"Eu respirava naquelas salas, como um incenso, esse cheiro de velha biblioteca que vale todos os perfumes do mundo." Antoine de Saint-Exupéry

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

AS PUPILAS DE SAFO, 2


Não sou Ninguém! Quem é você?

Ninguém - Também?

Então somos um par?

Não conte! Podem espalhar!


Que triste - ser - Alguém!

Que pública - a Fama -

Dizer seu nome - como a Rã -

Para as palmas da Lama!



Muita Loucura faz Sentido -

A um Olho esclarecido -

Muito Sentido - é só Loucura -

É a Maioria

Que decide, suprema -

Aceite - e você é são -

Objęte - é perigoso -

E merece uma Algema -



Algumas Borboletas há

Nos Campos do Brasil -

Voam ao meio-dia só -

Depois - cessa o Alvará -


Alguns Aromas - vêm e vão -

À tua escolha, uma só vez -

Estrelas - que à Noite entrevês -

Estranhas - de Manhã -



Morrer por ti era pouco.

Qualquer grego o fizera.

Viver é mais difícil -

É esta a minha oferta -


Morrer é nada, nem

Mais. Porém viver importa

Morte múltipla - sem

O Alívio de estar morta.


EMILY DICKINSON (1830-1886). Poetisa norte-americana. Estranha, lírica, nova, maravilhosa, eterna. Descobrir e redescobrir sua voz, seus versos e seu ritmo é jamais se afastar - nem dela nem de si mesmo. Poemas traduzidos por Augusto de Campos e extraídos de Emily Dickinson: não sou ninguém (Unicamp, 2008).

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O FIM DO MUNDO

"Agora, note bem, só aquele que está totalmente preparado para a morte é que pode viver, e nós, tolos, morremos, porque só nos preparamos para a vida, e queremos viver a todo custo. A ordem que você vê ao seu redor, na verdade, é desordem, e a desordem é a verdadeira ordem. E o fim do mundo, no fundo, é o começo do mundo. É isto que eu queria comunicar a você."

DEZSÖ KOSZTOLÁNYI (1885-1936). Considerado por muitos o maior escritor da Hungria, pátria de maravilhosos escritores pouco conhecidos ou quase desconhecidos. Publicou romances, vários volumes de contos e poemas. Estreou no romance em 1922, com Nero: o poeta sanguinário. No Brasil, além de contos em antologias do conto húngaro, saiu O tradutor cleptomaníaco (1996), em tradução de Ladislao Szabo.

domingo, 27 de dezembro de 2009

A IMITAÇÃO

"É na imitação que se deve buscar a explicação para a maior parte das ações humanas. Quem se conforma ao costume passará sempre por homem de bem. São chamadas pessoas de bem as que fazem como as outras."

ANATOLE FRANCE (1844-1924), escritor francês, Nobel de Literatura de 1921. Inconformado com a intolerância e o fanatismo, foi um incansável defensor dos direitos humanos. O trecho acima é de seu conto Crainquebille, espécie de predecessor do absurdo de O processo, de Kafka.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

SÍMBOLO E ESPÍRITO DE NATAL


VERSOS DE NATAL

Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera de Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.

MANUEL BANDEIRA (1886-1968). Um dos maiores poetas de língua portuguesa e do mundo, sem sombra de dúvida. Sua aparente simplicidade disfarça a dor humana, a ironia que mantém a espécie viva e o sentido de refinamento que marca toda a sua obra. O poema acima data de 1939 e foi publicado no volume Lira dos cinquent'anos.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O TEMPO E UM SÓ DIA

"Não é lícito julgar levianamente, como perversos, os homens íntegros, assim como não é justo considerar íntegros os homens desonestos. Rejeitar um amigo fiel, penso eu, equivale a desprezar a própria vida, esse bem tão precioso! O tempo fará com que reconheças tudo isso com segurança, pois só ele nos pode revelar quando os homens são bons, ao passo que um só dia basta para evidenciar a maldade dos maus."

SÓFOCLES (496-406 a. C.). Dramaturgo grego, que revolucionou a tragédia. Édipo rei (ao qual pertence o trecho acima) é sua principal obra. Supõe-se que tenha escrito cerca de 120 peças, mas somente 7 chegaram aos nossos dias, intactas, entre as quais Antígona, Ajax, Filoctetes e Electra. Tradução de J. B. Mello de Souza.

domingo, 20 de dezembro de 2009

O PENSAMENTO É UM MAL

"O que significa conhecer? Por exemplo: eu sei que sou Tolstói, escritor, tenho mulher, filhos, cabelos grisalhos, um rosto feio, barba; tudo isso está escrito no passaporte; quanto à alma, não há nada nos passaportes. Sobre ela só sei uma coisa: a alma quer estar próxima de Deus. Mas o que é Deus? Algo do qual minha alma é só uma partícula. É tudo. Para quem aprendeu a raciocinar, é difícil ter fé, e viver em Deus só se pode por meio da fé. Tertuliano disse: 'O pensamento é um mal'."

