
LANÇAMENTO
9 de junho, quarta-feira
de 17 a 21 horas
LIVRARIA LDM
Rua Direita da Piedade, 20, Piedade
Salvador, BA
(71)2101-8007
eventos@livrariamulticampi.com.br
Como se não houvesse amanhã – coletânea de contos inspirados em 20 canções da Legião Urbana, organizada por Henrique Rodrigues. Cada autor pôde escolher uma música e, no fim, todos os discos foram contemplados na obra. Em alguns casos, o contista usa a música como trilha sonora para uma história; em outros (maioria), a letra é recontada por meio de uma nova ação. Infelizmente, a diversidade incorreu não apenas na narrativa, mas na qualidade dos textos. Enquanto alguns se destacam pela criatividade e fuga do óbvio, como “Tempo perdido” (de Tatiana Salem Levy) e “Por enquanto” (de Renata Belmonte), outros pecam pela ingenuidade ou por serem meros exercícios de demonstração de riqueza vocabular. Em comum, entre todos, um cheiro de perda, dor e tristeza. Astros predominantes no universo de Renato Russo.
"É preciso que uma imagem se transforme no contato com outras imagens, como uma cor no contato com outras cores. Um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um amarelo, de um vermelho. Não há arte sem transformação."
Nem mesmo os passarinhos tristes
"A maioria das pessoas é outra pessoa. Seus pensamentos são as opiniões de outra pessoa, suas vidas uma mímica, suas paixões uma citação." (OSCAR WILDE)
Aquilo que o Governo chama "cultura" é o que usualmente chamamos Arte: Literatura, Música, Pintura, Escultura, Arquitetura, Teatro, Fotografia, Dança, Cinema, Quadrinhos. Há ainda a "arte popular", com suas manifestações peculiares, suas circunstâncias regionais específicas e suas escolhas estéticas, do mais simples ao mais complexo.
Não há nada mais previsível atualmente do que o cinema brasileiro: documentários biográficos, filmes sobre injustiça social, comedinhas românticas com os astros da Globo, a condição do Nordeste, banditismo, a cultura ingênua do campo, biografia de dupla sertaneja, reflexão rasteira sobre as minorias e até ficção barata com o Presidente da República. Tudo isso com muito panfleto, conselhos de almanaque e frases de educação doméstica.
Expulso aos cinco minutos do primeiro tempo, o meia-direita de uma equipe em crise, entrou no vestiário apenas para trocar de roupa e apanhar a mochila. Nem chegara a suar, portanto nem tomou banho. Foi embora.Na rua, pegou o primeiro táxi que avistou.
Dentro do veículo, foi reconhecido e teve que se explicar, embora por vontade própria, espécie de desculpa a si mesmo por estar ali, voltando para casa, como um soldado que houvesse desertado:
“Fui expulso logo no início do jogo”.
Com essa informação, o motorista ligou o rádio e sintonizou a transmissão da partida. O time em crise já perdia por 2 x 0. Dois gols–relâmpagos, um atrás do outro. O time estava tonto, acossado, sem poder de reação. Cupins no vento, antes de um temporal. A bola ia e vinha na área, como se para seus jogadores estivesse besuntada de manteiga, e para o adversário, polvilhada de giz.
“Que ano, meu Deus!”, o jogador disse, suspirando.
O motorista parecia se divertir, mas, depois de um tempo, fechou o semblante e adotou uma fisionomia séria.
O carro corria livre, na noite sem tráfego. Não mais que trinta minutos do estádio até sua casa. E, com aquele deserto, não mais que vinte. O jogador se perguntou o que diria à mulher. Que fora expulso, claro! A verdade. A verdade que estaria em todos os jornais no dia seguinte. E na tevê, na internet, nas bocas por toda a cidade. Com um a menos, time se entrega. Três gols em dez minutos. Seis-a-zero foi pouco. Diretoria estuda a possibilidade de punir Gilvan. Técnico admite que expulsão foi decisiva para a construção do resultado. Expulsão desmontou o esquema e ainda desorientou o time. Empresário de Gilvan reconhece que depois da goleada a permanência do jogador no clube é quase impossível e que seu destino será mesmo a Europa. Colunista analisa o motivo da expulsão e explica o placar tão dilatado. Os dois próximos jogos serão decisivos. Técnico prevê mudanças nos três setores do time. Dupla de atacantes deverá ser substituída. Gilvan se recusa a dar entrevistas. Empresário afirma que até sexta-feira situação do meia-direita Gilvan estará definida. Presidente do clube é incisivo: “Aqui ele não joga mais!” Gilvan quebra o silêncio e diz que agora só pensa na Europa. Lazio confirma contratação de Gilvan. Gilvan é recebido com festa na Itália...
