Com ecos de Godard, Fellini, Antonioni, Saura, Tarkovski, Kar-Wai e Rohmer, Um dia muito especial é um filme que demonstra o quanto a originalidade na arte reside, em muitos casos, no resgate de uma tradição, deslocada para um novo contexto, geográfico ou temporal. Mohsen Makhmalbaf, que produziu, escreveu, dirigiu e montou o filme, vale-se dos cinco sentidos para refletir sobre o amor, a vida, o tempo, a História, a religião e a poesia. Podemos seguramente dizer que este filme é semiótico e sinestésico: não é para ser "acompanhado", em cada etapa da trama, se é que há alguma trama; deve ser apreciado pelo que reúne de belo em suas imagens, de forte e verdadeiro em seus diálogos reflexivos e de irreverente em seu contínuo vaivém entre o presente e o passado, embalado por temas musicais que mesclam violino, acordeon, melodias árabes, russas e ciganas. As influências dos cineastas citados, mais do que benéficas, são fonte e caldo, apoio e veneração. O diretor não sente pudor de apresentar seus mestres e com eles fazer o "seu filme": de Godard busca o sentido dos signos que estão à nossa volta e que nos regem, ainda que não admitamos isso; como Fellini, exercita a liberdade de filmar sem roteiro prévio ou padronizado, ao fluxo da criatividade; a exemplo de Antonioni, elege a relação amorosa e a mulher como meios de reflexão sobre a existência; de Saura resgata a dança como arte e jogo de sedução; de Tarkovski captura a poesia das coisas (uma sombrinha, o Outono, árvores floridas, luzes, folhas, ruas, o princípio da neve sobre os telhados); sob a influxo de Kar-Wai, introduz a música como elemento que desperta o espectador e o envolve no encantamento da trama, que, por sua vez é esvaziada ou apenas um pretexto intelectual para que, através de diálogos nada ingênuos, embora sem nenhum panfleto, espontâneos e profundos como nos filmes de Rohmer, reflitamos sobre o que é o amor, por conseguinte a vida e tudo o mais. Um dos pontos altos do filme está na cena em que o protagonista revela que trocou um quadro de Lênin por um do Messias e depois este por um cronômetro. Ora, ele trocou a História pela Religião e depois pela consciência do Tempo, essência única de que somos feitos e da qual não podemos escapar, o motor que nos rege, conduz e esmaga. E a consciência do tempo é a certeza de que se é um indivíduo, uno, e só há um ponto de alcance, a morte. Um filme para ser admirado, por sua beleza visual e estética, e desfrutado, pois compreende uma página da vida, a vida de todos nós.
domingo, 28 de março de 2010
VÁ E VEJA, 6
Com ecos de Godard, Fellini, Antonioni, Saura, Tarkovski, Kar-Wai e Rohmer, Um dia muito especial é um filme que demonstra o quanto a originalidade na arte reside, em muitos casos, no resgate de uma tradição, deslocada para um novo contexto, geográfico ou temporal. Mohsen Makhmalbaf, que produziu, escreveu, dirigiu e montou o filme, vale-se dos cinco sentidos para refletir sobre o amor, a vida, o tempo, a História, a religião e a poesia. Podemos seguramente dizer que este filme é semiótico e sinestésico: não é para ser "acompanhado", em cada etapa da trama, se é que há alguma trama; deve ser apreciado pelo que reúne de belo em suas imagens, de forte e verdadeiro em seus diálogos reflexivos e de irreverente em seu contínuo vaivém entre o presente e o passado, embalado por temas musicais que mesclam violino, acordeon, melodias árabes, russas e ciganas. As influências dos cineastas citados, mais do que benéficas, são fonte e caldo, apoio e veneração. O diretor não sente pudor de apresentar seus mestres e com eles fazer o "seu filme": de Godard busca o sentido dos signos que estão à nossa volta e que nos regem, ainda que não admitamos isso; como Fellini, exercita a liberdade de filmar sem roteiro prévio ou padronizado, ao fluxo da criatividade; a exemplo de Antonioni, elege a relação amorosa e a mulher como meios de reflexão sobre a existência; de Saura resgata a dança como arte e jogo de sedução; de Tarkovski captura a poesia das coisas (uma sombrinha, o Outono, árvores floridas, luzes, folhas, ruas, o princípio da neve sobre os telhados); sob a influxo de Kar-Wai, introduz a música como elemento que desperta o espectador e o envolve no encantamento da trama, que, por sua vez é esvaziada ou apenas um pretexto intelectual para que, através de diálogos nada ingênuos, embora sem nenhum panfleto, espontâneos e profundos como nos filmes de Rohmer, reflitamos sobre o que é o amor, por conseguinte a vida e tudo o mais. Um dos pontos altos do filme está na cena em que o protagonista revela que trocou um quadro de Lênin por um do Messias e depois este por um cronômetro. Ora, ele trocou a História pela Religião e depois pela consciência do Tempo, essência única de que somos feitos e da qual não podemos escapar, o motor que nos rege, conduz e esmaga. E a consciência do tempo é a certeza de que se é um indivíduo, uno, e só há um ponto de alcance, a morte. Um filme para ser admirado, por sua beleza visual e estética, e desfrutado, pois compreende uma página da vida, a vida de todos nós.