LIEV TOLSTÓI. Peso-pesado da literatura russa do século XIX, autor de Guerra e paz, Ana Karenina e de inúmeros contos e novelas que muito influenciaram escritores de todo o mundo. O trecho acima está no texto Liev Tolstói, de autoria de Máximo Górki, com pelo menos duas edições no Brasil, uma pela Perspectiva e outra pela Martins Fontes.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

MOÇA COM CHAPÉU DE PALHA

O título deste romance, Moça com chapéu de palha, antecipa muitos aspectos da técnica narrativa de Menalton Braff. De imediato, ele sugere uma composição impressionista, que induz o leitor a participar da criação do significado da obra. O texto é lírico, intenso, e a análise do narrador, voltada para a crise existencial mais grave de sua vida, modifica-se com o passar do tempo. Nesse sentido, o estilo narrativo de Menalton nos remete – ao reavaliar o mesmo fato à medida que o protagonista se distancia dele – à série de pinturas de Claude Monet sobre a catedral em Rouen.
Este livro ainda revela muitas cenas campestres, pinceladas como se fossem uma natureza morta. É quando também há maior abertura para o registro de cenas cotidianas, triviais, mas que, pela qualidade com que as tintas e os movimentos são manipulados, ganha um papel muito relevante em Moça com chapéu de palha: elas completam o painel impressionista, que vai misturar a leveza do erotismo com o peso da incerteza sobre a vida. As impressões nascem ora do que vai sendo mostrado com solidez, o amor entre o protagonista e Angélica, sua mulher, ora pelas incertezas do narrador em torno do seu destino.
E é justamente acerca das incertezas que o romance ganha um contraponto, um tom que por vezes, de modo instigante, nos faz lembrar da literatura noire, repleta de mistérios e suspenses. Acentua-se então o cenário urbano, da redação do jornal e das relações profissionais ali estabelecidas, da falta de ética, do poder que consome o compromisso com a verdade, um lema que a imprensa carrega consigo feito um estandarte.
De um lado, o campo, o cuidado na preparação da comida, na arrumação da mesa de jantar, no zelo com o jardim, na vida amorosa e sentimental, enquanto, de outro, estão a cidade e sua máquina incessante, brutal e estressante. Qual dos dois é mais verdadeiro? Qual dos dois é mais importante? São perguntas que se colocam neste romance e são formuladas em diálogo com a própria criação literária, num jogo metalinguístico que apenas um autor maduro como Menalton Braff poderia conquistar.

MENALTON BRAFF nasceu em Taquara, Rio Grande de Sul, em 1938. Autor de À sombra do cipreste (1999), A coleira no pescoço (2006) e A muralha de Adriano (2007). Contista, novelista e romancista, Menalton Braff é um dos escritores mais importantes da literatura brasileira atual.
Textos reproduzidos, com uma ou outra alteração, do release da editora LÍNGUA GERAL.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

LÓGICA DE MANETAS

Na madrugada de terça para quarta-feira, na garagem do meu prédio (Rua Rockefeller, 101 ou 10, Barris, Salvador, BA), um carro entrou em autocombustão, e em poucos minutos o fogo, que não foi contido nem pelo porteiro nem pelo vigia noturno, migrou para outros carros, consumindo ao todo seis veículos e danificando mais dois.
A princípio, um incidente sem grandes consequências ― ao menos para mim, que não gosto de automóveis. No entanto, o que se viu foi a instauração do pânico, pelos seguintes motivos: o prédio não estava preparado para nenhum tipo de incêndio, uma vez que eram poucos os extintores em condições de uso, e os bombeiros chegaram com mais de uma hora de atraso, e assim mesmo — segundo as testemunhas — só depois que um morador foi convocá-los no quartel! A alegação era a de que não havia, naquele momento, nenhum veículo disponível.
Já em ação, os bombeiros expuseram toda a sua perícia e coragem, apesar da falta de equipamento adequado — luvas, máscaras, escada, machado (tiveram que arrebentar o telhado da garagem com as mãos nuas) — e só meio-tanque de água. Felizmente, eles são bombeiros conscienciosos, verdadeiros heróis, a ponto de avançarem contra a fumaça tóxica para resgatar pessoas ou combater as chamas. Foi assim que eles retiraram, por precaução, várias pessoas do prédio. E foi assim também que eles encararam o fogo e o debelaram. No fim, o prejuízo ficou na conta do material, e os moradores voltaram às suas camas e aos seus afazeres, em meio à fuligem e ao cheiro intenso de borracha queimada.
O que prevaleceu, no entanto, foi a certeza de que fatos inesperados podem acontecer perto de nossa casa ou mesmo nas suas entranhas, e é aí — nestas circunstâncias de exceção — que vamos descobrir com “quem” estamos lidando. Numa cidade que é talvez a quinta ― se não a quarta ― capital do País, os bombeiros estão no século XIX em termos de equipamento. Estão enfrentando o fogo com a cara e a coragem, as mãos nuas e a água que encontram. Assim, muito embora o comprovado senso de profissionalismo e o heroísmo, fica difícil realizar um trabalho exemplar.
Bombeiros ― como água, polícia, saúde, esgoto, energia elétrica e educação formal ― é algo básico, que não pode faltar, nem muito menos ser oferecido a duras penas ou pela metade. Se assim for, é melhor que não exista, se não quisermos cair no vexame ou incorrer no papelão. Mas lembro bem que anos atrás minha esposa precisou fazer um exame específico nas duas mãos, e o Planserv autorizou apenas para uma, como se ela fosse maneta... Pelo visto, tal procedimento tornou-se uma prática comum, e o que tivemos nesta madrugada é o mais evidente exemplo disso: meio-tanque de água, meio-carro de bombeiros, meio-equipamento, meia-noite de sono... Só os bombeiros eram realmente inteiros! Lógica de manetas.