Com ecos de Godard, Fellini, Antonioni, Saura, Tarkovski, Kar-Wai e Rohmer, Um dia muito especial é um filme que demonstra o quanto a originalidade na arte reside, em muitos casos, no resgate de uma tradição, deslocada para um novo contexto, geográfico ou temporal. Mohsen Makhmalbaf, que produziu, escreveu, dirigiu e montou o filme, vale-se dos cinco sentidos para refletir sobre o amor, a vida, o tempo, a História, a religião e a poesia. Podemos seguramente dizer que este filme é semiótico e sinestésico: não é para ser "acompanhado", em cada etapa da trama, se é que há alguma trama; deve ser apreciado pelo que reúne de belo em suas imagens, de forte e verdadeiro em seus diálogos reflexivos e de irreverente em seu contínuo vaivém entre o presente e o passado, embalado por temas musicais que mesclam violino, acordeon, melodias árabes, russas e ciganas. As influências dos cineastas citados, mais do que benéficas, são fonte e caldo, apoio e veneração. O diretor não sente pudor de apresentar seus mestres e com eles fazer o "seu filme": de Godard busca o sentido dos signos que estão à nossa volta e que nos regem, ainda que não admitamos isso; como Fellini, exercita a liberdade de filmar sem roteiro prévio ou padronizado, ao fluxo da criatividade; a exemplo de Antonioni, elege a relação amorosa e a mulher como meios de reflexão sobre a existência; de Saura resgata a dança como arte e jogo de sedução; de Tarkovski captura a poesia das coisas (uma sombrinha, o Outono, árvores floridas, luzes, folhas, ruas, o princípio da neve sobre os telhados); sob a influxo de Kar-Wai, introduz a música como elemento que desperta o espectador e o envolve no encantamento da trama, que, por sua vez é esvaziada ou apenas um pretexto intelectual para que, através de diálogos nada ingênuos, embora sem nenhum panfleto, espontâneos e profundos como nos filmes de Rohmer, reflitamos sobre o que é o amor, por conseguinte a vida e tudo o mais. Um dos pontos altos do filme está na cena em que o protagonista revela que trocou um quadro de Lênin por um do Messias e depois este por um cronômetro. Ora, ele trocou a História pela Religião e depois pela consciência do Tempo, essência única de que somos feitos e da qual não podemos escapar, o motor que nos rege, conduz e esmaga. E a consciência do tempo é a certeza de que se é um indivíduo, uno, e só há um ponto de alcance, a morte. Um filme para ser admirado, por sua beleza visual e estética, e desfrutado, pois compreende uma página da vida, a vida de todos nós.
Chegou o outono! E nós aqui de Salvador, que tivemos um verão abafado e grudento, devemos comemorar. O haicai (poema de origem nipônica) caracteriza-se por celebrar as estações do ano em confluência com o estado de espírito do eu do poeta, consequentemente do leitor. Tal aspecto acaba por impor que os haicais, na maioria do casos, quando reunidos em livro, sejam classificados ou separados conforme a estação que celebram: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Uma ótima coleção de haicais japoneses organizada dessa forma é a Haicais: antologia e história (Unicamp, 1996), sob a criteriosa orientação dos estudiosos Paulo Franchetti, Elza Taeko Doi e Luiz Dantas. Neste maravilhoso livro, o Outono começa na página 142, com um belíssimo haicai de Bashô. Que esta estação, nem sempre venerada a contento, adentre a nossa sensibilidade.
Marcada por indagações existenciais, colocadas de forma elíptica, nos entrelugares e zonas limítrofes percorridas pelos seus personagens, a ficção de Mayrant Gallo tem nas entrelinhas a sua grande vocação.
"Maurice Blanchot demonstrou que o tempo-calendário pouco tem a ver com o tempo laboratório central: presumido seria o escritor que acreditasse haver deixado definitivamente para trás uma etapa de sua obra. Em qualquer página futura, pode estar a nossa espera uma nova página passada, como se ficasse algo por dizer do ciclo que acreditávamos anterior, ou como se, depois de tirarmos todas as gravatas velhas para agradar a nossa amada esposa no dia das bodas de prata, descobríssemos que pusemos, que horror!, a gravata de bolinhas presenteada por aquela noiva que depois não se casou conosco."
Uma das maiores evidências de que um escritor é bom, e sua obra relevante, é a leitura pública. Aquele momento em que um leitor de literatura (que nem sempre é um professor) ou o próprio autor leem a obra para uma plateia específica e atenta. O fascínio estará nos olhos, e o impacto final, em especial se for um conto, no silêncio que se segue à leitura da última linha. A escritora Renata Belmonte (foto) passou com louvor por esse teste quando levei seu conto A mesma de tempos atrás para uma oficina de literatura que ministrei há mais ou menos três anos, em Cipó, BA. Quando terminamos de ler, as alunas (só havia mulheres na turma) estavam aferradas às cadeiras, sem ação. O impacto foi tamanho, que deixamos a discussão sobre o conto para o dia seguinte, uma manhã de domingo. E que discussão. Foi um dos pontos altos do curso. Na releitura que fizemos no domingo, a vida ganhou outra cor, outro sentido. E vimos o quanto a literatura, com sua linguagem que nos escapa, seu tecido indomável, é ao mesmo tempo espelho e raiz das pessoas: o que está na superfície e o que se oculta, por timidez, temor ou vergonha de se mostrar, como nesse trecho da autora, em que todos nós, mulheres e homens, nos reconhecemos:
"Oh! É um absurdo fixar regras rígidas sobre o que se deve e o que não se deve ler. Mais da metade da cultura moderna depende do que não se deve ler."
