"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

domingo, 28 de fevereiro de 2010

ENCONTRAR-SE NUM LIVRO

"Se você não se reconhece num livro, esse livro não existe. O que você lê num livro é você mesmo. Se você não se encontrar nele, ele não presta para você. Se você se encontra num livro, então ele é para a vida inteira, você sente saudades do livro, do autor."

RUY ESPINHEIRA FILHO, em entrevista na Saraiva Conteúdo. Poeta, romancista e ensaísta, Ruy acabou de publicar o volume de poemas Sob o céu de Samarcanda (Bertrand Brasil, 2010), que tem versos assim:

"Sessenta e cinco vezes
a volta ao Sol
e nenhuma revelação
nenhum sentido
nada

além do cultivo de uma sombra
cada vez mais longa
no ouro agonizante
da tarde".

domingo, 21 de fevereiro de 2010

NOVELAS IMORTAIS, 2

O escritor Carlos Barbosa, autor de A dama do velho Chico (Bom Texto, 2002), postou aqui no blogue um comentário em que confessa ter sentido falta da novela As catilinárias, da belga Amélie Nonthomb (um relato que ambos apreciamos) no texto Novelas imortais.

Ele tem razão, foi uma falta grave, especialmente se levarmos em conta dois aspectos: 1) o fato de que a novela não goza em nosso tempo de muita popularidade, suplantada que é pelo conto, num extremo, e pelo romance, no outro, e só por isso a autora belga merecia ser citada com louvor; e 2) que, sendo esta obra tão recente, entrevemos uma discreta reação de sobrevivência para este gênero, que se recusa a ser conto e não ambiciona se rivalizar com o romance. Admito, portanto, a minha falha, e junto a ela arrolarei outras, não menos graves, e ciente de que, ao transcrevê-las aqui, estarei cometendo outras.

Nos dias que se seguiram ao comentário do Carlos, e conforme fui olhando para as prateleiras das estantes e para dentro de minha cabeça, inúmeras novelas importantes me "acorreram", como se reclamassem, por elas mesmas, a sua presença e o seu prestígio: Ardabiola, de Ievgueni Ievtuschenko, A volta do parafuso, de Henry James, A herança e Bola de sebo, ambas de Maupassant, Olha para o céu, Frederico, de José Cândido de Carvalho, Contramão, de Antônio Olavo Pereira, O mandarim, de Eça de Queiros, O terror, de Arthur Machen, O amante fantasma, de Vernon Lee, Sem sangue e Seda, ambas de Alessandro Baricco, Do mais longe do esquecimento, de Patrick Modiano, A ilha no espaço, de Osman Lins, Férias na neve, de Emmanuel Carrère, O jardim de cimento, de Ian McEwan, Crônica de uma morte anunciada, de Gabriel García Márquez, O perseguidor, de Julio Cortázar, O sul & Bene, de Adelaida García Morales, Carlota Fainberg, de Antônio Muñoz Molina, Benito Cereno, de Melville, O coração nas trevas, de Conrad, O segredo de Brokeback Mountain, de Annie Proulx, Assim diz Lilá, de Chimo, O sonho de Voltaire, de Jacques Chessex, A pérola, de John Steinbeck, Primeiro amor e Companhia, ambas de Samuel Beckett, O amante e Moderato cantabile, ambas de Marguerite Duras, A outra mulher e Porte de arma, ambas de Emmanuèle Bernheim, Pena de morte, de Maurice Blanchot, A seguinte história, de Cees Nooteboom, Do amor ausente, de Paulo Roberto Pires, Bruges, a morta, de Georges Rodenbach, A caça aos patos, de Hugo Claus, Mademoiselle cinema, de Banjamim Costallat, A virgem e o cigano e A raposa, ambas de D. H. Lawrence, As possuídas (ou Mulheres imperfeitas), de Ira Levin, Noturno indiano, de Antonio Tabucchi, O pastor, de Frederick Forsyth, 1933 foi um ano ruim, de John Fante, A marca e O outro gume da faca, ambas de Fernando Sabino, Luna caliente, de Mempo Giardinelli, A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares, O estrangeiro, de Camus (essa não foi um esquecimento, simplesmente a prescindi em favor de A queda, pois não quis, naquele momento, citar mais de uma novela de um mesmo autor), Não haverá mais dores nem esquecimento, de Osvaldo Soriano, Dáfnis e Cloé, de Longo, Todas as manhãs do mundo, de Pascal Quignard, Com o diabo no corpo e O baile do conde d'Orgel, ambas de Raymond Radiguet, Os vagabundos, que reúne três novelas de Górki, O assalto ao banco Levasseur, de Emmanuel Robles, Bonequinha de luxo, de Truman Capote (e acho que a Bípede Falante vai gostar particularmente desta minha lembrança, que vem reparar um intolerável esquecimento), O destino de um homem, de Mikhail Cholokhov, O cavalheiro de São Francisco, de Ivan Bunin, Incidente na estação Krietchétovka, de Soljenitsin, A estepe, de Tchekhov, A exposição das rosas, de Örkény, e um punhado de novelas de Tolstoi, com destaque para A morte de Ivan Ilitch e Senhores e servos, e de Balzac, autor de obras-primas como Uma paixão no deserto.

Quanto às que ficaram ausentes ou esquecidas, esclareço que não é porque não sejam importantes. Simplesmente não foram citadas, porque não podemos totalizar coisa alguma nesta vida, assim como não é possível alcançar o azul do céu.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