sábado, 12 de dezembro de 2009

ENTREVISTA

Patrícia Moreira (A tarde): 1 - Você foi um dos vencedores do III Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação, o que representa para você o fato de ter se destacado entre os concorrentes?

Mayrant Gallo: Foi, acredito, a legitimação de um texto, de uma ideia e de um "tour de force", pois comecei a escrever essa história em 1997 e só a terminei no início deste ano, 2009. Foram nada mais nada menos que quinze versões em doze anos.


2 - Como veio a ideia de inscrever Moinhos? Você tinha outros livros que poderia ter inscrito? Quando Moinhos foi escrito?

Simplesmente eu vinha andando pela Rua Carlos Gomes e, na esquina com a Rua do Cabeça, ouvi esta frase, que se tornou o primeiro parágrafo da novela : "A que horas o senhor volta, doutor?" Pensei então que, embora banal, cotidiana, esta frase reunia talvez um mistério ou um sofrimento. Daí por diante a história será apenas a justificativa para a existência desta frase, naquele momento e naquele lugar. Havia outros livros sim, tenho muitos engavetados, mas ao ler a proposta do Concurso percebi que Moinhos se encaixava perfeitamente, em assunto e também em forma e tamanho — pouco mais de 50 páginas.

3 - Você já foi contemplado em outras premiações?

Uma vez ganhei o primeiro lugar num concurso de roteiro de histórias em quadrinhos... Um terceiro lugar num concurso de poemas... E um poema meu foi selecionado para uma antologia do Banco de Talentos, da Febraban... Foi tudo. Raramente participo de concursos literários. Não sei se participei de 5 ao longo de toda a vida. Devo a participação, e a vitória, neste do MEC a três amigas de trabalho, que me incentivaram.

4 - O que o fato de ter vencido este concurso representa para você, além do fato de ter recebido um prêmio em dinheiro e da impressão de 300 mil exemplares da sua obra para distribuição na rede pública?

Significa o reconhecimento do "outro" por minha opção estética e minha predileção — ambas muito pessoais — por um determinado gênero de literatura. Se o júri selecionou Moinhos como útil para a formação e o deleite de um público específico, os neoleitores, isso atesta que minhas escolhas, embora idiossincráticas, não são um equívoco.

5 - Os escritores têm boas oportunidades de mostrar o seu potencial no Brasil? O que na sua opinião precisa melhorar para estimular mais o surgimento de novos escritores?

Acho que não. A leitura, e ainda mais a leitura de literatura, não faz parte do cotidiano das pessoas comuns. Ler literatura para quê? É o que muitos perguntam. Ora, ler para sair do embotamento, para ampliar nossos horizontes, para nos tornarmos melhores, nos refinarmos, para uma experiência (estética e empírica) que é aplicada diretamente à vida. Não precisamos de mais escritores; precisamos de mais leitores, e sobretudo leitores de literatura. A literatura oferece um conhecimento vasto e profundo, que amplia e multiplica o sujeito, e que nenhum outro livro é capaz de proporcionar. Uma civilização que se educa lendo literatura tem mais a dizer e diz melhor o que quer que seja.

6 - Você trabalha na Fundação Pedro Calmon e é responsável pelo setor ligado à literatura. No que esta convivência com os livros ajuda a compreender o que o leitor contemporâneo espera daqueles que têm o dom de escrever?

