"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

MORREU J. D. SALINGER

Segundo o New York Times, J. D. Salinger, autor do romance O apanhador no campo de centeio, morreu hoje, em New Hampshire, aos 91 anos. Desde 1965 que o autor vivia recluso, sem publicar nenhuma obra. Embora tivesse confessado ao amigo John Burt que continuava escrevendo, e que guardava num cofre vários livros prontos, a vida do escritor tornou-se um mistério, e ele, um mito da Literatura moderna. No Brasil, seus poucos livros são publicados pela pequena e não menos misteriosa Editora do Autor (O apanhador no campo de centeio, Nove estórias e Franny e Zooey) e pela L&PM (Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma apresentação). Menos conhecido que o romance que o tornou célebre, Nove estórias é uma ótima ponte para o estranho universo ficcional do autor.

domingo, 24 de janeiro de 2010

A RESPOSTA PELO TAO

Recentemente, um jornalista de província me envolveu, por incompetência e descuido, numa embrulhada na revista Bravo. Tive que dar explicações e, por mais que desejasse me ausentar do episódio, ele retorna, a me exigir participação. Deixo aqui agora, de forma definitiva, a minha resposta, através de um texto excelente de Henri Borel, extraído do seu maravilhoso livro, sobre o Tao, Wu wei, a sabedoria do não-agir (São Paulo: Attar, 1996), em tradução de Margarita Lamelo Cacuro e Sérgio Rizek:

"O Tao não é bom nem mau, é tão-somente a única Realidade. O Tao é. Todas as coisas irreais têm vida ilusória, feita de contrastes e relatividade. Elas não vivem por si mesmas, são somente engano. Deixa de querer ser bom, e não penses que és mau. Wu wei, não-agindo, é assim que te deves deixar conduzir. Não ser bom nem mau, nem grande nem pequeno, nem alto nem baixo. Tu só serás realmente no dia em que, observa o sentido de minhas palavras, já não fores mais. Livra-te primeiro de todas as ilusões, desejos e aspirações, e então estarás no caminho, sem que precises sabê-lo, sem que precises ser conduzido por uma causa conhecida. Estarás seguindo para o Tao através de um ritmo suave, ou seja, por seu princípio vital puro, o único real. E seguirás assim, de forma tão clara e natural como as nuvens douradas que já se dissolveram no céu".

Pintura: Saquarema (1955), de José Pancetti (1902-1958).

domingo, 17 de janeiro de 2010

O CONTISTA CHRIS OFFUTT

O conto norte-americano, desde Stephen Crane, deixou o típico de lado e tornou-se universal. O. Henry, Jack London, Ernest Hemingway, Dorothy Parker, Sherwood Anderson, William Faulkner, Willa Cather, John Steinbeck, Conrad Aiken, Erskine Caldwell, John O’Hara, Flannery O’Connor, Dashiell Hammett, Carson McCullers, John Cheever, John Fante, James Salter, Paul Bowles, Breece D’J Pancake, Patricia Highsmith, Raymond Carver, Joyce Carol Oates e, mais recentemente, Chris Offutt, com o seu impressionante volume de apenas oito contos Além das montanhas.
Offutt reúne tudo o que se espera de um contista nato: fluência, trama envolvente, movimentação no tempo e no espaço, alternância de narração, descrição e diálogo, uma linguagem ao mesmo tempo funcional e poética, com rasgos filosóficos, representação relevante da vida e do mundo, reflexão e, às vezes, ciframento, desfechos condizentes ou conflitantes com a trama, atmosfera, mistério e ironia. Poucos foram os contistas que li nos dez últimos anos (e dos quais antes jamais ouvira falar) que me deixaram assim tão empolgado. Na verdade, só me lembro de dois: o sergipano Antônio Carlos Viana e a italiana Dacia Maraini, com o livro Meu marido (Berlendis & Vertecchia, 2001).
Dois contos se rivalizam como as obras-primas do livro de Offutt, que também é romancista e escreveu um livro de memórias: Além das montanhas, que dá título ao volume, e Moscou, no Idaho. Em ambos, a trama é só um pretexto para uma imersão maior, sobre a existência. O primeiro narra a história de Gerald, que é encarregado pelos quatro cunhados de ir buscar o outro irmão deles, Ory, que levou um tiro e está hospitalizado numa cidade distante. O segundo enfoca o dia-a-dia de dois ex-presidiários no único emprego que, ao sair da cadeia, encontraram: coveiros. Nos dois contos, e mais fortemente no segundo, prevalecem as reflexões sobre a vida a partir do seu fato mais corriqueiro: a morte. O diálogo entre os dois coveiros chega a um nível tal, que um deles começa a achar que a prisão era melhor, mais digna, o verdadeiro lar, o lugar onde se alcançam as lições definitivas: “A maior coisa que aprendi foi como conseguir que as pessoas me deixassem sozinho. Depois foi como dormir. Antes, nunca dormia bem; hoje, consigo dormir catorze horas seguidas.” E o outro retruca: “Só isso?” Não: “Também tive certeza absoluta de que gosto de mulheres”. Muitos são os trechos a destacar, como este, mais filosófico: “Ocorreu-lhe que o tempo não se move para a frente, como ele sempre pensara. São as pessoas que se movem pelo tempo”. Ou este outro, mais devastador: “Na prisão, descobrira que as leis eram feitas para proteger as pessoas que faziam as leis”.
De uma linhagem de escritores que não pretendem entreter, mas concentrar o leitor, fazê-lo evoluir do embotamento para a consciência, Offutt assim conclui seu relato: “Tilden se perguntou quando encontraria uma mulher, um trabalho de que gostasse, uma cidade onde quisesse ficar. Lá em cima, a Via Láctea fazia uma nevasca de estrelas no céu. Não havia nem uma cerca ou muro à vista”. Exílio existencial, liberdade de ação: destino. Eis a fórmula, da literatura para a vida.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