FIM DE CASO

O livro Fim de caso, de Graham Greene, distende ao máximo a ideia de que o romance é um gênero informe. Neste agrupador de gêneros e formas, tudo é possível, e suas páginas comportam todas as linguagens, além de permitir o máximo de variação estrutural, externa e internamente, e aceitar todo tipo de experiência estética.
Fiel a essa definição, o autor desenvolve uma trama que principia com uma ressalva do narrador à forma como as histórias se iniciam: as escolhas feitas, o mundo em que os personagens vão transitar, as circunstâncias históricas, a atmosfera. Continua como se fosse uma narrativa noire, numa imersão de mistério e enigma; ganha um inesperado sopro com um episódio de guerra, no qual um juramento religioso é acionado e que, doravante, vai mudar a existência dos personagens, conduzindo uma mulher à morte prematura, pelo descaso consigo mesma e pela ausência forçada de seu amante, e dois homens a uma união de amizade cujo núcleo é aquela mulher, amada por ambos. Depois a trama se torna policialesca, com o aparecimento de um detetive particular nada ortodoxo, e por fim adquire significado religioso, com o requinte de deixar em aberto a possibilidade de ter ocorrido um milagre.
E costurando tudo isso o estilo altamente sedutor de Graham Greene, capaz de nos submergir em análises profundas sobre a vida e o mundo, sem que isso implique uma linguagem enfadonha ou panfletária. Ou seja: um romance completo. Não é à toa que Faulkner, que não era dado a elogiar autores contemporâneos, declarou seu entusiasmo e apreço por este livro. Um clássico moderno.
A primeira tradução deste romance no Brasil recebeu um curioso título: Crepúsculo de um romance. Sem dúvida muito mais poético, mas infiel ao original em inglês, mais seco.
As duas versões cinematográficas, embora bonitas e profissionais, não conseguem empolgar o espectador: a primeira (Pelo amor de meu amor, 1955), com Deborah Kerr, enfatiza o caráter religioso do relato, em detrimento da relação entre os amantes, quase sob as barbas do marido; a segunda (Fim de caso, 1999), dirigida pelo sempre decepcionante Neil Jordan, e talvez porque seja muito pretensiosa, dilui o peso da narrativa numa sucessão de quadros exóticos cuja maior atração é a fotografia, escura e difusa.
Já o livro, bem, ele como que nos arrebata e derruba, deixando-nos desde o início com a sensação de que estamos diante de uma joia rara. E estamos.*

*Agradeço a Lidiane Nunes, que me sugeriu fazer uma breve resenha deste romance, do qual somos entusiasmados admiradores.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

NOVELAS IMORTAIS

Em meados dos anos 1980, Fernando Sabino idealizou para a editora Rocco uma coleção de literatura mundial clássica, intitulada Novelas Imortais. Ele ainda fazia, num texto discreto e objetivo, a apresentação de cada obra, através de uma breve notícia da vida do autor, as circunstâncias em que sua literatura ganhou notoriedade e uma rápida menção à trama, com suas convergências e divergências em relação ao gosto literário da época.
O primeiro título foi A fera na selva, do anglo-americano Henry James. Vieram a público depois O monge negro, de Tchekhov, Um coração singelo, de Flaubert, O homem da areia, de Hoffmann, Sílvia, de Nerval, O clube dos suicidas, de Stevenson, Bartleby, o escriturário, de Melville, Os sete enforcados, de Andreiev, e Margot, de Musset, este publicado em 1987 e com o qual a coleção repetinamente chegou ao fim. Uma pena. Em resumo: três franceses, dois russos, um alemão e três autores de língua inglesa.
Três idiomas vastos e tradicionalmente respeitados na literatura ocidental ficaram sem representantes na coleção: o italiano, o português e o espanhol. Creio que Fernando Sabino tinha em mente contemplar outros autores de outros idiomas, mas, por algum motivo, a coleção teve que se interromper.
Penso em novelas (gênero que devemos definir aqui, grosso modo, como "romances breves" ou "contos longos") do porte de O alienista, de Machado de Assis, Alves e cia., de Eça de Queiroz, Noites brancas, de Dostoiévski, O capote, de Gógol, O tenente Quetange, de Tynianov, Primeiro amor, de Turgueniev, Aura, de Carlos Fuentes, Filhotes, de Vargas Llosa, Ninguém escreve ao coronel, de García Márquez, Ethan Frome, de Edith Wharton, Juventude, de Conrad, Jana e Joel, de Xavier Marques, Uma vida em segredo, de Autran Dourado, O simples coronel Madureira, de Marques Rebelo, O automóvel, de Herberto Sales, A espingarda de caça, de Yasushi Inoue, A morte e a morte de Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado, Agostinho, de Alberto Moravia, Sombras de julho, de Carlos Herculano Lopes, Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez, de Tabajara Ruas, O urso, de Faulkner, A metamorfose, de Kafka, Fup, de Jim Dodge, O ovo de ouro, de Tim Krabbé, A família Tóth, de Órkény, Miss Corações Solitários, de Nathanael West, Uma paixão no deserto, de Balzac, O grande deus Pan, de Arthur Machen, Adeus, Mr. Chips, de James Hilton, A infância de um chefe, de Sartre, Isabelle, de Gide, Genitrix, de Mauriac, A queda, de Camus, Bom-dia, tristeza, de Sagan, Carmen, de Mérimée, A dançarina de Izu, de Kawabata, Quem perde ganha, de Graham Greene, O mal negro, de Nina Berberova, A hora da estrela, de Clarice Lispector, Ontem, de Agota Kristof, Mimi vai à guerra, de Paulo Francis, As pedras no caminho, de Ruth Randell, O poste a vapor, de Molnár, Na montanha, de Dion Henderson, O retrato de Jennie, de Robert Nathan, A senhora Caliban, de Rachel Ingalls, Balada do café triste, de Carson McCullers, e outros, muitos outros. Do Romantismo ao Contemporâneo.
Que coleção magistral seria essa! Textos breves, contundentes e em formato para se portar no bolso ou na bolsa. Uma coleção rara, que iria satisfazer aos leitores exigentes e também iniciar outros, mais jovens, em obras selecionadas, variadas e de inegável qualidade literária. Que fique a deixa, para algum editor ao mesmo tempo ousado e maluco, "talvez porque o mundo ultimamente ficou óbvio demais".

domingo, 7 de fevereiro de 2010

CRÔNICA, 1

De 2002 a 2006, publiquei, no Correio da Bahia, sempre aos domingos, contos, crônicas e ensaios. Foram exatamente 301 textos. Vou reeditar aqui, esporadicamente, algumas crônicas para talvez mais tarde compor um livro. Eis a primeira, publicada em 2 de maio de 2002. A foto aqui em cima é do filme Entre os muros da escola, de Laurent Cantet, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes 2008.