Não sou responsável pelo Núcleo do Livro, Leitura e Literatura da Fundação Pedro Calmon. A coordenadora do Núcleo é Lúcia Santóri-Carneiro. Trabalho com ela na elaboração de seminários de literatura e leitura, publicação e feira de livros etc. O leitor contemporâneo não deve esperar que se escreva para ele, não em literatura. Deve aproveitar o que está sendo produzido e publicado, como sempre aconteceu em todas as épocas. Literatura não é cartilha ou um manual de sobrevivência. Literatura é experiência pessoal convertida em experiência humana, geral. Os contos de Antônio Carlos Viana ou os poemas de Ruy Espinheira Filho "falam de mim e para mim" exatamente porque estão centrados em dilemas da condição humana, mexem em nossa medula, tocam na essência primordial do gênero humano, na massa de sentimentos comum a todos nós.

7 - Você acredita que esteja havendo mudanças no perfil do leitor brasileiro? O aumento do poder de compra da população em razão do crescimento econômico torna o consumo de livros um hábito cada vez mais presente na vida do brasileiro?

Obviamente estamos lendo mais, as pesquisas mostram isso, talvez até mesmo por causa do crescimento econômico e do aumento do poder de compra... Só não estamos "lendo mais literatura". E essa é uma leitura importante, transformadora, desvinculada do poder (qualquer que seja ele) e que nos apresenta a "verdadeira face do mundo". Todos os livros de auto-ajuda ou História não valem este ensinamento de Drummond: "Tudo é possível, só eu impossível". Este verso pode se converter no ponto de partida de uma nova vida ou de uma percepção mais acurada da existência e de nós mesmos.

8 - O que você quis mostrar ao escrever Moinhos?

Que a vida é cruel e injusta, mas não inteiramente.

9 - Na sua avaliação, a democratização da literatura, nos moldes do concurso Literatura para Todos é um caminho para disseminar e tornar mais conhecidos os novos autores nacionais?

Os autores se tornam conhecidos quando são lidos; se podem, potencialmente, ser lidos por 300 mil leitores, podem se tornar mais conhecidos... Mas o que são 300 mil leitores num universo de 200 milhões de habitantes? Ainda acho que a Literatura caminha, pelo menos no Brasil, para ser uma arte exótica, de iniciados. Como dizia Leminski: de produtores para produtores.

Esta entrevista, concedida à jornalista Patrícia Moreira, foi publicada em parte na edição de hoje de A tarde, no Caderno 2+, página 7. Vai aqui na íntegra e na ordem em que foi respondida.

Imagem: capa do volume Bibliomania, de Gustave Flaubert. Neste conto, que o autor teria escrito com a idade de 14 anos, inspirado num texto de Charles Nodier, narra-se a história de Giácomo, o livreiro: "Essa paixão absorveu-o completamente, mal comia, não dormia mais, sonhava porém noites e dias inteiros com sua ideia fixa: os livros".

domingo, 6 de dezembro de 2009

JUAN JOSÉ MOROSOLI

Uma das melhores publicações literárias deste fim de ano é, sem dúvida, o volume de contos A longa viagem de prazer, de Juan José Morosoli. Publicado inicialmente em 1991, também pela L&PM, sai agora em bela edição da coleção L&PM Pocket, enriquecida com prefácio, prólogo, posfácio e cronologia do autor. Morosoli (1899-1957) é, como contista, um dos principais autores da literatura uruguaia, ao lado de Juan Carlos Onetti, Horacio Quiroga, Mario Arregui, Mario Benedetti e Felisberto Hernández. Seus maiores méritos são a aparente simplicidade, a exatidão, a economia de linguagem e a predileção pelos seres solitários, do campo, viris, niilistas, estoicos, graves. Em nove contos breves, mas profundos, irônicos e de uma vividez que chega a nos abalar, Morosoli mostra por que é um autor admirado, especialmente pelos escritores. Confiram o trecho abaixo, do conto O burro. O tom de anedota disfarça a imersão filosófica. A tradução é do escritor gaúcho Sérgio Faraco.

Certa vez Anchordoqui perguntou:
"Não vais nunca ao bolicho?"
"Pra quê?"
"Ué, tomar uns tragos, jogar truco..."
"E depois ter que pelear?"
"E as mulheres, não te agradam?"
"Pra quê? Pra te encher de filhos?"
Anchordoqui seguia perguntando, confiava em deixá-lo sem resposta.
"E um cachorro? Não tens?"
"Pra quê?"
"Como pra quê?", reclamou Anchordoqui, mal-humorado. "Pra ter, só isso, pra que as pessoas têm cachorros?"
"Se é só pra ter, melhor não ter."
"Mas uma diversão qualquer...", gemeu Anchordoqui, em retirada.
"Queres melhor diversão do que viver como eu vivo?"
E desta vez foi Anchordoqui quem não respondeu."