sábado, 20 de março de 2010
OUTONO
Chegou o outono! E nós aqui de Salvador, que tivemos um verão abafado e grudento, devemos comemorar. O haicai (poema de origem nipônica) caracteriza-se por celebrar as estações do ano em confluência com o estado de espírito do eu do poeta, consequentemente do leitor. Tal aspecto acaba por impor que os haicais, na maioria do casos, quando reunidos em livro, sejam classificados ou separados conforme a estação que celebram: Primavera, Verão, Outono e Inverno. Uma ótima coleção de haicais japoneses organizada dessa forma é a Haicais: antologia e história (Unicamp, 1996), sob a criteriosa orientação dos estudiosos Paulo Franchetti, Elza Taeko Doi e Luiz Dantas. Neste maravilhoso livro, o Outono começa na página 142, com um belíssimo haicai de Bashô. Que esta estação, nem sempre venerada a contento, adentre a nossa sensibilidade.Do gosto de solidão
Do orvalho branco. (Bashô)
segunda-feira, 15 de março de 2010
EM ABRIL
Marcada por indagações existenciais, colocadas de forma elíptica, nos entrelugares e zonas limítrofes percorridas pelos seus personagens, a ficção de Mayrant Gallo tem nas entrelinhas a sua grande vocação.E é nos curtíssimos textos deste Nem mesmo os passarinhos tristes que elas se tornam mais eloqüentes. Afinal, se “No ônibus, um homem deixa pender a cabeça, agarrado pelo sono. Não só pelo sono. Não só pelo sono” (O túnel da noite), somos instados a (re)construir a história daquele homem sobre o qual nada sabemos, mas que podemos imaginar. Algo, aliás, bastante salutar num tempo de idéias domesticadas e imagens pré-fabricadas.
Os mais de 100 minicontos deste livro trazem, pois, a densidade e a intensidade de seus livros anteriores, e consistem num apelo à imaginação dos leitores, convidados a ser co-autores das histórias aqui apenas entrevistas. Um apelo que se vale, em muitos casos, do registro poético para que seus dramas e cenas, ao fim da leitura, continuem ecoando em nossa sensibilidade.
CARLOS RIBEIRO, em texto da orelha.
domingo, 14 de março de 2010
CORTÁZAR E A VELHA GRAVATA
"Maurice Blanchot demonstrou que o tempo-calendário pouco tem a ver com o tempo laboratório central: presumido seria o escritor que acreditasse haver deixado definitivamente para trás uma etapa de sua obra. Em qualquer página futura, pode estar a nossa espera uma nova página passada, como se ficasse algo por dizer do ciclo que acreditávamos anterior, ou como se, depois de tirarmos todas as gravatas velhas para agradar a nossa amada esposa no dia das bodas de prata, descobríssemos que pusemos, que horror!, a gravata de bolinhas presenteada por aquela noiva que depois não se casou conosco."sábado, 13 de março de 2010
RENATA BELMONTE
Uma das maiores evidências de que um escritor é bom, e sua obra relevante, é a leitura pública. Aquele momento em que um leitor de literatura (que nem sempre é um professor) ou o próprio autor leem a obra para uma plateia específica e atenta. O fascínio estará nos olhos, e o impacto final, em especial se for um conto, no silêncio que se segue à leitura da última linha. A escritora Renata Belmonte (foto) passou com louvor por esse teste quando levei seu conto A mesma de tempos atrás para uma oficina de literatura que ministrei há mais ou menos três anos, em Cipó, BA. Quando terminamos de ler, as alunas (só havia mulheres na turma) estavam aferradas às cadeiras, sem ação. O impacto foi tamanho, que deixamos a discussão sobre o conto para o dia seguinte, uma manhã de domingo. E que discussão. Foi um dos pontos altos do curso. Na releitura que fizemos no domingo, a vida ganhou outra cor, outro sentido. E vimos o quanto a literatura, com sua linguagem que nos escapa, seu tecido indomável, é ao mesmo tempo espelho e raiz das pessoas: o que está na superfície e o que se oculta, por timidez, temor ou vergonha de se mostrar, como nesse trecho da autora, em que todos nós, mulheres e homens, nos reconhecemos:terça-feira, 9 de março de 2010
CÂNONES
"Oh! É um absurdo fixar regras rígidas sobre o que se deve e o que não se deve ler. Mais da metade da cultura moderna depende do que não se deve ler."domingo, 7 de março de 2010
PROMETO SER BREVE
Este é o novo livro do escritor paulista Wilson Gorj, uma sensacional miscelânea de minicontos, aforismos, poemas e epigramas. A editora é a carioca Multifoco, através do selo Três por Quatro, que já está com mais quatro autores programados. Gorj, que apareceu com o interessantíssimo Sem contos longos (2007), leva ao extremo sua predileção pela economia verbal, pela ironia e pela paródia, cunhando neste livro alguns relatos que não vão além de uma ou duas linhas e textos que lembram a sisudez de Heráclito e a despretensão de Leminski. Para ser lido em qualquer lugar ou momento (na fila do banco, dentro do ônibus ou com água até o pescoço), Prometo ser breve cumpre a promessa de deleitar o leitor que não quer perder tempo nem palavras, mas espera ser enriquecido com metáforas e surpresas, como:Os filhos crescem,
Criam asa.
Amanhã ou depois
Seremos só nós dois
Nesta casa.
Ou:
Que a poesia
esteja sempre conosco.
Pois ela é a flanela
que dá brilho
ao que antes era fosco.
Ou ainda:
O tempo voa sem ter asas.