OUTROS INTERESSES


A bem da verdade, não foi um semestre bom. Nem poderia: em pleno verão, época de pouca roupa, sol, praia, música, ócio, brisa...

Quinze alunos. Dois apenas interessados em literatura. O resto, vagando. Havia a aluna que dava muxoxo a cada frase mais espirituosa de Machado de Assis, como se detectasse, no estilo do velho bruxo, idéias em excesso e carência de ação cinematográfica.

Havia também a aluna que balançava a perna, de cara para cima, como se ansiosa, a esperar o noivo, que tardasse em demasia, quem sabe por que motivo... Romântica na pele e nos ossos, não suportou o Realismo e, ao receber o resultado da primeira avaliação, foi chorar no banheiro...

Duas outras alunas, durante a entrega dessa mesma prova, irromperam num ataque de riso, incrédulas não propriamente com seu desempenho, mas com a nota. Outras três não queriam saber mais do que já sabiam e passavam toda a aula debruçadas sobre catálogos de vestuário e perfumaria. Ali estava tudo o que elas queriam possuir e almejavam ser: os vistosos acessórios de uma suposta elegância. Sua participação em aula se resumia a um surdo cochicho entre elas mesmas, como se conspirassem, quase em silêncio, contra o professor.

Um aluno era a ausência em pessoa. Comparecia a todas as aulas, mas nunca estava presente. O auge de sua abstenção se deu às vésperas da primeira prova. A dois dias de ser avaliado, ele nem sabia em que disciplina se matriculara. Frequentava uma e fotocopiara (para estudar, enfim!) os textos de outra, os quais mostrou ao professor com indisfarçável regozijo. Triste. No momento – e não sem certa ironia –, o professor o advertiu, mas, à noite, de tanto pensar no fato, mal conseguia fechar os olhos. Quando afinal conciliou o sono, a alvorada manchava a noite. E ele sonhou com milhares de páginas em branco, sobre as quais sofria, perplexo, angustiado.

Todavia, este ainda não era o aluno mais exótico da classe. A silenciosa Célia o superava. A Célia que não opinava, não discutia, não reclamava, não questionava. Para ela as aulas transcorriam no próprio paraíso. Em salas com ar condicionado, água fresca à vontade, o bom café brasileiro, pãozinho de queijo, biscoitos finos e até bolo, daqueles que não existem mais e que faziam a alegria das crianças nas visitas à casa da avó. E quando olhava para fora, através da janela de cristalino vidro, via crianças brincando na relva, em meio a pássaros e lépidos esquilos, na mais quimérica paz. Ninguém a arrancava de seu silêncio. Nem o ácido Machado, nem o brutal Azevedo, nem o audacioso Caminha, nem mesmo o devasso Júlio Ribeiro. O sexo existente nele – ou ela já o excedera ou então desconhecia, e com uma inocência tal, que seria capaz de adormecer, de súbito, em meio a um adjunto adnominal, uma rara metáfora.

Só uma única vez o professor conseguiu despertar sua atenção, e por uma via surpreendente, quase risível, se não fosse trágica. O semestre já ia pelo fim, e estudava-se o descabelado Augusto dos Anjos. Poeta original, mas soturno, doentio, místico e por demais crédulo da influência dos astros sobre o destino dos homens. Em seu comentário, uma duvidosa exegese de segunda mão, o professor intercalou elementares conhecimentos astrológicos. E, à guisa de ilustração, perguntou a uma das alunas mais interessadas – se é que havia alguma:

– Amanda, qual o seu signo?

A aluna de pronto respondeu, radiante:

– Touro.

– Pessoas obstinadas, teimosas, céticas. Raramente mudam de idéia. Carregam até o fim sua pedra, como Sísifo, mesmo sabendo que poderão sucumbir a qualquer momento. Mas, em geral, são pessoas espirituosas, as taurinas.

A aluna ficou ainda mais radiante. Aquele era um retrato perfeito de sua personalidade, sua exata psicologia. Animada – como, aliás, toda a classe –, ela ia perguntar qualquer coisa, mas nesse instante o professor consultou o relógio e deu por encerrada a aula. Ia aplicar uma prova noutra turma e não queria se atrasar.

Já no corredor apinhado de alunos e professores, a andar apressado, ouviu alguém chamá-lo. Era a silenciosa Célia, que afinal queria lhe falar. Ele nem se lembrava de ter ouvido sua voz calma e quente, naquele semestre... Se ouviu, foram tão poucas vezes – e não direcionada a ele, em conversa trivial com seus colegas –, que ele quase a esquecera.

– Professor! Professor! – ela o chamou de novo, sem conseguir alcançá-lo.

Contrariado, ele se voltou:

– Agora não posso! Vou aplicar uma prova.

– Mas é rápido, professor! Bem rápido!

– Mas não posso... Não posso! – e voltou a andar.

– É rápido! Por favor! – ela gemeu, a fisionomia crispada, em estado de autêntico sofrimento.

Ele parou. Professor sério e preocupado com o destino de seus pupilos, ele supôs, por um instante, que a aluna tinha alguma dúvida em relação a algum conteúdo – e a prova era na próxima semana...

– Está bem, Célia: qual a sua dúvida?

Ela procurou sua melhor face. A mais vívida. E sua voz mais cálida, mais clara, infiel ao seu interior tempestuoso. E pela primeira vez naquele semestre ela articulou uma pergunta. A primeira e, talvez, por toda a sua existência universitária, a única. Sua voz saiu trêmula, hesitante:

– Professor, e eu? Quais as características dos capricornianos?

– …!

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O MILAGRE DE SAKI

Semanas atrás, acessei o site de uma livraria, à procura de um livro do escritor inglês Saki (1870-1916), célebre por seus contos de terror e humor. Infelizmente, não encontrei nenhum livro dele, mas achei, em compensação, um livro do alemão W. G. Sebald (1944-2001), em espanhol, com o título Cuentos de humor y de horror. Como já apreciava Sebald pelos romances, e o livro estava com um preço convidativo, não hesitei em enveredar pela leitura de seus supostos contos. Dias depois, para a minha surpresa e minha satisfação, recebi o livro: Cuentos de humor y de horror (Barcelona: Anagrama, 2008), mas, neste caso, o autor era Saki. Compreendi então que a livraria se equivocara ao catalogar o livro ou que minha vontade, de alguma forma, operara uma mágica, um milagre. E, uma vez que Saki foi um mestre do relato fantástico, é inevitável não pensar que ele próprio, de onde está, engendrou esta trama.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

E NÃO ME ARRANCARAM

Ele estava quase , quando o telefone tocou.