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O LÍDER

Para quem não conhece, esse é o Líder: um restaurante localizado no bairro do Dois de Julho, Centro de Salvador. Ali, esporadicamente, alguns escritores se encontram, bebem, comem, jogam conversa fora, falam de literatura (sem a pompa nem o esnobismo do tema), de cinema, futebol e livros raros, recém-lançados ou recém-descobertos: Lady Macbeth do Distrito Mtzensk, de Nikolai Leskov, e O fantasista, de Hernán Rivera Letelier, por exemplo. O primeiro, uma história de crime; o segundo, de futebol; ambos, porém, literatura. No último encontro, sábado passado, compareceram, na ordem da foto, Gustavo Rios, Lima Trindade, Tom Correia, Carlos Barbosa e eu. Celebramos os nossos livros. Os que já estão em fase de produção ou os que acabaram de receber um ponto final, caso do novo volume de contos do Gustavo. Lima segue escrevendo seu romance, que, como é da natureza do gênero, se estenderá até o ponto em que a história quiser. Aos curiosos, esclareço que é neste bar que Victor Vhil marca ponto, bebe café, raramente uma cerveja, e conta suas histórias...

O crédito da foto é de Itamar, garçom, que, mal a tirou, disse com propriedade: "Ficou excelente!" De fato.

sábado, 28 de novembro de 2009

A DÍVIDA

– A QUE horas o senhor volta, doutor?
O homem com quem meu pai falava, havia alguns meses, era um estrangeiro. Um engenheiro estrangeiro. Seu nome, se não estou enganado – e é provável que esteja – era Clyde ou Charles – qualquer coisa assim.
Meu pai trabalhara para ele durante toda a primavera e boa parte do verão. Agora ele devia a meu pai uma boa soma em dinheiro e não queria pagar. Vinha se esquivando de várias formas. Numa hora dizia estar ocupado, impossibilitado de atender meu pai; noutra, que tinha esquecido o talão de cheques, ou então que seus recursos no banco estavam bloqueados, ou que algum caso de doença na família o obrigava a se ausentar do Rio...
O outono já ia pelo meio, e meu pai liso atrás do sujeito. E comigo a tiracolo: me arrastando com ele em quase todas as vezes que o procurava, pois eu não possuía mãe, não estudava, não tinha ninguém que cuidasse de mim à ausência de meu pai...
Curvado contra a janela do carro do sujeito, meu pai se ergueu e o deixou livre para partir.
Havia uma loura ao seu lado, dessas que todo homem sonha em ter na cama ao menos por uma noite ou mesmo uma hora, mas sem que pague por isso: por vontade dela, desejo mesmo, consentimento. Alguma Gretchen Mol atual, vocês sabem, aquela atriz que parece deslocada no tempo, de rosto redondo e maçãs pronunciadas, uma mulher dos anos da Depressão americana – ou de uma Europa ocupada – perdida em nossa época.
Antes de dar a partida, o cara informou que voltaria à noite. Que meu pai retornasse então, e acertariam a dívida, sem falta. Sem falta... Como podíamos acreditar? Como acreditar num homem para quem palavras não passavam de meios de desculpas? Mas meu pai acreditou, ainda assim. Acreditaria sempre, confiava nos homens, em todos os homens, até nos mais baixos, sem caráter, sem escrúpulos, aqueles que gritavam quando por direito só lhes cabia o silêncio.


Trecho inicial da novela de minha autoria que venceu, esta semana, o prêmio Literatura Para Todos, do MEC.

Imagem: Vaivém, de A. Café-Gallo.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

CONTO NA VERBO 21

PORRA, SAMUEL!

Samuel estava atrasado. Passava das nove horas de uma manhã quente e agitada. Desviar-se das pessoas não era a sua única preocupação. Desde que o primeiro galo cantara que ele despertara e não conseguira mais dormir.
Quando dobrou a curva, avistou o Gordo dentro do carro, que também era grande, gordo, um desses veículos utilitários de cor preta ou marrom que os homens fracos dirigem para parecerem fortes.
Perto, encostadas à porta da loja, estavam as três garotas. A quarta vendedora só chegaria às dez horas. Ela lhe pedira isso no fim do expediente de sábado, dizendo que tinha médico segunda-feira às oito, e a chegar atrasada achava mais correto pedir para chegar mais tarde.
— Tudo bem, Lu, chegue às dez horas.
Samuel a chamava assim — Lu — porque o nome dela era Luciana, e queria também chamá-la assim em outro lugar, e era talvez por isso que a chamava assim, para que ela se tocasse e baixasse a guarda. Sempre o surpreendia que as mulheres ficassem tanto na defensiva. Como a espécie conseguira sobreviver?
— Estupro, graças ao estupro — dizia Isaac.