ERIC ROHMER

Vivemos numa época de insaciável interesse pela vida alheia. Mas, se antes fazíamos isso com o propósito de ter um exemplo elevado a ser seguido, e foi esta avidez que transformou a biografia num gênero literário, agora o objetivo é tão-somente reunir matéria jocosa para alimentar o forno da fofoca.
É óbvio, portanto, que para o nosso tempo o que Cristiano Ronaldo ou Beyoncé comeram no café da manhã é muito mais importante como notícia que a morte de um cineasta francês com mais de oitenta anos e que, além disso, a vida inteira filmou em surdina, sem estardalhaço; e ainda mais se aqueles dois estiveram na mesma cama...
Para o cinema de arte, a perda de Eric Rohmer (1920-2010) não é pequena. Ele foi o sul e o norte de muitos cineastas, e continuava a produzir adeptos. Foi uma fração de sol num campo gelado. Uma trilha a seguir e um estilo a celebrar. Era um dos últimos diretores franceses oriundos daquela genial geração dos anos 1950, e era também o mais discreto e seguramente um dos mais corajosos. Não fez concessões de nenhuma natureza, não adaptou seu estilo às exigências de momento, nem mudou suas escolhas e predileções em favor da celebridade. Encheu-se de palavras para a veneração de poucos e um respeito mútuo, pois não há este crítico que, diante de seus filmes, não apascente sua fera. Pode até não o admirar, mas não o desdenha. Rohmer seguiu como começou e findou-se como no início, esmiuçando a vida.
Costumo dizer aos amigos que o cinema atual, especialmente o de entretenimento, está mais pautado no diálogo que nas imagens, a não ser que o astro do filme seja a máquina de efeitos especiais. Neste caso, a ação ganha vulto e praticamente movimenta todo o filme. Pode parecer paradoxal o que digo, mas Rohmer baseava suas narrativas em três aspectos: o diálogo, a movimentação constante dos personagens e o exame das relações cotidianas mais banais. Nele, contudo, diferentemente dos filmes de massa, o diálogo não é vazio ou funcional, para o esclarecimento da platéia; nem a movimentação um recurso da ação, que mantém o público vidrado; tampouco as relações cotidianas se resumem a seções laboratoriais de tipos, com vistas a promover na sociedade, panfletariamente, convenientes mudanças de comportamento. Em Rohmer, o diálogo é a vida do filme; a movimentação, o que faz a trama avançar no tempo e no espaço; e as relações cotidianas, a matéria que permite o exame minucioso da condição humana. E tudo isso sem nenhuma pretensão, com uma simplicidade quase franciscana.
A experiência de assistir a um filme de Rohmer é alcançar a certeza de que para ser profundo e perene um filme não precisa ser monótono nem intrincado. Rohmer, como Truffaut, conta-nos histórias simples que nos conduzem à iluminação e à compreensão de certos segredos e mistérios, que são tão evidentes quanto o céu sobre nossas cabeças, mas que, por ingenuidade ou ponto de vista obliterado, não os enxergamos.
Um dos maiores exemplos está em Conto de verão: durante a estação de veraneio que passa numa praia, um rapaz se envolve com três garotas. Indeciso, hesitante, pois as três o atraem e cada uma apresenta um predicado que as outras não possuem, ele não sabe a quem escolher e nem imagina que sua decisão partirá da vida, com seu inevitável fluxo, a nos conduzir como a uma folha seca na correnteza. Sua decisão será, portanto, incidental. Rohmer usa o deus ex machina, mas não como um recurso artificial, evidente, que de imediato o espectador percebe. Ele é sutil, porque é simples, e é simples porque é natural, não inventa. Seu refinamento está nisso. Arte destituída do rigor da palavra arte.
Rohmer se foi, mas ficaram seus filmes, exemplos de beleza estética, de narrativa sem pretensão, de profundidade sem monotonia e de uma simplicidade técnica que só os grandes artistas alcançam.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

COINCIDÊNCIA DE VERÃO

Nesta madrugada, acordei e, depois de beber um longo copo d'água, decidi começar a leitura de Última noite e outros contos, do excelente escritor norte-americano James Salter, autor do excepcional Um esporte e um passatempo. Raramente começo a leitura de um volume de contos pelo primeiro conto; prefiro consultar o sumário e escolher a esmo um relato. Não foi o que ocorreu desta vez. Fui direto ao primeiro conto, talvez atraído pelo estranho título: Akhnilo. Impressionista, lírico, misterioso, como boa parte da obra do autor, a história narra os momentos que se seguem a uma noite de verão em que o protagonista acorda com um barulho, que a princípio não consegue identificar. Decidido a averiguar o que estava acontecendo, o personagem desce pelo telhado da casa e vai à procura do som. E é então que sua vida se transforma, ao compreender que ouvira quatro palavras, das quais só uma lhe restava depois de alguns instantes e que, ao voltar, inquirido pela esposa sobre o que acontecera, ele também esqueceu. Com a presença da filha, que despertara com a movimentação dos pais, o relato se soluciona, assim, enigmático: "e para Dena recomeçou uma época que ela lembrava dos primeiros anos de escola, quando a tristeza tomava conta da casa e as portas batiam com força e o pai, cheio de afeição desajeitada, entrava no quarto das filhas para contar histórias de ninar e acabava adormecendo ao pé da cama dela". Cinco minutos depois de ler este conto, enquanto ainda o digeria, em sua beleza e evidente ciframento, ouvi um barulho proveniente da sala e fui averiguar. Não era nada, nem ninguém. Talvez só uma coincidência de verão. Ou, como afirma o narrador de Salter: "Tinha a sensação de ser o único ouvinte de um mar de gritos sem fim".

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

O FAROL

Um escritor só é representativo pelo que ele escreve, pela qualidade estética de sua obra, sua capacidade de conferir elevação ao mais baixo dos assuntos. Kafka, quando transforma um homem num inseto a enojar sua família; Camus, quando transforma alguém que não é estrangeiro num sujeito psicologicamente estrangeiro e permite que a sociedade o julgue como tal e o condene; João Antônio quando transforma a visita de um rapaz a um antigo amigo numa compreensão mais profunda da existência, do que somos. Um escritor jamais é representativo por estar mais ou menos visível, transitando pela mídia, viajando de um canto a outro do mundo ou fazendo-se de lobby pelos subterrâneos da Academia. Isso não é literatura; é política literária. Mas se tal escritor cumpre esse papel, mais político, e ainda reúne aquela primeira qualidade, ele também é representativo, ou até mais, se as suas ações aliterárias não se restringem a si mesmo; se elas são como trilhas de orientação para os que o admiram ou o seguem.