A garota ia e vinha com ele num ritmo aparentemente único e não quis parar, retendo-o pelo quadril com a mão esquerda, o braço todo esticado para trás, de modo que, à luz fraca que preenchia o quarto, uma centelha úmida de suor mesclava-se à sua pele morena e quente.

Por um instante ele ignorou o apelo do telefone e manteve o ritmo, a fração de sonho que o alimentava. Mas então se lembrou...

De um pulo, estava fora da garota e longe da cama. Com quatro passos, deixou o quarto e entrou na sala, ambos exíguos e às escuras.

Mal ergueu o telefone, já sabia o que havia acontecido.

— Sr. Isaac...

— Sou eu.

— Aqui é do hospital...

— Está bem, estou indo.

— Seu tio...

— Eu sei.

E sem agradecer pousou o telefone.

A garota já havia fechado a nudez, posto saia e blusa, que caía aberta, a mostrar os seios pequenos e despertos. Estava em pé no meio do quarto, à espera, uma nuvem de tensão nos olhos. Esfregava os braços, como se transida de frio, embora fosse verão, um mês rigoroso, de dias ensolarados e noites abafadas, favoráveis à insônia.

— Meu tio se foi — ele disse.

Ela não encontrou o que dizer. Largou os próprios braços e agachou o corpo em busca das sandálias, perdidas na semi-escuridão do cômodo.

MAYRANT GALLO. Conto recém-publicado na Verbo21, na coluna que tenho por lá, a Seara do Gallo. Portanto, quem quiser ler o resto da história, entre aqui: www.verbo21.com.br
Imagem: pintura de Gustav Klimt (1862-1918).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

MORREU J. D. SALINGER

Segundo o New York Times, J. D. Salinger, autor do romance O apanhador no campo de centeio, morreu hoje, em New Hampshire, aos 91 anos. Desde 1965 que o autor vivia recluso, sem publicar nenhuma obra. Embora tivesse confessado ao amigo John Burt que continuava escrevendo, e que guardava num cofre vários livros prontos, a vida do escritor tornou-se um mistério, e ele, um mito da Literatura moderna. No Brasil, seus poucos livros são publicados pela pequena e não menos misteriosa Editora do Autor (O apanhador no campo de centeio, Nove estórias e Franny e Zooey) e pela L&PM (Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação). Menos conhecido que o romance que o tornou célebre, Nove estórias é uma ótima ponte para o estranho universo ficcional do autor.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A RESPOSTA PELO TAO

Recentemente, um jornalista de província me envolveu, por incompetência e descuido, numa embrulhada na revista Bravo. Tive que dar explicações e, por mais que desejasse me ausentar do episódio, ele retorna, a me exigir participação. Deixo aqui agora, de forma definitiva, a minha resposta, através de um texto excelente de Henri Borel, extraído do seu maravilhoso livro, sobre o Tao, Wu wei, a sabedoria do não-agir (São Paulo: Attar, 1996), em tradução de Margarita Lamelo Cacuro e Sérgio Rizek:

"O Tao não é bom nem mau, é tão-somente a única Realidade. O Tao é. Todas as coisas irreais têm vida ilusória, feita de contrastes e relatividade. Elas não vivem por si mesmas, são somente engano. Deixa de querer ser bom, e não penses que és mau. Wu wei, não-agindo, é assim que te deves deixar conduzir. Não ser bom nem mau, nem grande nem pequeno, nem alto nem baixo. Tu só serás realmente no dia em que, observa o sentido de minhas palavras, já não fores mais. Livra-te primeiro de todas as ilusões, desejos e aspirações, e então estarás no caminho, sem que precises sabê-lo, sem que precises ser conduzido por uma causa conhecida. Estarás seguindo para o Tao através de um ritmo suave, ou seja, por seu princípio vital puro, o único real. E seguirás assim, de forma tão clara e natural como as nuvens douradas que já se dissolveram no céu".

Pintura: Saquarema (1955), de José Pancetti (1902-1958).

domingo, 17 de janeiro de 2010

O CONTISTA CHRIS OFFUTT

O conto norte-americano, desde Stephen Crane, deixou o típico de lado e tornou-se universal. O. Henry, Jack London, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Sherwood Anderson, William Faulkner, Willa Cather, John Steinbeck, Conrad Aiken, Erskine Caldwell, John O’Hara, Flannery O’Connor, Dashiell Hammett, Carson McCullers, John Cheever, John Fante, James Salter, Paul Bowles, Breece D’J Pancake, Patricia Highsmith, Raymond Carver, Joyce Carol Oates e, mais recentemente, Chris Offutt, com o seu impressionante volume de apenas oito contos Além das montanhas.
Offutt reúne tudo o que se espera de um contista nato: fluência, trama envolvente, movimentação no tempo e no espaço, alternância de narração, descrição e diálogo, uma linguagem ao mesmo tempo funcional e poética, com rasgos filosóficos, representação relevante da vida e do mundo, reflexão e, às vezes, ciframento, desfechos condizentes ou conflitantes com a trama, atmosfera, mistério e ironia. Poucos foram os contistas que li nos dez últimos anos (e dos quais antes jamais ouvira falar) que me deixaram assim tão empolgado. Na verdade, só me lembro de dois: o sergipano Antônio Carlos Viana e a italiana Dacia Maraini, com o livro Meu marido (Berlendis & Vertecchia, 2001).
Dois contos se rivalizam como as obras-primas do livro de Offutt, que também é romancista e escreveu um livro de memórias: Além das montanhas, que dá título ao volume, e Moscou, no Idaho. Em ambos, a trama é só um pretexto para uma imersão maior, sobre a existência. O primeiro narra a história de Gerald, que é encarregado pelos quatro cunhados de ir buscar o outro irmão deles, Ory, que levou um tiro e está hospitalizado numa cidade distante. O segundo enfoca o dia-a-dia de dois ex-presidiários no único emprego que, ao sair da cadeia, encontraram: coveiros. Nos dois contos, e mais fortemente no segundo, prevalecem as reflexões sobre a vida a partir do seu fato mais corriqueiro: a morte. O diálogo entre os dois coveiros chega a um nível tal, que um deles começa a achar que a prisão era melhor, mais digna, o verdadeiro lar, o lugar onde se alcançam as lições definitivas: “A maior coisa que aprendi foi como conseguir que as pessoas me deixassem sozinho. Depois foi como dormir. Antes, nunca dormia bem; hoje, consigo dormir catorze horas seguidas.” E o outro retruca: “Só isso?” Não: “Também tive certeza absoluta de que gosto de mulheres”. Muitos são os trechos a destacar, como este, mais filosófico: “Ocorreu-lhe que o tempo não se move para a frente, como ele sempre pensara. São as pessoas que se movem pelo tempo”. Ou este outro, mais devastador: “Na prisão, descobrira que as leis eram feitas para proteger as pessoas que faziam as leis”.
De uma linhagem de escritores que não pretendem entreter, mas concentrar o leitor, fazê-lo evoluir do embotamento para a consciência, Offutt assim conclui seu relato: “Tilden se perguntou quando encontraria uma mulher, um trabalho de que gostasse, uma cidade onde quisesse ficar. Lá em cima, a Via Láctea fazia uma nevasca de estrelas no céu. Não havia nem uma cerca ou muro à vista”. Exílio existencial, liberdade de ação: destino. Eis a fórmula, da literatura para a vida.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

