"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

sábado, 5 de junho de 2010

BEIRA DE RIO, CORRENTEZA


LANÇAMENTO
9 de junho, quarta-feira
de 17 a 21 horas

LIVRARIA LDM
Rua Direita da Piedade, 20, Piedade
Salvador, BA

(71)2101-8007
eventos@livrariamulticampi.com.br

quinta-feira, 20 de maio de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

RENATA BELMONTE NA LEGIÃO

Como se não houvesse amanhã – coletânea de contos inspirados em 20 canções da Legião Urbana, organizada por Henrique Rodrigues. Cada autor pôde escolher uma música e, no fim, todos os discos foram contemplados na obra. Em alguns casos, o contista usa a música como trilha sonora para uma história; em outros (maioria), a letra é recontada por meio de uma nova ação. Infelizmente, a diversidade incorreu não apenas na narrativa, mas na qualidade dos textos. Enquanto alguns se destacam pela criatividade e fuga do óbvio, como “Tempo perdido” (de Tatiana Salem Levy) e “Por enquanto” (de Renata Belmonte), outros pecam pela ingenuidade ou por serem meros exercícios de demonstração de riqueza vocabular. Em comum, entre todos, um cheiro de perda, dor e tristeza. Astros predominantes no universo de Renato Russo.

por RAPHAEL PERRET, na Butuca Ligada.

domingo, 16 de maio de 2010

AS IDEIAS DE ROBERT BRESSON

"É preciso que uma imagem se transforme no contato com outras imagens, como uma cor no contato com outras cores. Um azul não é o mesmo azul ao lado de um verde, de um amarelo, de um vermelho. Não há arte sem transformação."

"Criar não é deformar ou inventar pessoas e coisas. É estabelecer entre pessoas e coisas que existem, e tais como elas existem, novas relações."

"Em toda arte existe um princípio diabólico que age contra ela e tenta demoli-la."

"Nem realizador, nem cineasta. Esqueça que você faz um filme."

"Não filmar para ilustrar uma tese, nem para mostrar homens e mulheres limitados a seu aspecto exterior, mas para descobrir a matéria da qual eles são feitos. Atingir esse 'coração do coração' que não se deixa captar nem pela poesia, nem pela filosofia, nem pela dramaturgia."

"Nade de excesso, nada que falte."

"O cinema sonoro inventou o silêncio."

"Aproximar as coisas que ainda jamais foram aproximadas e não pareciam dispostas a ser."

"Uma coisa errada, se você mudá-la de lugar, pode ser uma coisa bem-sucedida."

"Desmontar e remontar até a intensidade."

"Não pense no seu filme além dos meios que você criou para você."

"Seja o primeiro a ver o que você vê como você o vê."

"Remeter o passado ao presente. Magia do presente."

"Uma coisa velha se torna nova se você a destaca do que a cerca habitualmente."

ROBERT BRESSON (1907-1999), cineasta francês de renome, tinha um estilo único de filmar e filmava incansavelmente à sua maneira, sem se trair nunca. Foi também um teórico do cinema, com ideias próprias que influenciam artistas até hoje, e não somente do meio. É importante perceber que as reflexões acima podem ser direcionadas, por exemplo, à criação literária, especialmente a prosa. Entre seus filmes mais célebres estão: Pickpocket (1959), O processo Joana D'Arc (1962) e O dinheiro (1983). Trechos extraídos de Notas sobre o cinematógrafo (Iluminuras, 2005), de autoria de Bresson.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

(NÃO) SAIU NA IMPRENSA, (AINDA)

Nem mesmo os passarinhos tristes
Autor: Mayrant Gallo
Editora: Multifoco (RJ)
Páginas: 150
Valor: R$30,00

Um livro de minicontos. Histórias breves, rápidas, poéticas. Algumas não vão além de uma linha, outras cobrem uma página inteira. Registro lírico, sarcasmo, ironia, crueldade, humor. Há de tudo um pouco. E, em tempo de Copa do Mundo, eis uma visão nada otimista do país do futebol:

“Quando o sol chegou a pino, e os jogadores abandonaram o campo, entraram os três cavalos e, com os rabos abanando, se dispuseram a devorar o resto”. (ANIMAIS).

Embora muitos acreditem que o miniconto é um gênero recente, não é. No mundo árabe, o miniconto é arte literária há pelo menos mil anos, e talvez o primeiro livro de minicontos do Ocidente tenha mais de um século: Histórias naturais, do francês Jules Renard, de 1896. No Brasil, ganhou impulso nas duas últimas décadas e virou febre, moda, onda, como queiram chamar, e tem em Dalton Trevisan o seu maior cultor. Kafka, Cortázar e Brecht também se exercitaram no miniconto.

Em Mayrant Gallo, que costuma ressaltar a superioridade da poesia sobre a prosa, as historietas cunham uma linguagem que forçosamente, para segurar o leitor, mescla as duas formas, confundindo-as:

“Um homem queria evitar o vinho, ir além, vencer, contornar as ruínas... Mas tudo o que conseguiu foram três filhas.” (PASSAPORTE FALSO)

Ou neste enigmático PÔQUER: “As mãos que guardavam o baralho eram a mesmas que lascaram o lacre e distribuíram as cartas.”