— Porra, Samuel! — o Gordo disse, quando ele se aproximou, deu bom-dia a todos e começou a abrir a porta, a enrolá-la sobre si mesma como uma esteira que se guarda para o próximo verão.
— Continue assim, que você vai se foder! Comigo é dessa forma!
Era o Gordo de novo, latindo. Não valia a pena retrucar. Dizer que se atrasara porque sua namorada não estava em casa, não dormira em casa e não atendia o telefone — prova de que passara a noite em algum lugar com alguém. Dizer que vinha muito mal pela rua, sem tirá-la do pensamento, preocupado, sem nem ter pensamento: esquecido da loja, de que era o gerente, tinha a chave da porta, esquecido até de Lu...
— Tá — ele disse, e depois: — Me chame de Sam, não gosto que me chamem de Samuel.
— Seu porra! Vou te tirar desta função e botar uma das garotas!E o Gordo ligou o carro, espancou o motor, avançou o sinal. Uma mulher teve que dar dois passos atrás para não ser atropelada. Outra chegou a ser tocada de leve pelo para-lama. Um homem mais corajoso xingou o Gordo. O sinal todo o odiou.


A continuação está na VERBO 21, numa coluna mensal que o Lima Trindade gentilmente me ofereceu na revista.

Imagem: cartaz do filme Gone (2007), de Ringan Ledwidge, mais uma instigante produção do original cinema australiano.

domingo, 22 de novembro de 2009

A PRESENÇA DE GLORINHA

O dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues sempre destinou um lugar de destaque às mulheres em seu teatro, principalmente quando se propunha a representar a sexualidade feminina. Valorizadas por Rodrigues, essas personagens provocaram e ainda provocam o público através de suas atuações, que, inevitavelmente, vão de encontro ao discurso hegemônico sobre a sexualidade. Este, só para relembrarmos, teimava e ainda insiste em calá-las, podando-as de qualquer experiência longe da constante vigília social. Entretanto, mulheres brasileiras, tais como Pagu e Leila Diniz, consideradas à frente de seu tempo, ousaram transgredir as normas vigentes e, assim, anteciparam um pouco da liberdade de que agora dispomos.
No teatro de Rodrigues encontraremos muitas personagens que antecedem, também, a Revolução Sexual da década de 60, preconizando uma mulher mais livre, mesmo que ficcionalmente, do cerceamento social que só as “libertava” em um espaço fechado e velado por todos. Como sabemos, anterior a esta década, foram buscados os direitos igualitários de voto, a inserção da mulher no mercado de trabalho e a proposição de uma maior liberdade sexual com o surgimento da pílula anticoncepcional (BRAGA, 2005), a qual realizaria o que Freud já havia descoberto: “O prazer como a força vital do sexo” (FREUD apud SARAIVA, 1960, p. 58).
Amor, sexo, erotismo e sensualidade foram os temas mais visíveis da década de 60, classificada pelos americanos de permissive society. Todas as permissividades desse momento em relação às representações acerca da sexualidade fizeram com que a sociedade acreditasse que o passado era muito mais decente do que o presente. ”Nunca um assunto foi tão abundantemente tratado e retratado“ (SARAIVA, 1960, p. 57). Todavia, Nelson já tratava desses temas muito antes da década de 60, desde 1941, para ser mais clara, quando escreveu sua primeira peça, A mulher sem pecado.


Para continuar lendo o texto de SOLANGE SANTOS SANTANA, acesse: A presença de Glorinha. A autora é graduada em Letras pela UEFS e desenvolve pesquisa sobre os diálogos entre Gil Vicente e Nelson Rodrigues.
Pintura: Retrato de Madame Allan Bott, de Tamara de Lempicka (1898-1980), pintora polonesa.

PAZ

"Os cães são nosso elo com o Paraíso. Eles não sabem o que é maldade, inveja ou insatisfação. Sentar numa colina ao lado de um cão, numa tarde maravilhosa, é estar de volta ao Éden, onde não fazer nada não era tédio – era paz."

MILAN KUNDERA, escritor tcheco, autor do célebre A insustentável leveza do ser.

Imagem: campanha da Chácara do Vale da Esperança, onde você pode adotar um cão, ligando para (11) 9198-4598.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

LIVRO, LEITURA E LITERATURA

Lance suas propostas para o Livro, a Leitura e a Literatura!
E seja um DELEGADO nesta CRUZADA!

PRECONFERÊNCIAS SETORIAIS DE CULTURA
FACULDADE DE ARQUITETURA DA UFBA
Av. Cardeal da Silva, Federação, Salvador, BA
DATA: 21 de novembro, sábado

PROGRAMAÇÃO:
8:00 Credenciamento (até às 10:00)
8:30 Abertura: Secretário de Cultura Márcio Meirelles
9:00 Apresentação da agenda do dia
9:20 Conferência: Heloisa Buarque de Holanda
10:00-13:00 Grupos de Trabalho
14:30 Finalização e Priorização das propostas da manhã
16:00 Formação dos grupos por segmento
16:30 Escolha de delegados

17:00 Coleta dos dados
17:15 Compartilhamento dos resultados e apresentação dos delegados.