ERIC ROHMER

Vivemos numa época de insaciável interesse pela vida alheia. Mas, se antes fazíamos isso com o propósito de ter um exemplo elevado a ser seguido, e foi esta avidez que transformou a biografia num gênero literário, agora o objetivo é tão-somente reunir matéria jocosa para alimentar o forno da fofoca.
É óbvio, portanto, que para o nosso tempo o que Cristiano Ronaldo ou Beyoncé comeram no café da manhã é muito mais importante como notícia que a morte de um cineasta francês com mais de oitenta anos e que, além disso, a vida inteira filmou em surdina, sem estardalhaço; e ainda mais se aqueles dois estiveram na mesma cama...
Para o cinema de arte, a perda de Eric Rohmer (1920-2010) não é pequena. Ele foi o sul e o norte de muitos cineastas, e continuava a produzir adeptos. Foi uma fração de sol num campo gelado. Uma trilha a seguir e um estilo a celebrar. Era um dos últimos diretores franceses oriundos daquela genial geração dos anos 1950, e era também o mais discreto e seguramente um dos mais corajosos. Não fez concessões de nenhuma natureza, não adaptou seu estilo às exigências de momento, nem mudou suas escolhas e predileções em favor da celebridade. Encheu-se de palavras para a veneração de poucos e um respeito mútuo, pois não há este crítico que, diante de seus filmes, não apascente sua fera. Pode até não o admirar, mas não o desdenha. Rohmer seguiu como começou e findou-se como no início, esmiuçando a vida.
Costumo dizer aos amigos que o cinema atual, especialmente o de entretenimento, está mais pautado no diálogo que nas imagens, a não ser que o astro do filme seja a máquina de efeitos especiais. Neste caso, a ação ganha vulto e praticamente movimenta todo o filme. Pode parecer paradoxal o que digo, mas Rohmer baseava suas narrativas em três aspectos: o diálogo, a movimentação constante dos personagens e o exame das relações cotidianas mais banais. Nele, contudo, diferentemente dos filmes de massa, o diálogo não é vazio ou funcional, para o esclarecimento da platéia; nem a movimentação um recurso da ação, que mantém o público vidrado; tampouco as relações cotidianas se resumem a seções laboratoriais de tipos, com vistas a promover na sociedade, panfletariamente, convenientes mudanças de comportamento. Em Rohmer, o diálogo é a vida do filme; a movimentação, o que faz a trama avançar no tempo e no espaço; e as relações cotidianas, a matéria que permite o exame minucioso da condição humana. E tudo isso sem nenhuma pretensão, com uma simplicidade quase franciscana.
A experiência de assistir a um filme de Rohmer é alcançar a certeza de que para ser profundo e perene um filme não precisa ser monótono nem intrincado. Rohmer, como Truffaut, conta-nos histórias simples que nos conduzem à iluminação e à compreensão de certos segredos e mistérios, que são tão evidentes quanto o céu sobre nossas cabeças, mas que, por ingenuidade ou ponto de vista obliterado, não os enxergamos.
Um dos maiores exemplos está em Conto de verão: durante a estação de veraneio que passa numa praia, um rapaz se envolve com três garotas. Indeciso, hesitante, pois as três o atraem e cada uma apresenta um predicado que as outras não possuem, ele não sabe a quem escolher e nem imagina que sua decisão partirá da vida, com seu inevitável fluxo, a nos conduzir como a uma folha seca na correnteza. Sua decisão será, portanto, incidental. Rohmer usa o deus ex machina, mas não como um recurso artificial, evidente, que de imediato o espectador percebe. Ele é sutil, porque é simples, e é simples porque é natural, não inventa. Seu refinamento está nisso. Arte destituída do rigor da palavra arte.
Rohmer se foi, mas ficaram seus filmes, exemplos de beleza estética, de narrativa sem pretensão, de profundidade sem monotonia e de uma simplicidade técnica que só os grandes artistas alcançam.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

COINCIDÊNCIA DE VERÃO

Nesta madrugada, acordei e, depois de beber um longo copo d'água, decidi começar a leitura de Última noite e outros contos, do excelente escritor norte-americano James Salter, autor do excepcional Um esporte e um passatempo. Raramente começo a leitura de um volume de contos pelo primeiro conto; prefiro consultar o sumário e escolher a esmo um relato. Não foi o que ocorreu desta vez. Fui direto ao primeiro conto, talvez atraído pelo estranho título: Akhnilo. Impressionista, lírico, misterioso, como boa parte da obra do autor, a história narra os momentos que se seguem a uma noite de verão em que o protagonista acorda com um barulho, que a princípio não consegue identificar. Decidido a averiguar o que estava acontecendo, o personagem desce pelo telhado da casa e vai à procura do som. E é então que sua vida se transforma, ao compreender que ouvira quatro palavras, das quais só uma lhe restava depois de alguns instantes e que, ao voltar, inquirido pela esposa sobre o que acontecera, ele também esqueceu. Com a presença da filha, que despertara com a movimentação dos pais, o relato se soluciona, assim, enigmático: "e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela". Cinco minutos depois de ler este conto, enquanto ainda o digeria, em sua beleza e evidente ciframento, ouvi um barulho proveniente da sala e fui averiguar. Não era nada, nem ninguém. Talvez só uma coincidência de verão. Ou, como afirma o narrador de Salter: "Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim".