Como afirma o escritor Carlos Ribeiro, na orelha do volume, “Mayrant Gallo tem nas entrelinhas a sua grande vocação”. Diz e diz um pouco mais sem dizer. Que o leitor se alimente. Ou se intrigue.


UM JORNAL QUALQUER

sexta-feira, 7 de maio de 2010

PASSARINHOS E MACROMUNDO


NEM MESMO OS PASSARINHOS TRISTES, Mayrant Gallo
&
MACROMUNDO, Wladimir Cazé

Na única livraria de verdade da cidade!

22 de maio, 2010
De 10 a 14 horas

LDM LIVRARIA MULTICAMPI
Rua Direita da Piedade, 20, Piedade
Salvador, BA

Apareça!


Uma coprodução Multifoco,
Confraria do Vento
& LDM Livraria Multicampi.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

domingo, 2 de maio de 2010

VÁ E VEJA, 7: HELL

"A maioria das pessoas é outra pessoa. Seus pensamentos são as opiniões de outra pessoa, suas vidas uma mímica, suas paixões uma citação." (OSCAR WILDE)

Esta é, ironicamente, uma citação perfeita para se assistir a Hell (2009), de Bruno Chiche, baseado no livro de Lolita Pille, que assina com ele o roteiro.

O cenário é a Paris contemporânea. O assunto, o tédio. Os protagonistas, os jovens burgueses destituídos de sonhos, pois têm tudo e, assim, só lhes resta trepar e se drogar, não importa com quem nem como.

O foco narrativo acompanha o dia a dia de Hell, filha única de um casamento esfacelado. Entremeados na trama, há aspectos que esclarecem e definem a psicologia da personagem, como a cena em que, ao chegar tarde da noite em casa e encontrar a mãe ainda acordada, ela pergunta: "Esperando por mim?" "Não, pelo seu pai."

Hell também se autodefine, niilisticamente. Quando um cara que ela acabou de conhecer lhe pergunta, num bar, o que ela faz além de chorar nas ruas (referência a uma cena anterior, primeiro encontro de ambos) e beber nos bares, ela responde: "Também choro nos bares".

Uma das chaves do filme está na sequência em que Hell, convocada a dar uma canja vocal num bar, canta uma cantiga infantil, como se fosse uma garotinha, os olhos marejados:

Era uma vez um barquinho
Que nun, nun, nunca navegou
Oê, oê; oê, oê, marinheiro
Marinheiro navega sobre as ondas.

Ele fez uma longa viagem
No mar Me, Me, Mediterrâneo
Oê, oê; oê, oê, marinheiro
Marinheiro navega sobre as ondas.

O resto é noite, cidade, sexo e cocaína. O espírito noir foi no passado uma exclusividade de seres à margem e envolvidos em crimes. Hoje é a própria vida, comum e cotidiana.

Mas o que isso tem a ver com a citação de Wilde? Bem, fica evidente no filme que Hell não consegue ser ela própria. Desprezada pelos pais e sufocada pelo mundo, ela só pode ser outra pessoa, o modelo fútil e vazio que está à sua volta. O modelo que o dinheiro, combustível em profusão, move em direção ao sexo fácil e sem sentimentos, à cocaína como refúgio e aos atos gratuitos, esboços tênues de uma individualidade perdida.

sábado, 1 de maio de 2010

GRADATIVA EXCLUSÃO DA LITERATURA

Aquilo que o Governo chama "cultura" é o que usualmente chamamos Arte: Literatura, Música, Pintura, Escultura, Arquitetura, Teatro, Fotografia, Dança, Cinema, Quadrinhos. Há ainda a "arte popular", com suas manifestações peculiares, suas circunstâncias regionais específicas e suas escolhas estéticas, do mais simples ao mais complexo.

E é por isso que me espantei de ver que, na capa da Nova Lei da Cultura: material informativo sobre o projeto de lei que cria o programa nacional de fomento e incentivo à cultura, não se representa a Literatura. Ora, a literatura, como manifestação artística (ou, se preferirem, cultural), é tão antiga quanto o homem. Nasceu nas paredes das cavernas, com as pinturas rupestres, que são, grosso modo, narrativa e poesia, as duas essências básicas da literatura. Posteriormente, os "desenhos" se transformaram em palavras, frases, textos, os gêneros literários como os conhecemos hoje: poesia, conto, romance etc.

A ausência da Literatura ali será uma exclusão entre tantas inclusões? Talvez sim e talvez não, pois, dentro do livreto da Nova Lei, há uma referência discreta à Literatura, na seção em que se mencionam os novos fundos setoriais: Fundo setorial do livro, leitura, literatura e humanidades. Pouco, porém. Muito pouco. E imprensada entre pesos pesados da tão badalada "economia da cultura".

É inevitável, portanto, que eu me lembre de T. S. Eliot, quando ele afirma que uma sociedade que não lê literatura tende a decair e desaparecer. Sem dúvida, pois de que outro modo poderemos refinar nosso pensamento, se não através da poesia e das narrativas, que, quanto mais elevadas, mais benéficas ao homem, mais "educativas", mais libertadoras? Garanto que não será através do jornalismo-verdade. E é ainda T. S. Eliot quem diz que não devemos descer a arte ao nível do povo, mas elevar o povo ao nível da arte.