A vida escoa sem ser água.
O dinheiro é tudo... e é nada.
O amor é eterno... e acaba.
E por fim:
À linha do horizonte,
surge a cauda de um pavão dourado.
Cantam os galos, enciumados.
sábado, 6 de março de 2010
MUNDOS
"Mas ler, bom, essa é uma vantagem que eu levo em relação a praticamente todas as pessoas que conheço. Descortina outros mundos. Não vivo nesses mundos, mas gosto de visitá-los."sexta-feira, 5 de março de 2010
VANGUARDAS
"Potêncius não era um homem. Era um congresso de fertilidade. Jamais uma pessoa foi tão símbolo da masculeza, da masculinidade, da macheza, da virilidade. Fidélia não sabia, mas se soubesse não lhe importaria: o coronel Potêncius, nas lutas, não arriscava a pele. Os grandes sensuais preferem guardar sua energia para as alcovas. Têm mais por que viver. Só os impotentes se realizam nas batalhas, nas grandezas políticas. Potêncius, se pudesse, jamais sairia do leito, tal o prazer que encontrava nas variações sensíveis desse jogo informal homem-mulher. Era o que hoje chamamos, vulgarmente, um atleta Probel, desses que compram suas camas em casa de esporte."quinta-feira, 4 de março de 2010
NENHUMA PARTICIPAÇÃO EM LIBERTADORES
Nenhuma participação em Libertadores, essa era a verdade. Para que time ele torcia? Para um time que no campeonato nacional não ia além da posição intermediária. Tudo bem que depois de subir para a primeira divisão jamais ficou ameaçado de rebaixamento. Não, não mesmo. Isso ele reconhecia. Entre vinte clubes, estava sempre pelo meio, entre a oitava e a décima-quarta posição. Raramente à frente e jamais atrás, na rabeira. Isso era um mérito, sem dúvida. Mas, por outro lado, já estava cheio dessa farsa. Os clubes rebaixados, ou aqueles que viviam ameaçados e escapavam no fim, não passavam por isso apenas porque estavam em crise; sofriam porque se arriscavam: muitas vezes estavam envolvidos com a Libertadores, em meio às semifinais ou já na final, e apropriadamente largavam o campeonato brasileiro com os reservas, que nem sempre iam mal, mas raramente iam bem e deixavam seus times no pé da tabela, a torcida irada por se ver, de repente, o centro da pilhéria, apesar do sucesso em nível continental. E nem assim os clubes de porte médio – e seu clube não passava de médio – aproveitavam a chance. A tendência – ou talvez a meta – era ganhar em casa e empatar ou perder de pouco fora. Ao fim, dos mais de cem pontos disputados – e como não se podia ganhar todas as partidas em casa – seu clube chagava a sessenta ou sessenta em cinco, no máximo. O suficiente para se inscrever entre os dez primeiros e disputar a Copa Sul-Americana, espécie de segunda divisão do intercontinental. Pedreira torcer para um time assim, come-corda. Já estava de saco cheio. Nenhuma participação domingo, 28 de fevereiro de 2010
ENCONTRAR-SE NUM LIVRO
"Se você não se reconhece num livro, esse livro não existe. O que você lê num livro é você mesmo. Se você não se encontrar nele, ele não presta para você. Se você se encontra num livro, então ele é para a vida inteira, você sente saudades do livro, do autor."a volta ao Sol
domingo, 21 de fevereiro de 2010
NOVELAS IMORTAIS, 2
O escritor Carlos Barbosa, autor de A dama do velho Chico (Bom Texto, 2002), postou aqui no blogue um comentário em que confessa ter sentido falta da novela As catilinárias, da belga Amélie Nonthomb (um relato que ambos apreciamos) no texto Novelas imortais.Ele tem razão, foi uma falta grave, especialmente se levarmos em conta dois aspectos: 1) o fato de que a novela não goza em nosso tempo de muita popularidade, suplantada que é pelo conto, num extremo, e pelo romance, no outro, e só por isso a autora belga merecia ser citada com louvor; e 2) que, sendo esta obra tão recente, entrevemos uma discreta reação de sobrevivência para este gênero, que se recusa a ser conto e não ambiciona se rivalizar com o romance. Admito, portanto, a minha falha, e junto a ela arrolarei outras, não menos graves, e ciente de que, ao transcrevê-las aqui, estarei cometendo outras.