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O FAROL

Um escritor só é representativo pelo que ele escreve, pela qualidade estética de sua obra, sua capacidade de conferir elevação ao mais baixo dos assuntos. Kafka, quando transforma um homem num inseto a enojar sua família; Camus, quando transforma alguém que não é estrangeiro num sujeito psicologicamente estrangeiro e permite que a sociedade o julgue como tal e o condene; João Antônio quando transforma a visita de um rapaz a um antigo amigo numa compreensão mais profunda da existência, do que somos. Um escritor jamais é representativo por estar mais ou menos visível, transitando pela mídia, viajando de um canto a outro do mundo ou fazendo-se de lobby pelos subterrâneos da Academia. Isso não é literatura; é política literária. Mas se tal escritor cumpre esse papel, mais político, e ainda reúne aquela primeira qualidade, ele também é representativo, ou até mais, se as suas ações aliterárias não se restringem a si mesmo; se elas são como trilhas de orientação para os que o admiram ou o seguem.

Pintura: Lighthouse hill (1927), óleo sobre tela, de Edward Hopper (1882-1967), pintor norte-americano.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A CRUZ E A ESPADA

Dilema: para a Direita (capitalista), a arte deve vender; para a Esquerda (socialista), a arte deve servir. Paradoxo: servindo, a arte se vende; vendendo, a arte serve-se.
Imagem: a fotografia provocativa de Alison Brady.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O ÚLTIMO SUSPIRO

Num livro que estou lendo, Os fantasmas do século XX, do norte-americano Joe Hill, revelação da narrativa fantástica do seu país, há um conto que narra a história de um colecionador de últimos suspiros, entre os quais estão os de Edgar Allan Poe e Roadl Dahl, mestres do fantástico. Ele possui um museu onde os expõe ao público e, durante a visita de uma família interessada e também assustada, tem sua coleção questionada, em especial quanto ao fato de que só coleciona últimos suspiros de celebridades: "Todos os suspiros que o senhor tem aqui são de pessoas famosas?" O Dr. Alinger retruca e o faz com uma fala memorável: "De forma alguma. Eu já engarrafei últimos suspiros de universitários, funcionários públicos, críticos literários... uma profusão de gente sem importância". Algumas pessoas podem argumentar que o personagem, e talvez por extensão o autor, está desprezando aqueles tipos. Não é desprezo; é ironia. Há centenas, milhares e até milhões de funcionários públicos e universitários; até que algum se destaque por esse ou aquele motivo, todos são apenas "mais um na multidão", um punhado de gente numa sala ou num campus. Tal evidência apenas apoia a ideia de que também há críticos literários aos montes; que todo leitor é, a rigor, um crítico literário; e ainda mais hoje, que julga-se a arte pelo gosto pessoal ou pela escolha estética que se fez. Raramente pelo mérito da obra, pelos sentimentos que ela desperta, pelo abalo que ela estabelece no leitor, promovendo em sua capacidade de se emocionar e em sua inteligência outras convicções e uma percepção nova das coisas deste mundo e do que está acima dele: as estrelas ou este outro "céu", escuso e ainda mais misterioso, que é a mente humana. O Dr. Alinger parece dizer: "Há críticos literários? Para quê?" Eu diria que para ofender, para desdenhar, para destilar sua acidez e o seu desprezo. Para julgar o objeto artístico sempre em comparação com outro, jamais como um objeto em si, reunião de memória estética, experiência humana, aprendizado cultural e escolhas pessoais. Recentemente um "suposto crítico literário", fadado por vários motivos a ser um verme agonizante a jorrar seu suco infecto sobre textos alheios, ao comentar a criação de um poeta, acusou-o de não oferecer ao poema um desfecho condizente com o seu início, de fato, segundo ele, elevado e artístico. Ora, um poema não tem desfecho (salvo se for um poema narrativo), mas sim arremate; não são, como podem parecer, termos sinônimos. Desfechar é "tirar o fecho ou o selo", "abrir", "desvendar". Arrematar é quase uma ação inversa, ao menos na poesia, pois compreende um processo que envolve a um só tempo "conclusão" e "nó". E, além do mais, um poema se arremata com o que lhe cabe: de rítmico, de incidental (as palavras se combinando por si mesmas) e, obviamente, de técnico, o engenho poético, a formação propriamente dita do poeta. O poema é e será sempre uma linguagem que nasce e não permanece. Uma linguagem que jamais se repete. Uma linguagem que é, ao mesmo tempo, memória do sujeito, do idioma e da espécie. Uma linguagem de momento, única e irrepetível. Posta aqui, não pode ser trasladada para lá, pois não é um corpo; é um fluido, uma estação de passagem, um sopro quase divino, o último suspiro. Uma linguagem que, em última análise, não pode ser reutilizada. Reduzi-la a um simples meio funcional de temas e conteúdos é devolvê-la ao substrato comum da língua, de uso cotidiano, que somente quer comunicar uma mensagem e se fazer entender, e por isso seus usos se perdem na vastidão dos tempos. O poema é o ciframento possível de um estado de espírito, de um instante de iluminação. Se o leitor e o eu do poeta, durante a leitura, encontram-se ou "coincidem" nesse instante, o poema se justificou. Se não, que o leitor respeitavelmente passe a página. Entende-se por que Joe Hill, em seu conto, desfere uma ironia sutil contra os críticos literários: do alto do seu ponto de vista eles olham o mundo, e o que veem é a sua verdade, a sua própria face, distorcida, que lutam então por reparar.