Essa é uma proposta ousada, que faz da Arte e da Educação uma coisa só. Sem uma, a outra não existe ou existe parcialmente. Quanto à Cultura, ela sempre existirá, pois meu sapato é cultura, um gesto é cultura, uma lata de lixo é cultura. Mas só a Arte é Arte.

Por isso sempre defendi que o ministério deveria ser esse: Ministério da Educação e das Artes. Enquanto não for assim não conseguiremos nos "elevar". Continuaremos a ser essa sociedade que rasteja.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

CONTANDO NOS DEDOS OS FILMES BRASILEIROS

Não há nada mais previsível atualmente do que o cinema brasileiro: documentários biográficos, filmes sobre injustiça social, comedinhas românticas com os astros da Globo, a condição do Nordeste, banditismo, a cultura ingênua do campo, biografia de dupla sertaneja, reflexão rasteira sobre as minorias e até ficção barata com o Presidente da República. Tudo isso com muito panfleto, conselhos de almanaque e frases de educação doméstica.

Tentei contar nos dedos os filmes brasileiros atuais que, de fato, apresentam algo novo em assunto (a dor humana mais simples, que é viver) e modo de filmar (através de um ângulo que nos sensibilize sem evidente apelo ao melodramático) e não completei as duas mãos.

Aquele filme que acabamos de ver e já queremos ver de novo, pois, mesmo depois de encerrado, continua a ecoar e a nos desafiar com a sua carga de ambiguidade... Aquele filme que nos transforma sem que o percebamos, pois a suposta transformação compreende apenas um insuspeitável acréscimo à nossa percepção do que seja o indivíduo ou o mundo... Aquele filme cuja intenção é apenas contar uma história com (e pelo) peso de si mesma, sem segundas intenções, notadamente políticas ou sociais... Aquele filme que não se fixa em nenhum tipo específico (o adolescente, a mulher, o negro, o pobre, o nordestino, o homossexual), nem em certas datas da História ou em determinados contextos sociais, e que, no entanto, é o Indivíduo, é a História e o contexto que mais nos interessa, o das Relações Humanas.

Esse tipo de filme só além-fronteira ou, de quando em quando, aqui, se algum cineasta ou roteirista se desprende daquilo que, nas telenovelas, chamo A Hora do Panfleto e da Utilidade Pública: aquele momento recorrente em que o personagem, em conversa com outro, recomenda, esclarece, explica, apresenta, conscientiza, com a intenção clara de recomendar, esclarecer, explicar, apresentar, conscientizar.

Contem vocês também nos dedos os filmes brasileiros e, se encontrarem algum Filme, me recomendem.
Imagem: cartaz do filme franco-romeno Casamento silencioso (2008), dirigido por Horatiu Malaele. Crítica irônica e bem humorada aos regimes políticos que desprezam o Indivíduo.

segunda-feira, 29 de março de 2010

UM TÁXI PARA O INFERNO

Expulso aos cinco minutos do primeiro tempo, o meia-direita de uma equipe em crise, entrou no vestiário apenas para trocar de roupa e apanhar a mochila. Nem chegara a suar, portanto nem tomou banho. Foi embora.

Na rua, pegou o primeiro táxi que avistou.

Dentro do veículo, foi reconhecido e teve que se explicar, embora por vontade própria, espécie de desculpa a si mesmo por estar ali, voltando para casa, como um soldado que houvesse desertado:

“Fui expulso logo no início do jogo”.

Com essa informação, o motorista ligou o rádio e sintonizou a transmissão da partida. O time em crise já perdia por 2 x 0. Dois gols–relâmpagos, um atrás do outro. O time estava tonto, acossado, sem poder de reação. Cupins no vento, antes de um temporal. A bola ia e vinha na área, como se para seus jogadores estivesse besuntada de manteiga, e para o adversário, polvilhada de giz.

“Que ano, meu Deus!”, o jogador disse, suspirando.

O motorista parecia se divertir, mas, depois de um tempo, fechou o semblante e adotou uma fisionomia séria.

O carro corria livre, na noite sem tráfego. Não mais que trinta minutos do estádio até sua casa. E, com aquele deserto, não mais que vinte. O jogador se perguntou o que diria à mulher. Que fora expulso, claro! A verdade. A verdade que estaria em todos os jornais no dia seguinte. E na tevê, na internet, nas bocas por toda a cidade. Com um a menos, time se entrega. Três gols em dez minutos. Seis-a-zero foi pouco. Diretoria estuda a possibilidade de punir Gilvan. Técnico admite que expulsão foi decisiva para a construção do resultado. Expulsão desmontou o esquema e ainda desorientou o time. Empresário de Gilvan reconhece que depois da goleada a permanência do jogador no clube é quase impossível e que seu destino será mesmo a Europa. Colunista analisa o motivo da expulsão e explica o placar tão dilatado. Os dois próximos jogos serão decisivos. Técnico prevê mudanças nos três setores do time. Dupla de atacantes deverá ser substituída. Gilvan se recusa a dar entrevistas. Empresário afirma que até sexta-feira situação do meia-direita Gilvan estará definida. Presidente do clube é incisivo: “Aqui ele não joga mais!” Gilvan quebra o silêncio e diz que agora só pensa na Europa. Lazio confirma contratação de Gilvan. Gilvan é recebido com festa na Itália...