Pintura: Lighthouse hill (1927), óleo sobre tela, de Edward Hopper (1882-1967), pintor norte-americano.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A CRUZ E A ESPADA

Dilema: para a Direita (capitalista), a arte deve vender; para a Esquerda (socialista), a arte deve servir. Paradoxo: servindo, a arte se vende; vendendo, a arte serve-se.
Imagem: a fotografia provocativa de Alison Brady.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

O ÚLTIMO SUSPIRO

Num livro que estou lendo, Os fantasmas do século XX, do norte-americano Joe Hill, revelação da narrativa fantástica do seu país, há um conto que narra a história de um colecionador de últimos suspiros, entre os quais estão os de Edgar Allan Poe e Roadl Dahl, mestres do fantástico. Ele possui um museu onde os expõe ao público e, durante a visita de uma família interessada e também assustada, tem sua coleção questionada, em especial quanto ao fato de que só coleciona últimos suspiros de celebridades: "Todos os suspiros que o senhor tem aqui são de pessoas famosas?" O Dr. Alinger retruca e o faz com uma fala memorável: "De forma alguma. Eu já engarrafei últimos suspiros de universitários, funcionários públicos, críticos literários... uma profusão de gente sem importância". Algumas pessoas podem argumentar que o personagem, e talvez por extensão o autor, está desprezando aqueles tipos. Não é desprezo; é ironia. Há centenas, milhares e até milhões de funcionários públicos e universitários; até que algum se destaque por esse ou aquele motivo, todos são apenas "mais um na multidão", um punhado de gente numa sala ou num campus. Tal evidência apenas apoia a ideia de que também há críticos literários aos montes; que todo leitor é, a rigor, um crítico literário; e ainda mais hoje, que julga-se a arte pelo gosto pessoal ou pela escolha estética que se fez. Raramente pelo mérito da obra, pelos sentimentos que ela desperta, pelo abalo que ela estabelece no leitor, promovendo em sua capacidade de se emocionar e em sua inteligência outras convicções e uma percepção nova das coisas deste mundo e do que está acima dele: as estrelas ou este outro "céu", escuso e ainda mais misterioso, que é a mente humana. O Dr. Alinger parece dizer: "Há críticos literários? Para quê?" Eu diria que para ofender, para desdenhar, para destilar sua acidez e o seu desprezo. Para julgar o objeto artístico sempre em comparação com outro, jamais como um objeto em si, reunião de memória estética, experiência humana, aprendizado cultural e escolhas pessoais. Recentemente um "suposto crítico literário", fadado por vários motivos a ser um verme agonizante a jorrar seu suco infecto sobre textos alheios, ao comentar a criação de um poeta, acusou-o de não oferecer ao poema um desfecho condizente com o seu início, de fato, segundo ele, elevado e artístico. Ora, um poema não tem desfecho (salvo se for um poema narrativo), mas sim arremate; não são, como podem parecer, termos sinônimos. Desfechar é "tirar o fecho ou o selo", "abrir", "desvendar". Arrematar é quase uma ação inversa, ao menos na poesia, pois compreende um processo que envolve a um só tempo "conclusão" e "nó". E, além do mais, um poema se arremata com o que lhe cabe: de rítmico, de incidental (as palavras se combinando por si mesmas) e, obviamente, de técnico, o engenho poético, a formação propriamente dita do poeta. O poema é e será sempre uma linguagem que nasce e não permanece. Uma linguagem que jamais se repete. Uma linguagem que é, ao mesmo tempo, memória do sujeito, do idioma e da espécie. Uma linguagem de momento, única e irrepetível. Posta aqui, não pode ser trasladada para lá, pois não é um corpo; é um fluido, uma estação de passagem, um sopro quase divino, o último suspiro. Uma linguagem que, em última análise, não pode ser reutilizada. Reduzi-la a um simples meio funcional de temas e conteúdos é devolvê-la ao substrato comum da língua, de uso cotidiano, que somente quer comunicar uma mensagem e se fazer entender, e por isso seus usos se perdem na vastidão dos tempos. O poema é o ciframento possível de um estado de espírito, de um instante de iluminação. Se o leitor e o eu do poeta, durante a leitura, encontram-se ou "coincidem" nesse instante, o poema se justificou. Se não, que o leitor respeitavelmente passe a página. Entende-se por que Joe Hill, em seu conto, desfere uma ironia sutil contra os críticos literários: do alto do seu ponto de vista eles olham o mundo, e o que veem é a sua verdade, a sua própria face, distorcida, que lutam então por reparar.

Imagem: Einar Turkowski, do livro Estava escuro e estranhamente calmo (CosacNaify, 2009).

