro é bem cinza,
de parede fria.
Mesmo assim
é poesia.

LUÍS PIMENTEL

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

VERÃO ÍNDIO

Durante a colonização das Américas, ouro, prata e madeira não eram os únicos produtos a deflagrar conflitos entre colonos e índios. Havia um "outro", mais antigo e muito mais importante para a vida. Com a ironia de Hugo Pratt (1927-1995) e a sensualidade do desenho de Milo Manara (1945), Verão índio (Conrad, 2009) é quase uma sátira aos nobres tempos coloniais. Uma sátira que não foge à verdade.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CASARÃO DO VERBO

Livro bom, bonito e bem-feito, a BAHIA também tem. Casarão do Verbo: portas abertas para o prazer da leitura! Clique em cima da imagem para ampliá-la.