Conto recém-publicado na Verbo21, na coluna que tenho por lá, a Seara do Gallo. Portanto, quem quiser ler o resto da história, entre aqui: www.verbo21.com.br

Imagem: Bangu versus América, há muitos anos... Fonte: Blogol.

domingo, 28 de março de 2010

VÁ E VEJA, 6

Com ecos de Godard, Fellini, Antonioni, Saura, Tarkovski, Kar-Wai e Rohmer, Um dia muito especial é um filme que demonstra o quanto a originalidade na arte reside, em muitos casos, no resgate de uma tradição, deslocada para um novo contexto, geográfico ou temporal. Mohsen Makhmalbaf, que produziu, escreveu, dirigiu e montou o filme, vale-se dos cinco sentidos para refletir sobre o amor, a vida, o tempo, a História, a religião e a poesia. Podemos seguramente dizer que este filme é semiótico e sinestésico: não é para ser "acompanhado", em cada etapa da trama, se é que há alguma trama; deve ser apreciado pelo que reúne de belo em suas imagens, de forte e verdadeiro em seus diálogos reflexivos e de irreverente em seu contínuo vaivém entre o presente e o passado, embalado por temas musicais que mesclam violino, acordeon, melodias árabes, russas e ciganas. As influências dos cineastas citados, mais do que benéficas, são fonte e caldo, apoio e veneração. O diretor não sente pudor de apresentar seus mestres e com eles fazer o "seu filme": de Godard busca o sentido dos signos que estão à nossa volta e que nos regem, ainda que não admitamos isso; como Fellini, exercita a liberdade de filmar sem roteiro prévio ou padronizado, ao fluxo da criatividade; a exemplo de Antonioni, elege a relação amorosa e a mulher como meios de reflexão sobre a existência; de Saura resgata a dança como arte e jogo de sedução; de Tarkovski captura a poesia das coisas (uma sombrinha, o Outono, árvores floridas, luzes, folhas, ruas, o princípio da neve sobre os telhados); sob a influxo de Kar-Wai, introduz a música como elemento que desperta o espectador e o envolve no encantamento da trama, que, por sua vez é esvaziada ou apenas um pretexto intelectual para que, através de diálogos nada ingênuos, embora sem nenhum panfleto, espontâneos e profundos como nos filmes de Rohmer, reflitamos sobre o que é o amor, por conseguinte a vida e tudo o mais. Um dos pontos altos do filme está na cena em que o protagonista revela que trocou um quadro de Lênin por um do Messias e depois este por um cronômetro. Ora, ele trocou a História pela Religião e depois pela consciência do Tempo, essência única de que somos feitos e da qual não podemos escapar, o motor que nos rege, conduz e esmaga. E a consciência do tempo é a certeza de que se é um indivíduo, uno, e só há um ponto de alcance, a morte. Um filme para ser admirado, por sua beleza visual e estética, e desfrutado, pois compreende uma página da vida, a vida de todos nós.

sábado, 20 de março de 2010

OUTONO

Chegou o outono! E nós aqui de Salvador, que tivemos um verão abafado e grudento, devemos comemorar. O haicai (poema de origem nipônica) caracteriza-se por celebrar as estações do ano em confluência com o estado de espírito do eu do poeta, consequentemente do leitor. Tal aspecto acaba por impor que os haicais, na maioria do casos, quando reunidos em livro, sejam classificados ou separados conforme a estação que celebram: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Uma ótima coleção de haicais japoneses organizada dessa forma é a Haicais: antologia e história (Unicamp, 1996), sob a criteriosa orientação dos estudiosos Paulo Franchetti, Elza Taeko Doi e Luiz Dantas. Neste maravilhoso livro, o Outono começa na página 142, com um belíssimo haicai de Bashô. Que esta estação, nem sempre venerada a contento, adentre a nossa sensibilidade.

Nunca se esqueça
Do gosto de solidão
Do orvalho branco. (Bashô)

As libélulas,
A cor destes muros:
Que saudade da terra natal! (Buson)

Todas essas estrelas
Surgindo,
Ah, o frio! (Taigi)

Estrelas no lago
E então novamente o ruído
Da chuva fina que cai. (Hokushi)

Primeiras neves
Meu maior tesouro,
Este velho penico. (Issa)

O jarro quebra
Ah, o despertar
Do gelo na noite! (Bashô)

O cão late
Quem andaria
Por esta noite de neve? (Meimei)

Se não tivessem voz
As garças desapareceriam
Sobre a neve da manhã. (Sono-Jo)

Apenas estando aqui,
Estou aqui.
E a neve cai. (Issa)

Dos poetas aqui reunidos, Bashô, Issa e Buson são os mais célebres, sobretudo o primeiro. A foto acima é do filme: Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera (2003), de Ki-Duk Kim.

segunda-feira, 15 de março de 2010

EM ABRIL

Marcada por indagações existenciais, colocadas de forma elíptica, nos entrelugares e zonas limítrofes percorridas pelos seus personagens, a ficção de Mayrant Gallo tem nas entrelinhas a sua grande vocação.