domingo, 3 de janeiro de 2010

OS HÚNGAROS

Prezada Bípede, obrigado pelos recentes comentários aqui no Não leia! Um feliz 2010 para você e para toda a família Bípede! Sobre os escritores húngaros, um excelente livro é: Antologia do conto húngaro (4a. edição pela Topbooks, 1998), organizada pelo húngaro-brasileiro Paulo Rónai e com uma extensa e arguta introdução assinada por Guimarães Rosa. Estão todos ali: Márai, Ady, Molnár, Krudy, Szép, Gelléri, Kostolányi e muitos outros. Há uma segunda antologia publicada pela EDUSP, em 1991, também organizada por Rónai e também maravilhosa: Contos húngaros. Novamente, Kostolányi, Molnár, Szép, Gelléri, Déry, entre outros. Procure ainda o volume com duas novelas de István Örkény, que nos deixam perplexos com sua atualidade: A exposição das rosas (Editora 34, 1993). Niki: a história de um cão, de Tibor Déry, saiu pela Veredas (2002) e faz uma poderosa crítica ao Comunismo. O companheiro de viagem, de Gyula Krudy, veio a público pela CosacNaify, em 2003. Roteiro do conto húngaro, organizado por Rónai, e claramente a base do volume Antologia do conto húngaro, é hoje uma raridade editorial, pois foi publicado em 1954, na coleção Os cadernos de Cultura, do MEC, e jamais reeditado. Nesta obra, além dos contos, temos fotos de três ou quatro escritores, alguns dos mais célebres talvez. Há ainda: O tradutor cleptomaníaco, de Dezsö Kosztolányi, pela Editora 34, de 1996, que reúne alguns contos que o autor escreveu com seu alterego Kornél Esti; um livro realmente espetacular, de contos simples e profundos; já Os meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, recém-lançado pela CosacNaify, foi durante décadas um livro marcante para a formação do jovem brasileiro. Hoje, está meio esquecido. Também de Molnár, temos O poste a vapor (CosacNaify, 2005), uma novela que é uma verdadeira joia literária. Por fim, A tragédia do homem, de Imre Madách, peça mundialmente conhecida, foi traduzida por Paulo Rónai e publicada em 1980 pela Salamandra em coedição com a UERJ. No campo da teoria, da história e crítica literárias, há poucas publicações respeitáveis, mas podemos citar: À sombra do quarto crescente, de Aleksandar Jovanovic, um passeio pelos temas literários e culturais dos países do Leste Europeu, entre os quais a Hungria, e, do próprio Paulo Rónai, Pois é: ensaios (Nova Fronteira, 1990) e Como aprendi português e outras aventuras (Artenova, 1975). Em ambos há vários ensaios sobre autores húngaros e aspectos de sua literatura e cultura. O último lançamento de autor húngaro no Brasil de que tive notícia (não sou muito de ler jornais e revistas, prefiro vagar nas livrarias e achar por mim mesmo os "melhores" autores e livros), além, é claro, das obras de Imre Kertész e Sandor Márai, regularmante publicadas por aqui há anos, foi O viajante e o mundo da lua (Ediouro, 2007), de Antal Szerb. Bem, era isso. Não é certamente tudo, mas é um caminho para esse pequeno país de grandes escritores que é a Hungria.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

OS GOLFINHOS SÃO MAIS GENTIS

Em Beleza e tristeza, de Yasunari Kawabata (1899-1972), há uma cena que sintetiza muito bem a arte do autor, que é ao mesmo tempo sutil, simples, simbólica e refinada. Oki, escritor de 55 anos, passeia com a jovem Keiko, pupila de uma ex-namorada que ele reencontrou em Kyoto. Ele compra pedaços de peixe e de polvo, e vão os dois alimentar os golfinhos. Estes pulavam e arrebatavam das mãos de Keiko as iscas. Em meio à diversão, começa a chover, e eles tomam um táxi. Oki diz então:

"Alguns cardumes de golfinhos às vezes passam por aqui, do outro lado da baía, um pouco além de Ito. Parece que eles são pescados perto da praia; os homens tiram as roupas, entram na água e os capturam com as próprias mãos. Os golfinhos não resistem quando se fazem cócegas debaixo de suas barbatanas."
"Coitados..."
"Eu me pergunto se uma moça bonita resistiria."
"Que ideia repugnante! Pois bem, imagino que ela iria lufar, unhar e arranhar!"
"Provavelmente os golfinhos são mais gentis..."

Aí está, sem explicações, nem conclusões. Para o deleite e o proveito do leitor atento e competente.
Prêmio Nobel de Literatura de 1968, Yasunari Kawabata é seguramente um mestre da literatura japonesa do século XX. Atribui-se a ele, inclusive, a modernização da prosa de seu país, com a publicação de A dançarina de Izu, em 1926. Autor de vários romances e contos, sua obra está sendo pouco a pouco editada no Brasil pela editora paulista Estação Liberdade, que já publicou: A dançarina de Izu, Kyoto, O país das neves, Contos da palma da mão, A casa das belas-adormecidas (que inspirou Gabriel García Márquez a escrever Memória de minhas putas tristes) e Mil tsurus. Kawabata se matou em 1972. A tradução do excerto acima é de Alberto Alexandre Martins, da edição da Globo, de 1988.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

AS PUPILAS DE SAFO, 2


Não sou Ninguém! Quem é você?

Ninguém - Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!


Que triste - ser - Alguém!

Que pública - a Fama -

Dizer seu nome - como a Rã -

Para as palmas da Lama!



Muita Loucura faz Sentido -

A um Olho esclarecido -

Muito Sentido - é só Loucura -

É a Maioria

Que decide, suprema -

Aceite - e você é são -

Objęte - é perigoso -

E merece uma Algema -



Algumas Borboletas há

Nos Campos do Brasil -

Voam ao meio-dia só -

Depois - cessa o Alvará -


Alguns Aromas - vêm e vão -

À tua escolha, uma só vez -

Estrelas - que à Noite entrevês -

Estranhas - de Manhã -



Morrer por ti era pouco.

Qualquer grego o fizera.

Viver é mais difícil -

É esta a minha oferta -


Morrer é nada, nem

Mais. Porém viver importa

Morte múltipla - sem

O Alívio de estar morta.


EMILY DICKINSON (1830-1886). Poetisa norte-americana. Estranha, lírica, nova, maravilhosa, eterna. Descobrir e redescobrir sua voz, seus versos e seu ritmo é jamais se afastar - nem dela nem de si mesmo. Poemas traduzidos por Augusto de Campos e extraídos de Emily Dickinson: não sou ninguém (Unicamp, 2008).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O FIM DO MUNDO

"Agora, note bem, só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós, tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo. É isto que eu queria comunicar a você."

DEZSÖ KOSZTOLÁNYI (1885-1936). Considerado por muitos o maior escritor da Hungria, pátria de maravilhosos escritores pouco conhecidos ou quase desconhecidos. Publicou romances, vários volumes de contos e poemas. Estreou no romance em 1922, com Nero: o poeta sanguinário. No Brasil, além de contos em antologias do conto húngaro, saiu O tradutor cleptomaníaco (1996), em tradução de Ladislao Szabo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A IMITAÇÃO

"É na imitação que se deve buscar a explicação para a maior parte das ações humanas. Quem se conforma ao costume passará sempre por homem de bem. São chamadas pessoas de bem as que fazem como as outras."