Nos dias que se seguiram ao comentário do Carlos, e conforme fui olhando para as prateleiras das estantes e para dentro de minha cabeça, inúmeras novelas importantes me "acorreram", como se reclamassem, por elas mesmas, a sua presença e o seu prestígio: Ardabiola, de Ievgueni Ievtuschenko, A volta do parafuso, de Henry James, A herança e Bola de sebo, ambas de Maupassant, Olha para o céu, Frederico, de José Cândido de Carvalho, Contramão, de Antônio Olavo Pereira, O mandarim, de Eça de Queiros, O terror, de Arthur Machen, O amante fantasma, de Vernon Lee, Sem sangue e Seda, ambas de Alessandro Baricco, Do mais longe do esquecimento, de Patrick Modiano, A ilha no espaço, de Osman Lins, Férias na neve, de Emmanuel Carrère, O jardim de cimento, de Ian McEwan, Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, O perseguidor, de Julio Cortázar, O sul & Bene, de Adelaida García Morales, Carlota Fainberg, de Antônio Muñoz Molina, Benito Cereno, de Melville, O coração nas trevas, de Conrad, O segredo de Brokeback Mountain, de Annie Proulx, Assim diz Lilá, de Chimo, O sonho de Voltaire, de Jacques Chessex, A pérola, de John Steinbeck, Primeiro amor e Companhia, ambas de Samuel Beckett, O amante e Moderato cantabile, ambas de Marguerite Duras, A outra mulher e Porte de arma, ambas de Emmanuèle Bernheim, Pena de morte, de Maurice Blanchot, A seguinte história, de Cees Nooteboom, Do amor ausente, de Paulo Roberto Pires, Bruges, a morta, de Georges Rodenbach, A caça aos patos, de Hugo Claus, Mademoiselle cinema, de Banjamim Costallat, A virgem e o cigano e A raposa, ambas de D. H. Lawrence, As possuídas (ou Mulheres imperfeitas), de Ira Levin, Noturno indiano, de Antonio Tabucchi, O pastor, de Frederick Forsyth, 1933 foi um ano ruim, de John Fante, A marca e O outro gume da faca, ambas de Fernando Sabino, Luna caliente, de Mempo Giardinelli, A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, O estrangeiro, de Camus (essa não foi um esquecimento, simplesmente a prescindi em favor de A queda, pois não quis, naquele momento, citar mais de uma novela de um mesmo autor), Não haverá mais dores nem esquecimento, de Osvaldo Soriano, Dáfnis e Cloé, de Longo, Todas as manhãs do mundo, de Pascal Quignard, Com o diabo no corpo e O baile do conde d'Orgel, ambas de Raymond Radiguet, Os vagabundos, que reúne três novelas de Górki, O assalto ao banco Levasseur, de Emmanuel Robles, Bonequinha de luxo, de Truman Capote (e acho que a Bípede Falante vai gostar particularmente desta minha lembrança, que vem reparar um intolerável esquecimento), O destino de um homem, de Mikhail Cholokhov, O cavalheiro de São Francisco, de Ivan Bunin, Incidente na estação Krietchétovka, de Soljenitsin, A estepe, de Tchekhov, A exposição das rosas, de Örkény, e um punhado de novelas de Tolstoi, com destaque para A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos, e de Balzac, autor de obras-primas como Uma paixão no deserto.
Quanto às que ficaram ausentes ou esquecidas, esclareço que não é porque não sejam importantes. Simplesmente não foram citadas, porque não podemos totalizar coisa alguma nesta vida, assim como não é possível alcançar o azul do céu.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
FIM DE CASO
O livro Fim de caso, de Graham Greene, distende ao máximo a ideia de que o romance é um gênero informe. Neste agrupador de gêneros e formas, tudo é possível, e suas páginas comportam todas as linguagens, além de permitir o máximo de variação estrutural, externa e internamente, e aceitar todo tipo de experiência estética.Fiel a essa definição, o autor desenvolve uma trama que principia com uma ressalva do narrador à forma como as histórias se iniciam: as escolhas feitas, o mundo em que os personagens vão transitar, as circunstâncias históricas, a atmosfera. Continua como se fosse uma narrativa noire, numa imersão de mistério e enigma; ganha um inesperado sopro com um episódio de guerra, no qual um juramento religioso é acionado e que, doravante, vai mudar a existência dos personagens, conduzindo uma mulher à morte prematura, pelo descaso consigo mesma e pela ausência forçada de seu amante, e dois homens a uma união de amizade cujo núcleo é aquela mulher, amada por ambos. Depois a trama se torna policialesca, com o aparecimento de um detetive particular nada ortodoxo, e por fim adquire significado religioso, com o requinte de deixar em aberto a possibilidade de ter ocorrido um milagre.
E costurando tudo isso o estilo altamente sedutor de Graham Greene, capaz de nos submergir em análises profundas sobre a vida e o mundo, sem que isso implique uma linguagem enfadonha ou panfletária. Ou seja: um romance completo. Não é à toa que Faulkner, que não era dado a elogiar autores contemporâneos, declarou seu entusiasmo e apreço por este livro. Um clássico moderno.
A primeira tradução deste romance no Brasil recebeu um curioso título: Crepúsculo de um romance. Sem dúvida muito mais poético, mas infiel ao original em inglês, mais seco.
As duas versões cinematográficas, embora bonitas e profissionais, não conseguem empolgar o espectador: a primeira (Pelo amor de meu amor, 1955), com Deborah Kerr, enfatiza o caráter religioso do relato, em detrimento da relação entre os amantes, quase sob as barbas do marido; a segunda (Fim de caso, 1999), dirigida pelo sempre decepcionante Neil Jordan, e talvez porque seja muito pretensiosa, dilui o peso da narrativa numa sucessão de quadros exóticos cuja maior atração é a fotografia, escura e difusa.