E é nos curtíssimos textos deste Nem mesmo os passarinhos tristes que elas se tornam mais eloqüentes. Afinal, se “No ônibus, um homem deixa pender a cabeça, agarrado pelo sono. Não só pelo sono. Não só pelo sono” (O túnel da noite), somos instados a (re)construir a história daquele homem sobre o qual nada sabemos, mas que podemos imaginar. Algo, aliás, bastante salutar num tempo de idéias domesticadas e imagens pré-fabricadas.

Os mais de 100 minicontos deste livro trazem, pois, a densidade e a intensidade de seus livros anteriores, e consistem num apelo à imaginação dos leitores, convidados a ser co-autores das histórias aqui apenas entrevistas. Um apelo que se vale, em muitos casos, do registro poético para que seus dramas e cenas, ao fim da leitura, continuem ecoando em nossa sensibilidade.

CARLOS RIBEIRO, em texto da orelha.

domingo, 14 de março de 2010

CORTÁZAR E A VELHA GRAVATA

"Maurice Blanchot demonstrou que o tempo-calendário pouco tem a ver com o tempo laboratório central: presumido seria o escritor que acreditasse haver deixado definitivamente para trás uma etapa de sua obra. Em qualquer página futura, pode estar a nossa espera uma nova página passada, como se ficasse algo por dizer do ciclo que acreditávamos anterior, ou como se, depois de tirarmos todas as gravatas velhas para agradar a nossa amada esposa no dia das bodas de prata, descobríssemos que pusemos, que horror!, a gravata de bolinhas presenteada por aquela noiva que depois não se casou conosco."

JULIO CORTÁZAR, em nota ao seu admirável volume de contos Final de jogo (Expressão e Cultura, 1974). O mercado editorial brasileiro é realmente falho e misterioso: este é, sem dúvida, um dos melhores e talvez o mais surpreendente livro de histórias curtas de Cortázar e, no entanto, um dos menos lidos e reeditados. A última edição brasileira data de mais de trinta anos! Estão ali alguns de seus contos mais emblemáticos, indiscutíveis obras-primas, como: A continuidade dos parques, A porta incomunicável, Uma flor amarela, Depois do almoço, Axolotes e Final de jogo. Vamos torcer para que algum editor brasileiro traga este livro de volta, para o deleite de leitores e escritores, cortazarianos ou não.

sábado, 13 de março de 2010

RENATA BELMONTE

Uma das maiores evidências de que um escritor é bom, e sua obra relevante, é a leitura pública. Aquele momento em que um leitor de literatura (que nem sempre é um professor) ou o próprio autor leem a obra para uma plateia específica e atenta. O fascínio estará nos olhos, e o impacto final, em especial se for um conto, no silêncio que se segue à leitura da última linha. A escritora Renata Belmonte (foto) passou com louvor por esse teste quando levei seu conto A mesma de tempos atrás para uma oficina de literatura que ministrei há mais ou menos três anos, em Cipó, BA. Quando terminamos de ler, as alunas (só havia mulheres na turma) estavam aferradas às cadeiras, sem ação. O impacto foi tamanho, que deixamos a discussão sobre o conto para o dia seguinte, uma manhã de domingo. E que discussão. Foi um dos pontos altos do curso. Na releitura que fizemos no domingo, a vida ganhou outra cor, outro sentido. E vimos o quanto a literatura, com sua linguagem que nos escapa, seu tecido indomável, é ao mesmo tempo espelho e raiz das pessoas: o que está na superfície e o que se oculta, por timidez, temor ou vergonha de se mostrar, como nesse trecho da autora, em que todos nós, mulheres e homens, nos reconhecemos:

"Apenas se você me perguntasse, eu responderia. Convivo bem com silêncios, com a falta de explicações. Fui menina criada em cantos, tranças feitas pelas empregadas, órfâ de pai, intervalo incômodo na vida da mãe. Por isso, diariamente, sou abandonada e não me importo".

Parabéns, Renata! Pelos seus 28 anos e pelos seus 3 livros, marcantes para muitos leitores: Femininamente (2003), O que não pode ser (2006), ambos premiados, e Vestígios da Senhorita B. (2009).

terça-feira, 9 de março de 2010

CÂNONES

"Oh! É um absurdo fixar regras rígidas sobre o que se deve e o que não se deve ler. Mais da metade da cultura moderna depende do que não se deve ler."

A provocação é de Oscar Wilde (1854-1900), na peça A importância de ser prudente (Civilização Brasileira, 1998).
Comece logo a sua lista de obras e autores dispensáveis.

domingo, 7 de março de 2010

PROMETO SER BREVE

Este é o novo livro do escritor paulista Wilson Gorj, uma sensacional miscelânea de minicontos, aforismos, poemas e epigramas. A editora é a carioca Multifoco, através do selo Três por Quatro, que já está com mais quatro autores programados. Gorj, que apareceu com o interessantíssimo Sem contos longos (2007), leva ao extremo sua predileção pela economia verbal, pela ironia e pela paródia, cunhando neste livro alguns relatos que não vão além de uma ou duas linhas e textos que lembram a sisudez de Heráclito e a despretensão de Leminski. Para ser lido em qualquer lugar ou momento (na fila do banco, dentro do ônibus ou com água até o pescoço), Prometo ser breve cumpre a promessa de deleitar o leitor que não quer perder tempo nem palavras, mas espera ser enriquecido com metáforas e surpresas, como:

Os filhos crescem,
Criam asa.
Amanhã ou depois
Seremos só nós dois
Nesta casa.