ANATOLE FRANCE (1844-1924), escritor francês, Nobel de Literatura de 1921. Inconformado com a intolerância e o fanatismo, foi um incansável defensor dos direitos humanos. O trecho acima é de seu conto Crainquebille, espécie de predecessor do absurdo de O processo, de Kafka.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

SÍMBOLO E ESPÍRITO DE NATAL


VERSOS DE NATAL

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Um dos maiores poetas de língua portuguesa e do mundo, sem sombra de dúvida. Sua aparente simplicidade disfarça a dor humana, a ironia que mantém a espécie viva e o sentido de refinamento que marca toda a sua obra. O poema acima data de 1939 e foi publicado no volume Lira dos cinquent'anos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O TEMPO E UM SÓ DIA

"Não é lícito julgar levianamente, como perversos, os homens íntegros, assim como não é justo considerar íntegros os homens desonestos. Rejeitar um amigo fiel, penso eu, equivale a desprezar a própria vida, esse bem tão precioso! O tempo fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia basta para evidenciar a maldade dos maus."

SÓFOCLES (496-406 a. C.). Dramaturgo grego, que revolucionou a tragédia. Édipo rei (ao qual pertence o trecho acima) é sua principal obra. Supõe-se que tenha escrito cerca de 120 peças, mas somente 7 chegaram aos nossos dias, intactas, entre as quais Antígona, Ajax, Filoctetes e Electra. Tradução de J. B. Mello de Souza.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O PENSAMENTO É UM MAL

"O que significa conhecer? Por exemplo: eu sei que sou Tolstói, escritor, tenho mulher, filhos, cabelos grisalhos, um rosto feio, barba; tudo isso está escrito no passaporte; quanto à alma, não há nada nos passaportes. Sobre ela só sei uma coisa: a alma quer estar próxima de Deus. Mas o que é Deus? Algo do qual minha alma é só uma partícula. É tudo. Para quem aprendeu a raciocinar, é difícil ter fé, e viver em Deus só se pode por meio da fé. Tertuliano disse: 'O pensamento é um mal'."

LIEV TOLSTÓI. Peso-pesado da literatura russa do século XIX, autor de Guerra e paz, Ana Karenina e de inúmeros contos e novelas que muito influenciaram escritores de todo o mundo. O trecho acima está no texto Liev Tolstói, de autoria de Máximo Górki, com pelo menos duas edições no Brasil, uma pela Perspectiva e outra pela Martins Fontes.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

MOÇA COM CHAPÉU DE PALHA

O título deste romance, Moça com chapéu de palha, antecipa muitos aspectos da técnica narrativa de Menalton Braff. De imediato, ele sugere uma composição impressionista, que induz o leitor a participar da criação do significado da obra. O texto é lírico, intenso, e a análise do narrador, voltada para a crise existencial mais grave de sua vida, modifica-se com o passar do tempo. Nesse sentido, o estilo narrativo de Menalton nos remete – ao reavaliar o mesmo fato à medida que o protagonista se distancia dele – à série de pinturas de Claude Monet sobre a catedral em Rouen.
Este livro ainda revela muitas cenas campestres, pinceladas como se fossem uma natureza morta. É quando também há maior abertura para o registro de cenas cotidianas, triviais, mas que, pela qualidade com que as tintas e os movimentos são manipulados, ganha um papel muito relevante em Moça com chapéu de palha: elas completam o painel impressionista, que vai misturar a leveza do erotismo com o peso da incerteza sobre a vida. As impressões nascem ora do que vai sendo mostrado com solidez, o amor entre o protagonista e Angélica, sua mulher, ora pelas incertezas do narrador em torno do seu destino.
E é justamente acerca das incertezas que o romance ganha um contraponto, um tom que por vezes, de modo instigante, nos faz lembrar da literatura noire, repleta de mistérios e suspenses. Acentua-se então o cenário urbano, da redação do jornal e das relações profissionais ali estabelecidas, da falta de ética, do poder que consome o compromisso com a verdade, um lema que a imprensa carrega consigo feito um estandarte.
De um lado, o campo, o cuidado na preparação da comida, na arrumação da mesa de jantar, no zelo com o jardim, na vida amorosa e sentimental, enquanto, de outro, estão a cidade e sua máquina incessante, brutal e estressante. Qual dos dois é mais verdadeiro? Qual dos dois é mais importante? São perguntas que se colocam neste romance e são formuladas em diálogo com a própria criação literária, num jogo metalinguístico que apenas um autor maduro como Menalton Braff poderia conquistar.

MENALTON BRAFF nasceu em Taquara, Rio Grande de Sul, em 1938. Autor de À sombra do cipreste (1999), A coleira no pescoço (2006) e A muralha de Adriano (2007). Contista, novelista e romancista, Menalton Braff é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira atual.
Textos reproduzidos, com uma ou outra alteração, do release da editora LÍNGUA GERAL.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