GRUPO DE TRABALHO:
LIVRO, LEITURA E LITERATURA

Mesas de Discussão:
1) Leis do Livro e da Leitura (Núcleo Regulador)
2) O autor e a “aventura” de publicar (Núcleo Criativo)
3) Mercado do Livro (Núcleo Mercadológico)
4) Formação do Leitor (Núcleo Formador)
5) Livro e Leitura de Literatura (Núcleo Literário)

FAÇA A SUA ESCOLHA E VENHA APRESENTAR SUAS PROPOSTAS!

domingo, 15 de novembro de 2009

AS PUPILAS DE SAFO, 2

O MAR

Jamais fui capaz de compreender a imensidão do mar. Diante dele, sou toda fascinação. Sempre que o contemplo, penso na existência de Deus. Aquele azul não pode ser fruto de mãos humanas. Deixo-me envolver, de tal modo, por suas ondas, que imagino, um dia, entregando-me a elas, querendo entender os seus mistérios. Os meus amigos acham essa idéia ridícula e, temerosos, não querem que eu ande mais pela praia. Não adianta. Não consigo deixar de amar, o mar. Trancada em meu quarto, choro. O mar, então, está em mim. E transborda.

LIDIANE NUNES. Poetisa ainda inédita em livro. Mantém o blogue Imagens e Palavras e eventualmente colabora no Infiltrados.

Imagem: cena de Os incompreendidos (1959), de François Truffaut.

sábado, 14 de novembro de 2009

NASCIMENTOS

VERANICO

Depois da tempestade, vêm as crianças – que correm, brincam e pulam, olhos que são, literalmente, as últimas gotas de chuva...

Este miniconto poético está no meu livro Nem mesmo os passarinhos tristes, antes inédito e agora no prelo, com previsão de lançamento para março de 2010.

O bebê aí em cima é a Maria Cecília, nascida ontem, filha de Elieser Cesar e Andréia Borges.

Para ela. Para eles.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

LIVROS QUE FEREM

"Acho que deveríamos ler apenas os livros que nos ferem e apunhalam... Precisamos dos livros que nos afetam como um desastre, que nos façam sentir sorumbáticos, como a morte de alguém que amávamos mais que a nós mesmos, como ser exilado para o meio de uma floresta, longe de todos, como um suicídio. Um livro pode derreter o mar congelado que há dentro de nós."

FRANZ KAFKA (1883-1924). Escritor tcheco de expressão alemã. Autor de livros definitivos, como A metamorfose, O castelo, O processo e O médico rural.

Claro que Kafka não leu Dom Casmurro, mas ele o teria aprovado como um livro que fere...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

VÁ E VEJA, 5

A primeira noite de tranquilidade é, simplesmente, maravilhoso. Gosto muito desse tipo de filme. Mayrant, você sabe das coisas. Suas indicações, para mim, são na mosca. Aquele clima melancólico dos personagens, aquele silêncio pungente, aquele vazio existencial... eu me identifico com isso. Sem contar a fotografia perfeita, as paisagens como representantes do estado de espírito dos personagens; os diálogos excelentes, poéticos, com frases memoráveis, como "Não há nada como a falta de liberdade para proporcionar momentos de alegria". Não sei se concordo com esta frase, mas pelo menos me fez parar e refletir. Arte para mim é isso. Adorei a história de amor, nada piegas. Adorei a cena em que eles se beijam no carro e a cena em que ele a abraça deitado no colchão, depois que colocou o namorado dela e os amigos para fora da casa. O filme me arrebatou do início ao fim. Só aquela cena inicial, Dominici andando solitário, com aquele fundo musical já me conquistou. Conseguiu mexer comigo, me envolver de um modo indescritível. Na cena em que Dominici deixa Vanina no trem, sinceramente, torci para que eles ficassem juntos, mas já sabendo que isso não iria acontecer, afinal não era nenhum filme hollywoodiano, e a pergunta de Spider a Dominici me adiantou o final: "Por que a morte é a primeira noite de tranquilidade?" Fiquei triste com aquele desfecho, mas enormemente feliz por ter assistido a um filme como este. Obrigada, Mayrant, por mais este presente. E preciso conhecer mais Velerio Zurlini. Não conhecia.

LIDIANE NUNES, colaboradora das não-leituras do blogue.

A primeira noite de tranquilidade. Direção: Valerio Zurlini, cineasta italiano conhecido como "o poeta da melancolia". Produção: franco-italiana. Ano e fotografia: 1972, colorido. Atores principais: Alan Delon, Sonia Petrova, Lea Massari, Alida Valli e Renato Salvatori. Disponível em DVD.

domingo, 1 de novembro de 2009

COUNTEE CULLEN

COUNTEE CULLEN (1903-1946). Poeta negro norte-americano. Graduou-se em arte pela Universidade de Nova York e depois doutorou-se em Harvard. Escreveu e publicou vários livros de poemas, com destaque para The ballad of the brown girl (1928), Color (1925) e The black Christ and other poems (1929). Também publicou um romance: One way to Heaven (1932). Era acusado pelos críticos de não reunir em seus poemas “um sentimento racial profundo, quer na expressão, quer no ritmo”, apesar da influência de Keats. Ah, críticos!