Imagem: Einar Turkowski, do livro Estava escuro e estranhamente calmo (CosacNaify, 2009).

domingo, 3 de janeiro de 2010

OS HÚNGAROS

Prezada Bípede, obrigado pelos recentes comentários aqui no Não leia! Um feliz 2010 para você e para toda a família Bípede! Sobre os escritores húngaros, um excelente livro é: Antologia do conto húngaro (4a. edição pela Topbooks, 1998), organizada pelo húngaro-brasileiro Paulo Rónai e com uma extensa e arguta introdução assinada por Guimarães Rosa. Estão todos ali: Márai, Ady, Molnár, Krudy, Szép, Gelléri, Kostolányi e muitos outros. Há uma segunda antologia publicada pela EDUSP, em 1991, também organizada por Rónai e também maravilhosa: Contos húngaros. Novamente, Kostolányi, Molnár, Szép, Gelléri, Déry, entre outros. Procure ainda o volume com duas novelas de István Örkény, que nos deixam perplexos com sua atualidade: A exposição das rosas (Editora 34, 1993). Niki: a história de um cão, de Tibor Déry, saiu pela Veredas (2002) e faz uma poderosa crítica ao Comunismo. O companheiro de viagem, de Gyula Krudy, veio a público pela CosacNaify, em 2003. Roteiro do conto húngaro, organizado por Rónai, e claramente a base do volume Antologia do conto húngaro, é hoje uma raridade editorial, pois foi publicado em 1954, na coleção Os cadernos de Cultura, do MEC, e jamais reeditado. Nesta obra, além dos contos, temos fotos de três ou quatro escritores, alguns dos mais célebres talvez. Há ainda: O tradutor cleptomaníaco, de Dezsö Kosztolányi, pela Editora 34, de 1996, que reúne alguns contos que o autor escreveu com seu alterego Kornél Esti; um livro realmente espetacular, de contos simples e profundos; já Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, recém-lançado pela CosacNaify, foi durante décadas um livro marcante para a formação do jovem brasileiro. Hoje, está meio esquecido. Também de Molnár, temos O poste a vapor (CosacNaify, 2005), uma novela que é uma verdadeira joia literária. Por fim, A tragédia do homem, de Imre Madách, peça mundialmente conhecida, foi traduzida por Paulo Rónai e publicada em 1980 pela Salamandra em coedição com a UERJ. No campo da teoria, da história e crítica literárias, há poucas publicações respeitáveis, mas podemos citar: À sombra do quarto crescente, de Aleksandar Jovanovic, um passeio pelos temas literários e culturais dos países do Leste Europeu, entre os quais a Hungria, e, do próprio Paulo Rónai, Pois é: ensaios (Nova Fronteira, 1990) e Como aprendi português e outras aventuras (Artenova, 1975). Em ambos há vários ensaios sobre autores húngaros e aspectos de sua literatura e cultura. O último lançamento de autor húngaro no Brasil de que tive notícia (não sou muito de ler jornais e revistas, prefiro vagar nas livrarias e achar por mim mesmo os "melhores" autores e livros), além, é claro, das obras de Imre Kertész e Sandor Márai, regularmante publicadas por aqui há anos, foi O viajante e o mundo da lua (Ediouro, 2007), de Antal Szerb. Bem, era isso. Não é certamente tudo, mas é um caminho para esse pequeno país de grandes escritores que é a Hungria.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

OS GOLFINHOS SÃO MAIS GENTIS

Em Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata (1899-1972), há uma cena que sintetiza muito bem a arte do autor, que é ao mesmo tempo sutil, simples, simbólica e refinada. Oki, escritor de 55 anos, passeia com a jovem Keiko, pupila de uma ex-namorada que ele reencontrou em Kyoto. Ele compra pedaços de peixe e de polvo, e vão os dois alimentar os golfinhos. Estes pulavam e arrebatavam das mãos de Keiko as iscas. Em meio à diversão, começa a chover, e eles tomam um táxi. Oki diz então:

"Alguns cardumes de golfinhos às vezes passam por aqui, do outro lado da baía, um pouco além de Ito. Parece que eles são pescados perto da praia; os homens tiram as roupas, entram na água e os capturam com as próprias mãos. Os golfinhos não resistem quando se fazem cócegas debaixo de suas barbatanas."
"Coitados..."
"Eu me pergunto se uma moça bonita resistiria."
"Que ideia repugnante! Pois bem, imagino que ela iria lufar, unhar e arranhar!"
"Provavelmente os golfinhos são mais gentis..."

Aí está, sem explicações, nem conclusões. Para o deleite e o proveito do leitor atento e competente.
Prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata é seguramente um mestre da literatura japonesa do século XX. Atribui-se a ele, inclusive, a modernização da prosa de seu país, com a publicação de A dançarina de Izu, em 1926. Autor de vários romances e contos, sua obra está sendo pouco a pouco editada no Brasil pela editora paulista Estação Liberdade, que já publicou: A dançarina de Izu, Kyoto, O país das neves, Contos da palma da mão, A casa das belas-adormecidas (que inspirou Gabriel García Márquez a escrever Memória de minhas putas tristes) e Mil tsurus. Kawabata se matou em 1972. A tradução do excerto acima é de Alberto Alexandre Martins, da edição da Globo, de 1988.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

AS PUPILAS DE SAFO, 2


Não sou Ninguém! Quem é você?

Ninguém - Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!


Que triste - ser - Alguém!

Que pública - a Fama -

Dizer seu nome - como a Rã -

Para as palmas da Lama!



Muita Loucura faz Sentido -

A um Olho esclarecido -

Muito Sentido - é só Loucura -

É a Maioria

Que decide, suprema -

Aceite - e você é são -

Objęte - é perigoso -

E merece uma Algema -



Algumas Borboletas há

Nos Campos do Brasil -

Voam ao meio-dia só -

Depois - cessa o Alvará -


Alguns Aromas - vêm e vão -

À tua escolha, uma só vez -

Estrelas - que à Noite entrevês -

Estranhas - de Manhã -



Morrer por ti era pouco.

Qualquer grego o fizera.