Já o livro, bem, ele como que nos arrebata e derruba, deixando-nos desde o início com a sensação de que estamos diante de uma joia rara. E estamos.*
*Agradeço a Lidiane Nunes, que me sugeriu fazer uma breve resenha deste romance, do qual somos entusiasmados admiradores.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
NOVELAS IMORTAIS
Em meados dos anos 1980, Fernando Sabino idealizou para a editora Rocco uma coleção de literatura mundial clássica, intitulada Novelas Imortais. Ele ainda fazia, num texto discreto e objetivo, a apresentação de cada obra, através de uma breve notícia da vida do autor, as circunstâncias em que sua literatura ganhou notoriedade e uma rápida menção à trama, com suas convergências e divergências em relação ao gosto literário da época.O primeiro título foi A fera na selva, do anglo-americano Henry James. Vieram a público depois O monge negro, de Tchekhov, Um coração singelo, de Flaubert, O homem da areia, de Hoffmann, Sílvia, de Nerval, O clube dos suicidas, de Stevenson, Bartleby, o escriturário, de Melville, Os sete enforcados, de Andreiev, e Margot, de Musset, este publicado em 1987 e com o qual a coleção repetinamente chegou ao fim. Uma pena. Em resumo: três franceses, dois russos, um alemão e três autores de língua inglesa.
Três idiomas vastos e tradicionalmente respeitados na literatura ocidental ficaram sem representantes na coleção: o italiano, o português e o espanhol. Creio que Fernando Sabino tinha em mente contemplar outros autores de outros idiomas, mas, por algum motivo, a coleção teve que se interromper.
Penso em novelas (gênero que devemos definir aqui, grosso modo, como "romances breves" ou "contos longos") do porte de O alienista, de Machado de Assis, Alves e cia., de Eça de Queiroz, Noites brancas, de Dostoiévski, O capote, de Gógol, O tenente Quetange, de Tynianov, Primeiro amor, de Turgueniev, Aura, de Carlos Fuentes, Filhotes, de Vargas Llosa, Ninguém escreve ao coronel, de García Márquez, Ethan Frome, de Edith Wharton, Juventude, de Conrad, Jana e Joel, de Xavier Marques, Uma vida em segredo, de Autran Dourado, O simples coronel Madureira, de Marques Rebelo, O automóvel, de Herberto Sales, A espingarda de caça, de Yasushi Inoue, A morte e a morte de Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado, Agostinho, de Alberto Moravia, Sombras de julho, de Carlos Herculano Lopes, Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez, de Tabajara Ruas, O urso, de Faulkner, A metamorfose, de Kafka, Fup, de Jim Dodge, O ovo de ouro, de Tim Krabbé, A família Tóth, de Órkény, Miss Corações Solitários, de Nathanael West, Uma paixão no deserto, de Balzac, O grande deus Pan, de Arthur Machen, Adeus, Mr. Chips, de James Hilton, A infância de um chefe, de Sartre, Isabelle, de Gide, Genitrix, de Mauriac, A queda, de Camus, Bom-dia, tristeza, de Sagan, Carmen, de Mérimée, A dançarina de Izu, de Kawabata, Quem perde ganha, de Graham Greene, O mal negro, de Nina Berberova, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Ontem, de Agota Kristof, Mimi vai à guerra, de Paulo Francis, As pedras no caminho, de Ruth Randell, O poste a vapor, de Molnár, Na montanha, de Dion Henderson, O retrato de Jennie, de Robert Nathan, A senhora Caliban, de Rachel Ingalls, Balada do café triste, de Carson McCullers, e outros, muitos outros. Do Romantismo ao Contemporâneo.
Que coleção magistral seria essa! Textos breves, contundentes e em formato para se portar no bolso ou na bolsa. Uma coleção rara, que iria satisfazer aos leitores exigentes e também iniciar outros, mais jovens, em obras selecionadas, variadas e de inegável qualidade literária. Que fique a deixa, para algum editor ao mesmo tempo ousado e maluco, "talvez porque o mundo ultimamente ficou óbvio demais".
domingo, 7 de fevereiro de 2010
CRÔNICA, 1
De 2002 a 2006, publiquei, no Correio da Bahia, sempre aos domingos, contos, crônicas e ensaios. Foram exatamente 301 textos. Vou reeditar aqui, esporadicamente, algumas crônicas para talvez mais tarde compor um livro. Eis a primeira, publicada em 2 de maio de 2002. A foto aqui em cima é do filme Entre os muros da escola, de Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2008.OUTROS INTERESSES
A bem da verdade, não foi um semestre bom. Nem poderia: em pleno verão, época de pouca roupa, sol, praia, música, ócio, brisa...
Quinze alunos. Dois apenas interessados
Havia também a aluna que balançava a perna, de cara para cima, como se ansiosa, a esperar o noivo, que tardasse em demasia, quem sabe por que motivo... Romântica na pele e nos ossos, não suportou o Realismo e, ao receber o resultado da primeira avaliação, foi chorar no banheiro...
Duas outras alunas, durante a entrega dessa mesma prova, irromperam num ataque de riso, incrédulas não propriamente com seu desempenho, mas com a nota. Outras três não queriam saber mais do que já sabiam e passavam toda a aula debruçadas sobre catálogos de vestuário e perfumaria. Ali estava tudo o que elas queriam possuir e almejavam ser: os vistosos acessórios de uma suposta elegância. Sua participação em aula se resumia a um surdo cochicho entre elas mesmas, como se conspirassem, quase em silêncio, contra o professor.
Um aluno era a ausência
Todavia, este ainda não era o aluno mais exótico da classe. A silenciosa Célia o superava. A Célia que não opinava, não discutia, não reclamava, não questionava. Para ela as aulas transcorriam no próprio paraíso. Em salas com ar condicionado, água fresca à vontade, o bom café brasileiro, pãozinho de queijo, biscoitos finos e até bolo, daqueles que não existem mais e que faziam a alegria das crianças nas visitas à casa da avó. E quando olhava para fora, através da janela de cristalino vidro, via crianças brincando na relva, em meio a pássaros e lépidos esquilos, na mais quimérica paz. Ninguém a arrancava de seu silêncio. Nem o ácido Machado, nem o brutal Azevedo, nem o audacioso Caminha, nem mesmo o devasso Júlio Ribeiro. O sexo existente nele – ou ela já o excedera ou então desconhecia, e com uma inocência tal, que seria capaz de adormecer, de súbito, em meio a um adjunto adnominal, uma rara metáfora.