LÓGICA DE MANETAS

Na madrugada de terça para quarta-feira, na garagem do meu prédio (Rua Rockefeller, 101 ou 10, Barris, Salvador, BA), um carro entrou em autocombustão, e em poucos minutos o fogo, que não foi contido nem pelo porteiro nem pelo vigia noturno, migrou para outros carros, consumindo ao todo seis veículos e danificando mais dois.
A princípio, um incidente sem grandes consequências ― ao menos para mim, que não gosto de automóveis. No entanto, o que se viu foi a instauração do pânico, pelos seguintes motivos: o prédio não estava preparado para nenhum tipo de incêndio, uma vez que eram poucos os extintores em condições de uso, e os bombeiros chegaram com mais de uma hora de atraso, e assim mesmo — segundo as testemunhas — só depois que um morador foi convocá-los no quartel! A alegação era a de que não havia, naquele momento, nenhum veículo disponível.
Já em ação, os bombeiros expuseram toda a sua perícia e coragem, apesar da falta de equipamento adequado — luvas, máscaras, escada, machado (tiveram que arrebentar o telhado da garagem com as mãos nuas) — e só meio-tanque de água. Felizmente, eles são bombeiros conscienciosos, verdadeiros heróis, a ponto de avançarem contra a fumaça tóxica para resgatar pessoas ou combater as chamas. Foi assim que eles retiraram, por precaução, várias pessoas do prédio. E foi assim também que eles encararam o fogo e o debelaram. No fim, o prejuízo ficou na conta do material, e os moradores voltaram às suas camas e aos seus afazeres, em meio à fuligem e ao cheiro intenso de borracha queimada.
O que prevaleceu, no entanto, foi a certeza de que fatos inesperados podem acontecer perto de nossa casa ou mesmo nas suas entranhas, e é aí — nestas circunstâncias de exceção — que vamos descobrir com “quem” estamos lidando. Numa cidade que é talvez a quinta ― se não a quarta ― capital do País, os bombeiros estão no século XIX em termos de equipamento. Estão enfrentando o fogo com a cara e a coragem, as mãos nuas e a água que encontram. Assim, muito embora o comprovado senso de profissionalismo e o heroísmo, fica difícil realizar um trabalho exemplar.
Bombeiros ― como água, polícia, saúde, esgoto, energia elétrica e educação formal ― é algo básico, que não pode faltar, nem muito menos ser oferecido a duras penas ou pela metade. Se assim for, é melhor que não exista, se não quisermos cair no vexame ou incorrer no papelão. Mas lembro bem que anos atrás minha esposa precisou fazer um exame específico nas duas mãos, e o Planserv autorizou apenas para uma, como se ela fosse maneta... Pelo visto, tal procedimento tornou-se uma prática comum, e o que tivemos nesta madrugada é o mais evidente exemplo disso: meio-tanque de água, meio-carro de bombeiros, meio-equipamento, meia-noite de sono... Só os bombeiros eram realmente inteiros! Lógica de manetas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

ENTREVISTA

Patrícia Moreira (A tarde): 1 - Você foi um dos vencedores do III Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, o que representa para você o fato de ter se destacado entre os concorrentes?

Mayrant Gallo: Foi, acredito, a legitimação de um texto, de uma ideia e de um "tour de force", pois comecei a escrever essa história em 1997 e só a terminei no início deste ano, 2009. Foram nada mais nada menos que quinze versões em doze anos.


2 - Como veio a ideia de inscrever Moinhos? Você tinha outros livros que poderia ter inscrito? Quando Moinhos foi escrito?

Simplesmente eu vinha andando pela Rua Carlos Gomes e, na esquina com a Rua do Cabeça, ouvi esta frase, que se tornou o primeiro parágrafo da novela : "A que horas o senhor volta, doutor?" Pensei então que, embora banal, cotidiana, esta frase reunia talvez um mistério ou um sofrimento. Daí por diante a história será apenas a justificativa para a existência desta frase, naquele momento e naquele lugar. Havia outros livros sim, tenho muitos engavetados, mas ao ler a proposta do Concurso percebi que Moinhos se encaixava perfeitamente, em assunto e também em forma e tamanho — pouco mais de 50 páginas.

3 - Você já foi contemplado em outras premiações?

Uma vez ganhei o primeiro lugar num concurso de roteiro de histórias em quadrinhos... Um terceiro lugar num concurso de poemas... E um poema meu foi selecionado para uma antologia do Banco de Talentos, da Febraban... Foi tudo. Raramente participo de concursos literários. Não sei se participei de 5 ao longo de toda a vida. Devo a participação, e a vitória, neste do MEC a três amigas de trabalho, que me incentivaram.

4 - O que o fato de ter vencido este concurso representa para você, além do fato de ter recebido um prêmio em dinheiro e da impressão de 300 mil exemplares da sua obra para distribuição na rede pública?

Significa o reconhecimento do "outro" por minha opção estética e minha predileção — ambas muito pessoais — por um determinado gênero de literatura. Se o júri selecionou Moinhos como útil para a formação e o deleite de um público específico, os neoleitores, isso atesta que minhas escolhas, embora idiossincráticas, não são um equívoco.

5 - Os escritores têm boas oportunidades de mostrar o seu potencial no Brasil? O que na sua opinião precisa melhorar para estimular mais o surgimento de novos escritores?

Acho que não. A leitura, e ainda mais a leitura de literatura, não faz parte do cotidiano das pessoas comuns. Ler literatura para quê? É o que muitos perguntam. Ora, ler para sair do embotamento, para ampliar nossos horizontes, para nos tornarmos melhores, nos refinarmos, para uma experiência (estética e empírica) que é aplicada diretamente à vida. Não precisamos de mais escritores; precisamos de mais leitores, e sobretudo leitores de literatura. A literatura oferece um conhecimento vasto e profundo, que amplia e multiplica o sujeito, e que nenhum outro livro é capaz de proporcionar. Uma civilização que se educa lendo literatura tem mais a dizer e diz melhor o que quer que seja.

6 - Você trabalha na Fundação Pedro Calmon e é responsável pelo setor ligado à literatura. No que esta convivência com os livros ajuda a compreender o que o leitor contemporâneo espera daqueles que têm o dom de escrever?

Não sou responsável pelo Núcleo do Livro, Leitura e Literatura da Fundação Pedro Calmon. A coordenadora do Núcleo é Lúcia Santóri-Carneiro. Trabalho com ela na elaboração de seminários de literatura e leitura, publicação e feira de livros etc. O leitor contemporâneo não deve esperar que se escreva para ele, não em literatura. Deve aproveitar o que está sendo produzido e publicado, como sempre aconteceu em todas as épocas. Literatura não é cartilha ou um manual de sobrevivência. Literatura é experiência pessoal convertida em experiência humana, geral. Os contos de Antônio Carlos Viana ou os poemas de Ruy Espinheira Filho "falam de mim e para mim" exatamente porque estão centrados em dilemas da condição humana, mexem em nossa medula, tocam na essência primordial do gênero humano, na massa de sentimentos comum a todos nós.

7 - Você acredita que esteja havendo mudanças no perfil do leitor brasileiro? O aumento do poder de compra da população em razão do crescimento econômico torna o consumo de livros um hábito cada vez mais presente na vida do brasileiro?