Este é o novo livro do escritor paulista Wilson Gorj, uma sensacional miscelânea de minicontos, aforismos, poemas e epigramas. A editora é a carioca Multifoco, através do selo Três por Quatro, que já está com mais quatro autores programados. Gorj, que apareceu com o interessantíssimo Sem contos longos (2007), leva ao extremo sua predileção pela economia verbal, pela ironia e pela paródia, cunhando neste livro alguns relatos que não vão além de uma ou duas linhas e textos que lembram a sisudez de Heráclito e a despretensão de Leminski. Para ser lido em qualquer lugar ou momento (na fila do banco, dentro do ônibus ou com água até o pescoço), Prometo ser breve cumpre a promessa de deleitar o leitor que não quer perder tempo nem palavras, mas espera ser enriquecido com metáforas e surpresas, como:
"Mas ler, bom, essa é uma vantagem que eu levo em relação a praticamente todas as pessoas que conheço. Descortina outros mundos. Não vivo nesses mundos, mas gosto de visitá-los."
"Potêncius não era um homem. Era um congresso de fertilidade. Jamais uma pessoa foi tão símbolo da masculeza, da masculinidade, da macheza, da virilidade. Fidélia não sabia, mas se soubesse não lhe importaria: o coronel Potêncius, nas lutas, não arriscava a pele. Os grandes sensuais preferem guardar sua energia para as alcovas. Têm mais por que viver. Só os impotentes se realizam nas batalhas, nas grandezas políticas. Potêncius, se pudesse, jamais sairia do leito, tal o prazer que encontrava nas variações sensíveis desse jogo informal homem-mulher. Era o que hoje chamamos, vulgarmente, um atleta Probel, desses que compram suas camas em casa de esporte."
Nenhuma participação em Libertadores, essa era a verdade. Para que time ele torcia? Para um time que no campeonato nacional não ia além da posição intermediária. Tudo bem que depois de subir para a primeira divisão jamais ficou ameaçado de rebaixamento. Não, não mesmo. Isso ele reconhecia. Entre vinte clubes, estava sempre pelo meio, entre a oitava e a décima-quarta posição. Raramente à frente e jamais atrás, na rabeira. Isso era um mérito, sem dúvida. Mas, por outro lado, já estava cheio dessa farsa. Os clubes rebaixados, ou aqueles que viviam ameaçados e escapavam no fim, não passavam por isso apenas porque estavam em crise; sofriam porque se arriscavam: muitas vezes estavam envolvidos com a Libertadores, em meio às semifinais ou já na final, e apropriadamente largavam o campeonato brasileiro com os reservas, que nem sempre iam mal, mas raramente iam bem e deixavam seus times no pé da tabela, a torcida irada por se ver, de repente, o centro da pilhéria, apesar do sucesso em nível continental. E nem assim os clubes de porte médio – e seu clube não passava de médio – aproveitavam a chance. A tendência – ou talvez a meta – era ganhar em casa e empatar ou perder de pouco fora. Ao fim, dos mais de cem pontos disputados – e como não se podia ganhar todas as partidas em casa – seu clube chagava a sessenta ou sessenta em cinco, no máximo. O suficiente para se inscrever entre os dez primeiros e disputar a Copa Sul-Americana, espécie de segunda divisão do intercontinental. Pedreira torcer para um time assim, come-corda. Já estava de saco cheio. Nenhuma participação
"Se você não se reconhece num livro, esse livro não existe. O que você lê num livro é você mesmo. Se você não se encontrar nele, ele não presta para você. Se você se encontra num livro, então ele é para a vida inteira, você sente saudades do livro, do autor."
O escritor Carlos Barbosa, autor de A dama do velho Chico (Bom Texto, 2002), postou aqui no blogue um comentário em que confessa ter sentido falta da novela As catilinárias, da belga Amélie Nonthomb (um relato que ambos apreciamos) no texto Novelas imortais.
O livro Fim de caso, de Graham Greene, distende ao máximo a ideia de que o romance é um gênero informe. Neste agrupador de gêneros e formas, tudo é possível, e suas páginas comportam todas as linguagens, além de permitir o máximo de variação estrutural, externa e internamente, e aceitar todo tipo de experiência estética.
Em meados dos anos 1980, Fernando Sabino idealizou para a editora Rocco uma coleção de literatura mundial clássica, intitulada Novelas Imortais. Ele ainda fazia, num texto discreto e objetivo, a apresentação de cada obra, através de uma breve notícia da vida do autor, as circunstâncias em que sua literatura ganhou notoriedade e uma rápida menção à trama, com suas convergências e divergências em relação ao gosto literário da época.