Só uma única vez o professor conseguiu despertar sua atenção, e por uma via surpreendente, quase risível, se não fosse trágica. O semestre já ia pelo fim, e estudava-se o descabelado Augusto dos Anjos. Poeta original, mas soturno, doentio, místico e por demais crédulo da influência dos astros sobre o destino dos homens. Em seu comentário, uma duvidosa exegese de segunda mão, o professor intercalou elementares conhecimentos astrológicos. E, à guisa de ilustração, perguntou a uma das alunas mais interessadas – se é que havia alguma:
– Amanda, qual o seu signo?
A aluna de pronto respondeu, radiante:
– Touro.
– Pessoas obstinadas, teimosas, céticas. Raramente mudam de idéia. Carregam até o fim sua pedra, como Sísifo, mesmo sabendo que poderão sucumbir a qualquer momento. Mas, em geral, são pessoas espirituosas, as taurinas.
A aluna ficou ainda mais radiante. Aquele era um retrato perfeito de sua personalidade, sua exata psicologia. Animada – como, aliás, toda a classe –, ela ia perguntar qualquer coisa, mas nesse instante o professor consultou o relógio e deu por encerrada a aula. Ia aplicar uma prova noutra turma e não queria se atrasar.
Já no corredor apinhado de alunos e professores, a andar apressado, ouviu alguém chamá-lo. Era a silenciosa Célia, que afinal queria lhe falar. Ele nem se lembrava de ter ouvido sua voz calma e quente, naquele semestre... Se ouviu, foram tão poucas vezes – e não direcionada a ele, em conversa trivial com seus colegas –, que ele quase a esquecera.
– Professor! Professor! – ela o chamou de novo, sem conseguir alcançá-lo.
Contrariado, ele se voltou:
– Agora não posso! Vou aplicar uma prova.
– Mas é rápido, professor! Bem rápido!
– Mas não posso... Não posso! – e voltou a andar.
– É rápido! Por favor! – ela gemeu, a fisionomia crispada, em estado de autêntico sofrimento.
Ele parou. Professor sério e preocupado com o destino de seus pupilos, ele supôs, por um instante, que a aluna tinha alguma dúvida em relação a algum conteúdo – e a prova era na próxima semana...
– Está bem, Célia: qual a sua dúvida?
Ela procurou sua melhor face. A mais vívida. E sua voz mais cálida, mais clara, infiel ao seu interior tempestuoso. E pela primeira vez naquele semestre ela articulou uma pergunta. A primeira e, talvez, por toda a sua existência universitária, a única. Sua voz saiu trêmula, hesitante:
– Professor, e eu? Quais as características dos capricornianos?
– …!
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
O MILAGRE DE SAKI
Semanas atrás, acessei o site de uma livraria, à procura de um livro do escritor inglês Saki (1870-1916), célebre por seus contos de terror e humor. Infelizmente, não encontrei nenhum livro dele, mas achei, em compensação, um livro do alemão W. G. Sebald (1944-2001), em espanhol, com o título Cuentos de humor y de horror. Como já apreciava Sebald pelos romances, e o livro estava com um preço convidativo, não hesitei em enveredar pela leitura de seus supostos contos. Dias depois, para a minha surpresa e minha satisfação, recebi o livro: Cuentos de humor y de horror (Barcelona: Anagrama, 2008), mas, neste caso, o autor era Saki. Compreendi então que a livraria se equivocara ao catalogar o livro ou que minha vontade, de alguma forma, operara uma mágica, um milagre. E, uma vez que Saki foi um mestre do relato fantástico, é inevitável não pensar que ele próprio, de onde está, engendrou esta trama.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
E NÃO ME ARRANCARAM
Ele estava quase lá, quando o telefone tocou.quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
MORREU J. D. SALINGER
Segundo o New York Times, J. D. Salinger, autor do romance O apanhador no campo de centeio, morreu hoje, em New Hampshire, aos 91 anos. Desde 1965 que o autor vivia recluso, sem publicar nenhuma obra. Embora tivesse confessado ao amigo John Burt que continuava escrevendo, e que guardava num cofre vários livros prontos, a vida do escritor tornou-se um mistério, e ele, um mito da Literatura moderna. No Brasil, seus poucos livros são publicados pela pequena e não menos misteriosa Editora do Autor (O apanhador no campo de centeio, Nove estórias e Franny e Zooey) e pela L&PM (Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação). Menos conhecido que o romance que o tornou célebre, Nove estórias é uma ótima ponte para o estranho universo ficcional do autor.