INCIDENTE EM BALTIMORE

Uma vez andando em Baltimore
Com o coração cheio, o coração cheio de alegria,
Eu vi um menino baltimoreano
Olhando fixo para mim.

Eu era pequeno, tinha oito anos
E ele era pequeno como eu,
Por isso eu sorri, mas ele pôs a língua
E disse apenas, “Negro”.

Eu vi toda a cidade de Baltimore,
Desde maio até dezembro:
Mas de todas as coisas que ali aconteceram
É só do que eu me lembro.

(Trad. de Ribeiro Couto)

UMA SENHORA, EU SEI

Ela pensa que no céu também é assim:
Que sua classe se deita tarde e ronca legal
Enquanto, às sete, se levantam os pobres negros querubins
Para fazer o coro celestial.

(Tradução livre de Mayrant Gallo)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

LANGSTON HUGHES


CRUZAMENTO

O meu velho era um branco
E minha velha era preta.
Se eu maldisse o velho branco
Em praga igual eu me meta,

Se quis que a velha estivesse
No inferno ou mais além,
Me arrependo e quero agora
Que esteja passando bem.

Meu pai morreu num belo casarão
Minha mãe morreu num gueto.
Onde será que vou morrer,
Não sendo branco nem preto.

(Trad. de Jorge Wanderley)

O NEGRO

Eu sou um negro:
Escuro como a noite é escura,
Escuro como o ventre de minha África.

Eu fui um escravo:
César mandou-me limpar a soleira de suas portas.
Lustrei as botas de Washington.

Eu fui um operário:
Sob minhas mãos as Pirâmides cresceram.
Eu fiz a argamassa para o edifício Woolworth.

Eu fui um cantor:
Por todos os caminhos da África até a Geórgia
trouxe minhas canções tristes
e criei o ragtime.

Eu fui uma vítima:
Os belgas cortaram minhas mãos no Congo.
Lincham-me agora no Texas.

Eu sou um negro:
Escuro como a noite é escura.
Escuro como o ventre de minha África.

(Trad. de Domingos Carvalho da Silva)

EU TAMBÉM CANTO A AMÉRICA

Eu também canto a América.

Eu sou o irmão de cor.
Quando chegam convidados
Eles me mandam comer na cozinha,
Mas eu gozo,
Me alimento,
E fico forte.

Amanhã,
Me sentarei à mesa
Quando houver visita.
Ninguém terá coragem
De me dizer
“Vá comer na cozinha”
Então.

Além disso,
Verão como eu sou bonito
E ficarão envergonhados ―

Eu também sou América.

(Trad. de Orígenes Lessa e Oswaldino Marques, atualizada por Mayrant Gallo)


LANGSTON HUGHES (1902-1967). Talvez o mais célebre poeta negro dos EUA. Em favor do seu povo e contra o preconceito, ele disse um dia, com sua voz pungente e branda: “Eu também sou América”. E foi com esta voz “aparentemente baixa” e irônica, meio cool, que ele rompeu barreiras e galgou degraus. Também foi contista e dramaturgo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

AS AVENTURAS DE NICOLAU & RICARDO: DETETIVES

6. O FALSÁRIO

Culto o bastante para se exibir sem se fazer notar, mas insensato ao ponto de prescindir de alimentar relações que sabia consistentes e desinteressadas, mergulhava em livros e filmes por um motivo bem simples e nada sutil: para se afastar das pessoas.
Por traição, ressentimento ou despeito, esperava ser posto para fora de suas vidas, mais dia menos dia. E era por isso, aliás, que sempre perpetrava uma citação de efeito, a cada fala de sua autoria ou alheia: para despertar em volta, a um só tempo, ódio e inveja.
Assim, não era raro que, por este ou aquele motivo, fosse o centro das atenções, mesmo em ausência. Também o vetor das críticas, que ele próprio fazia questão de provocar, e o sangue da chacota, a correr forte e abundante.
As coisas iam assim, até que um dia uma mulher, introduzida não se sabia por quem no grupo de amigos que semanalmente se encontravam num bar do centro, sublevou-o tecnicamente e sem que precisasse lançar mão daquilo que de melhor a natureza a proveu.
Foi o suficiente para que ele agora, diante de Nicolau e Ricardo, chorasse como um menino.

MAYRANT GALLO. Miniconto do livro Nem mesmo os passarinhos tristes (inédito).

Imagem: cena do filme A lua na sarjeta (1983), de Jean-Jacques Beineix.