Viver é mais difícil -

É esta a minha oferta -


Morrer é nada, nem

Mais. Porém viver importa

Morte múltipla - sem

O Alívio de estar morta.


EMILY DICKINSON (1830-1886). Poetisa norte-americana. Estranha, lírica, nova, maravilhosa, eterna. Descobrir e redescobrir sua voz, seus versos e seu ritmo é jamais se afastar - nem dela nem de si mesmo. Poemas traduzidos por Augusto de Campos e extraídos de Emily Dickinson: não sou ninguém (Unicamp, 2008).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O FIM DO MUNDO

"Agora, note bem, só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós, tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo. É isto que eu queria comunicar a você."

DEZSÖ KOSZTOLÁNYI (1885-1936). Considerado por muitos o maior escritor da Hungria, pátria de maravilhosos escritores pouco conhecidos ou quase desconhecidos. Publicou romances, vários volumes de contos e poemas. Estreou no romance em 1922, com Nero: o poeta sanguinário. No Brasil, além de contos em antologias do conto húngaro, saiu O tradutor cleptomaníaco (1996), em tradução de Ladislao Szabo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A IMITAÇÃO

"É na imitação que se deve buscar a explicação para a maior parte das ações humanas. Quem se conforma ao costume passará sempre por homem de bem. São chamadas pessoas de bem as que fazem como as outras."

ANATOLE FRANCE (1844-1924), escritor francês, Nobel de Literatura de 1921. Inconformado com a intolerância e o fanatismo, foi um incansável defensor dos direitos humanos. O trecho acima é de seu conto Crainquebille, espécie de predecessor do absurdo de O processo, de Kafka.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

SÍMBOLO E ESPÍRITO DE NATAL


VERSOS DE NATAL

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Um dos maiores poetas de língua portuguesa e do mundo, sem sombra de dúvida. Sua aparente simplicidade disfarça a dor humana, a ironia que mantém a espécie viva e o sentido de refinamento que marca toda a sua obra. O poema acima data de 1939 e foi publicado no volume Lira dos cinquent'anos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O TEMPO E UM SÓ DIA

"Não é lícito julgar levianamente, como perversos, os homens íntegros, assim como não é justo considerar íntegros os homens desonestos. Rejeitar um amigo fiel, penso eu, equivale a desprezar a própria vida, esse bem tão precioso! O tempo fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia basta para evidenciar a maldade dos maus."

SÓFOCLES (496-406 a. C.). Dramaturgo grego, que revolucionou a tragédia. Édipo rei (ao qual pertence o trecho acima) é sua principal obra. Supõe-se que tenha escrito cerca de 120 peças, mas somente 7 chegaram aos nossos dias, intactas, entre as quais Antígona, Ajax, Filoctetes e Electra. Tradução de J. B. Mello de Souza.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O PENSAMENTO É UM MAL

"O que significa conhecer? Por exemplo: eu sei que sou Tolstói, escritor, tenho mulher, filhos, cabelos grisalhos, um rosto feio, barba; tudo isso está escrito no passaporte; quanto à alma, não há nada nos passaportes. Sobre ela só sei uma coisa: a alma quer estar próxima de Deus. Mas o que é Deus? Algo do qual minha alma é só uma partícula. É tudo. Para quem aprendeu a raciocinar, é difícil ter fé, e viver em Deus só se pode por meio da fé. Tertuliano disse: 'O pensamento é um mal'."

LIEV TOLSTÓI. Peso-pesado da literatura russa do século XIX, autor de Guerra e paz, Ana Karenina e de inúmeros contos e novelas que muito influenciaram escritores de todo o mundo. O trecho acima está no texto Liev Tolstói, de autoria de Máximo Górki, com pelo menos duas edições no Brasil, uma pela Perspectiva e outra pela Martins Fontes.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

MOÇA COM CHAPÉU DE PALHA

O título deste romance, Moça com chapéu de palha, antecipa muitos aspectos da técnica narrativa de Menalton Braff. De imediato, ele sugere uma composição impressionista, que induz o leitor a participar da criação do significado da obra. O texto é lírico, intenso, e a análise do narrador, voltada para a crise existencial mais grave de sua vida, modifica-se com o passar do tempo. Nesse sentido, o estilo narrativo de Menalton nos remete – ao reavaliar o mesmo fato à medida que o protagonista se distancia dele – à série de pinturas de Claude Monet sobre a catedral em Rouen.
Este livro ainda revela muitas cenas campestres, pinceladas como se fossem uma natureza morta. É quando também há maior abertura para o registro de cenas cotidianas, triviais, mas que, pela qualidade com que as tintas e os movimentos são manipulados, ganha um papel muito relevante em Moça com chapéu de palha: elas completam o painel impressionista, que vai misturar a leveza do erotismo com o peso da incerteza sobre a vida. As impressões nascem ora do que vai sendo mostrado com solidez, o amor entre o protagonista e Angélica, sua mulher, ora pelas incertezas do narrador em torno do seu destino.
E é justamente acerca das incertezas que o romance ganha um contraponto, um tom que por vezes, de modo instigante, nos faz lembrar da literatura noire, repleta de mistérios e suspenses. Acentua-se então o cenário urbano, da redação do jornal e das relações profissionais ali estabelecidas, da falta de ética, do poder que consome o compromisso com a verdade, um lema que a imprensa carrega consigo feito um estandarte.
De um lado, o campo, o cuidado na preparação da comida, na arrumação da mesa de jantar, no zelo com o jardim, na vida amorosa e sentimental, enquanto, de outro, estão a cidade e sua máquina incessante, brutal e estressante. Qual dos dois é mais verdadeiro? Qual dos dois é mais importante? São perguntas que se colocam neste romance e são formuladas em diálogo com a própria criação literária, num jogo metalinguístico que apenas um autor maduro como Menalton Braff poderia conquistar.

MENALTON BRAFF nasceu em Taquara, Rio Grande de Sul, em 1938. Autor de À sombra do cipreste (1999), A coleira no pescoço (2006) e A muralha de Adriano (2007). Contista, novelista e romancista, Menalton Braff é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira atual.
Textos reproduzidos, com uma ou outra alteração, do release da editora LÍNGUA GERAL.