domingo, 24 de janeiro de 2010
A RESPOSTA PELO TAO
Recentemente, um jornalista de província me envolveu, por incompetência e descuido, numa embrulhada na revista Bravo. Tive que dar explicações e, por mais que desejasse me ausentar do episódio, ele retorna, a me exigir participação. Deixo aqui agora, de forma definitiva, a minha resposta, através de um texto excelente de Henri Borel, extraído do seu maravilhoso livro, sobre o Tao, Wu wei, a sabedoria do não-agir (São Paulo: Attar, 1996), em tradução de Margarita Lamelo Cacuro e Sérgio Rizek:domingo, 17 de janeiro de 2010
O CONTISTA CHRIS OFFUTT
O conto norte-americano, desde Stephen Crane, deixou o típico de lado e tornou-se universal. O. Henry, Jack London, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Sherwood Anderson, William Faulkner, Willa Cather, John Steinbeck, Conrad Aiken, Erskine Caldwell, John O’Hara, Flannery O’Connor, Dashiell Hammett, Carson McCullers, John Cheever, John Fante, James Salter, Paul Bowles, Breece D’J Pancake, Patricia Highsmith, Raymond Carver, Joyce Carol Oates e, mais recentemente, Chris Offutt, com o seu impressionante volume de apenas oito contos Além das montanhas.Offutt reúne tudo o que se espera de um contista nato: fluência, trama envolvente, movimentação no tempo e no espaço, alternância de narração, descrição e diálogo, uma linguagem ao mesmo tempo funcional e poética, com rasgos filosóficos, representação relevante da vida e do mundo, reflexão e, às vezes, ciframento, desfechos condizentes ou conflitantes com a trama, atmosfera, mistério e ironia. Poucos foram os contistas que li nos dez últimos anos (e dos quais antes jamais ouvira falar) que me deixaram assim tão empolgado. Na verdade, só me lembro de dois: o sergipano Antônio Carlos Viana e a italiana Dacia Maraini, com o livro Meu marido (Berlendis & Vertecchia, 2001).
Dois contos se rivalizam como as obras-primas do livro de Offutt, que também é romancista e escreveu um livro de memórias: Além das montanhas, que dá título ao volume, e Moscou, no Idaho. Em ambos, a trama é só um pretexto para uma imersão maior, sobre a existência. O primeiro narra a história de Gerald, que é encarregado pelos quatro cunhados de ir buscar o outro irmão deles, Ory, que levou um tiro e está hospitalizado numa cidade distante. O segundo enfoca o dia-a-dia de dois ex-presidiários no único emprego que, ao sair da cadeia, encontraram: coveiros. Nos dois contos, e mais fortemente no segundo, prevalecem as reflexões sobre a vida a partir do seu fato mais corriqueiro: a morte. O diálogo entre os dois coveiros chega a um nível tal, que um deles começa a achar que a prisão era melhor, mais digna, o verdadeiro lar, o lugar onde se alcançam as lições definitivas: “A maior coisa que aprendi foi como conseguir que as pessoas me deixassem sozinho. Depois foi como dormir. Antes, nunca dormia bem; hoje, consigo dormir catorze horas seguidas.” E o outro retruca: “Só isso?” Não: “Também tive certeza absoluta de que gosto de mulheres”. Muitos são os trechos a destacar, como este, mais filosófico: “Ocorreu-lhe que o tempo não se move para a frente, como ele sempre pensara. São as pessoas que se movem pelo tempo”. Ou este outro, mais devastador: “Na prisão, descobrira que as leis eram feitas para proteger as pessoas que faziam as leis”.
De uma linhagem de escritores que não pretendem entreter, mas concentrar o leitor, fazê-lo evoluir do embotamento para a consciência, Offutt assim conclui seu relato: “Tilden se perguntou quando encontraria uma mulher, um trabalho de que gostasse, uma cidade onde quisesse ficar. Lá em cima, a Via Láctea fazia uma nevasca de estrelas no céu. Não havia nem uma cerca ou muro à vista”. Exílio existencial, liberdade de ação: destino. Eis a fórmula, da literatura para a vida.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
ERIC ROHMER
Vivemos numa época de insaciável interesse pela vida alheia. Mas, se antes fazíamos isso com o propósito de ter um exemplo elevado a ser seguido, e foi esta avidez que transformou a biografia num gênero literário, agora o objetivo é tão-somente reunir matéria jocosa para alimentar o forno da fofoca.terça-feira, 12 de janeiro de 2010
COINCIDÊNCIA DE VERÃO
Nesta madrugada, acordei e, depois de beber um longo copo d'água, decidi começar a leitura de Última noite e outros contos, do excelente escritor norte-americano James Salter, autor do excepcional Um esporte e um passatempo. Raramente começo a leitura de um volume de contos pelo primeiro conto; prefiro consultar o sumário e escolher a esmo um relato. Não foi o que ocorreu desta vez. Fui direto ao primeiro conto, talvez atraído pelo estranho título: Akhnilo. Impressionista, lírico, misterioso, como boa parte da obra do autor, a história narra os momentos que se seguem a uma noite de verão em que o protagonista acorda com um barulho, que a princípio não consegue identificar. Decidido a averiguar o que estava acontecendo, o personagem desce pelo telhado da casa e vai à procura do som. E é então que sua vida se transforma, ao compreender que ouvira quatro palavras, das quais só uma lhe restava depois de alguns instantes e que, ao voltar, inquirido pela esposa sobre o que acontecera, ele também esqueceu. Com a presença da filha, que despertara com a movimentação dos pais, o relato se soluciona, assim, enigmático: "e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela". Cinco minutos depois de ler este conto, enquanto ainda o digeria, em sua beleza e evidente ciframento, ouvi um barulho proveniente da sala e fui averiguar. Não era nada, nem ninguém. Talvez só uma coincidência de verão. Ou, como afirma o narrador de Salter: "Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim".