Ou:

Que a poesia
esteja sempre conosco.
Pois ela é a flanela
que dá brilho
ao que antes era fosco.

Ou ainda:

O tempo voa sem ter asas.
A vida escoa sem ser água.
O dinheiro é tudo... e é nada.
O amor é eterno... e acaba.

E por fim:

À linha do horizonte,
surge a cauda de um pavão dourado.
Cantam os galos, enciumados.

sábado, 6 de março de 2010

MUNDOS

"Mas ler, bom, essa é uma vantagem que eu levo em relação a praticamente todas as pessoas que conheço. Descortina outros mundos. Não vivo nesses mundos, mas gosto de visitá-los."

Obviamente que Lawrence Block se refere, em seu conto Até onde a coisa pode ir, à leitura de literatura. O conto está no livro Escolha de mestre (Nova Fronteira, 2004), acompanhado de contos de John O'Hara, Joyce Carol Oates, Stephen Crane e Joe Gores.

Imagem: quadro do pintor iraniano Iman Maleki.

sexta-feira, 5 de março de 2010

VANGUARDAS

"Potêncius não era um homem. Era um congresso de fertilidade. Jamais uma pessoa foi tão símbolo da masculeza, da masculinidade, da macheza, da virilidade. Fidélia não sabia, mas se soubesse não lhe importaria: o coronel Potêncius, nas lutas, não arriscava a pele. Os grandes sensuais preferem guardar sua energia para as alcovas. Têm mais por que viver. Só os impotentes se realizam nas batalhas, nas grandezas políticas. Potêncius, se pudesse, jamais sairia do leito, tal o prazer que encontrava nas variações sensíveis desse jogo informal homem-mulher. Era o que hoje chamamos, vulgarmente, um atleta Probel, desses que compram suas camas em casa de esporte."

MILLÔR FERNANDES, em A viúva imortal (L&PM, 2009). Nesta comédia, baseada numa ideia de Petrônio, uma viúva faz jejum até a morte, por amor, para ir "viver" com o marido que morreu. Em nossa época, de uniões efêmeras e divórcios por minuto, isso é pura vanguarda. Como não se drogar nem ver televisão.

quinta-feira, 4 de março de 2010

NENHUMA PARTICIPAÇÃO EM LIBERTADORES

Nenhuma participação em Libertadores, essa era a verdade. Para que time ele torcia? Para um time que no campeonato nacional não ia além da posição intermediária. Tudo bem que depois de subir para a primeira divisão jamais ficou ameaçado de rebaixamento. Não, não mesmo. Isso ele reconhecia. Entre vinte clubes, estava sempre pelo meio, entre a oitava e a décima-quarta posição. Raramente à frente e jamais atrás, na rabeira. Isso era um mérito, sem dúvida. Mas, por outro lado, já estava cheio dessa farsa. Os clubes rebaixados, ou aqueles que viviam ameaçados e escapavam no fim, não passavam por isso apenas porque estavam em crise; sofriam porque se arriscavam: muitas vezes estavam envolvidos com a Libertadores, em meio às semifinais ou já na final, e apropriadamente largavam o campeonato brasileiro com os reservas, que nem sempre iam mal, mas raramente iam bem e deixavam seus times no pé da tabela, a torcida irada por se ver, de repente, o centro da pilhéria, apesar do sucesso em nível continental. E nem assim os clubes de porte médio – e seu clube não passava de médio – aproveitavam a chance. A tendência – ou talvez a meta – era ganhar em casa e empatar ou perder de pouco fora. Ao fim, dos mais de cem pontos disputados – e como não se podia ganhar todas as partidas em casa – seu clube chagava a sessenta ou sessenta em cinco, no máximo. O suficiente para se inscrever entre os dez primeiros e disputar a Copa Sul-Americana, espécie de segunda divisão do intercontinental. Pedreira torcer para um time assim, come-corda. Já estava de saco cheio. Nenhuma participação em Libertadores.

Conto recém-publicado na Verbo21, na coluna que tenho por lá, a Seara do Gallo. Portanto, quem quiser ler o resto da história, entre aqui: www.verbo21.com.br
Imagem: Futebol (1935), de Portinari.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ENCONTRAR-SE NUM LIVRO

"Se você não se reconhece num livro, esse livro não existe. O que você lê num livro é você mesmo. Se você não se encontrar nele, ele não presta para você. Se você se encontra num livro, então ele é para a vida inteira, você sente saudades do livro, do autor."

RUY ESPINHEIRA FILHO, em entrevista na Saraiva Conteúdo. Poeta, romancista e ensaísta, Ruy acabou de publicar o volume de poemas Sob o céu de Samarcanda (Bertrand Brasil, 2010), que tem versos assim:

"Sessenta e cinco vezes
a volta ao Sol
e nenhuma revelação
nenhum sentido
nada

além do cultivo de uma sombra
cada vez mais longa
no ouro agonizante
da tarde".

domingo, 21 de fevereiro de 2010

NOVELAS IMORTAIS, 2

O escritor Carlos Barbosa, autor de A dama do velho Chico (Bom Texto, 2002), postou aqui no blogue um comentário em que confessa ter sentido falta da novela As catilinárias, da belga Amélie Nonthomb (um relato que ambos apreciamos) no texto Novelas imortais.