Obviamente estamos lendo mais, as pesquisas mostram isso, talvez até mesmo por causa do crescimento econômico e do aumento do poder de compra... Só não estamos "lendo mais literatura". E essa é uma leitura importante, transformadora, desvinculada do poder (qualquer que seja ele) e que nos apresenta a "verdadeira face do mundo". Todos os livros de auto-ajuda ou História não valem este ensinamento de Drummond: "Tudo é possível, só eu impossível". Este verso pode se converter no ponto de partida de uma nova vida ou de uma percepção mais acurada da existência e de nós mesmos.

8 - O que você quis mostrar ao escrever Moinhos?

Que a vida é cruel e injusta, mas não inteiramente.

9 - Na sua avaliação, a democratização da literatura, nos moldes do concurso Literatura para Todos é um caminho para disseminar e tornar mais conhecidos os novos autores nacionais?

Os autores se tornam conhecidos quando são lidos; se podem, potencialmente, ser lidos por 300 mil leitores, podem se tornar mais conhecidos... Mas o que são 300 mil leitores num universo de 200 milhões de habitantes? Ainda acho que a Literatura caminha, pelo menos no Brasil, para ser uma arte exótica, de iniciados. Como dizia Leminski: de produtores para produtores.

Esta entrevista, concedida à jornalista Patrícia Moreira, foi publicada em parte na edição de hoje de A tarde, no Caderno 2+, página 7. Vai aqui na íntegra e na ordem em que foi respondida.

Imagem: capa do volume Bibliomania, de Gustave Flaubert. Neste conto, que o autor teria escrito com a idade de 14 anos, inspirado num texto de Charles Nodier, narra-se a história de Giácomo, o livreiro: "Essa paixão absorveu-o completamente, mal comia, não dormia mais, sonhava porém noites e dias inteiros com sua ideia fixa: os livros".

domingo, 6 de dezembro de 2009

JUAN JOSÉ MOROSOLI

Uma das melhores publicações literárias deste fim de ano é, sem dúvida, o volume de contos A longa viagem de prazer, de Juan José Morosoli. Publicado inicialmente em 1991, também pela L&PM, sai agora em bela edição da coleção L&PM Pocket, enriquecida com prefácio, prólogo, posfácio e cronologia do autor. Morosoli (1899-1957) é, como contista, um dos principais autores da literatura uruguaia, ao lado de Juan Carlos Onetti, Horacio Quiroga, Mario Arregui, Mario Benedetti e Felisberto Hernández. Seus maiores méritos são a aparente simplicidade, a exatidão, a economia de linguagem e a predileção pelos seres solitários, do campo, viris, niilistas, estoicos, graves. Em nove contos breves, mas profundos, irônicos e de uma vividez que chega a nos abalar, Morosoli mostra por que é um autor admirado, especialmente pelos escritores. Confiram o trecho abaixo, do conto O burro. O tom de anedota disfarça a imersão filosófica. A tradução é do escritor gaúcho Sérgio Faraco.

Certa vez Anchordoqui perguntou:
"Não vais nunca ao bolicho?"
"Pra quê?"
"Ué, tomar uns tragos, jogar truco..."
"E depois ter que pelear?"
"E as mulheres, não te agradam?"
"Pra quê? Pra te encher de filhos?"
Anchordoqui seguia perguntando, confiava em deixá-lo sem resposta.
"E um cachorro? Não tens?"
"Pra quê?"
"Como pra quê?", reclamou Anchordoqui, mal-humorado. "Pra ter, só isso, pra que as pessoas têm cachorros?"
"Se é só pra ter, melhor não ter."
"Mas uma diversão qualquer...", gemeu Anchordoqui, em retirada.
"Queres melhor diversão do que viver como eu vivo?"
E desta vez foi Anchordoqui quem não respondeu."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O LÍDER

Para quem não conhece, esse é o Líder: um restaurante localizado no bairro do Dois de Julho, Centro de Salvador. Ali, esporadicamente, alguns escritores se encontram, bebem, comem, jogam conversa fora, falam de literatura (sem a pompa nem o esnobismo do tema), de cinema, futebol e livros raros, recém-lançados ou recém-descobertos: Lady Macbeth do Distrito Mtzensk, de Nikolai Leskov, e O fantasista, de Hernán Rivera Letelier, por exemplo. O primeiro, uma história de crime; o segundo, de futebol; ambos, porém, literatura. No último encontro, sábado passado, compareceram, na ordem da foto, Gustavo Rios, Lima Trindade, Tom Correia, Carlos Barbosa e eu. Celebramos os nossos livros. Os que já estão em fase de produção ou os que acabaram de receber um ponto final, caso do novo volume de contos do Gustavo. Lima segue escrevendo seu romance, que, como é da natureza do gênero, se estenderá até o ponto em que a história quiser. Aos curiosos, esclareço que é neste bar que Victor Vhil marca ponto, bebe café, raramente uma cerveja, e conta suas histórias...

O crédito da foto é de Itamar, garçom, que, mal a tirou, disse com propriedade: "Ficou excelente!" De fato.