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
O FAROL
Um escritor só é representativo pelo que ele escreve, pela qualidade estética de sua obra, sua capacidade de conferir elevação ao mais baixo dos assuntos. Kafka, quando transforma um homem num inseto a enojar sua família; Camus, quando transforma alguém que não é estrangeiro num sujeito psicologicamente estrangeiro e permite que a sociedade o julgue como tal e o condene; João Antônio quando transforma a visita de um rapaz a um antigo amigo numa compreensão mais profunda da existência, do que somos. Um escritor jamais é representativo por estar mais ou menos visível, transitando pela mídia, viajando de um canto a outro do mundo ou fazendo-se de lobby pelos subterrâneos da Academia. Isso não é literatura; é política literária. Mas se tal escritor cumpre esse papel, mais político, e ainda reúne aquela primeira qualidade, ele também é representativo, ou até mais, se as suas ações aliterárias não se restringem a si mesmo; se elas são como trilhas de orientação para os que o admiram ou o seguem.Pintura: Lighthouse hill (1927), óleo sobre tela, de Edward Hopper (1882-1967), pintor norte-americano.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A CRUZ E A ESPADA
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O ÚLTIMO SUSPIRO
Num livro que estou lendo, Os fantasmas do século XX, do norte-americano Joe Hill, revelação da narrativa fantástica do seu país, há um conto que narra a história de um colecionador de últimos suspiros, entre os quais estão os de Edgar Allan Poe e Roadl Dahl, mestres do fantástico. Ele possui um museu onde os expõe ao público e, durante a visita de uma família interessada e também assustada, tem sua coleção questionada, em especial quanto ao fato de que só coleciona últimos suspiros de celebridades: "Todos os suspiros que o senhor tem aqui são de pessoas famosas?" O Dr. Alinger retruca e o faz com uma fala memorável: "De forma alguma. Eu já engarrafei últimos suspiros de universitários, funcionários públicos, críticos literários... uma profusão de gente sem importância". Algumas pessoas podem argumentar que o personagem, e talvez por extensão o autor, está desprezando aqueles tipos. Não é desprezo; é ironia. Há centenas, milhares e até milhões de funcionários públicos e universitários; até que algum se destaque por esse ou aquele motivo, todos são apenas "mais um na multidão", um punhado de gente numa sala ou num campus. Tal evidência apenas apoia a ideia de que também há críticos literários aos montes; que todo leitor é, a rigor, um crítico literário; e ainda mais hoje, que julga-se a arte pelo gosto pessoal ou pela escolha estética que se fez. Raramente pelo mérito da obra, pelos sentimentos que ela desperta, pelo abalo que ela estabelece no leitor, promovendo em sua capacidade de se emocionar e em sua inteligência outras convicções e uma percepção nova das coisas deste mundo e do que está acima dele: as estrelas ou este outro "céu", escuso e ainda mais misterioso, que é a mente humana. O Dr. Alinger parece dizer: "Há críticos literários? Para quê?" Eu diria que para ofender, para desdenhar, para destilar sua acidez e o seu desprezo. Para julgar o objeto artístico sempre em comparação com outro, jamais como um objeto em si, reunião de memória estética, experiência humana, aprendizado cultural e escolhas pessoais. Recentemente um "suposto crítico literário", fadado por vários motivos a ser um verme agonizante a jorrar seu suco infecto sobre textos alheios, ao comentar a criação de um poeta, acusou-o de não oferecer ao poema um desfecho condizente com o seu início, de fato, segundo ele, elevado e artístico. Ora, um poema não tem desfecho (salvo se for um poema narrativo), mas sim arremate; não são, como podem parecer, termos sinônimos. Desfechar é "tirar o fecho ou o selo", "abrir", "desvendar". Arrematar é quase uma ação inversa, ao menos na poesia, pois compreende um processo que envolve a um só tempo "conclusão" e "nó". E, além do mais, um poema se arremata com o que lhe cabe: de rítmico, de incidental (as palavras se combinando por si mesmas) e, obviamente, de técnico, o engenho poético, a formação propriamente dita do poeta. O poema é e será sempre uma linguagem que nasce e não permanece. Uma linguagem que jamais se repete. Uma linguagem que é, ao mesmo tempo, memória do sujeito, do idioma e da espécie. Uma linguagem de momento, única e irrepetível. Posta aqui, não pode ser trasladada para lá, pois não é um corpo; é um fluido, uma estação de passagem, um sopro quase divino, o último suspiro. Uma linguagem que, em última análise, não pode ser reutilizada. Reduzi-la a um simples meio funcional de temas e conteúdos é devolvê-la ao substrato comum da língua, de uso cotidiano, que somente quer comunicar uma mensagem e se fazer entender, e por isso seus usos se perdem na vastidão dos tempos. O poema é o ciframento possível de um estado de espírito, de um instante de iluminação. Se o leitor e o eu do poeta, durante a leitura, encontram-se ou "coincidem" nesse instante, o poema se justificou. Se não, que o leitor respeitavelmente passe a página. Entende-se por que Joe Hill, em seu conto, desfere uma ironia sutil contra os críticos literários: do alto do seu ponto de vista eles olham o mundo, e o que veem é a sua verdade, a sua própria face, distorcida, que lutam então por reparar.Imagem: Einar Turkowski, do livro Estava escuro e estranhamente calmo (CosacNaify, 2009).