Ele tem razão, foi uma falta grave, especialmente se levarmos em conta dois aspectos: 1) o fato de que a novela não goza em nosso tempo de muita popularidade, suplantada que é pelo conto, num extremo, e pelo romance, no outro, e só por isso a autora belga merecia ser citada com louvor; e 2) que, sendo esta obra tão recente, entrevemos uma discreta reação de sobrevivência para este gênero, que se recusa a ser conto e não ambiciona se rivalizar com o romance. Admito, portanto, a minha falha, e junto a ela arrolarei outras, não menos graves, e ciente de que, ao transcrevê-las aqui, estarei cometendo outras.

Nos dias que se seguiram ao comentário do Carlos, e conforme fui olhando para as prateleiras das estantes e para dentro de minha cabeça, inúmeras novelas importantes me "acorreram", como se reclamassem, por elas mesmas, a sua presença e o seu prestígio: Ardabiola, de Ievgueni Ievtuschenko, A volta do parafuso, de Henry James, A herança e Bola de sebo, ambas de Maupassant, Olha para o céu, Frederico, de José Cândido de Carvalho, Contramão, de Antônio Olavo Pereira, O mandarim, de Eça de Queiros, O terror, de Arthur Machen, O amante fantasma, de Vernon Lee, Sem sangue e Seda, ambas de Alessandro Baricco, Do mais longe do esquecimento, de Patrick Modiano, A ilha no espaço, de Osman Lins, Férias na neve, de Emmanuel Carrère, O jardim de cimento, de Ian McEwan, Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, O perseguidor, de Julio Cortázar, O sul & Bene, de Adelaida García Morales, Carlota Fainberg, de Antônio Muñoz Molina, Benito Cereno, de Melville, O coração nas trevas, de Conrad, O segredo de Brokeback Mountain, de Annie Proulx, Assim diz Lilá, de Chimo, O sonho de Voltaire, de Jacques Chessex, A pérola, de John Steinbeck, Primeiro amor e Companhia, ambas de Samuel Beckett, O amante e Moderato cantabile, ambas de Marguerite Duras, A outra mulher e Porte de arma, ambas de Emmanuèle Bernheim, Pena de morte, de Maurice Blanchot, A seguinte história, de Cees Nooteboom, Do amor ausente, de Paulo Roberto Pires, Bruges, a morta, de Georges Rodenbach, A caça aos patos, de Hugo Claus, Mademoiselle cinema, de Banjamim Costallat, A virgem e o cigano e A raposa, ambas de D. H. Lawrence, As possuídas (ou Mulheres imperfeitas), de Ira Levin, Noturno indiano, de Antonio Tabucchi, O pastor, de Frederick Forsyth, 1933 foi um ano ruim, de John Fante, A marca e O outro gume da faca, ambas de Fernando Sabino, Luna caliente, de Mempo Giardinelli, A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, O estrangeiro, de Camus (essa não foi um esquecimento, simplesmente a prescindi em favor de A queda, pois não quis, naquele momento, citar mais de uma novela de um mesmo autor), Não haverá mais dores nem esquecimento, de Osvaldo Soriano, Dáfnis e Cloé, de Longo, Todas as manhãs do mundo, de Pascal Quignard, Com o diabo no corpo e O baile do conde d'Orgel, ambas de Raymond Radiguet, Os vagabundos, que reúne três novelas de Górki, O assalto ao banco Levasseur, de Emmanuel Robles, Bonequinha de luxo, de Truman Capote (e acho que a Bípede Falante vai gostar particularmente desta minha lembrança, que vem reparar um intolerável esquecimento), O destino de um homem, de Mikhail Cholokhov, O cavalheiro de São Francisco, de Ivan Bunin, Incidente na estação Krietchétovka, de Soljenitsin, A estepe, de Tchekhov, A exposição das rosas, de Örkény, e um punhado de novelas de Tolstoi, com destaque para A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos, e de Balzac, autor de obras-primas como Uma paixão no deserto.

Quanto às que ficaram ausentes ou esquecidas, esclareço que não é porque não sejam importantes. Simplesmente não foram citadas, porque não podemos totalizar coisa alguma nesta vida, assim como não é possível alcançar o azul do céu.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