sábado, 28 de novembro de 2009

A DÍVIDA

– A QUE horas o senhor volta, doutor?
O homem com quem meu pai falava, havia alguns meses, era um estrangeiro. Um engenheiro estrangeiro. Seu nome, se não estou enganado – e é provável que esteja – era Clyde ou Charles – qualquer coisa assim.
Meu pai trabalhara para ele durante toda a primavera e boa parte do verão. Agora ele devia a meu pai uma boa soma em dinheiro e não queria pagar. Vinha se esquivando de várias formas. Numa hora dizia estar ocupado, impossibilitado de atender meu pai; noutra, que tinha esquecido o talão de cheques, ou então que seus recursos no banco estavam bloqueados, ou que algum caso de doença na família o obrigava a se ausentar do Rio...
O outono já ia pelo meio, e meu pai liso atrás do sujeito. E comigo a tiracolo: me arrastando com ele em quase todas as vezes que o procurava, pois eu não possuía mãe, não estudava, não tinha ninguém que cuidasse de mim à ausência de meu pai...
Curvado contra a janela do carro do sujeito, meu pai se ergueu e o deixou livre para partir.
Havia uma loura ao seu lado, dessas que todo homem sonha em ter na cama ao menos por uma noite ou mesmo uma hora, mas sem que pague por isso: por vontade dela, desejo mesmo, consentimento. Alguma Gretchen Mol atual, vocês sabem, aquela atriz que parece deslocada no tempo, de rosto redondo e maçãs pronunciadas, uma mulher dos anos da Depressão americana – ou de uma Europa ocupada – perdida em nossa época.
Antes de dar a partida, o cara informou que voltaria à noite. Que meu pai retornasse então, e acertariam a dívida, sem falta. Sem falta... Como podíamos acreditar? Como acreditar num homem para quem palavras não passavam de meios de desculpas? Mas meu pai acreditou, ainda assim. Acreditaria sempre, confiava nos homens, em todos os homens, até nos mais baixos, sem caráter, sem escrúpulos, aqueles que gritavam quando por direito só lhes cabia o silêncio.


Trecho inicial da novela de minha autoria que venceu, esta semana, o prêmio Literatura Para Todos, do MEC.

Imagem: Vaivém, de A. Café-Gallo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CONTO NA VERBO 21

PORRA, SAMUEL!

Samuel estava atrasado. Passava das nove horas de uma manhã quente e agitada. Desviar-se das pessoas não era a sua única preocupação. Desde que o primeiro galo cantara que ele despertara e não conseguira mais dormir.
Quando dobrou a curva, avistou o Gordo dentro do carro, que também era grande, gordo, um desses veículos utilitários de cor preta ou marrom que os homens fracos dirigem para parecerem fortes.
Perto, encostadas à porta da loja, estavam as três garotas. A quarta vendedora só chegaria às dez horas. Ela lhe pedira isso no fim do expediente de sábado, dizendo que tinha médico segunda-feira às oito, e a chegar atrasada achava mais correto pedir para chegar mais tarde.
— Tudo bem, Lu, chegue às dez horas.
Samuel a chamava assim — Lu — porque o nome dela era Luciana, e queria também chamá-la assim em outro lugar, e era talvez por isso que a chamava assim, para que ela se tocasse e baixasse a guarda. Sempre o surpreendia que as mulheres ficassem tanto na defensiva. Como a espécie conseguira sobreviver?
— Estupro, graças ao estupro — dizia Isaac.

— Porra, Samuel! — o Gordo disse, quando ele se aproximou, deu bom-dia a todos e começou a abrir a porta, a enrolá-la sobre si mesma como uma esteira que se guarda para o próximo verão.
— Continue assim, que você vai se foder! Comigo é dessa forma!
Era o Gordo de novo, latindo. Não valia a pena retrucar. Dizer que se atrasara porque sua namorada não estava em casa, não dormira em casa e não atendia o telefone — prova de que passara a noite em algum lugar com alguém. Dizer que vinha muito mal pela rua, sem tirá-la do pensamento, preocupado, sem nem ter pensamento: esquecido da loja, de que era o gerente, tinha a chave da porta, esquecido até de Lu...
— Tá — ele disse, e depois: — Me chame de Sam, não gosto que me chamem de Samuel.
— Seu porra! Vou te tirar desta função e botar uma das garotas!E o Gordo ligou o carro, espancou o motor, avançou o sinal. Uma mulher teve que dar dois passos atrás para não ser atropelada. Outra chegou a ser tocada de leve pelo para-lama. Um homem mais corajoso xingou o Gordo. O sinal todo o odiou.


A continuação está na VERBO 21, numa coluna mensal que o Lima Trindade gentilmente me ofereceu na revista.

Imagem: cartaz do filme Gone (2007), de Ringan Ledwidge, mais uma instigante produção do original cinema australiano.

domingo, 22 de novembro de 2009

A PRESENÇA DE GLORINHA

O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues sempre destinou um lugar de destaque às mulheres em seu teatro, principalmente quando se propunha a representar a sexualidade feminina. Valorizadas por Rodrigues, essas personagens provocaram e ainda provocam o público através de suas atuações, que, inevitavelmente, vão de encontro ao discurso hegemônico sobre a sexualidade. Este, só para relembrarmos, teimava e ainda insiste em calá-las, podando-as de qualquer experiência longe da constante vigília social. Entretanto, mulheres brasileiras, tais como Pagu e Leila Diniz, consideradas à frente de seu tempo, ousaram transgredir as normas vigentes e, assim, anteciparam um pouco da liberdade de que agora dispomos.
No teatro de Rodrigues encontraremos muitas personagens que antecedem, também, a Revolução Sexual da década de 60, preconizando uma mulher mais livre, mesmo que ficcionalmente, do cerceamento social que só as “libertava” em um espaço fechado e velado por todos. Como sabemos, anterior a esta década, foram buscados os direitos igualitários de voto, a inserção da mulher no mercado de trabalho e a proposição de uma maior liberdade sexual com o surgimento da pílula anticoncepcional (BRAGA, 2005), a qual realizaria o que Freud já havia descoberto: “O prazer como a força vital do sexo” (FREUD apud SARAIVA, 1960, p. 58).
Amor, sexo, erotismo e sensualidade foram os temas mais visíveis da década de 60, classificada pelos americanos de permissive society. Todas as permissividades desse momento em relação às representações acerca da sexualidade fizeram com que a sociedade acreditasse que o passado era muito mais decente do que o presente. ”Nunca um assunto foi tão abundantemente tratado e retratado“ (SARAIVA, 1960, p. 57). Todavia, Nelson já tratava desses temas muito antes da década de 60, desde 1941, para ser mais clara, quando escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado.


Para continuar lendo o texto de SOLANGE SANTOS SANTANA, acesse: A presença de Glorinha. A autora é graduada em Letras pela UEFS e desenvolve pesquisa sobre os diálogos entre Gil Vicente e Nelson Rodrigues.
Pintura: Retrato de Madame Allan Bott, de Tamara de Lempicka (1898-1980), pintora polonesa.