FIM DE CASO

O livro Fim de caso, de Graham Greene, distende ao máximo a ideia de que o romance é um gênero informe. Neste agrupador de gêneros e formas, tudo é possível, e suas páginas comportam todas as linguagens, além de permitir o máximo de variação estrutural, externa e internamente, e aceitar todo tipo de experiência estética.
Fiel a essa definição, o autor desenvolve uma trama que principia com uma ressalva do narrador à forma como as histórias se iniciam: as escolhas feitas, o mundo em que os personagens vão transitar, as circunstâncias históricas, a atmosfera. Continua como se fosse uma narrativa noire, numa imersão de mistério e enigma; ganha um inesperado sopro com um episódio de guerra, no qual um juramento religioso é acionado e que, doravante, vai mudar a existência dos personagens, conduzindo uma mulher à morte prematura, pelo descaso consigo mesma e pela ausência forçada de seu amante, e dois homens a uma união de amizade cujo núcleo é aquela mulher, amada por ambos. Depois a trama se torna policialesca, com o aparecimento de um detetive particular nada ortodoxo, e por fim adquire significado religioso, com o requinte de deixar em aberto a possibilidade de ter ocorrido um milagre.
E costurando tudo isso o estilo altamente sedutor de Graham Greene, capaz de nos submergir em análises profundas sobre a vida e o mundo, sem que isso implique uma linguagem enfadonha ou panfletária. Ou seja: um romance completo. Não é à toa que Faulkner, que não era dado a elogiar autores contemporâneos, declarou seu entusiasmo e apreço por este livro. Um clássico moderno.
A primeira tradução deste romance no Brasil recebeu um curioso título: Crepúsculo de um romance. Sem dúvida muito mais poético, mas infiel ao original em inglês, mais seco.
As duas versões cinematográficas, embora bonitas e profissionais, não conseguem empolgar o espectador: a primeira (Pelo amor de meu amor, 1955), com Deborah Kerr, enfatiza o caráter religioso do relato, em detrimento da relação entre os amantes, quase sob as barbas do marido; a segunda (Fim de caso, 1999), dirigida pelo sempre decepcionante Neil Jordan, e talvez porque seja muito pretensiosa, dilui o peso da narrativa numa sucessão de quadros exóticos cuja maior atração é a fotografia, escura e difusa.
Já o livro, bem, ele como que nos arrebata e derruba, deixando-nos desde o início com a sensação de que estamos diante de uma joia rara. E estamos.*

*Agradeço a Lidiane Nunes, que me sugeriu fazer uma breve resenha deste romance, do qual somos entusiasmados admiradores.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

NOVELAS IMORTAIS

Em meados dos anos 1980, Fernando Sabino idealizou para a editora Rocco uma coleção de literatura mundial clássica, intitulada Novelas Imortais. Ele ainda fazia, num texto discreto e objetivo, a apresentação de cada obra, através de uma breve notícia da vida do autor, as circunstâncias em que sua literatura ganhou notoriedade e uma rápida menção à trama, com suas convergências e divergências em relação ao gosto literário da época.
O primeiro título foi A fera na selva, do anglo-americano Henry James. Vieram a público depois O monge negro, de Tchekhov, Um coração singelo, de Flaubert, O homem da areia, de Hoffmann, Sílvia, de Nerval, O clube dos suicidas, de Stevenson, Bartleby, o escriturário, de Melville, Os sete enforcados, de Andreiev, e Margot, de Musset, este publicado em 1987 e com o qual a coleção repetinamente chegou ao fim. Uma pena. Em resumo: três franceses, dois russos, um alemão e três autores de língua inglesa.
Três idiomas vastos e tradicionalmente respeitados na literatura ocidental ficaram sem representantes na coleção: o italiano, o português e o espanhol. Creio que Fernando Sabino tinha em mente contemplar outros autores de outros idiomas, mas, por algum motivo, a coleção teve que se interromper.
Penso em novelas (gênero que devemos definir aqui, grosso modo, como "romances breves" ou "contos longos") do porte de O alienista, de Machado de Assis, Alves e cia., de Eça de Queiroz, Noites brancas, de Dostoiévski, O capote, de Gógol, O tenente Quetange, de Tynianov, Primeiro amor, de Turgueniev, Aura, de Carlos Fuentes, Filhotes, de Vargas Llosa, Ninguém escreve ao coronel, de García Márquez, Ethan Frome, de Edith Wharton, Juventude, de Conrad, Jana e Joel, de Xavier Marques, Uma vida em segredo, de Autran Dourado, O simples coronel Madureira, de Marques Rebelo, O automóvel, de Herberto Sales, A espingarda de caça, de Yasushi Inoue, A morte e a morte de Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado, Agostinho, de Alberto Moravia, Sombras de julho, de Carlos Herculano Lopes, Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez, de Tabajara Ruas, O urso, de Faulkner, A metamorfose, de Kafka, Fup, de Jim Dodge, O ovo de ouro, de Tim Krabbé, A família Tóth, de Órkény, Miss Corações Solitários, de Nathanael West, Uma paixão no deserto, de Balzac, O grande deus Pan, de Arthur Machen, Adeus, Mr. Chips, de James Hilton, A infância de um chefe, de Sartre, Isabelle, de Gide, Genitrix, de Mauriac, A queda, de Camus, Bom-dia, tristeza, de Sagan, Carmen, de Mérimée, A dançarina de Izu, de Kawabata, Quem perde ganha, de Graham Greene, O mal negro, de Nina Berberova, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Ontem, de Agota Kristof, Mimi vai à guerra, de Paulo Francis, As pedras no caminho, de Ruth Randell, O poste a vapor, de Molnár, Na montanha, de Dion Henderson, O retrato de Jennie, de Robert Nathan, A senhora Caliban, de Rachel Ingalls, Balada do café triste, de Carson McCullers, e outros, muitos outros. Do Romantismo ao Contemporâneo.
Que coleção magistral seria essa! Textos breves, contundentes e em formato para se portar no bolso ou na bolsa. Uma coleção rara, que iria satisfazer aos leitores exigentes e também iniciar outros, mais jovens, em obras selecionadas, variadas e de inegável qualidade literária. Que fique a deixa, para algum editor ao mesmo tempo ousado e maluco, "talvez porque o mundo ultimamente ficou óbvio demais".